Meu Querido Humano
1 Eu e Evan
Notas iniciais
O dia em que eu conheci o meu melhor amigo também foi o dia em que eu perdi a minha mãe.
Meu nome, ou pelo menos o nome que Evan me deu, é Trovão. E eu não sou um bichinho de estimação como você deve estar pensando, passo longe de um gatinho fofo ou um cãozinho adorável. Eu sou um lobo. Um dos maiores já viventes na terra, pra falar a verdade, minha raça teve seu DNA alterado ‘’ por uma razão maior’’ os humanos diziam, mas a realidade deles era meramente cruel: armas de guerra. Criaram uma espécie tão grande e forte que poderia ser usada em combate. Uma espécie inteligente para ser altamente treinada e aprender muito mais que qualquer cão domesticado ou lobo selvagem. Nos nomearam Lobos assassinos gigantes ou apenas Lobos míticos, a variação foi ampla. Fizeram isso em tempos de guerra, muitos anos antes de eu nascer, e, quando a guerra acabou o lado que tinha os lobos gigantes–logicamente – venceu. Somos do porte de um carro na idade adulta, e do tamanho de humanos em duas patas na ‘’ adolescência’’. Os humanos viram o potencial desastroso de sua própria criação e decidiram que era uma espécie perigosa demais para viver, iniciando assim nossa matança. A maior parte era domesticado por seus ‘’ donos’’ militares, então não foi difícil matá-los, mas filhotes conseguiram fugir e repovoar a espécie num lugar desértico e isolado, mas com tudo os humanos, essa maldita espécie que nunca está satisfeita, começou a colonizar até mesmo aquele local e quando nos descobriram a temporada de caça aos lobos míticos foi reaberta.
Eu nasci numa ninhada pequena: éramos apenas três filhotinhos do tamanho de bebes humanos, eu de pelagem negra e meus irmãos de pelagem cinza. Como uma espécie modificada tudo em nós acontecida de forma mais rápida que nos lobos normais então com pouco mais de duas semanas de vida nós já conseguíamos caminhar, com três semanas mamãe e papai começaram a nos levar pra longe da toca e bom…foi ai que tudo deu errado. Não me lembro dos detalhes, como poderia lembrar? Eu tinha meras três semanas de vida, já via e escutava mas tão pouco conseguia distinguir tudo. Aquilo era um novo mundo pra mim e eu estava deslumbrado…e então vieram os tiros. Mamãe disse pra que eu e meus irmão nos escondêssemos, ela e papai iriam distrair eles e voltar. Não deu tempo. Os humanos caíram em cima de nós como uma tempestade e eu vi meus dois irmãozinhos que eram menores que eu serem mortos e estripados por caçadores cruéis. Papai uivou em tristeza para mamãe fugir comigo, me salvar, e ela tentou. Me abocanhou e correu tão rápido quanto podia. Mas os caçadores a seguiram...e atiraram nela. Eu fui poupado, não sei bem o porquê. Talvez tenham pensado que um mísero filhotinho não iria sobreviver sozinho.
Eu me lembro de mamãe sangrando na neve branca. Com três semanas de vida eu não sabia o que era a morte então fiquei confuso. Ela ainda podia se comunicar comigo vagamente e cantava para me acalmar dizendo que tudo ficaria bem, mas não ficou. Quando seus olhos, outrora dourados e brilhantes, se fecharam, sua respiração parou e sua voz fez-se calar eu soube que não estávamos bem. Continuem aconchegado a sua pelagem mesmo assim rezando baixinho para qualquer que fosse o deus real que minha mamãe abrisse seus olhinhos novamente, que meus irmãozinhos viessem brincar comigo e que papai voltasse para me dar uma lambida de boa noite, mas nada disso aconteceu.
A tarde cedia seu lugar a noite quando um grupo de outros caçadores me encontraram, eu havia presenciado humanos fazendo atrocidades com minha família e o pouco que sabia dessa raça é que eram cruéis, então rosnei para eles, queria atacar mas mal conseguia andar sem tropeçar e cair. Eu estava amedrontado.
—O filhote está vivo, mas mataram a mãe. Provavelmente é da mesma ninhada daqueles corpos que achamos mais atrás.
Um deles falou se abaixando pra me analisar melhor, na época eu não fazia ideia de quem era aquele ser humano mas hoje sei que seu nome é Bernardo, ele é pai de Evan e de fato salvou minha vida.
—O que vai fazer com ele?
Um outro humano perguntou, Bernardo me olhou atentamente, era dono de orbes tão escuras quanto as de Evan. Eu continuava a rosnar bravo e ele apenas sorriu.
—Evan anda precisando de um amiguinho novo. Ele me pediu um cachorrinho, mas talvez esse rapaz aqui seja melhor.
—Você vai dar um filhote de lobo mítico pro seu filho? Bernardo, você está ficando louco! Essa coisa ai vai se tornar um assassino sanguinário em pouquíssimo tempo. O melhor é levar ele pra reserva de animais em extinção!
—E ai lá vão matar ele pra que justamente não se torne isso. Evan vai ensiná-lo a ser melhor que isso assim como eu ensinei Tokyo, e você Hank, ensinou seu leão das neves, Malias.
Eu tentei morder Bernardo várias vezes quando ele me pegou, e ele apenas ria disso enquanto me embrulhava num paninho de manta para eu ficar aquecido.
—Você é bravinho garoto. Evan também é, sabe. Vocês vão ser ótimos amigos.
Ele estava certo, mas nem por isso as coisas seriam fáceis.
A família de Evan descendia de humanos muito antigos e ligados a natureza, cada qual com seu guia espiritual em forma animal. Seu pai era ligado a um urso polar que chamou de Tokyo, sua mãe a uma gata chamada Azula. Todos moravam em uma pequena cidadezinha onde isso era comum: com certa idade você se descobria ligado a um bicho porque ele aparecia em sua vida de forma inesperada e simplesmente parecia impossível deixa-lo ir por mais assustador que ele fosse. Cobras da neve, lobos, ursos, leões. Mas nunca antes alguém tinha sido ligado a um de minha espécie, talvez por sermos oficialmente os maiores predadores de toda a cadeia alimentar. Os humanos criaram seres inteligentes – não que os outros animais sejam burros, não são. Se você subestima o seu gato, cão, papagaio, periquito ou peixinho e trata ele mal sugiro que repense suas atitudes e se proteja melhor na hora de dormir. Eles são espertos e podem muito bem te matar. Fofo né? Mas mortal. –, descomunalmente grandes e fortes, com todos os sentidos de lobos aprimorados ao extremo. Matar um dos nossos era quase impossível mas os malditos criaram uma bala que quando adentra nosso corpo explode liberando um veneno feito à base de ácido especialmente pra nós.
Mas voltando a história: quando chegou em casa Bernardo acordou o filho, um garotinho minúsculo de cabelos lisos escorridos e escuros, olhos negros e pálido. Evan tinha 4 anos. Eu três semanas.
—Papai, que cãozinho gande!
Ele disse animado, ignorando o ‘’ r’’ como muito fazia naquela época e me olhando, eu estava cansado demais pra rosnar e odiava os humanos. Aquela coisinha animada a nossa frente mais me parecia um inimigo que a qualquer instante me devoraria.
Bernardo riu e abaixou-se me deixando ainda mais perto de seu filho, não sei se ele realmente duvidava que um filhote como eu fosse perigoso ou só era burro pra me deixar tão próximo do garoto. Mas o fato é que ele deixou.
—É um lobo mítico, Evan. E ele agora é seu. Mas tem de me prometer que vai criar ele muito bem e ensina-lo boas maneiras. Ele é seu guia, tenho certeza disso. Vão aprender muito juntos.
Ele me passou pros bracinhos pequenos do garoto, eu tinha o tamanho de um bebe e ele era uma criança franzina. Achei que ele cairia comigo mas não o fez. Me segurou bem próximo ao rosto, eu rosnei e ele riu animado, me apertando.
—Lobo! Meu lobo! –cantarolava de um jeito infantil e abestalhado– Eu sou Evan! E você vai se o meu melho amigo!
—Precisa dar um nome a ele, querido.
O pai incentivou enquanto olhava tudo de perto
—Tovão! Meu tovão vai se o mais fote papai!
Ele bagunçou os cabelos de Evan rindo e concordou que eu seria.
Eu fui um trabalho e tanto pro pequeno Evan desde o começo urinando em toda parte, rosnando, mordendo–eu mordi Evan muitas vezes no começo, não entendam mal mas depois de tudo o que passei humanos pareciam meus inimigos– uivando e ganindo noites inteiras chorando por saudade de meus pais. O garoto não desistiu, passava noites em claro tentando me acalmar. Foi assim por meses. Evan era a criança humana mais resistente e corajosa que um dia conheci e de fato ainda é.
Mesmo com tudo o que eu fiz Evan nunca me bateu, ameaçou ou deixou que alguém fizesse isso.
A primeira vez que fui ‘’ legal’’ com ele, ele já tinha quase 5 anos. Estava saindo da escolinha, Bernardo ainda não tinha chegado e eu estava no chão em uma coleira, eu tinha um ano agora e já chegava ao tamanho de uma criança humana mas na cabeça do maluco que Evan chamava de pai eu podia ir à escola com o garoto usando uma coleira feita pra cães.
—Ah olhem gente! O esquisitão e seu lobo! Ei Evanzarro ele já comeu alguém da sua família? Hein, hein? Aposto que ele vai te devorar no meio da noite. De tão feio que você é.
Caçoavam se aproximando dele, eu rosnei mas fui ignorado. Talvez aquelas crianças burras achassem que eu era domesticado.
Quando empurraram Evan e ele caiu pra trás de bunda no chão consequentemente me soltando eu ataquei.
Pulei naqueles humanos rosnando e fingindo morder só pra assustar mesmo, quando finalmente conseguiram fugir de mim, parei ao lado de Evan o olhando e ele se levantou, só pra ficar do meu tamanho e me olhar.
—Olha só! Me defendeu deles, grande garoto Trovão! Eu sabia que gostava de mim!
Sorriu e abraçou meu pescoço. Ele já tinha superado a fase do ‘’ r’’ e era adorável apesar de encrenqueiro e difícil de lidar, tínhamos muito em comum. Eu estava aprendendo a gostar do meu humano.
Crescemos juntos e de fato nossa ligação cresceu muito. Estava lá em todas as fases importantes da vida do Evan, inclusive nas formaturas fui eu quem entrei com ele. Eu vi ele perder os primeiros dentes de leite, dar o primeiro beijo, se apaixonar e ser magoado diversas vezes até encontrar Zack. Vi-o aprender a lutar, se tornar um defensor da causa dos lobos míticos. Aprendemos a lutar lado a lado.
Evan cantava para me acalmar todas as noites e sempre dormi em sua cama, mesmo quando Zack estava lá, eu dormia com os dois e com o lobo pequeno de Zack, Solar. Um lobo branco que tornara-se seu inseparável companheiro desde os oito anos quando o rapaz salvou o serzinho de um atropelamento. Por minha causa a cama de Evan sempre fora de casal então era um pouco apertado mas cabia todo mundo.
O pai de Evan havia dito que seriamos melhores amigos e de fato nos tornamos.
—Não, por favor. Trovão não...
Ouvia o choro e os gritos do garoto, agora quase um homem, agarrado a minha pelagem.
—Você não pode fazer isso comigo seu lobo estupido e enorme! Não pode me deixar assim, você não pode!
Ele puxava meus pelos e suas lagrimas caiam em mim. ‘’ Não chore ratinho’’ uivei baixo e agoniado, mas sabia que ele não me entenderia.
Meu final começou num dia normal nos patrulheiros da causa LM. Eu e Evan junto de Zack, Solar, Mira e Grey – o animal guia de Mira, um pastor alemão– estávamos na floresta quando eles apareceram. Eram muitos, tinham armas enormes e foi tão duro derrubar todos...mas um maldito atirou. Entenda as armas que eles usavam eram próprias para matar a minha raça: Lobos míticos. Isso poderia facilmente matar um humano em segundos. O tiro ia acertar Evan. Eu tinha visto. Eu tinha pulado por cima dele e feito-o cair. Eu fui atingido.
—Talvez se a gente levar ele pro QG…eles podem tentar salvar o Trovão.
Zack falava baixo ao lado de Mira, Solar estava mais próxima de mim e gania baixinho chorando.
—Esse veneno não tem cura.... –Mira respondeu suspirando– Ele vai morrer, pode levar horas ou minutos...mas não tem nada que a gente possa fazer....
—Não. Não...NÃO! Não me deixe amigão, não faça isso comigo...
‘’ Não quero ir, Evan...’’
—Precisa se despedir dele Evan. Não podemos fazer nada.
Mira se dispôs a levar os presos para o QG. Zack, Evan e Sola ficaram ali, comigo.
Tudo o que sinto é uma dor inacreditável como se meu corpo queimasse de dentro para fora em chamas. Evan está sentado na neve fria, minha cabeça gigante em seu colo. Faz uma hora e meia que levei o tiro. Ele não saiu do meu lado. Está fazendo carinho em meu pelo e chorando...e cantando....
—Lobinho porque está tão triste?
As nuvens choram com você,
Mas se alegre meu lobinho
Estou aqui ao seu lado
Lobinho você rosna e me morde
Isso dói mas está tudo bem
Porque você é o meu lobinho....
Evan escreveu essa música pra mim quando ainda era uma criança...eu me lembro...
—Lobinho você vai me proteger do escuro?
Você vai ser meu guia? Meu lobinho
E eles dizem que você é tão mal
Mas eu sei que é o meu herói
Lobinho não tenha medo eu te protejo das coisas que doem
Lobinho é o meu melhor amigo
Eu vejo muitas coisas. Imagens passando tão rápido. Evan me pegando pela primeira vez, correndo comigo pela sala de estar enquanto tenta me ensinar a andar direito, me levando para nadar nas fontes quentes, me dando banhos, resmungando sobre minha mordida, me dando comida, dançando comigo no colo, rindo e vendo o pôr do sol comigo e Zack. Eu vejo solar lambendo minha bochecha e falando sobre filhotes. Eu vejo Zack me dando uma bola de presente. Vejo um quarto bagunçado com uma cama de casal enorme e um papel de parede cheio de arranhados, um quadro negro repleto de fotos nossas, minhas patas marcadas na parede com tinta vermelha ao lado das mãos de Evan. Nossa altura marcada por traços na beirada das portas feitos pela mãe de Evan.
Está tão frio agora. Tão frio.
—Tudo bem amigão.... –Evan deve ter terminado a música, mas eu não consigo ouvir direito–_Você pode descansar agora, eu vou proteger você...
Evan.Evan.Proteger.Evan.Melhor amigo. Proteger. Tão frio e tanta dor. E então não sinto mais nada nem ouço.
Um humano me salvou da morte, me criou não como um bicho mas como seu semelhante, me deu amor e carinho. Nunca deixou me fazerem mal. Um humano franzino foi o meu melhor amigo.
Quando a morte enfim me alcança eu não sei para onde essa dama feita de ossos me leva mas tudo o que consigo pensar é em Evan, no meu pequeno humano solitário entre tantos monstros.
Eu sentirei sua falta, penso. Ao que a morte responde ‘’ Ele sentira a sua até o final dos dias que lhe restam’’ e eu sei que é verdade, porque o garoto é meu humano e eu sou o lobo dele.
Fale com o autor