Notas iniciais
Boa leitura ♡

Os dias estão se passando rápido. A convivência com os cupidos já não é mais tão difícil quanto nos meus primeiros dias aqui. Acho que agora finalmente aceitei que faço parte de tudo isso. Faço parte desse novo universo e faço parte da vida do David.

Conviver com quatro garotos não é fácil. Porém eles são diferentes dos garotos comuns. Fazem coisas que ninguém nunca viu antes. Eu já vi os olhos do Frankilin e do Bruce ficarem completamente negros! Sim, negros! Eles são cupidos! Deveriam andar por aí com suas lindas asas e um arco e flecha nas mãos! Mas eles fazem coisas que me assustam. Às vezes nem mesmo saio do quarto, por medo do que posso acabar vendo.

Eles são um mar de mistérios e acho que ainda não estou pronta para desvendá-los.

Acho que estou fadada a viver essa nova realidade. Os meninos fazem parte de mim, agora.

Em um dia desses me peguei observando cada um deles, enquanto todos conversavam na sala, como de costume. Eles riam e conversavam. Eu estava sentada no sofá e estava calada.

— Estou prestes a encontrar a alma gêmea da minha escolhida. Falta muito pouco. — Colin disse, de repente. Todos eles vibraram, e Bruce deu um cascudo carinhoso na cabeça do Colin, como se ele fosse uma criancinha.

— É... Parece que o nosso garotinho loiro vai ser o último de nós a completar a missão. — Bruce disse. Eles adoravam implicar com o Franklin.

Franklin respondeu com um simples gesto:

— Espera aí, deixa eu pegar uma coisa. — Franklin disse, colocando uma mão no bolso, logo em seguida retirando e mostrando o dedo do meio para todos eles.

Acabei rindo. E naquele momento concluí que uma vida sem os cupidos, era uma vida completamente sem graça.

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Dean Trent continua sumido. Estou tão magoada com ele. Aquele nosso encontro não significou nada para ele? O cachorro-quente, a patinação no gelo, o ursinho de pelúcia... São apenas memórias? Será que foi porque não beijei ele? Nesse exato momento estou com o ursinho de pelúcia nos braços. Estou abraçando ele e estou sentada no centro da cama do David. Esperando por um milagre que parece nunca chegar: O meu escolhido.

David me prometeu que encontraria o meu escolhido, e eu não duvido dele. Mas já se passaram alguns meses... Sinto tanto a falta do Dolph. Da lanchonete. Dos clientes. Das crianças gritando e correndo. Sinto falta do cheiro do café que o Dolph preparava... Nenhum café é comparado ao café do meu patrão. Na verdade, sinto falta até mesmo de limpar a mostarda e o ketchup das mesas.

Como se estivesse adivinhando meus pensamentos, David bateu duas vezes na porta, e eu permiti que ele entrasse.

— Como está? — Ele perguntou, e ficou me observando segurando o ursinho.

— Bem.

— Os idiotas saíram. Todos deram a mesma desculpa de que iriam ver suas escolhidas. Mas tenho certeza de que foram para o Bar.

— Não consigo me esquecer da história que você me contou... Sobre a escolhida dele do Bruce. A foto que ele guarda dela. — Decido dizer.

— Ele me disse que está tudo bem. Que não vai cometer nenhuma loucura. Acredito no Bruce. — David disse com tanta confiança, que acabei acreditando também.

Depois do nosso pequeno diálogo, suspirei. Aquele ursinho me fazia lembrar muito no Dean. Nas esperanças que ele me deu.

— Dean é um otário. — David disse, de repente.

— Eu sei. — Enterrei minha cabeça no ursinho.

— Venha. — David se dirigiu até a porta, me chamando.

— Para onde? — Estranhei.

— Você não precisa de um cara para ter que sair por aí. Apesar dos riscos, hoje nós vamos sair. Só eu e você.

Não acreditei naquilo.

— Serio? Mas e o Jason? E se algum cupido superior nos ver e...

— Que se foda o Jason. Venha. Eu vou estar por perto o tempo todo. — Ele disse, com um tom superior na última frase que disse. Eu ri, larguei o ursinho e vesti meu casaco preferido, para sair por aí.

Com o David.

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Nós estamos andando pelas ruas frias do Brooklyn há alguns minutos. A noite está tranquila e tudo está vazio. Estamos andando aleatoriamente, sem rumo. Apenas contemplando como é bom ser livre, nem que seja por apenas alguns minutos.

— Como é ser um cupido? — Perguntei.

— Por que está perguntando isso? — Ele me olhou e sua pergunta veio acompanhada de uma risada.

— Porque sim. Não é todo dia que nós andamos com um cara que tem asas. Hum... Deixa eu ver... Voar cansa?

— Cansa. Cansa muito. Às vezes eu preciso de massagem nas asas, mas nunca tem ninguém disposto a fazer isso por mim.

Saquei o joguinho dele, então continuei.

— Claro que tem! Aposto que o Bruce adoraria massagear você.

— Sim, mas eu preciso de alguém mais delicado. Eu ouvi dizer que garçonetes são ótimas com as mãos.

Empurrei ele.

— Vou sentir a falta de vocês quando tudo isso acabar. — Decidi dizer. Eu precisava me abrir e dizer ao David o que ele e os outros cupidos têm significado para mim.

— Não vai.

— E por que não?

— Sua memória sobre nós será apagada automaticamente quando tudo acabar. Você não poderá se lembrar da gente. Esse é um dos motivos pelo qual você estará a salvo.

Naquele momento parei de andar, meu mundo desabou, de repente.

— Não vou me lembrar de vocês? Nem mesmo do Bruce... Do Colin... Das asas?

Ele negou. Aquilo foi como uma facada no coração. Então tudo o que tenho vivido será apagado, como se nunca tivesse significado nada?

— Isso é mesmo verdade?

— Sim, Cassie. Nenhum ser humano pode guardar o nosso segredo. Mesmo que eu confie muito em você, será necessário apagar a sua memória.

Era como se eles tivessem me dado tudo, e de repente tomado de uma só vez. Eles me deram uma história, e pretendem apagá-la da minha memória. Tudo o que eu queria fazer naquele momento era correr e gritar o quanto aquilo era injusto. Mas ao invés disso, decidi ficar mais perto do David, porquanto ainda tinha chance.

— Tudo bem. Vamos esquecer isso. — Continuei andando. David me seguiu.

— Não está chateada comigo, está?

— Não.

Ficamos em silêncio, andando.

— E se fizermos alguma coisa juntos? Algo que fique marcado em nossas memórias, e que nem mesmo um cupido superior poderá apagar?

Estranhei o que David disse. Ele se colocou à minha frente e começou a andar de costas, somente para olhar para mim.

— O que, por exemplo? — Perguntei.

— Uma tatuagem.

Arregalei meus olhos. Uma tatuagem? Era muita ousadia para mim. Nunca pensei em fazer uma tatuagem! Meu negócio era servir e lavar pratos, pensar em uma tatuagem era a última coisa da minha lista de afazeres!

— Não... — Neguei.

— E por que não? Podemos fazer isso juntos. Ninguém nunca vai poder apagar isso de você, Cassie.

Olhei para seu rosto. Aquele mesmo incômodo sobrenatural me preencheu quando olhei para os seus olhos. Abri um sorrisinho para ele. David tinha razão. Precisávamos fazer isso.

— Você não é um bom cupido, David.

E caminhamos, prestes a cometer uma loucura.

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Achei que não haveria um estúdio de tatuagens aberto à essas horas, mas no Brooklyn tudo é possível. Eu pedi para David se arriscar primeiro. Se ele fizesse uma tatuagem, eu também faria.

Quando entramos na salinha, foi tudo muito medonho. Haviam fotos de tatuagens por todos os lugares, a salinha se parecia mais com uma sala de execução, a luz dali era fraca, e falhava de vez em quando.

Um barbudo nos tatuaria.

— E então? O que vão fazer? — O tatuador perguntou. Quando dissemos que pagaríamos a mais, ele não hesitou em fazer as nossas tatuagens o mais rápido possível.

David me olhou. Foi um olhar cúmplice.

— Asas.

Sorri assim que ele falou.

— Asas? Em qual parte? — O tatuador perguntou, já se preparando.

— Nas costas.

Então David tirou a blusa, sem medo nenhum, e ofereceu as costas bem formadas para o tatuador. Fiquei nervosa, observando.

E tudo começou em câmera lenta. O tatuador colocou as luvas e se preparou. Fiquei um pouco longe deles, mas aos poucos, vi cada linha se formando nas costas dele. Asas angelicais, com tinta preta. As costas do meu cupido estavam sendo preenchidas por asas. Aquele tatuador mal imagina que dali podem surgir asas de verdade.

É uma ironia.

Confesso que quase adormeci no banco, esperando que a tatuagem ficasse pronta. Bebi dois copos d'água descartáveis e utilizei o banheiro fedido duas vezes. E quando tudo terminou, olhei para as suas costas, e aquela tatuagem fez jus às suas asas. Aquilo era totalmente incrível. David fez aquilo por mim. Suas costas estavam um pouco vermelhas, mas todo aquele esforço valeu a pena.

— E você? Vai querer o que? — O tatuador me olhou.

Empinei meu peito, e decidida, falei:

— Arco e flecha. Um arco e flecha.

Nem mesmo esperei a reação do David e já me preparei para fazê-la. Aquilo era por ele. E por todos os cupidos.

— Em qual parte? Braço?

— Na costela, próximo ao seio. — Apontei, e David pareceu indignado.

Me arrependi da escolha depois que o tatuador me disse que eu teria que tirar a blusa. Eu quase recuei, mas dei a volta por cima e me preparei para tirar a blusa.

— Vire para lá, David.

Ele me lançou mais um de seus olhares indignados. Esse significava: O tatuador pode olhar, mas eu não?

Ele fez o que pedi, tentei esconder meu sutiã com as mãos, enquanto o tatuador se preparava, mas ele me disse que eu teria que levantar o sutiã, para a tatuagem dar certo. E foi isso o que eu fiz. Ela ficou bem próxima ao meu seio. Então, optei por uma tatuagem pequena, mas com um grande significado. Ela passaria a ser o nosso segredo. O meu e do David. E nenhum cupido superior poderia apagar isso.

Quando mostrei minha tatuagem para o David, ele ficou tempo demais olhando para ela, me perguntei se era por quê uma parte do meu seio estava aparecendo. Na verdade, eu fiz de propósito.

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Saí do estúdio dolorida. O tatuador disse que teríamos que tomar alguns cuidados e evitar comer certos alimentos. Mas David não precisaria de nada disso, porque poucos minutos depois de fazer a tatuagem, estava completamente bem. Até mesmo o avermelhado em suas costas havia sumido! Aquilo era tão injusto! Ser um cupido tem lá suas vantagens.

Eles não são imortais, mas são imunes à algumas dores.

E eu estava toda vermelha, com um plástico no local da tatuagem.

Eu estava completamente feliz. Nós fizemos uma coisa juntos! Uma coisa que eu nunca vou poder me esquecer!

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Os outros cupidos amaram a ideia de que eu e David fizemos uma tatuagem. Aposto que quando olharam para as costas do David, ficaram com vontade de fazer uma igual.

E também ficaram me pedindo para mostrar a minha, mas não fiz isso. Eu pretendia mantê-la escondida. Eu não me atreveria a mostrar meus seios para eles. Eles ficaram decepcionados.

Tudo estava indo bem, até alguém bater na porta. Ficamos todos em silêncio, e fiquei cheia de esperança, pensando que poderia ser o Dean. Mas Bruce sussurrou:

— Jason. É o Jason. — Ele já sabia, sem nem mesmo ter aberto a porta.

David agarrou meu braço e me levou até o andar de cima, e me trancou em seu quarto.

— Não saia daqui, por nada. — Ele sussurrou.

Dentro daquele quarto, apaguei a luz e me vi perdida. Aconteceu tudo tão rápido. E se Jason, o cupido superior, descobrir que estou viva? Ou pior: e se ele já souber disso?

Notas finais
Até o próximo ♡♡♡