Meu Querido Cupido
44 Segunda chance
Não sei por quanto tempo fiquei trancada naquele quarto esquisito. Talvez não fosse um quarto, mas sim um cativeiro, no qual terei que passar o resto da minha vida. Se for isso, não sei se vou aguentar. Deve ser horrível ficar condenada à quatro paredes feitas de pedras pelo resto da minha vida, me alimentando com frutas e chás.
As lágrimas pararam de cair há um tempo, agora sinto algo mais parecido com um vazio no peito, e às vezes um aperto. Me lembro da minha mãe o tempo todo. E depois vem o David, as suas costas ensanguentadas, ele perdendo a consciência em meus braços... Me desespero com a ideia de que ele tenha morrido.
Acabei adormecendo na cama daquele quarto. Era confortável, então caí no sono durante algumas horas.
Logo depois, fui surpreendida outra vez por alguém abrindo a porta. Era o Dean, ou devo dizer Richard.
Ele me pegou como de costume e me arrastou. Acho que ele é o meu carcereiro daqui.
Esse lugar às vezes parece uma piada. Não sei nem o que ele é. Estamos no céu? Em outra dimensão? Acho que não me importo, talvez seja melhor ficar sem saber.
Fui levada até o rei dos cupidos, outra vez. De repente passei a ter menos medo dele, e mais ódio, pelo o que ele mandou fazer com o David e os meninos.
Assim que fui colocada de frente com o chefe, o olhei com desprezo.
— Como o senhor ordenou. — Dean falou, me colocando de frente para o trono e os dois superiores grandões.
— Chamei os dois para decretar seus destinos. — Falou, com autoridade.
Nossos destinos? Dean também está incluído nessa?
— Richard. — Eros se dirigiu ao Dean. — Está aqui porque desobedeceu às minhas ordens.
Dean deu uma risadinha sem graça, e apontou para si mesmo, sem entender.
— Mas fiz tudo o que me mandou! Eu cacei esses traidores por todo o Brooklyn, e me arrisquei! — Dean tentou se defender, mas sem levantar a voz.
— Você usou seus poderes sem responsabilidade alguma. Se camuflou como um humano durante toda a sua estadia na Terra, usando uma identidade falsa. Tentou matar meus cupidos por conta própria, do seu jeito, com um plano do qual não fui informado. E para fecharmos com chave de ouro: matou uma garota humana sem necessidade alguma. — O rei pronunciou, e de repente me vi surpresa e ao menos um pouco feliz, Dean estava recebendo um castigo por tudo o que fez! — Pensei que podia confiar em você, mas de decepcionou, outra vez.
Outra vez?
Dean riu novamente, sem acreditar.
— Vai mesmo fazer isso? Tudo o que eu fiz foi para manter as suas regras em ordem! Não sou eu quem deveria estar sendo julgado, mas sim eles! As minhas ações foram feitas para defender as suas leis! — Protestou.
— Suas desobediências são incontáveis. Recebi outros relatos segundo as fontes de outros dos meus superiores: Roubo na Terra, usufruiu do seu poder para cometer criminalidades, já fez partes de inúmeras brigas envolvendo humanos... E... Pelo o que eu soube há pouco tempo, Hayley não foi a única garota humana e inocente que você matou. Você jurou que nunca voltaria a cometer esses erros, mas foi exatamente o que fez!
— Quem disse isso? — Perguntou, incrédulo, e dessa vez gritou. Eu fiquei encolhida em meu cantinho, de frente com o chefe.
Assim que Dean fez a pergunta, Eros fez um sinal para que trouxessem alguém. De repente, superiores trouxeram Franklin, Colin e Louis, e mais outros superiores.
Franklin carregava um sorriso debochado no rosto. Aquela era a prova de que foi ele quem contou tudo.
— Eles me disseram.
Me surpreendi ao ver Jason ali, o superior que era responsável pela minha busca. Ele estava ao lado do Franklin, e imagino que foi ele quem denunciou o Dean também.
Nunca pensei que seria grata ao Jason, o superior por quem eu nutria tanto medo.
— Não, não... — Dean balançava a cabeça, negando. — Vai acreditar neles? São uns idiotas que querem me ferrar!
— Tenho provas, Richard, e não preciso justificar nada a você.
— Você é tão estúpido quanto eles! — Dean apontou um dedo para o seu chefe. — Nem sabe ser rei. Eu seria um muito melhor, e faria com que cada um desses panacas me obedecessem. — Debochava.
Eros pareceu se manter calmo. Apenas fez um sinal com a mão, e naquele momento os dois grandões foram em direção ao Dean, que tentou fugir, mas foi pego tão rápido que me deu vontade de rir.
Ele se debateu no braço dos dois superiores, e foi carregado para fora da sala do rei. Eu quis pular naquele momento, e abri um enorme sorriso para o Franklin e os outros meninos. Isso foi incrível! Ao menos um motivo para comemorar!
Eros fez um sinal para que Colin, Louis e Franklin se aproximassem, e ficassem ao meu lado. Eu queria abraçá-los, mas acho que não podia, então permaneci ereta, tentando manter a calma.
Toma essa, Dean!
— O que vão fazer com ele? — Tomei coragem e perguntei.
— Vou me certificar de que ele não volte à Terra. — Falou, com indiferença. Torci para que ele estivesse falando a verdade.
— Tenho uma noticia, e acho que todos vão gostar. — Eros anunciou, e acho que foi a primeira vez que o vi sorrir com vontade. Todos ficamos ansiosos esperando pela resposta. — Decidi que vou liberá-los.
De primeira eu não acreditei, olhei para os lados e encarei os meninos. Eles sorriram, agradecidos, e eu ainda estava espantada demais.
— As coisas estão resolvidas, e tudo o que eu tenho a dizer e pedir, é que voltem para casa, continuem com sua missão, e não voltem à desrespeitar as regras.
— E-eu vou poder voltar? — Perguntei, com os olhos já repletos com lágrimas.
— Com uma condição. Não quero que digam nada à respeito do que viram aqui, e respeitem cada uma das regras. Se algo assim voltar a acontecer, a sentença será a morte, e não haverá uma segunda chance.
Não me segurei e pulei nos braços do Louis. Eu o abracei bem forte e em seguida abracei os outros, Franklin pareceu surpreso com meu abraço. Eu fiquei bem perto de cada um deles e coloquei um braço em volta da cintura do Colin.
— Prometemos obedecer, senhor. — Disse Colin, tão feliz quanto eu.
— E o Bruce? O que houve com ele? — Pergunto, sentindo a falta do irmão mais velho. Esse grupo não é o mesmo sem o Bruce.
— Deixarei que o visitem uma última vez.
— Última vez? — Larguei o Colin e me aproximei do Eros. — Quer dizer que Bruce não vai voltar com a gente?
— A pena por se relacionar com a sua escolhida continua sendo a mesma, e não posso mudá-la. Bruce deve pagar pelo o que fez.
Com aquilo, deduzi que David também não voltaria.
— Não, isso está errado! Ele apagou a memória da Stacy! Funcionou, não funcionou? E o David? Ele deve estar bem, não é? Se eu vou poder voltar, por que ele não? — Voltei a me desesperar. As coisas estavam boas demais para ser verdade.
— Cassie, calma... — Louis tentou me confortar.
— Eu já decidi o que farei com os meus cupidos. Peço que se preparem e voltem para a Terra ainda hoje.
Tentei discutir com o rei, tentei encontrar forças para fazer isso, mas tudo o que fiz fui ir até o Louis e chorar um pouco mais. Ele afundou uma mão em meus cabelos e acariciou levemente, enquanto eu molhava toda a sua blusa.
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Pedi para ver o David mais uma vez, mas não deixaram, e também não me responderam se ele estava bem. Eu fui tirada à força da sala de Eros e ele não disse nada mais. A forma como ele resolvia as coisas era estranha.
Me deixaram ver o Bruce mais uma vez.
Ele estava no mesmo local onde vi David pela última vez, e preso da mesma forma, em uma gigantesca gaiola. Assim que o vi, já pude ver todo o sangue ao seu redor, e ele ali no chão, sentado, de cabeça baixa, sem camisa e vestido apenas de calça jeans.
— Bruce! — O chamei com carinho assim que coloquei minhas mãos nas grades.
Ao ouvir minha voz, Bruce levantou sua cabeça lentamente, e me olhou, seu aspecto tão mal quanto o do David da última vez que o vi. O que mais me desesperava, além do Bruce ferido, era não ver David mais ali. Para onde levaram meu cupido?
O superior que me acompanhou abriu a gaiola para que eu entrasse, e enquanto isso os três rapazes ficaram do lado de fora, nos observando.
— Nós estamos bem! O seu chefe deixou que eu e os meninos voltássemos para casa! Isso não é ótimo? — Eu me abaixei ali, em meio ao sangue e toquei seu ombro nu.
— É sim. — Bruce se esforçou para abrir um sorriso para mim, enquanto algumas mechas do seu cabelo caiam nos olhos.
— Oh, Bruce... Eu sinto tanto... — Acariciei seu ombro, mas parece que até mesmo esse simples toque fazia seu corpo doer. Era nítido o quanto ele estava sofrendo.
Suas asas... Cortaram as suas asas também, por se relacionar com a sua escolhida.
— Estou bem, Cassie. — Falou, após soltar um gemido de dor e fechar os olhos.
— Não, não está. — Meu queixo tremeu. Não quero voltar a chorar, quero mostrar estar sendo forte, para tentar transmitir confiança para ele. — O que houve com a Stacy? Ela está bem?
Após minha pergunta Bruce sorriu outra vez, isso me deixou surpresa.
— Ela está melhor do que nunca. — Fez força para dizer. — Minha Stacy está bem. — Tentou me confortar.
— Então ela esqueceu? — Eu abri um breve sorriso em meio à vontade de chorar.
Bruce confirmou assentindo.
Eu não sabia se ficava feliz ou triste por ele, mas o simples fato de que Stacy está segura agora, e que não corre riscos, me deixou extremamente feliz e aliviada. Mas por outro lado, significa que Bruce nunca mais manterá contato com ela, e isso me fez voltar a querer chorar.
— Nós estamos indo embora, mas antes eu vou convencer o seu chefe a te tirar daqui, tudo bem? Nós não vamos voltar sem você, nem sem o David. — Garanti.
— Não, Cassie...
— Eu sei que você acha que é melhor, mas não é! Eu vou tirar você daqui! Se o rei deixou que eu e os meninos saíssemos, por que não deixaria você também?
— Eu cometi um erro, Cassie. É meu dever concertá-lo.
— Todos cometemos erros! Você não vai ficar aqui, Bruce!
— Cassie. — Foi Bruce quem me tocou agora, com sua mão quente e pesada, coberta com um pouco de sangue — Ouça. É o que eu quero.
Franzi minha testa para ele.
— É o que eu quero. — Repetiu. — Stacy está bem, isso é tudo o que eu queria. Você e os meus irmãos estão bem. — Ele voltou a sorrir. — Talvez as coisas não acabem bem para mim e o David, mas saber que os outros estarão seguros é o suficiente!
— Tem ideia do que está dizendo? — Eu ri, começando a chorar. — Será que não é um dos efeitos colaterais por terem cortado as suas asas? Você está ficando maluquinho, Bruce. — Agora toquei seu rosto, com carinho, abrindo um sorriso para ele.
— Nunca tive tanta certeza do que quero, Cassie. Continuar sem a Stacy não faria sentido. Eu quero morrer assim, quero que minha última memória seja essa: eu fui o cupido da Stacy, e quero morrer sendo o cupido dela. Não quero voltar a ser um humano um dia. Quero que as coisas acabem assim, eu... — Arfou e gemeu de dor outra vez. — Eu não conseguiria sem ela.
— Você não sabe o que está dizendo. Não sabe.
— Olha, quero que volte e seja feliz. Acredito que tudo dará certo para você, e para eles. — Bruce olhou para os meninos.
Nesse momento os três se aproximaram.
— Poxa, irmão... Não faz isso com a gente. — Colin pediu, eu pude notar que ele estava quase chorando.
Olhei para o Louis e o mesmo já estava chorando. E Franklin... Franklin tinha o olhar perdido, como se estivesse lutando para acreditar naquilo.
— Então é isso? É esse o nosso fim? — Franklin perguntou, e sua voz o denunciava: ele também queria chorar.
— Ah, vem aqui, loiro varrido! — Bruce conseguiu soltar uma piadinha, e ergueu um dos braços chamando Franklin.
Franklin foi até ele e se abaixou também. Eles trocaram um abraço, enquanto Franklin se molhava com o sangue do chão. Bruce deu uns tapinhas nas costas do Franklin e logo se soltaram.
— Foi a melhor época de toda a minha vida. — Bruce admitiu. — Eu não poderia pedir parceiros melhores para dividir uma casa no Brooklyn. Foram dias loucos, irmãos.
Franklin olhou para baixo, seus olhos estavam vermelhos e cheios com lágrimas.
— Cuidem da Cassie, enquanto puderem. — Pediu.
Ficamos em silêncio.
— Qual é... — Murmurou. — Se animem. Voltem para casa e bebam todas por mim. Só... Só não se apaixonem por suas escolhidas, vejam só no que deu. — Riu de sua própria situação.
Bruce, o mesmo engraçadão de sempre. Nada será igual sem ele por perto. Não vou aceitar! Não existem os rapazes se o Bruce não estiver por perto! As coisas não podem acabar assim!
— Precisamos de você. T-talvez a Stacy ainda precise! — Tentei encontrar uma forma de fazê-lo querer lutar.
Ele negou.
— Ela estará muito bem sem mim, Cassie. Eu era o perigo da vida dela. — Me olhou carinhosamente. — A mesma ingênua Cassie de sempre. Espero que volte a trabalhar na lanchonete. Você fica ótima de avental.
Sorri em meio às lágrimas outra vez.
— Precisa voltar à sua vida antiga. Tem pessoas que precisam de você. Vá, e seja feliz, Cassie Drayton. — Bruce suspirou e tentou se acomodar melhor no chão.
Os meninos pareciam estar tentando segurar as lágrimas, exceto pelo Colin que chorava feito um condenado. Já os outros dois choravam silenciosamente.
— Então é isso? Ficará aqui e deixará que eles te matem?
— Falando assim parece pior do que é. — Bruce deu uma risadinha.
Como ele estava tão calmo diante de uma situação dessas? Ele vai morrer, e ele quer isso!
Eu vou demorar para aceitar essa decisão.
Um superior apareceu e disse que nós tínhamos que ir. Eu chorei mais um pouco e o abracei.
— Vá, Cassie. E pare de chorar. — Falou, enquanto eu o afoguei com o meu abraço.
— Foi uma jornada e tanto, irmão. — Colin deu uma mão para o Bruce.
Todos se despediram, e trocaram mais algumas palavras que não consegui ouvir. O superior nos chamou mais uma vez, precisávamos ir embora logo, e o castigo final precisava ser aplicado ao Bruce.
Ele morreria assim que nós saíssemos.
Essa foi a pior parte, deixar Bruce para trás, para sempre.
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Me recusei a ir embora. Falei que queria ficar no templo, e que não deixaria David e nem o Bruce para trás.
Recebi uma bronca e fui tirada de lá às forças.
O caminho de volta para casa foi estranho, e tão rápido quanto em um piscar de olhos. Eu senti um leve desconforto e frio na barriga, e depois muita luz preencheu minha visão. Alguns superiores nos guiaram o caminho todo de volta para casa.
Fomos deixados na porta da casa dos rapazes, onde tudo começou, a casa em que fiquei escondida por tanto tempo, vivendo uma pequena aventura a cada dia com os rapazes. O meu casulo.
Entrar nessa casa sem o Bruce e sem o David será extremamente difícil.
Está de dia. De frente com a casa tem uma sombra fresca, e nos encontramos ali, eu, Louis, Franklin e Colin.
— O que faremos agora? — Perguntei.
— Eu não sei. — Colin suspirou. Só agora eu e ele paramos de chorar. Parecíamos duas crianças.
— Vamos entrar. Eu quero falar com a Cassie. — Franklin me chamou, então abriram a porta, e encaramos a casa.
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O sofá em que Bruce tanto adorava dormir depois de passar a madrugada toda bebendo e fazendo piadas... Consigo ver sua silhueta ali, deitado, enquanto inúmeras garrafas vazias enfeitam a mesinha de centro.
Isso está me quebrando. Meus olhos queimam e eu quero chorar feito uma criancinha que acabou de cair e ralar os joelhos.
Não quero pensar no David. Sei que vão fazer com ele a mesma coisa que vão fazer com o Bruce.
Ambos não existirão mais. Serão só mais uma memória perdida.
— Eu acho que vou tomar um banho. — Colin falou, triste. Tenho certeza que ele vai chorar debaixo do chuveiro.
— E eu vou tirar essa roupa. Com licença — Louis também se retirou.
Estamos todos sujos com sangue. Eu ainda tenho até mesmo o sangue seco do David em meu vestido, e agora o do Bruce também.
Ficamos somente eu e Franklin na sala de estar. Ele rapidamente se assentou no sofá, pegou o esqueiro que estava em cima de mesinha de vidro e em seguida o maço de cigarro.
Ele acendeu e tragou rapidamente.
— Estive o tempo todo tentando evitar isso. — Franklin comentou, eu logo me assentei no outro sofá, para ouvir o que ele tinha a dizer. — Talvez fui egoísta demais. Mas... Apesar de tudo, eu estava pensando neles. Em cada um deles, não tive medo só por mim.
— Eu entendo.
— Ajudei o Dean porque achava que era a melhor saída. A forma de salvar os meus parceiros e entregar você.
— Já sei disso. Acho que precisamos deixar o passado para trás agora, mesmo doendo.
Franklin me olhou. Seus olhos claros, sem expressão, e a fumaça saindo pela sua boca e subindo só ressaltava a melancolia do momento.
— Eu sou um fracassado de merda. Não sei lidar com a morte.
— Então acho que somos todos fracassados.
Ele riu sem vontade.
— Você é uma garota legal. Levei um tempo para aceitar isso. — Admitiu. — O plano do Dean era possuir você, tê-la por um tempo, fazê-la se apaixonar por ele só para ver David sofrer, e só depois te matar. Depois que ele viu que você estava resistindo, ele queria acabar logo com isso, e eu me juntei a ele. Mas... Quando te conheci melhor, não queria que ele fizesse isso. Então enchi a cabeça do otário de ideias. — Riu de novo. — Falei que se ele fizesse você se apaixonar por ele seria muito melhor, ver David sofrendo enquanto ele tinha você nos braços, olha, o cara era um maníaco... — Tirou sarro.
Fiquei horrorizada, e uma sensação ruim invadiu meu peito.
— Por que ele odiava tanto o David? Para que tanta maldade?
— Acho que era porque David estava tendo uma segunda chance com você. Porque ele estava voltando a amar. Para nós, cupidos, ter uma garota, voltar a se apaixonar, é um recomeço. E como Dean era um superior, ele não poderia voltar a ser um humano, e nem mesmo se apaixonar. — Franklin tragou outra vez.
— Se ele queria tanto voltar a amar alguém, por que aceitou ser um superior?
— Não foi ele quem escolheu ser um superior. Antigamente, quando era um cupido, ele já havia desobedecido algumas regras, então, o chefe deu um jeito de fazê-lo se redimir. Servir a ele enquanto vivesse, sem chance de voltar a ser um humano.
Aquilo explicava muita coisa. Durante todo esse tempo, Dean era um cupido superior amargurado, condenado a impor regras pelo resto de sua vida, e nunca mais se apaixonar ou voltar a ser um humano. Era por isso que odiava tanto o David e a mim.
— O cara colocou um urso de pelúcia com uma câmera no seu quarto. — Confessou com um sorrisinho.
— O quê?
Franklin fez cara de quem não tinha nada a ver com isso.
— O urso que ele me deu na verdade é uma câmera de espionagem?!
— Pois é. Imagino o tanto de vezes que ele viu coisas que não deveria... Até flagrou um beijo que você deu no David.
Eu quis eu mesma matar o Dean! Eu sabia, deveria ter me livrado daquele urso no mesmo dia em que ele me deu!
Me assustando, Franklin correu na velocidade da luz até o quarto do David, e voltou em um piscar de olhos, usando a sua velocidade sobrenatural. Em seguida me estendeu o ursinho de pelúcia.
— Quer fazer as honras? — Colocou o urso em minha frente.
Apertei os olhos e peguei o urso brutalmente.
Sem hesitar arranquei a cabeça dele.
Franklin ergueu as sobrancelhas, surpreso com minha força, em seguida voltou a se sentar no sofá.
— Melhor?
— Não.
— Você não me disse ainda se... — Ele pigarreou. — Se me perdoa, pelo o que fiz.
Naquele momento peguei a cabeça do ursinho, levantei e apontei para mim, como se fosse uma câmera:
— Pois é, Dean Trent! Parece que você foi derrotado pelo loiro oxigenado. — Após dizer isso para a câmera, joguei a cabeça do ursinho no Franklin.
— Loiro oxigenado? — Perguntou, fingindo estar ofendido.
— Eu sempre chamava você assim pelo pensamento.
— Como você é má.
— É o troco por me tratar assim e só me chamar de "garçonete".
— Muito má. — Ele jogou a cabeça do ursinho de volta para mim.
Naquele momento o sorriso saiu do meu rosto, olhei para baixo e voltei a me lembrar do Bruce. Do David.
— Desculpe. — Falei e comecei a chorar, bem alto. Já não estava conseguindo segurar. — Se eu não tivesse aparecido aqui, tudo estaria normal... — Falei em meio ao choro — David e Bruce ainda estariam aqui!
Franklin bateu as cinzas do cigarro no cinzeiro e logo em seguida veio até mim e se abaixou, para me olhar nos olhos.
— Está tudo bem.
Solucei e tentei para de chorar.
— Acabou agora. — Ele apoiou os braços nas pernas, me olhando — Você vai voltar para casa, terá um novo cupido.
Olhei para o Franklin, aquilo não ajudou muito.
— Estamos livres da perseguição. — Garantiu. — Nós vamos levar. É o que fazemos. Nós perdemos pessoas o tempo tempo todo, é o nosso dever seguir em frente com a dor.
Assenti.
— Obrigada.
Ele apenas abriu um sorrisinho de lado.
— Eu te perdoo, por tudo. E... Espero que também me perdoe.
Franklin franziu as sobrancelhas e sorriu para mim, como se fosse uma bobagem eu pedir desculpas, em seguida se levantou, eu me levantei junto.
— Acho que preciso voltar para casa. — Soltei. Agora vou poder andar sem medo, voltar a trabalhar, ver a minha mãe...
... Mas tudo isso não vai fazer sentido sem os meninos. Sem o meu cupido.
Talvez aquela estivesse sendo a última vez agora. A última vez que nos veríamos. Eu abracei cada um deles, até mesmo o Franklin. Apertei o Colin e senti o cheiro de sabonete, um cheiro ótimo por sinal.
Abracei o Louis e lhe agradeci por ser meu cúmplice desde o primeiro dia em que chegou aqui. Pedi para ele se comportar. Ele me garantiu que seria um ótimo cupido.
Eu deixei a casa dos rapazes, e a cada passo que eu dava naquela rua, longe deles, sentia um completo vazio.
Caminhei em direção à casa da minha mãe, e observei cada casinha daquela rua ficar para trás. E principalmente, o meu casulo.
Acho que devo estar grata porque ainda estou viva, e de volta.
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