Meu Querido Cupido
4 Meu Cupido, meu Anjo da guarda
Notas iniciais
— Vá, Cassandra, cante! — Dolph insistia pela milésima vez. Eu tentava recuar, murmurando que não sabia. Todos os clientes do Kismet Diner estavam olhando para mim, segurando um microfone nas mãos, que não parava de chiar barulhos ensurdecedores. Aquela era a terceira vez que Dolph insistia para que eu cantasse no Kismet. Acontece que das últimas vezes em que cantei, a clientela subiu.
Respirei fundo. Nunca gostei de ser o centro das atenções, mas com certeza já tinha provado piores sensações do que essa.
Olhei para os lados, todos os clientes olhavam para mim com um sorriso no rosto, bebericando em seus copos de plástico. Olhei para baixo e me preparei.
Dolph chamou a minha atenção e voltou à fritadeira, então logo comecei uma das minhas canções preferidas. Wake up Next to You.

Enquanto cantava e já estava na metade da canção, a porta da lanchonete se abriu, o sininho tocou rapidamente e alguém entrou. Só olhei para ele quando passou por mim, à caminho da mesa do fundo. Levantei o olhar e vi David, se assentando e olhando para mim com um quase sorriso no rosto.
Naquele momento eu não soube o que fazer, apenas continuei cantando enquanto os clientes balançavam a cabeça conforme o som. Não consegui encarar David e continuei a canção olhando para baixo. Aquela ela era a primeira vez que David estava entrando aqui no Kismet Diner depois da conversa que tivemos no Bar dos Cupidos, ou seja, há três semanas atrás, quase um mês.
Ele não sabe o quanto pensei nele todas as noites. As milhares de teorias que criei sobre o que ele é. Ele não sabe quantas dúvidas eu tenho sobre tudo o que ele é, em vão ainda tento entender porque ele fez tanto mistério e não quis me contar porque ficou tão desesperado quando descobri toda a verdade.
Quando terminei, Dolph pegou o microfone da minha mão e me agradeceu por quebrar esse galho para ele. Todos bateram palmas e continuaram suas refeições. Dolph apontou para o David, mostrando que eu deveria atendê-lo. Limpei minhas mãos suadas no avental, peguei meu bloquinho e caminhei até ele.
— Pois não? — Perguntei, segurando meu lápis com a ponta gasta, pronta para anotar o pedido.
— Você é muito boa nisso. — Se referiu à canção.
— É pelo Dolph.
— Quer conversar? — Perguntou, me olhando nos olhos, mas eu não queria fazer isso, então olhei para baixo. Não queria encarar aqueles olhos. Aquela sensação era tão terrível quanto voar pendurada nele ou cantar em público.
— Quer saber, eu estou tão confusa... — Abaixei o bloquinho e me rendi — Há apenas algumas semanas eu era apenas uma garçonete como qualquer outra, minha vida era somente isso aqui, e depois... Você apareceu e mudou tudo. Você não sabe o quanto eu passei noites sem dormir pensando sobre tudo isso. Pensando que a apenas umas quadras daqui tem um bando de rapazes misteriosos que dizem ser cupidos e que têm asas. — Quando terminei meu discurso acabei rindo por ser um discurso tão fora do comum, David acompanhou a minha risada.
— Me deixe te pagar um café, Cassie. Para me redimir por ter desaparecido.
— Estou trabalhando. Sou eu quem sirvo o café. Além disso já é de noite, está tarde e nós vamos fechar o estabelecimento. Você chegou tarde...
— Sente comigo. Só alguns minutos.
Olhei de relance para o Dolph, que estava conversando super empolgado com um cliente. Rapidamente me assentei de frente com o David, cruzei minhas mãos na mesa e fiquei olhando para elas.
— Vai soar um pouco estranho, mas senti sua falta. — Ele admitiu, começando a conversa.
— Na verdade... É um pouco estranho sim. — Soltei uma risada tímida — É como se um completo estranho estivesse dizendo isso.
— Acontece que eu te conheço muito mais do que você imagina, Cassie. Desde quando você se apaixonou pela primeira vez. Desde então eu tenho acompanhado cada passo seu. Claro que não o tempo todo, mas eu sempre estive presente, esperando o momento certo para encontrar o seu... Seu... escolhido.
Balancei minha cabeça negativamente franzindo as sobrancelhas.
— Isso é loucura... — Sussurrei.
— Não é tão assustador quanto parece.
— É sim! Isso quer dizer que você me conhece já faz um tempão e eu só fui saber da sua existência há pouco tempo. Isso é loucura!
— Na verdade você nem deveria saber sobre a minha "existência". Cassie, tem que entender que o que estamos fazendo é errado. É grave. É por isso que eu desapareci por um tempo. Nós não podemos nos comunicar, eu deveria manter distância de você, você nem deveria ter me notado.
E você deveria ser menos atraente! — Pensei em responder.
— Por que? Nós vamos morrer, é isso? — Gritei em sussurro.
— Não. Algo bem pior, Cassie.
Engoli a seco e me calei.
— Acho que... Acho que talvez teria sido melhor se você continuasse longe. Além disso eu gostaria muito de poder esquecer tudo isso, esquecer que você é um... Cupido. Isso é tão estranho de se falar.
— Já tentamos te fazer esquecer.
— Eu sei. Só quero voltar a viver uma vida normal. Sem asas. Sem vôos. Sem rapazes sem camisas dentro de um bar, que escondem suas asas de uma forma que não sei como.
David concordou, em seguida olhou para baixo. Aquela situação estava estranha. Discutíamos sobre algo sobrenatural. Quem ouvisse aquela conversa pensaria que eramos loucos.
— Então... Você quer distância, é isso? — Ele perguntou.
— Eu acho que sim. Quero voltar a fritar hambúrgueres com a certeza de que não tem um cupido dentro da lanchonete, pronto para encontrar a minha alma gêmea.
— Nós estamos por toda parte. — David abriu um sorriso travesso.
— Eu falo sério. Quero que isso acabe.
— Então o acordo que fizemos não está mais de pé? — David perguntou.
— Você vai encontrar minha alma gêmea de um jeito ou de outro. Você mesmo disse que é o seu trabalho, então, não devo me preocupar.
David assentiu.
E em um piscar de olhos todos os clientes partiram e Dolph gritou meu nome, pedindo ajuda para fechar o Kismet Diner. Eu e David nos levantamos e caminhamos até ele.
— Vejo que fez um amigo, Cassandra. — Dolph e David se cumprimentaram com um aperto de mão.
Forcei um sorriso e ignorei as encaradas mortais que Dolph fazia para o David.
Nós fechamos o Kismet. Como de costume Dolph me ofereceu carona para casa, eu estava prestes a aceitar quando David interferiu.
— Eu vou dar uma carona para a Cassie.
Olhei assustada para ele.
— Tem certeza? — Dolph perguntou para mim, hesitei, mas logo em seguida assenti. Dolph acelerou seu Opala e eu e David ficamos sozinhos de frente com o Kismet. A rua vazia e o silêncio.
— Achei que manteríamos distância a partir de agora. — Comentei em meio ao silêncio que se fez depois que meu chefe partiu.
— Sou seu cupido, Cassie. Não podemos ficar tão afastados assim. — Ele logo me estendeu sua mão, para me guiar até um carro que não estava muito longe.
— Não sabia que tinha um carro. — Comentei enquanto David abria a porta da frente para mim. — Você devia ter pensado nisso antes de sair voando por aí com seu amigo. Eu não teria descoberto sobre nada disso, sabia? — Fechei a porta do carro.
— Não acaba com a graça, Cassie. Voar é bem mais emocionante.
— Quer saber? Estou bem feliz que tenha um carro. Eu não aceitaria ser levada para casa agarrada em você mais uma vez.
Consegui ouvir sua risada. Ele acelerou o carro e partimos.
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Quando David parou o carro, fiquei impressionada. David sabia até mesmo onde eu morava sem que eu desse uma pista sequer. Nessa última semana eu voltei para a minha verdadeira casa porque minha mãe já está bem melhor e consegue fazer as coisas sem a minha ajuda. Decidi morar sozinha há dois anos, quando resolvi que era grandinha demais e precisava pagar as minhas próprias contas.
— Obrigada pela carona. — Abri a porta do carro e caminhei até a porta do apartamento.
— Até algum dia? — David perguntou.
— Até algum dia.
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Quando entrei em meu apartamento, me lembrei que estava de avental, então tirei e o joguei no sofá juntamente com minha bolsa de pano. O avental tem feito parte de mim. Acontece que tudo que tenho é o Kismet Diner. Já faz um tempo que as coisas são assim, minha rotina é lá. Meu apartamento reflete pouquíssimas coisas sobre mim. Meu dia-a-dia se resume em trabalhar para o Dolph, ficar satisfeita com o sorriso das crianças e torcer por uma gorjeta generosa.
Odeio admitir mas David é a única coisa interessante que aconteceu comigo nesses últimos 4 anos e é isso o que me faz ficar arrependida por ter pedido que ele se afaste.
Me joguei em meu sofá, abracei minha bolsa e peguei o controle remoto. Naquele noite acabei adormecendo com a pequena TV ligada e ainda com a mesma roupa que usei para trabalhar.
➴ ➵ ➶
David cumpriu com o que me prometeu e não apareceu mais no Kismet Diner. Claro que ele continuaria sendo meu cupido, ele estava vivo exatamente para isso. Mas eu sentia saudades. Saudades de alguém que eu mal conhecia. Também sentia saudades daquela sensação esquisita quando olhava para os olhos dele e também da pequena adrenalina que me fazia sentir quando dizia que era perigoso ficarmos perto um do outro.
Eu até mesmo sentia saudades dos rapazes, Bruce, Colin e Franklin, que vi somente pouquissímas vezes.
Quando a lanchonete fechou, eu dei uma última olhada na mesa em que David costumava se assentar. Ele realmente não veio. Dolph percebeu que eu não estava muito bem, me ofereceu carona e eu recusei para não correr o risco de acabar chorando em seu carro ou acabar dizendo alguma coisas sobre asas e cupidos.
À caminho de casa, fui obrigada a passar por diversas ruas vazias e escuras, perto de alguns marginais que costumavam fazer A festa de madrugada.
Passei rapidamente por eles, segurando firme minha bolsa de pano. Me senti ridícula quando me lembrei que ainda usava o avental. Alguns marginais que estavam em volta de um barril pegando fogo logo chamaram a minha atenção quando me viram passar rapidamente por eles.
— Ei, garçonete! Me traga uma bebida, por favor! — Um deles gritou. Os outros deram risada.
— Eu também quero, bonitinha. — Gritaram mais uma vez, continuei andando.
— Você sabia que não é muito legal andar sozinha pelas ruas do Brooklyn à essas horas, não é mesmo, garçonete? — Eles começaram a me seguir. Continuei fingindo que nada estava acontecendo.
Eram cinco caras. Todos pareciam ser perigosos, eles me cercaram de forma que eu não podia continuar andando.
— Eu não tenho nada para vocês. — Falei baixinho, encarando o rosto de cada um deles, assustada.
— Ah, nada mesmo?
— Nem um hambúrguer com fritas?
— Eu vou querer um refrigerante!
— E eu um cafézinho.
— Ah, me deixe ver isso aqui. — Um deles tentou pegar minha bolsa, mas desviei e a puxei para mim.
— Saiam daqui, por favor. — Tentei me afastar.
As coisas estavam piorando cada vez mais. Faziam piadinhas e tentavam pegar minha bolsa. Não tentei nada mais pois havia algo na cintura deles, talvez uma faca.
Eles somente tiraram os olhos de mim quando um vulto passou rapidamente por nós. Passou tão rápido que quase nem deu para notar, mas fez um vento muito forte, o que nos assustou.
— Que porra foi essa? — Um dos marginais perguntou.
— Sei lá, vai ver foi só o vento.
— Segura ela, Joe.
Rapidamente o vulto passou novamente, derrubando um barril que pegava fogo. Eles olhavam assustados para o que estava acontecendo. Então, em um piscar de olhos, David apareceu em nossa frente, na velocidade da luz. Ele pegou dois dos marginais pela gola da camiseta e os levantou, sem nem mesmo fazer força.
— Me dá um motivo pra não quebrar a cara de vocês — David perguntou para os dois, enquanto os outros olhavam cheios de medo. Naquele mesmo instante os olhos do David brilharam, como se pegassem fogo. Os marginais soltaram gritinhos de medo, os outros dois saíram correndo, enquanto o que me segurava parecia tremer.
David largou os dois no chão, que saíram correndo e tropeçando, e quando se aproximou do que me segurava, lhe deu um soco no rosto que ele mal teve tempo de pegar a faca da cintura. Ele ficou jogado no chão murmurando de dor.
— Venha Cassie, eu te levo para casa. — David me estendeu seu braço. Assustada, não pensei duas vezes e grudei nele.
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