Meu Querido Cupido
47 Brooklyn
Notas iniciais
O final da tarde chegou, e hoje o movimento aqui na lanchonete não está indo bem. Vieram poucas pessoas. Estou enxugando alguns copos, e Dolph está ao meu lado. Estamos conversando há bastante tempo, ele está me dizendo algo sobre ir pescar no final de semana.
Não estou prestando atenção no que ele me diz... Estou esperando o rapaz misterioso chegar. O que será que ele vai pedir hoje? Um copo de suco? Um sanduíche? Vai ser algo pequeno, tenho certeza.
Consigo ver um pouco do céu pelas janelas. Ele está em uma mistura de laranja e azul escuro. Ele normalmente chega nesse horário.
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Os últimos clientes estão indo embora, e Dolph me pediu para ajudá-lo a organizar as coisas antes de fechar o Kismet.
Estou tirando as últimas bandejas e restos de comida das mesinhas, e também passando um pano molhado nos molhos dos lanches que caíram e secaram ali.
Não estou decepcionada pelo rapaz misterioso não ter aparecido hoje. Às vezes ele não aparece, mesmo. É normal. Talvez amanhã ele apareça.
Ainda bem que Dolph não sabe ler a minha mente, se soubesse ficaria assustado com o que encontraria, pensaria que sou uma maníaca obcecada pelo seu cliente.
— Vai querer uma carona? — Perguntou, enquanto caminhava até a saída da lanchonete.
— Vou — Respondi rapidamente e peguei minha bolsa de pano. — Não quero chegar em casa muito tarde.
— Ótimo.
Enquanto Dolph fechava a porta da frente, encarei a noite fria. Inspirei o ar e encarei a rua. Está bem mais frio do que ontem. Caminhei até o carro Opala do Dolph e o esperei.
— Vamos lá. — Dolph abriu a porta da frente para mim, rapidamente entrei e ele correu até o seu assento.
Seu Opala morreu assim que ele girou a chave.
— Acontece. — Comentou, tentando outra vez.
O carro morreu outra vez.
— Vamos lá, belezura. Você é mais forte do que pensa. — Falou com o carro, lancei um sorrisinho para ele.
Dessa vez funcionou, Dolph colocou um braço para fora pela janela e deu umas batidinhas no carro, o parabenizando. Será que o carro consegue entender o Dolph? Isso seria legal. Surreal, mas legal.
Me distraí olhando pela janela, enquanto meu chefe dirigia em direção à minha casa. Encostei minha cabeça no vidro e observei cada poste ficando para trás, cada rua e beco vazio, cada casa com as luzes apagas. Quase todos dormindo.
Chegamos à uma área mais movimentada do Brooklyn durante a noite. É o horário em que muitos marginais e andarilhos ficam nas esquinas, normalmente fumando e bebendo.
Me assustei quando avistei em uma esquina, um pequeno tumulto. Uma briga.
Claro, eles também brigam de vez em quando.
Mas o que me surpreendeu foi ver uma garota ali, e parecia ser o centro da confusão. O que me preocupou foi ver um marginal segurando uma garrafa quebrada, apontando para ela, e para piorar, a mesma estava o enfrentando, gritando e confrontando.
— Olha só para eles... — Dolph reclamou, indignado.
Franzi minha testa enquanto observava. A garota que estava sendo ameaçada não parecia ser o tipo de garota que arruma brigas e se droga durante a noite. Ela era pequena, e parecia tão frágil, apesar de gritar feito louca. Estava vestida com um short e meia-calça, e uma grande blusa de frio que quase parecia um vestido em seu corpo.
O marginal a pegou pelo braço e faltava pouco para feri-la com a garrafa. Aquilo me desesperou. Não queria fazer parte das pessoas que olham e não fazem nada. Talvez uma garota seria morta naquele exato instante e eu não faria nada!
— Pare o carro! — Gritei para o Dolph, ainda concentrada na cena da briga.
— Mas o quê?
— Pare o carro! — Gritei outra vez, colocando uma mão no volante.
— Cassandra, o que é isso?
Dolph parou o carro às pressas, confuso e sem acreditar no que estava fazendo. Assim que paramos, abri a porta sem hesitar e com passos decididos — mas com um leve medo brotando — corri até a esquina.
— Vai se foder, seu drogado de merda! — A garota gritou outra vez, seu olhar era penetrante, e desafiador.
Ela não tem medo da morte.
— Acha que eu tenho medo? Estou a um passo de enfiar isso aqui na sua garganta, sua caloteira! — encostou o vidro no pescoço dela.
— Não! — Gritei, e todos os marginais me olharam, inclusive a garota.
— Quem é essa? — O intimidador me olhou.
— Sai daqui! — Alguém gritou para mim, não consegui identificar quem foi, mas tinha uma voz amedrontadora.
— Parem, ou eu chamo a policia! — Olhei com medo para eles. Meu olhar repousava em cada um deles, ameacei pegar um celular inexistente dentro da minha bolsa de pano.
— Policia — Riu. — Quer morrer também?
— Olha, seja o que for que está acontecendo aqui, podemos resolver sem machucar ninguém!
— E o que vai fazer? Vamos pro beco e você paga a dívida dessa daqui? — O cara que segurava a garota me olhou e eu estremeci. Sua sugestão era repugnante e me fez querer vomitar, lhe dar um murro e sair correndo.
Fiquei sem palavras, apenas olhando para cada um deles, sem saber o que fazer.
Um outro marginal, careca e esguio, veio até mim e me empurrou. Pensei que iria morrer. Fechei meus olhos por um breve momento e quase tropecei em meus próprios pés.
— Toque nela outra vez! — Dolph apareceu e todos olharam para ele. Em suas mãos Dolph carregava uma grande espingarda.
O marginal me soltou imediatamente.
— Agora soltem essa garota e deem o fora daqui! — Dolph gritou. Nunca pensei que ele poderia ser tão intimidador! O corpo magricela e o bigode até que davam um ótimo visual de super-herói.
— Calma aí, coroa. Calma. — O marginal que me tocou levantou as duas mãos e se afastou de mim.
Hesitando um pouco, o outro que segurava a garota logo a soltou. Todo o grupo se retirou, todos com medo do meu chefe e sua espingarda.
Quando a barra ficou limpa, corri até o meio da rua e abracei o Dolph.
— Obrigada. — Sussurrei.
— Certo. Agora vamos antes que eles resolvam voltar.
Eu e Dolph olhamos para aquela garota. Agora ela estava sozinha ali debaixo do poste, iluminada pela luz alaranjada, enquanto ajeitava sua blusa e tinha o olhar desconfiado, nos olhando. Ela parecia surpresa ao me ver.
— Você vem? — Pergunto para ela, que me olha com indiferença.
— N-Não. Valeu.
Fiz uma careta, não acreditando naquilo.
— Vamos lá, garota. Não vai querer continuar aí, vai? — Dolph encostou a espingarda no ombro e a garota continuou nos olhando.
Ela era como um animal selvagem prestes a ser domesticado. Como um gatinho arisco enquanto alguém se aproxima para tentar lhe oferecer afeto.
Ela ficou calada, vestiu a touca de sua blusa e nos ignorou. Eu e Dolph caminhamos juntos até o carro, olhei para trás para observá-la e ela continuava ali, na esquina, em meio ao frio da noite.
Quando abri a porta da frente, me surpreendi ao vê-la caminhar em nossa direção. Abri um sorriso e Dolph reagiu como se já soubesse que ela viria até nós.
— Clarkson Ave. Me deixe na Clarkson Ave. — Falou o nome da rua e ficou de frente para mim, colocando as duas mãos nos bolsos traseiros do short.
Assenti, empurrando o banco da frente para que ela entrasse. Assim que entrei, Dolph deu partida e dirigiu até até a rua que ela indicou. Ela ficou ali, no banco de trás, calada.
— Eu não sabia que você tinha uma espingarda. — Comentei com meu chefe.
Ele deu uma risadinha e coçou o bigode.
— Já tenho faz um tempo. É antiga. Vou falar uma coisa para vocês... — Olhou para o banco de trás, tentando ver a garota, mas ela parecia querer esconder sua identidade, sem tirar a touca. — Tivemos sorte de aqueles marginais não tirarem metralhadoras das calças.
— Você não iria deixar! Sei que meteria bala em todos eles. — Falei.
— Claro, se não fosse pelo fato de que essa belezinha está descarregada. — Dolph riu, e eu ri e abri minha boca, surpresa. Dolph enfrentou um bando de marginais com uma espingarda descarregada. Que coragem!
A garota não disse nada. Era como um fantasma que carregávamos no banco de trás.
— E então? Você está bem? — Olhei para o banco de trás.
— Estou.
— Hum... E posso saber o seu nome?
Ele demorou para responder. Eu e Dolph nos encaramos.
— Stacy.
— Eu sou Cassandra, esse é o meu chefe, Dolph. — Nos apresentei.
— Estávamos vindo da minha lanchonete quando vimos você. Deve conhecer o Kismet Diner. — Dolph explicou. Ele não perde uma! Se tem uma chance de fazer um novo cliente, ele agarra!
— Obrigada, eu acho.
— Teve sorte de aparecermos antes. Essas ruas são perigosas, garota. O que fez para irritar aquele bando? — Dolph perguntou, concentrado na estrada.
— Nada que interesse.
Após sua resposta nós ficamos calados. Provavelmente ela ainda estava fora de si por causa do que aconteceu. Fiquei me perguntando o quê ela fez para ser ameaçada daquela forma.
O carro parou na Clarkson Ave, desci do meu banco para que ela pudesse sair, e quando pisou na rua, sussurrou um obrigada outra vez e saiu disparada, ficando mais longe a cada segundo.
Voltei para o carro, preparada para ir para casa depois de um dia cheio.
— Você tem que parar de se comover com tudo o que vê, Cassandra. Poderia ter perdido a vida hoje. — Ligou o carro, ele pegou de primeira, felizmente.
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O silêncio e a escuridão do meu doce lar me fez cair na realidade. É, eu realmente poderia ter morrido! Mas por sorte, Dolph estava lá, e sua espingarda descarregada também.
Tudo o que eu almejo, de repente, é só tomar um banho e dormir. Amanhã começa tudo de novo. Novos pedidos, novas mesas sujas.
Tirei toda a minha roupa e caminhei até o meu banheiro, sem pensar duas vezes.
A água estava extremamente quente. Perfeita.
Fecho os meus olhos e não demoro a me ensaboar. E quando finalmente analiso meu corpo, demoro um pouco para notar o desenho.
Que raios é isso?!
Toco no desenho. É um arco e flecha, e para piorar, não se parece com tinta de caneta. Isso parece até brincadeira. Coloco sabão e esfrego.
Nada.
Não está saindo! Nem mesmo com a minha esponja. Isso com certeza não é tinta de caneta.
Se eu não me conhecesse, diria que passei a última noite em algum clube e acabei fazendo uma tatuagem por pura rebeldia. Mas eu nunca fiz isso, essa está longe de ser a explicação!
Como é possível uma tatuagem aparecer em meu corpo se não me lembro de nada?
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O dia não começou bem. Ainda estou assustada com o arco e flecha desenhado em meu seio, esfreguei durante a noite toda e cheguei à conclusão de que com certeza é uma tatuagem.
Enquanto organizo o caixa da lanchonete e espero por algum cliente, fico surpresa ao ver Stacy, a garota rebelde entrar. Logo me lembrei que Dolph indicou o Kismet para ela, mas não imaginei que ela apareceria!
Stacy caminhou até mim, enquanto explorava o local com um olhar.
— Tão retrô. — Comentou, se referindo à aparência da lanchonete do Dolph.
— Olá! — Exclamei, surpresa.
— Então... Acho que não agradeci direito, ontem. — Me olhou, arrependida. Hoje ela parecia melhor, apesar das olheiras. Parecia mais viva.
— Não foi grande coisa. Agradeça ao Dolph e sua espingarda. — Dei uma risadinha, mas ela não.
Logo tirou uma porção de notas amassadas do bolso, e jogou no balcão. Fiquei sem entender.
— Espero que isso pague o que fizeram por mim.
— Dinheiro?
— Deve ter menos de trinta dólares, mas o que vale é a intenção.
— Não queremos seu dinheiro. — Respondi, indignada com sua atitude.
— Não gosto de favores. Prefiro pagar por eles.
Que visão esquisita que ela tem sobre um gesto de gentileza!
— Bom, que tal você comprar alguma coisa com esse dinheiro? — Perguntei. — Temos ótimas opções de sanduíches.
Stacy olhou para o nosso cardápio grandão, grudado na parede. Ela assentiu e ficou encarando cada um dos irresistíveis pratos.
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— Eu estava devendo para eles há um tempo. Não pensei que os encontraria na rua, sabe? Eu até tinha parado de comprar as coisas com eles! Só estava usando cigarro, eu juro — Deu uma dentada em seu sanduíche. — Mas daí eles me encontraram. E antes que pense que sou drogada, eu não pedia coisas fortes, eram básicas. — Falou com a boca cheia.
Fiz uma careta para ela.
— Está bem, entendi. Você não faz parte do meu mundo. Não vai entender mesmo que queira. Eu era como você há um tempo atrás. — Revirou os olhos e engoliu.
— Por que faz isso? Você não parece esse tipo de pessoa. — Lamentei.
Estamos nós duas sentadas em uma mesinha. Não tem muita gente, então Dolph me deixou conversar com Stacy por alguns minutos. Até agora cheguei a uma conclusão: Stacy é uma garota boa, mas tem passado por momentos difíceis. E também concluí que ela adorou o nosso sanduíche de bacon.
— Pois me tornei. Mas isso não importa, o que importa é que eu estava devendo, aquele esquisitão tentou quitar a minha dívida com relações sexuais, eu não aceitei e deu nisso. Aí você e seu chefe de espingarda apareceram e salvaram o dia.
Assenti e olhei para baixo.
— Olha, obrigada mesmo. Vocês foram um doce.
— Por que não tenta ficar longe deles?
— Ah... Eu tentei. — Falou, tirando o tomate do sanduíche e colocando em um cantinho do seu prato. — Fui em uma agência de empregos num dia desses. Estou esperando uma ligação há dias, mas nada dá certo. Estou desempregada e sem grana para tentar uma faculdade que preste.
Aquilo me quebrou.
— Não tentou mais vezes? Talvez você consiga.
— Garanto que não. Às vezes eu queria ter asas como as de um cupido e sair voando por aí, para esquecer todos os meus problemas e obrigações. — Ela falou isso baixinho, esperando que eu esboçasse alguma reação, mas não entendi nada. Asas de cupido?
Fiquei calada. Ela pareceu decepcionada por eu não ter entendido o que ela disse sobre asas. Então ela mudou o assunto.
— Ultimamente as coisas têm... Piorado. Eu queria melhorar, mas é como se eu estivesse sozinha, na verdade eu estou sozinha, mas nunca me senti tão vazia. Na verdade, algo muito importante foi arrancado de mim.
— Eu não sei o que dizer... — Tentei encontrar palavras acolhedoras, mas não consegui.
— Claro que não. Eu nem deveria estar dizendo essas coisas tão pessoais para você. — Riu. — Foi legal vir aqui. — Se levantou após acabar o sanduíche. — Foi legal te conhecer, Cassandra. — Me deu sua mão.
— Volte quando quiser. — Respondi, e ela se dirigiu para a saída.
— Voltarei. — Passou pelo Dolph. — Tchau, Sr. Espingarda! — Fez um aceno para o meu chefe.
Ele fez uma continência para ela enquanto enxugava um copo, e ela se retirou rapidamente do local.
— Não acho bom que ande com ela. — Dolph comentou.
— Ela é boa, Dolph. Só está envolvida com alguns problemas. — Cruzei meus braços, observando Stacy atravessando a rua, na luz do sol, pela janela da lanchonete.
— É esse o problema!
Ri e me afastei dele.
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STACY
Não deveria ter ido à lanchonete, mas precisava ver a Cassie, precisava ter certeza de que ela realmente não se lembra de mim. Quando me salvou ontem à noite, agiu como não se lembrasse, e eu também precisei fazer isso. Posso estar sendo vigiada.
Será que ela está fingindo que não se lembra de mim assim como eu estou fingindo que não lembro, apenas para nenhum superior nos flagrar?
Fui à lanchonete para saber sobre isso, se me daria algum sinal de que se lembra de mim. Mas ela não deu nenhum!
De qualquer forma, nos esbarramos por coincidência. Alguma coisa estranha aconteceu com todos eles depois que tentaram apagar minha memória e eu não faço ideia do que seja. Quero muito saber como está Bruce e todos os outros. Mas a única coisa que preciso fazer, sem dúvida, é continuar fingindo que não me lembro de nada. Para me manter segura.
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CASSIE
O rapaz misterioso não apareceu outra vez. Mas esse não é o meu maior problema. Meu problema de verdade é que tem uma tatuagem no meu seio, e nem sei como ela foi parar lá! Já cogitei contar para a minha mãe, e até para o Dolph, mas eles iriam querer uma explicação, e acabariam desconfiando que eu mesma fiz e me arrependi depois.
Talvez eu deva deixá-la ali, se eu continuar pensando nisso posso acabar ficando louca.
E ela é bonita, é o tipo de tatuagem que eu gostaria de fazer.
Eu só queria saber o significado... O que ela representa?
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Se passaram mais alguns dias, e tudo parece o mesmo, tirando o fato de que continuo com a tatuagem e o rapaz misterioso nunca mais apareceu. Devo aceitar que as coisas funcionam assim. Pessoas vem e vão o tempo todo.
Em uma noite dessas Dolph me levou para casa outra vez, e enquanto passávamos pela rua, ali, naquela mesma última esquina, estava ela.
Stacy debaixo do poste de luz.
Dessa vez ela estava sozinha, e consegui avistar uma garrafa de bebida alcoólica ao seu lado. Ela estava sentada, abraçando as próprias pernas dobradas.
Dessa vez ela parece não precisar de ajuda, mas talvez precise, só que não está demonstrando. Acho que algumas coisas funcionam assim. Dentro de cada pessoa existe uma luta acontecendo, elas estão sendo ameaçadas de tantas maneiras diferentes... Há uma garrafa quebrada apontando no pescoço de cada um. A diferença é que não conseguimos ver...
Hoje Stacy não parece precisar de ajuda. Mas sei que ainda assim ela precisa.
O carro do Dolph passou reto, e Stacy ficou para trás, ainda ali, na esquina, acendendo um cigarro. Conforme o carro se afastava, virei minha cabeça e continuei olhando para ela, até ficar longe demais. A pequena figura foi desaparecendo...
Voltei a olhar para frente.
Pela primeira vez, eu acho que entendo o que Stacy estava sentindo.
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— Cassie, olhe só para isso! É uma grande picada. Ainda está vermelha, consegue ver? — O pequeno Tom me mostrou a picada de abelha antes de fazer o seu pedido.
— Vamos, Tom. Diga o que você quer comer. — Sua mãe insistiu, tocando seu ombro, mas ele não se importou.
Eu estava abaixada para ficar na altura dele. Tom é um garotinho autista e muito simpático, sua mãe sempre o traz aqui antes de levá-lo à escola. Ele me adora, e adora comer aqui.
— Está vermelha, mesmo! — Concordei.
— Doeu. Doeu um bocado. — Falou, tocando na picada.
— Tom? — Sua mãe chamou atenção, sorrindo. — Diga o que quer comer, querido.
— Pode ser suco? — Perguntou baixinho para mim. — Suco.
— Claro. — Respondi. — Qual sabor? Melancia? Maracujá?
— Suco de laranja fresco.
— Ótima pedida. — Anotei no bloquinho, ainda ajoelhada para ele.
— E ovos. — Tom completou.
— Ovos e suco de laranja fresco saindo para o Tom. — Me levantei rapidamente, enquanto a mãe do garotinho deixou que ele escolhesse uma mesa.
Acho que é por isso que eu gosto tanto de trabalhar aqui. O som dos talheres tinindo, o chão ladrilhado, os clientes... Tom não gosta de se comunicar com ninguém, mas comigo ele consegue ser quem ele é. Foi sua mãe quem me disse isso.
Eu não me canso deste lugar e dessas pessoas.
Enquanto preparava o pedido do Tom, fiquei surpresa quando vi Stacy entrando na lanchonete. Não pude evitar de mostrar quão feliz fiquei.
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— Eu tenho uma entrevista para amanhã. Estou empolgada. — Comentou, comendo o sanduíche de queijo que preparei para ela.
— Isso é muito bom.
— Pois é. Espero conseguir. Se der certo, vou juntar dinheiro para uma faculdade.
— Já decidiu o que quer fazer?
— Não. Talvez história. Tem muita coisa sobre o passado que me intriga.
— Boa.
— Acho que devo te agradecer outra vez, por ter salvo a minha vida naquela noite. Nunca pensei que alguém seria capaz de arriscar a vida por mim.
— Cansei de dizer que você não deve me agradecer por isso.
— Falando nisso, cadê o Sr. Espingarda? — Começou a procurar o Dolph pela lanchonete.
— Falou que foi ao banco, mas tenho certeza que saiu para paquerar. Me deixou sozinha com os afazeres.
— Se quiser eu ajudo.
Assenti. Toda ajuda é bem-vinda.
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Stacy me ajudou com alguns clientes, até o entardecer. Ficamos juntas quase o dia todo, e aquilo significou muito para mim. Não pensei que nos tornaríamos amigas.
Estávamos distraídas, conversando, quando num piscar de olhos ele apareceu.
O rapaz misterioso!
Ele entrou tão de repente, e assim como todos os clientes, seu olhar se dirigiu ao nosso grande cardápio da parede.
Hoje ele não estava vestido com roupas pretas e descoladas. Estava mais básico, uma camiseta branca e um jeans que... Droga, ele fica irresistível de qualquer jeito!
Eu congelei e Stacy também, por alguma razão.
O rapaz misterioso veio até mim e fez o pedido, enquanto Stacy o encarava.
— O quê? — Perguntei, não ouvi nada do que ele disse.
— Tem uma boa sugestão? — Perguntou, e pareceu se divertir com a minha cara. Ele abriu um sorrisinho que me desconcertou um pouco mais.
— Tem, quer dizer, não. Na verdade tenho... — Parei para pensar, mas me deu um branco. Por um momento me esqueci de todo o cardápio da lanchonete!
— Olha, a torta de abóbora daqui é uma delícia. — Stacy respondeu por mim, ainda encarando o rapaz misterioso.
Ele olhou para a Stacy e assentiu, levantando as sobrancelhas.
— Ok. Acho que vou querer isso. E também um cheesseburguer. — Falou e anotei.
Quando ele se retirou, Stacy ficou me encarando.
— Você gosta dele...
— Não!
— Eu conheço esse olhar. Vocês já se conhecem?
— Eu nem sei o nome dele!
Ela ficou confusa. Eu fiquei desconfortável e corri preparar seu pedido.
— Fale com ele!
— Você não está entendendo. — Falei entredentes. — Não consigo.
— Eu sei como. Tem um objeto cortante?
— O quê?!
— Confia em mim, eu sou ótima nisso! Tudo o que você precisa é se machucar, ele vai ficar preocupado com você e tentar ajudar. Assim vocês iniciam uma conversa!
Ela realmente não bate bem.
Mas como estou sem opção, vale tudo.
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Não demorou muito, Stacy ficou no caixa para mim, tomei coragem e caminhei até ele, preparada para executar o plano.
Cheguei bem perto, e enquanto servia seu pedido, deixei meu dedo indicador "esbarrar" na parte quebrada do prato. Um rápido corte apareceu, e o sangue não demorou a vir.
— Merda... — Sussurrei, largando o prato na mesa e encarando o machucado.
— Wow. — Ele olhou para a minha mão.
Deixei o sangue aparecer um pouco mais.
— Não deixe vazar, você precisa colocar na boca.
Sem saber o que fazer fiz o que ele mandou, levei até a boca e senti aquele gosto metálico.
Quando tirei, o sangue continuou a sair.
— Me dê. — Estendeu sua mão para mim. Hesitei, enquanto Stacy nos olhava de longe. Dei minha mão para ele.
O sangue pingou no chão. Várias gotas vermelhas. O rapaz misterioso imediatamente levou meu dedo até a sua boca.
Ele não fez isso!
Abri minha boca, surpresa. Ele fez algo indescritível, como se estivesse sugando. Consegui sentir um pouco dos seus lábios, e sua boca quente. Fiquei vermelha instantaneamente.
Quando ele soltou meu dedo, as coisas pareciam bem. Nem um sinal de sangue.
— O-obrigada. — Senti minhas bochechas quentes.
Ele apenas fez um aceno com a cabeça, e com o sorrisinho inconveniente que ele tinha no rosto, era evidente que ele notou minha cara toda vermelha!
Caminhei com passos apressados até a Stacy.
— Eu não acredito que isso aconteceu. — Comentei, querendo esconder minha cabeça em algum lugar.
— Sou eu quem não acredito! Esse cara é um cafajeste sem igual! Viu só como ele colocou seu dedo na boca dele? Aposto que ele é bom de cama. — Stacy comentou, indignada e feliz.
— Não diga isso. Eu estou tentando me recompor... — Coloquei o prato em um canto, e de longe, ali da pequena cozinha, eu podia vê-lo, agindo tão normalmente.
— Eu continuo achando que homens não prestam, mas, acho que por esse vale a pena tentar. — Stacy tentou me encorajar.
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Nos dias seguintes Stacy não apareceu, mas o rapaz misterioso sim. Ele tem feito pedidos maiores, e vem sempre à tarde, e às vezes durante o horário de almoço. Acho que as refeições mais importantes ele faz aqui.
Mas sem a ajuda da Stacy, continuo sem coragem, mesmo vestindo a minha roupa preferida e tentando ser eu mesma, nunca consigo. Apenas anoto os seus pedidos e finjo que ele não colocou a sua boca no meu dedo, apesar de ter gostado um pouco mais do que deveria.
Mas sempre acabo assim, servindo alguns clientes e em seguida olhando para a mesa dele, para ser mais específica, para ele. É involuntário! Eu não consigo evitar! Sempre acabo dando umas olhadinhas para ele, e depois tento disfarçar.

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Em uma certa noite, Stacy voltou.
Ela sempre faz isso, às vezes desaparece, às vezes aparece, e às vezes se encontra nas esquinas, sozinha.
— Consegui! Eu tenho um emprego!
— Isso é ótimo! — Quase gritei, enquanto organizava o caixa.
— Estou em uma loja de roupas. É coisa pequena, mas tenho certeza que posso conseguir algo maior daqui algum tempo.
— Sabia que conseguiria. — Falei.
— Veja só... Deixa eu adivinhar, ainda não falou com ele? — Ela olhou para o rapaz misterioso, sentado em sua típica mesa, sozinho, fazendo a sua refeição da noite.
Evitei olhar para ele.
— Não. E não se atreva a me fazer falar com ele. Estou bem assim. — Tentei disfarçar, olhando para os lados.
— Tudo bem...
Após dizer isso, nos surpreendemos com um trio de rapazes que entrou subitamente na lanchonete. Eu e Stacy os encaramos, e eles nos olharam. Senti um leve arrepio. Eles não tiraram os olhos de mim e da Stacy, em principal, da Stacy.
— Conhece eles? — Perguntei, vendo que os três pareciam surpresos em vê-la.
— Não que eu me lembre...
Escolheram uma mesa próxima à do rapaz misterioso, e começaram a conversar. Algumas garotas ficaram secando cada um deles, e a Stacy também.
— Os típicos bad-boys do Brooklyn. Olhar intimidante, sorriso torto. Aposto que são eles quem quebram o coração de metade das garotas dessa região. — Stacy comentou, mas parecia assustada com a presença deles.
— São realmente portadores de uma beleza... Surreal. — Comentei, sem me importar. — Eu vou atendê-los.
Quando cheguei até eles, os três pararam de conversar e me encararam.
— O que vai ser? — Pergunto, preparando o bloquinho.
— Qualquer bebida que tiverem. — O rapaz de olhos azuis e cabelo rebelde e castanho, respondeu.
Fiquei confusa.
— Ah, já eu quero esse sanduba aqui. — O de cabelo loiro, provavelmente oxigenado, apontou para um sanduíche do cardápio. Eu anotei.
— E você? — Apontei para o mais comportado.
— O mesmo do Colin. — Falou, como se eu soubesse quem era Colin.
— Eu sou Colin. — O primeiro levantou uma mão.
Anotei e caminhei até a cozinha. Stacy me ajudou a preparar o sanduíche e as bebidas. Ela estava pálida e muito calada.
— Está tudo bem, Stacy.
— Está... Relaxa.
Quando terminamos, corri levar os pedidos, mas o que me surpreendeu foi quando eles me interromperam quando virei de costas.
— Quer se juntar a nós? — O suposto Colin perguntou.
Pergunta esquisita para se fazer à uma garçonete...
— Desculpem, estou trabalhando.
— Ah, qual é, Garçonete! — O loirinho disse, e me perguntei de onde vinha tanta intimidade. — Fique aqui com a gente.
— Chame a sua amiga.
— Eu nem conheço vocês. — Ri, sem graça.
— Sou Colin, ele é o Franklin e esse aqui é o Louis. — Colin apontou para eles.
— É uma gentileza, mas não, obrigada.
Voltei para perto da Stacy, um pouco rápido demais.
— Você tinha razão, eles estão me chamando para comer com eles! — Comentei, tentando disfarçar, enquanto os três olhavam para mim.
— Eu falei.
— E chamaram você, também.
— Sério?
Stacy parou para pensar.
— Quer saber, vamos até eles. — Pegou meu braço.
— O quê?!
— Vamos ver o que eles querem.
— Mas estou trabalhando.
— Já anoiteceu e quase ninguém vem aqui nesse horário!
Eu e Stacy ficamos discutindo entre sussurros, e então acabei cedendo. Dolph deve estar paquerando, então tenho tempo.
Mas o que eu queria de verdade, era me assentar com o rapaz misterioso.
— Olha quem mudou de ideia! — O oxigenado anunciou. Eles deram um espaço e eu e Stacy nos assentamos na ponta, uma ao lado da outra.
— Então? — Perguntei.
— Vamos conversar. — Colin me olhou. — E então? Há quanto tempo trabalham aqui?
— Olha, se quer cantar a Cassie, ou a mim, tentem inovar! Não venham com perguntas clichês! — Stacy tentou descontrair.
— Uau! — Franklin riu e os outros acompanharam sua risada.
Olhei de relance para o rapaz misterioso, tenho a leve impressão de que ele olhou para mim também.
— E então? Qual o seu nome? — Perguntou ao oxigenado.
— Franklin, senhorita. Ao seu dispor. — Ele pegou uma mão da Stacy e beijou. Em seguida abriu um sorrisinho.
Os outros ficaram indignados.
Colin deu uma cotovelada no loiro, e doeu em mim!
— Ai! — Reclamou, massageando a área afetada.
— O que o Bruce iria achar disso?
— É brincadeira.
Eles ficaram discutindo enquanto eu e Stacy ficamos encarando os três, com a nossa expressão mais confusa.
Os três ficaram olhando para trás o tempo todo, em direção ao rapaz misterioso.
— Que tal chamarmos aquele cara para participar da nossa conversa? — Franklin apontou para o rapaz misterioso.
Meu sangue subiu.
— O quê? — Gritei.
— É uma ótima ideia! — Stacy incentivou.
— Não, não!
— Ei! Você! — Colin gritou, e chamou a atenção de todos os poucos clientes que estavam comendo.
Tarde demais.
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O rapaz misterioso se juntou a nós e Stacy me cutucou. Colin foi para o lado e então ele se assentou de frente para mim. Ótimo. Trocamos um breve olhar e eu tentei disfarçar.
Aqueles três meninos tinham algo de muito estranho. Agiam como se eu soubesse de tudo sobre eles, e tratavam o rapaz misterioso como se fizesse parte do seu grupo!
Tratavam o rapaz misterioso como um irmão!
— Acho que eles não batem bem. — Sussurrei para a Stacy.
A parte mais estranha de tudo isso, era que eu me sentia bem com eles. Me sentia completa, depois de muito tempo me sentindo sozinha. Eu ouvi suas risadas e me senti bem.
— Qual o seu nome mesmo? — Colin perguntou ao rapaz misterioso.
— David. É uma das únicas coisas que me lembro.
— Como assim? — Stacy deixou escapar. Todos ficamos concentrados nele, no meu rapaz misterioso, ou devo dizer, David.
— Há um tempo fui encontrado sem consciência. Frequentei um abrigo e agora estou fazendo um tratamento para tentar recuperar minha memória, ou algo da minha antiga vida.
— Ah! Você é um desses caras! Eu vi no jornal! — Stacy gritou.
— Sentimos muito, irmão. — Colin tocou o ombro do David.
— Vou levando. — Agradeceu. — Me sinto melhor do que nunca.
Olhei para ele e sorri. Ele devolveu o sorriso. Nossa troca de olhares foi interrompida quando alguém entrou na lanchonete, pensei que fosse Dolph, mas um rapaz entrou. Também era muito bonito e tinha cabelos compridos.
Me assustei quando os rapazes da mesa gritaram:
— Bruce!
E todos pularam da mesa e correram abraçar o cara. Alguns deles até começaram a chorar. Não o largavam. Ficamos apenas eu, Davis e Stacy sentados.
Mas... quando olhei para o rosto de Stacy, seus olhos estavam marejados e lágrimas começaram a escorrer depois que ela viu o rapaz que entrou, enquanto isso os outros ainda se abraçavam.
— Stacy? O que foi? — me preocupei.
— Nada. — Ela tirou os olhos dele. — Não é nada. Eu só me emocionei. — Ela limpou as lágrimas rapidamente.
O cara que acabou de chegar também não parou de olhar para a Stacy. Era como se eles se conhecessem. Ele também pegou na mão do David e o chamou de irmão.
— E-eu preciso ir — Stacy se levantou da mesa.
— Não! Fica mais um pouco — implorei.
Ela ficou imóvel, tentando se recompor. Então cedeu.
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Os cinco ficaram até a lanchonete fechar. Aquilo foi impressionante. Dolph não gostou muito, mas evitou me fazer perguntas. Só me ofereceu carona, mas eu não aceitei.
Os rapazes estavam felizes porque aquele amigo tinha voltado. Ele explicou que retornou porque tinha se tornado um superior. Superior de quê? Será que subiu de cargo.
De qualquer modo, estavam felizes. Stacy ficou muito estranha depois que aquele tal Bruce chegou, e trocavam olhares o tempo todo. Mas não conversaram.
Quando deu a hora de ir embora, caminhei pelas ruas com eles, durante a noite.
— Acho que é a nossa hora. — Franklin falou. — Foi um prazer conhecer todos vocês.
— Igualmente. — Respondi, Stacy e David fizeram o mesmo.
Esse foi o dia mais incrível da minha vida! Por onde andaram todas essas pessoas maravilhosas?
— Que tal deixarmos a senhorita em casa, por motivos de segurança? — Bruce perguntou à Stacy.
— Mas e a Cassie? — Me olhou, preocupada.
— Acho que o David vai cuidar muito bem dela. — Colin respondeu.
— Tudo bem... — Stacy aceitou, receosa. — Te vejo amanhã. — Ela se despediu de mim com um sorriso e um tchauzinho.
E então eles tomaram o caminho da casa dela, desaparecendo pelas ruas. Apesar de ficar preocupada, tive certeza de que ela estaria bem com eles. É como se eu soubesse que são de confiança.
Ótimo. Eu e David. Sozinhos.
— E então? — Perguntou.
— O quê?
— Por onde quer ir?
Apontei para a rua em direção à minha casa. Nós começamos a andar, apenas o som dos nossos passos naquela noite. Agarrei minha bolsa um pouco mais ao meu corpo e procurei manter a calma.
Não conseguia expressar a minha felicidade. Nunca imaginei que estaríamos assim, tão perto um do outro.
— Sinto muito pela sua memória... — Comentei.
— Estou bem. Estou conseguindo me estabelecer na cidade. Tenho ajuda e tenho ganhado uma boa quantia ajudando algumas crianças.
— Uau, tão rápido?
— Faço alguns curativos no Kings Country Hospital.
— Então por isso é tão bom com machucados?
Ele abriu um lindo sorriso e em seguida deu uma risadinha.
— Como está o seu dedo? — Pegou minha mão. Meu corpo acendeu imediatamente com seu toque.
— Bem melhor.
Ele largou a minha mão, e continuamos andando, ainda bem perto um do outro.
— Apesar de me sentir bem, tudo é muito novo. Às vezes fico confuso, a cada dia uma surpresa e dúvida diferente. — Me contou, de repente.
Franzi minha testa. Acho que sei do que ele está falando.
— Acho que te entendo. Vai me achar uma louca, mas há um tempo encontrei uma nova tatuagem no meu corpo. Um arco e flecha, e eu nem mesmo me lembro de como foi parar ali.
Ele pareceu surpreso, bem mais do que eu esperava.
— Não acredita em mim? — Perguntei.
— Não... É que... Eu também tenho uma tatuagem, não me lembro de ter feito. Na verdade, não me lembro de quase nada, mas ainda assim é estranho.
— E o que é?
— Asas. — Riu — Não sei o que deu em mim para tatuar um par de asas nas costas.
Sorri, e fiquei cheia de vontade de ver.
Inesperadamente ele levantou a blusa e me mostrou. Paramos ali no meio da rua, e eu fiquei vidrada ali, em suas costas, e em seu lindo par de asas desenhadas.
Tão familiar...
Mas o que mais me chamou a atenção, foram as cicatrizes.
Duas cicatrizes, do mesmo tamanho, ali, em suas costas, uma ao lado da outra. Eram assustadoras, e bonitas ao mesmo tempo. Fiquei me perguntado como foi que elas foram parar ali. Ele não se lembra... Isso me deixou tão curiosa. Tentei me conter para não tocar, mas foi impossível.
Escorreguei meus dedos pelas suas costas. Eu sinto algo tão profundo quando estou ao lado dele... Todo o medo foi embora, e a insegurança também.
Nós voltamos a andar.
— E não foi só a tatuagem. Eu também encontrei uma linda pena branca no chão do meu quarto. Era grande, parecia não pertencer a uma ave qualquer. Eu sei que não é algo impressionante, mas tomou toda a minha atenção. — Contei.
Nós conversamos o resto da noite, até chegarmos à porta da minha casa, de madrugada.
David e eu nos encaramos. Essa é a pior parte, ter que esperar amanhecer para vê-lo outra vez.
— Obrigada.
Apenas continuou me olhando daquela forma única, fez o seu típico aceno com a cabeça e abriu um leve sorriso para mim.
— Te vejo no Kismet, amanhã? — Perguntei.
— Estarei lá.
— Ok... Então seu nome é David. — Perguntei outra vez, para ter certeza.
— Exato. — Assentiu e deu uma risadinha da minha insegurança em relação ao seu nome.
— Só David?
— Só David.
Assenti, abri a porta da minha casa e entrei.
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...
— Eles se beijaram? — Louis perguntou, de lá dos altos, batendo as asas e tentando ver o que estava acontecendo lá embaixo.
— Não. Apenas se despediram. — Colin respondeu.
— Ele deveria ter aprendido comigo. Era só jogar o charme e ela o convidaria para entrar! — Franklin reclamou.
— Eles agora têm todo o tempo do mundo. Estão livres, sem mais perseguições. David fez um ótimo trabalho. — Bruce sorriu, orgulhoso, observando David caminhar pelas ruas.
— Tô muito feliz que tenha voltado, cara! Mesmo que seja como um superior. — Colin abraçou Bruce mais uma vez.
— Também estou feliz em estar de volta. E por ter visto Stacy com a Cassie. Ao menos elas não se lembram de nada e estão seguras agora.
— Pois é, irmão. Então vamos embora? Quero voltar para o chão. Aqui em cima está ventando demais. — Louis perguntou.
— Você vem, Franklin?
De lá dos altos, Franklin observava a pequena casa de Cassie Drayton, observando o ar nostálgico daquela rua do Brooklyn. Ele nunca se esqueceria dela, e nem do que ela o ensinou e o fez sentir. Nenhum deles se esqueceriam do que Cassandra Drayton significou.
— Adeus, garçonete. — Franklin disse baixinho, ainda batendo as asas, sem sair do lugar.
— Vamos apostar corrida! — Colin gritou, e imediatamente os três voaram na maior velocidade que podiam.
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