Meu Querido Cunhado
40 Capítulo 40 - Desmoronando
Notas iniciais
Apertei o botão do joistik com força. Eu tinha que ganhar aquele jogo. Sabia que devia estar com uma expressão péssima, meio psicótica, mas não me importei. Era só um joguinho de vídeo game inútil. Mas eu não podia dar o gostinho da vitória para Igor. Ele não podia ganhar. Não podia me ganhar... De novo.
A última semana passou pela minha cabeça. Depois daquele... hum... dia; fiquei quatro dias sem falar com Igor. Ele me procurara, é claro. E eu convenci Pablo a deixá-lo distraído e me dar um tempinho. Tempinho desnecessário, pois Igor apareceu aqui em casa menos de dois dias depois. E acabou parado na porta da minha casa, me encarando, sem dizer uma única palavra, parecendo tão embaraçado quanto eu. No final, perguntei se ele queria almoçar. Apenas para quebrar o clima. E foi isso que aconteceu. Um almoço com minha mãe, Cecília e eu. Uma espécie de deja vu, ao contrário. Eu sentada ao lado de Igor e ele não parava de encarar Cecília. O que fora constrangedor, para ambos.
Então, sem nenhuma palavra, decidimos ignorar o episódio do beijo. Aposto que Igor nem pensa mais nisso, me tratando como sua amiga, irmãzinha, porém para mim isso fica difícil. Deitar a cabeça no travesseiro e não pensar naquele dia fatídico da praia. Não pensar naquele beijo e no nosso envolvimento, e também no que aquilo significou pra mim. Ficamos tão próximos quanto antes ao ‘esquecer’ aquele momento. Com Igor me buscando na escola e eu o levando quase todos os dias ao planetário; éramos realmente inseparáveis. Ele se lembrava de coisas de seus trabalhos aos poucos, mas a parte importante... Nada. Fico até feliz com isso. Torna as coisas mais fáceis.
– Não acredito que vai deixar ela ganhar de novo, Igor. – Ceci resmungou. E Alexandre riu alto. Igor bufou, me olhando raivoso.
– Você só pode estar trapaceando.
– Eu? Trapaceando? Isso é um dom. Que culpa eu tenho se você joga como uma menininha? – Igor resmungou e eu levantei os braços, em gesto de vitória. Ele bufou e ficou emburrado. – Não vai chorar, vai bebê?
– Cala a boca. – Ele jogou a almofada em minha cara e eu ri baixo. A abraçando. Olhei por cima da almofada e vi Cecília contando algo para Igor que o fez rir e seus olhos brilharem. Notei que ele olhava demais para ela. E querendo ou não, isso me incomodava. Alguém deslizou pro meu lado do sofá.
– Não a olhe assim. Estou quase vendo um furo se formar na testa dela.
– E eu dois na sua. Será que você ganhará um par de chifres?
– Que coisa mais terrível de dizer pro seu amigo. – ignorei o jeito como ele disse amigo. Alexandre e eu estávamos cada vez mais afastados.
– O que? Ela é capaz disso. Admita, você também é. Se merecem.
– Ah é? E com quem eu trairia Ceci? – Ele esperou minha resposta. – Com você?
– Cala a boca. – Me levantei, nervosa do sofá e caminhei até a cozinha.
– Malu? – ouvi a voz de Igor e simplesmente ignorei. Encostei-me à mesa, colocando a mão na testa. Eu me sentia pressionada. Era demais a lidar. E eu não estava aguentando essa situação.
– Não quis te deixar brava. Desculpe. – A voz de Alexandre me surpreendeu. Respirei fundo.
– Não quis te chamar de bovino. Me desculpe também. – olhei para trás, vendo Alexandre mordendo o lábio.
– Eu sinto sua falta.
– Eu também.
– Trocou de melhor amigo. Me deixou. – Ele fez cara de magoado e eu senti meu coração apertar.
– Nunca. Nem poderia.
– Mas está tão afastada. – Eu sei. Eu sou uma péssima amiga. Pensei. Mas apenas soltei uma resposta lacônica.
– Ele precisa de mim.
– Talvez. Mas você precisa dele também. – Ouvir aquilo doeu. Aquela velha história... Verdade dói. Muito. E ver Alexandre dizendo isso, ainda tão consciente de como me sentia, me abalou. Me senti prestes a desmoronar novamente. Eu me sentia muito assim nos últimos dias. Como se fosse quebrar a qualquer instante.
– Não faz isso. Não esfrega isso na minha cara. – Coloquei as mãos no rosto. E senti uma dor no coração. Eu estava tão confusa. Então, sem me controlar, comecei a chorar, ali mesmo. Senti as mãos de Alexandre em meus ombros.
– O que eu fiz? Me desculpa, Malu. Me desculpe, não queria te magoar.
– Não é você. É que... – Minha voz tremeu enquanto eu falava. – Eu estou tão confusa. Não to conseguindo lidar com isso. É muita coisa.
– Querida...
– Eu me lembro. Me lembro de tudo, entende?! Das brigas, do quanto ele me magoou, de nós. De tudo que passamos. Da raiva que eu sinto de Ceci. De tudo que tive que aguentar. Das vezes que ele dizia que me amava. Dos toques, beijos. Toda aquela merda de confusão. Todas aquelas porcarias que passamos até chegar aqui. E agora vejo que ele ainda gosta dela. E... Não significo nada além de uma babá. E que aquele beijo estúpido só serviu pra provar que eu gosto dele e...
– Ama ele.
– Para de esfregar as coisas na minha cara, Alexandre! – choraminguei. – Não preciso disso.
– Precisa admitir, parar de fugir.
– Fugir do que? Que o amo? Eu sei, eu amo ele. Não estou fugindo. Eu. O. Amo. Satisfeito em ouvir? Tudo está mostrando que amo ele mais do que eu julgava. É bom estar certo? Porque pra mim é uma droga. Eu quero esquecer, esquecer tudo também. Ficar imune. Algo assim... Não quero mais estar confusa. ODEIO estar confusa.
– Seria bom que você contasse pra ele e...
– Seria bom que eu esquecesse. Que não o amasse. Eu sou tão inútil... Cadê minha faca da pequena sereia?
– Não diz isso. – ele disse, me puxando pra perto. – Você não é inútil.
– Que coisa fraquinha pra se dizer.
– Todos te amam.
– E me magoam também. Belo jeito de me amarem.
– Já ouviu dizer que amor é sinônimo de dor?
– Já. E isso é uma merda. – deixei Alexandre me abraçar; me largando naqueles braços. Colocando a cabeça no seu ombro. – Ai. Dói sabia?
– To te abraçando com força?
– Ao contrário, na verdade. Muito fraco. Abraça de verdade, frangote. – Ele me apertou e eu me deixei sufocar naquele abraço. Só faltava um pote de sorvete e um filme ridículo de comédia romântica pra parecer um domingo qualquer. Senti duas lágrimas caírem dos meus olhos, sabendo que o abraço acabaria. Ouvi alguém pigarrear e Alexandre me soltou.
– To interrompendo algo? – O tom de voz de Igor me alertou e eu limpei as duas lágrimas rapidamente. Alexandre ainda próximo. Suspirei, virando o rosto pro outro lado. – Estava chorando?
– Não. – Minha voz rouca não adiantou em nada.
– O que fez com ela? – A voz de Igor foi incontida, mostrava mesmo raiva e animosidade.
– Nada. – respondi por Alexandre. Querendo acabar com aquele clima. Prendendo minha mão na camisa de Alexandre, pra ele não fazer alguma bobagem. – Está tudo bem. Vamos ver você perder novamente e...
– Malu, não minta pra mim!
– Para de agir como se soubesse de algo, Igor! – A raiva e a frustração me atingiram e eu só queria que ele calasse a boca.
– E eu não sei?
– Não. Você esqueceu tudo. TUDO!– A gente só percebe que disse merda quando a pessoa que você gosta lhe vira as costas. Igor, extremamente magoado, me virou as costas. Já percebendo a merda que eu fiz, corri atrás dele. Me jogando na frente da porta, pra ele não ir embora. – Ei... Me desculpa.
– Eu sinto muito não poder lembrar. É sério.
– Eu sei. Eu sei. Shhh. Não fica assim. – O puxei pela camiseta, insatisfeita em ver aquele olhar tristonho, que definitivamente não combinava com seu rosto. Ele me abraçou com força, acariciando meus cabelos. Os dedos se movendo em minha nuca, me fazendo relaxar. – Eu estou de cabeça quente. Escola, casa e jogos estúpidos. Eu só... Preciso relaxar. Não quis descontar em você.
– Olhe para mim. – continuei com a cabeça em seu peito. Sem coragem de olhar em seus olhos e estragar tudo. Então, ele fez o trabalho. Segurou meu rosto com as palmas das mãos e me fez olhá-lo. Bem nos olhos. – O que está acontecendo?
– Não sei se posso fazer isso, Igor. – interrompi um soluço. Prendendo o na garganta e controlando o choro. Ver ele assim, tão franco, fazia doer tudo. Aquela situação era uma tremenda merda. E eu estava no meu limite. – Estou tentando, mas está difícil.
– O que?
– Eu não posso. Não posso contar.
– Não sou seu melhor amigo? – Ele sussurrou, seu hálito próximo ao meu rosto. Quis me afastar, mas ele me manteve presa aos seus dedos.
– É e... É o motivo. Em grande parte. Eu não consigo.
– Tenho que me lembrar?
– Seria bom. – Seria perfeito. Ideal.
– Seria bom se você não fosse embora. Não desista de mim, Malu. Por favor. – O encarei confusa. – Não me lembro do que houve, mas algo me diz que você já desistiu de mim. Não sei como sei disso, só sinto. E... Não quero que isso aconteça. Vou lembrar, eu prometo a você. Só não desista. Você é minha família agora. A única coisa minha que não precisei lembrar pra saber que sempre amei. Minha melhor amiga. Não desista, por favor.
– Não vou. – senti meu coração apertar quando ele colocou a testa na minha e fechei os olhos. Não desistir. Já tinha aguentado tanta merda. Podia aguentar muito mais. Por Igor. Por mim. Por nós.
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