Meu Querido Cunhado

42 Capítulo 42 - Temores


Decidimos, em silêncio, voltarmos a pé ao apartamento de Igor. Não falamos, só caminhávamos. Olhei o céu, que estava absolutamente escuro à uma hora dessas. Olhei de esguelha para Igor, que não parecia nem um pouco com frio em sua blusa de flanela branca. Ele me fez parar em frente a uma lanchonete.

– Vamos comer algo.

– Não. Já vai começar a chover. Temos que chegar à sua casa logo.

– Ainda to com o gosto de papa na minha boca. Só um sanduiche e um refrigerante. Por favor. – bufei, entrando na lanchonete. Igor me seguiu e fez os pedidos. Apoiei os cotovelos na bancada da mesa mais próxima à porta. Confusa e ainda chateada.

Igor tamborilou os dedos na mesa. Estava diferente e estranho. Me olhando mais atentamente que antes. Como se me analisasse. Olhei para baixo, odiando aquela sensação.

– Você tem cílios compridos. – Ele sussurrou suavemente, levantei os olhos para ele. Confusa. Antes que eu pudesse indagar porque ele fizera aquele comentário o garçom nos serviu. Procurei me ocupar em comer, tentando anuviar a mente. O que foi em vão. Terminei, miraculosamente, primeiro que Igor. E bebi minha coca vendo que ele realmente não tirava os olhos de mim.

– Que droga, Igor... Pare de me olhar assim! – reclamei.

– Assim como?

– Como se... Como se não me conhecesse. – resmunguei. Sentindo o líquido gelado descer rasgando pela minha garganta.

– Que bobagem. Só estou... reparando nos detalhes. De novo.

– Então pare com isso.

– Tem mesmo dificuldades em aceitar que a genética foi generosa com você? Não seja boba.

– Não estou sendo. O lado bom da genética, foi todo pro lado de Ceci. – respondi, mal humorada. – Você que o diga.

– Ceci é mesmo linda... – Ele murmura, esperando minha reação. Respiro fundo. E desvio os olhos, olhando a movimentação da rua. Já chovia, uma garoa leve.

– Vai demorar pra acabar isso? – digo, mal humorada.

– Você faz bico... Sempre fez não é? – O olho confusa. – A única skatista que eu conheço que faz um bico tão... feminino e manhoso. Ainda anda de skate? É claro que anda...

– Igor. Eu nunca te disse que ando de skate. Não depois... – Do acidente. O encarei, confusa. Minha garganta secando e subitamente começo a sentir um medo esquisito atravessar meus ossos. – Vamos embora.

Levantei atrapalhadamente da mesa e comecei a andar. Saindo para a chuva. Que aumentou significativamente quando coloquei os pés na calçada. Me abracei, sentindo a barra do meu jeans pesar.

– Vamos mesmo embora? – Ignorei a pergunta de Igor. Agora ao meu lado. – Quero fazer algo.

– Temos que ir embora. Está chovendo. – Continuo andando.

– Eu reparei. Mas e daí? Desde quando é tão preocupada com a chuva? – Ele parou a minha frente, sorrindo.

– Vamos embora, Igor. – choramingo. Meio assustada com aquele jeito dele de me olhar... Caminho apressadamente, até chegarmos a uma rua movimenta. Provavelmente deixei Igor para trás, pois ele gritou:

– Maria de Lourdes! – Ele estava mais perto do que pensei. Gritou para chamar minha atenção. Segurando meus braços, me fazendo virar para ele.

– Eu estou ficando encharcada! E você também. Você vai ficar doente.

– Quem se importa?

– Eu me importo. – A chuva cai nos meus olhos e eu pisco furiosamente. – Agora vamos!

Ele me puxou, me fazendo parar na calçada. Ele estava bravo, arfava. Mas seus braços me puxavam para si. A chuva caia, machucando meus ombros. Seus cabelos mais compridos estavam escuros por conta da chuva. Ele me puxou para perto, olhando nos meus olhos. As pessoas passavam, olhando o curioso casal no meio da chuva. Tentei procurar auxílio nos transeuntes. Eu queria me salvar. Eu estava apavorada, mesmo não tendo motivos para isso. Tinha medo de que ele me dissesse para desaparecer, ou pior, pedisse para que eu o esquecesse. Ou pior, pedisse pra que eu perdesse a memória. E eu não podia fazer tal coisa. Ou se lembrasse e dissesse que era muito para ele. E fosse embora, definitivamente.

– Igor... – choraminguei. Sabendo que não me controlaria se ele continuasse tão perto.

– Olhe para mim. – desviei o rosto, mas ele o puxou, um dos braços em minha cintura. – Agora!

– Por quê? – falei, alto demais.

– Você é a Malu... – Ele murmura, meio desorientada. Fico receosa de suas palavras, que me surpreendem e assustam. – Que gosta de andar de Skate, de Mc Donalds e me deu o fora mais surreal da minha vida. Que achou que seria atacada por mim... Eu. Me lembro disso. De você me dando socos no meio da rua enquanto eu ria. Mas, eu não te conhecia naqueles tempos. Estávamos... Ficando amigos? Malu... Você é a minha Malu.

– Jura? Eu sou a Malu? Quem diria... – bati em seus braços, tentando fazê-lo se mexer. A chuva aumentou, e vi-o tirar a presilha dos meus cabelos, fazendo eles caíram em meus ombros. Então segurou meu rosto com as duas mãos. Me olhando bem nos olhos. Bem dentro dos meus olhos. A expressão séria e concentrada. Ele se aproximou mais e eu me senti ficando vesga. A chuva castigando meu rosto.

– O que está fazendo? Igor, me solt... – Então ele esmagou os lábios sobre os meus. Seus lábios se movimentando com uma fúria quase assustadora. Fiquei em choque, enquanto ele me puxava cada vez mais para perto. Então só havia Igor e a chuva. Igor me fazia queimar enquanto parecia que a chuva era que me impedia de não entrar em ebulição. Me agarrei a seus ombros, enquanto ele me puxava pela cintura. Eu esqueci como respirar. Ambos esquecemos como respirar. Depois de segundos, minutos, horas, dias... Nos soltamos contrafeitos, por falta de ar.

Meu cérebro pareceu ter voltado ao lugar e coloquei os pensamentos em ordem. Virei o rosto e me soltei de Igor, confusa e arfante por causa do beijo. Não era errado, claro. Mas eu sentia como se fosse. Eu estava com medo de novo. Olhei para ele e sua expressão parecia com a minha.