Notas iniciais
São apenas meus sentimentos perante uma fatalidade da vida.

Quase nunca volto para casa. Trabalho em outra cidade e sempre ficava num apartamento locado pela minha prima. Mas em mais um dia em que retorno a minha residência e que meu namorado vem para sairmos, acabamos indo até você.

Do lado de fora da casa, você estava ali deitado. Como sempre preso pela corrente mas com algo muito perturbador ao seu redor.

Não havia mais aquela alegria.

Chamamos pelo seu nome e com certa dificuldade, você virou sua cabeça em nossa direção.

- Bob!

Chamei da porta e você nada. Virou sua cabeça para frente e apenas continuou em silêncio.

Ahhh, como me odeio.

Foi tudo tão rápido... repentino demais...

Nos aproximamos estranhando, afinal, você sempre levantava... abanava aquele cotoco de rabo e latia. Deitava de frente pra gente e fazia manha. Era só nos aproximarmos que você logo se encostava na gente esperando pelo afago.

Você já não conseguia mais mexer suas patas. Estava tremendo. Havia um punhado de ração um pouco afastado à sua frente... e isso era ainda mais estranho... levei a ração até você e com voracidade você a devorou.

Fiquei levemente aliviada, mas.... você comia deitado.

Com um grande esforço, conseguiu se levantar e passou a comer normalmente... mas logo, você apoiou seu quadril na parede para manter-se em pé.

Soltamos sua corrente e liberto, assim que terminou de comer caminhou pelo quintal.

Suas pernas estavam bambas e lentamente caminhou por ele todo. Apoiando-se as vezes para não perder o equilíbrio.

Ah, honey... me perdoe...

Fiquei fora mais uns dois dias até voltar para casa e nesse tempo, meu pai chamou o veterinário. Eu não podia acreditar...

Ele me disse que você havia contraído um vírus e que não havia cura.

Mas como assim?!

Fiquei muito irritada. Ainda mais por saber que você só contraiu isso por não ter tomado as devidas vacinas e que esse vírus, existe em todo lugar. Principalmente em casas que tinham ou já tiveram outros cachorros. Havíamos nos mudado há pouco. E por pura ignorância, não sabíamos da existência dessa doença.

O cão contrai esse vírus quando sua resistência baixa e ele não tivera tomado as vacinas. Meu pai quem cuidava disso, e ele apenas havia lhe dado a antirrabica.

Nesse mesmo dia, você já não conseguia mais andar. Ficava deitado e mal mexia a cabeça. Comia e bebia deitado. Mas mesmo assim, era um doce.... Chegamos à porta e logo você se contorcia para nos ver. Agachamos ao seu lado e você voltou a cabeça para frente, ficando totalmente de costas para nós.

Deslizei meus dedos pela sua lateral e com isso você parecia relaxar. Meu namorado trouxe um pouco de ração e não pudemos deixar de sorrir com a sua afobação. Pelo menos isso não havia se alterado.

Você comia na nossa mão e isso realmente nos alegrava. Afinal, você estava comendo.

Mas como alegria de pobre dura pouco...

Em poucos dias, você já não conseguia mais comer.

Todos os remédios que haviam sido receitados, estavam sendo dados. Por um tempo você parecia estar melhorado... mas...

Você já não tinha mais forças para nada... não comia, não bebia... mal respirava.

Nos dizem sempre que o melhor é sacrificar.

Mas isso... sei lá... eu acho um sentimento tão hipócrita... você não conseguia mais comer... com insistência, consegui fazer com que você abrisse a boca e com esforço você conseguiu mastigar algumas vezes... mas a comida não conseguia ficar dentro da sua boca. Caía. Mas mesmo assim, insisti. Você precisava comer... segurei a comida de um jeito que não fosse cair... mas em certo momento... você simplesmente começou a virar a cara.

Teimosa come sempre... não desisti de te fazer comer... e para minha surpresa...

Você simplesmente mordeu a batata e a jogou em qualquer canto... e quando eu fui pegar... senti sua língua em meus dedos...

Céus... você que está doente e eu que estou sendo confortada?

O tanto que me esforcei até agora, não me serviu de nada... minhas forças me abandonaram e não pude mais conter minhas lágrimas.... eu chorava, me desculpava e chorava e você me confortava...

Dizem que os únicos que podem acabar com o sofrimento de seu amado cão somos nós mesmos recorrendo a eutanásia canina... mas... isso é algo difícil... muito difícil de se conseguir fazer... ver ser amigo tão doente, se sentir tão impotente... tentar amenizar de alguma forma a dor dele e ver... sentir e presenciar a luz que havia se esvaído de seus olhos, voltarem a brilhar quando nos via...

Você queria viver...

Você se esforçava para isso... tentava se alimentar... tentava se levantar... como posso eu acabar com isso?

E por que raios a eutanásia canina é permitida e a humana, não?

O ser humano pede... ele implora para que o matem!

E como você pode saber que é isso que seu bichinho de estimação deseja?

Não era coisa da minha cabeça... meu Bob, estava se esforçando... e definitivamente... eu não tinha o direito de lhe tirar isso... me condenem se quiserem... mas isso... imagine se fosse um ser humano... imagine por exemplo, seu ente mais querido ser diagnosticado com um tumor maligno e em estágio avançado... sem cura e o tratamento já não surte mais efeito... o que você faria?

“Ele vai sofrer muito, melhor sacrificar”

Com que direito? E não, não é diferente. Ambos nasceram, ambos tem vontades e sentimentos. Não há diferença. Ambos, são seres vivos.

Por mais que doa nossa consciência, meu pai optou por sacrificá-lo.

Sexta-feira. Dia dois de julho, você partiria desse mundo libertado de seu sofrimento carnal.

Você já estava cego, não comia, não bebia... em breve entraria em estado vegetativo...

Mas por algum motivo o veterinário esqueceu-se de seu compromisso e no mesmo dia, mais a noite ele ligou remarcando sua sentença para a manhã do dia seguinte.

Meu irmão ficou contigo a noite toda...

Diziam que você chorava de dor...

É claro que doía... mas não era só isso... você estava com medo... não queria ficar sozinho...

Mas infelizmente não pudemos ficar com você a noite toda...

Meu irmão teve que sair, eu tinha que cumprir minhas obrigações e meu pai as dele...

E foi nesse momento... nessa noite que sua alma renunciava seu corpo ferido e desgastado...

Logo de manhã meu pai nos deu a notícia... ele dizia que você devia ter entendido e decidiu partir por conta... eu não duvido... você é inteligente e amável... devia saber mais do que ninguém o quanto sofríamos junto a ti.

Me perdoe...

Não pude estar ao seu lado nesse dia... não pude te fazer companhia, te confortar...

Meu pai pegou seu pequeno livrinho de orações e rezou para o Deus dos animais, para que viesse te pegar e logo, com formas humanas e um lindo kimono, um kitsune aparecia perante ele.

Meu pai sorriu e deixou um recipiente próprio com sakê como oferenda.

E não para maior surpresa... alegremente e livre de sofrimento, você passou pela casa correndo.

Me perdoe por ter te feito sofrer tanto... e obrigada, por ter passado tanto tempo conosco, afinal, foram quase quinze anos juntos.

Momentos repletos de alegria e felicidade que nunca esqueceremos...

Descanse em paz, meu querido amigo.

Notas finais
Obrigada por lerem, mas gostaria de pedir encarecidamente para que não me julgassem... nem todos acreditam nisso... mas eu apenas precisava de um lugar para desabafar... minhas palavras estão confusas e não só isso, mas minhas ações também. Tenho certeza que deve estar repletos de erros ortográficos... mas no momentos não consigo corrigir... minha vista embaça e não consigo reler o que escrevi... me perdoem.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!