Meu Quarto Amor
1 Capítulo 1
Já amei várias meninas, de várias maneiras. Já me apaixonei, tipo, muito. Já gostei de várias, incontáveis. Digamos que eu sou meio viciado nisso. Ainda lembro do meu primeiro “amor” – se esse era mesmo o sentimento eu não sei – Marina... ainda me traz saudades. Tinha uma pele cor de neve e olhos tão negros quanto a noite, tinha algumas muitas sardas espalhadas pelo seu rosto que se destacavam mais quando ela sorria. Nunca teve muitas amigas, mas nunca perdia uma discussão. A aparência me lembrava uma princesa, o jeito nem tanto, mas aquilo me atraia bastante nela. Talvez por essa mistura de ser doce e sem gosto eu tenha me apaixonado muito fácil, mas não por pouco tempo. Três anos ao lado dela foram suficientes para preencher o diário com o meu nome e corações mal desenhados e, talvez, o meu coração. Marina se foi, até hoje eu ainda não a vi.
Ainda no mesmo colégio, com a mesma farda azul desbotada pela agua sanitária, eu me apaixonei de novo. Poucos anos depois de Marina ter se despedido para sempre de mim, eu conheci a Amanda. Pouco disputada entre os meninos mas muito bem falada. Tinhas um rosto singelo, um sorriso perfeito, os olhos castanhos e grandes me atraiam bastante. Mas ela já era mais comunicativa, o que me afastava um pouco por eu ser muito tímido. Até que naquela situação de encontrar um lugar para sentar na sala eu sento bem na frente dela. Digamos que o meu coração acelerou, não sabia o que falar. Eu tinha acabado de entrar no ensino fundamental II, não tinha lá grandes experiências com garotas – para não dizer nenhuma. Ela puxou conversa e daí em diante eu virei seu melhor amigo. O meu melhor pecado. Nunca pensei em me tornar seu melhor amigo, só pensava como a mulher da minha vida, nada mais. Talvez eu estivesse sonhando muito alto. O mais engraçado é que todos me perguntavam quando ela faltava aonde ela estava, como se eu fosse o “amante” dela, mas não posso negar, a hora que eu mais gostava era quando ela abria a porta e adentrava a sala. Meu coração palpitava como sempre, mas como nunca palpitou por alguém. Então, a perdi para o meu melhor amigo. Ele ainda perguntou se eu queria, ele ia me deixar ir nela. Mas eu continuava um garoto tímido e besta. Eles namoraram e eu continuei perto dos dois, sorrateiro esperando uma oportunidade. Mentira. Apenas servindo como um ombro amigo ou um encosto mesmo. Eles terminaram. Com isso veio a minha felicidade. Durou pouco mais de três meses até ela achar alguém melhor para substitui-lo, mas ainda não o suficiente para ela me enxergar. Até hoje, tenho que admitir, ela me atrai, mas talvez seja só um sonho realizado que eu deixei pra trás.
Graças ao bom Pai eu sai daquele colégio. Quem sabe experimentar novas experiências. Ter novos amigos, amigas, arranjar algumas meninas. Cheguei num colégio de maior porte no ensino médio, sonhando com alguma galega dos olhos claros me dar bola, ou ser alguém conhecido. Acho que eu sonhava alto demais. Nunca cheguei a ser “o cara” e muito menos ter “a mina”. Mas eu continuava a ter o mesmo ciclo de amizade que antes, do outro colégio, o da camisa azul desbotada. Até que fui convidado para um aniversário de um amigo desse colégio, fui apresentado a dita cuja, a namorada dele na época. Clarice. Morena, cabelos longos combinando com seu tom de pele e seus olhos seguindo o mesmo tom. O que mais destacava nela não eram suas madeixas ou seu sorriso também muito cuidado, era a engraçada alergia a perfumes, a qual a fazia passar sempre hidratantes. Tenho que concordar, eram muito bons. Também tenho que admitir que, fora Amanda, tenho um bom gosto para escolher “marias-joão” como meus alvos. Me apaixonei mais uma vez. Mas esse não foi o pior erro da relação da gente, o pior erro foi ela ter falado “eu te amo” muito cedo, e primeiro que eu. Eu fiquei sem chão e sem resposta. Eu não podia acreditar que a namorada de um amigo de infância me falara isso. Eu sei que fui meio ingênuo a acreditar que teria alguma chance com ela mesmo ela estando com ele. Mas eles terminaram, e como aconteceu com a Amanda, não demorou muito para ela encontrar o “parceiro ideal”. Eu já era o melhor amigo de Clarice nessa época, mas o que realmente foi chocante pra mim, foi o fato dela não ter comentado nada sobre esse novo cara ou pedido minha opinião, nada. Foi um “chute no ovo”. De verdade, eu desencantei, perdi as esperanças e a vontade de vê-la. Mesmo depois de muita coisa que a gente passou – o que eu passei, na verdade – eu ainda sentia algo por ela. Acho que meu coração ainda palpita quando a vejo. Mas não por amor, talvez por saudade.
Ainda faz um ano que eu parei de falar com a Clarice, faz um ano que paramos de nos falar todo dia, faz um ano que paramos de ser amigos. Mas parece que existe algo naquele colégio, aquele da blusa azul desbotada, que hoje, eu amo uma menina de lá. Acho que menina já não é mais nem termo a ser usado com o nome dela, ela hoje é uma mulher. Mais madura que muitas. Talvez mais madura e sensata que eu mesmo. A pele dela não é o forte, talvez nem o cabelo longo, cacheado e bagunçado cor de mel, castanho, castanho claro. Eu ainda não entendi qual é a cor do cabelo. Talvez por eu ser um pouco daltônico ou por sempre estar perdido nos seus olhos. Ela tem lindos olhos, um sorriso mais lindo que muitas coisas que vi na vida. Aquele sorriso tem mais vida que muitas vidas. Ela tem aquele jeito ainda de “maria-joão”, mais macho que muito homem. Mais grossa que tudo que já vi nessa vida, arrogante, convencida, mas acima de tudo, minha companheira. Eu não a namoro, mas quero. Eu não a tenho pra mim, e não quero. Só quero cuidar dela, porque é engraçado ela ler meus pensamentos e eu conseguir ler os dela. Nunca senti tal conexão. Quando eu vejo que nossas brigas nos juntam mais, nossas discussões acabam sempre em piadas, meus conselhos eu já não sei se ela escuta, mas ela vem pedir, sinto que no fundo talvez isso tudo faça sentido no fim. Ela é perfeita. Uma mistura de delicadeza com maturidade que nunca conheci outro alguém assim. Ela consegue definir em poucas palavras o que sente, mas explica muito melhor quando demonstra. Talvez hoje sua pele esteja desgastada pela puberdade, seu longo cabelo cacheado cortado ao meio para uma doação, mas ela ainda está lá. Do mesmo jeito que eu a encontrei. Ela é meu quarto amor, mas pelo o que sinto hoje, espero que ela seja a última.
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