Notas iniciais
Apenas uma One para vocês! Espero que gostem da minha estória!

Aproveitem a leitura!

Meu Primeiro Último Beijo

Vincent

Incrível como as coisas acontecem rápido. Principalmente quando se está morrendo.

Quando conheci a pequena Clare eu tinha dezesseis anos, e ela apenas quinze. Acabara de entrar na puberdade, e achava minha rotina hospitalar uma idiotice sem tamanho. Queria sair com meus amigos, conhecer garotas e me aventurar, mas tinha que ficar enfurnado naquele quarto de hospital esperando a minha morte.

Na realidade, eu não estava realmente morrendo, já que a quimioterapia estava funcionando muito bem e as metástases que cresciam como ervas daninhas no meu corpo estavam morrendo com o medicamento. Eu era só um extremamente exagerado.

Lembro-me de estar sentado naquela cadeira de plástico azul desconfortável do corredor quando a vi. Ela estava linda naquele jeans rasgado nos joelhos e nas canelas, apesar de não ter sido a primeira coisa que me chamou atenção. A coisa que me incomodava nela, quase como uma imperfeição, era seu sorriso. Quem sorriria daquele jeito em um hospital cheio de pacientes terminais?

Fiquei quase com raiva daquela garota por ser tão egoísta, mostrando o quanto sua vida era perfeita para mim. Ela sorria enquanto ouvia música nos fones de ouvido coloridos, e tudo que fiz foi virar a cara e fazer um bico. Era tão maduro quanto meu irmãozinho de três anos.

Então, no dia seguinte, vi a garota novamente. E ela ainda sorria. E fazia questão de me mostrar que era feliz, ao contrário de mim.

Eu estava no meio da aula de história americana, anotando tudo no caderno, quando ela entrou na sala, toda tímida e acanhada, escondida atrás do fichário colorido. O Sr. Michael a apresentou como Clare Parker, e, estranhamente, ele parecia triste. Mas era uma tristeza quase de pena, e olhava para a aluna nova com um brilho estranho nos olhos. Um brilho que não sabia o que significava até conhecer Clare.

A aluna nova sentou na carteira atrás de mim e ficou em silêncio, anotando tudo que o professor escrevia no quadro negro.

Os dias se passaram lentamente, até que, em uma manhã nublada, nos falamos pela primeira vez. Mas não foi no hospital, onde eu passava a maior parte do meu tempo livre, e sim na escola.

Durante o intervalo, enquanto ouvia música nos fones de ouvido em baixo da minha árvore favorita, vi que ela se aproximava de mim. Fechei os olhos e ajeitei o gorro na minha cabeça, então Clare sentou-se ao meu lado, dobrando os joelhos em frente ao peito e colocando a cabeça entre eles.

– Eu tenho a impressão de que te conheço. – ela murmurou, e quase não a ouviria se não tivesse tirado os fones. – Acho que já te vi no hospital.

– Sim. Eu também já te vi lá. Clare, certo?

– Certo. E você é Vincent, não é? – continuou com a voz baixinha.

– Sou. E, pelo visto, nos veremos com mais frequência a partir de hoje, não é? – eu perguntei mais para mim mesmo, enquanto a observava.

Clare não era o tipo de garota estupidamente bonita ou extremamente atraente. Seus olhos azuis eram quase como bolas de gude e seu cabelo preto comprido me lembrava do corvo que vi em uma fotografia no livro de ecologia da biblioteca. Era pálida, fazendo parecer que sua pele era feita de porcelana fina; e seus lábios de traços suaves tinham a cor de escarlate.

Apesar de estar quente naquele dia, por volta dos vinte e nove graus, ela usava um agasalho largo de lã azul marinho e jeans. Parecia que Clare nem se esforçava em parecer bonita, usando roupas largas e nenhum pingo de maquiagem. Não seria o tipo de pessoa que eu gostaria de tirar uma foto.

Fotografia era meu hobby, e meus pais fizeram um quarto escuro na nossa casa e compraram uma câmera profissional para mim quando descobrimos que eu tinha câncer. Disseram que era uma maneira de me distrair e esquecer a doença. Às vezes, saía no meio da madrugada com minha câmera e bicicleta para tirar fotos. Eu levava minha câmera para todo o lado na minha mochila, caso eu encontrasse algo que me chamasse atenção na cidade. Normalmente era algum pássaro extremamente bonito ou colorido ou, sei lá, flores e a lua cheia amarelada.

– Você não é da cidade, é? – perguntei, tentando puxar assunto, já que Clare se calou de repente, olhando para o grande pátio da escola. – Chesters Ville é uma cidade minúscula, e tenho quase certeza de não ter te visto por aí.

– É. – Clare corou. – Eu me mudei para cá há uma semana. Minha mãe gostou muito da cidade quando veio visitar e resolveu vir para Chesters Ville para morar, junto comigo. Minha avó morava aqui antes de morrer, então ficamos com a casa dela.

– Acho que você vai gostar de cidade, Clare. – Me virei para ela, e percebi que seus olhos me estudavam com atenção. – Se quiser fazer um tour depois da aula, pode falar comigo.

– Ah, obrigada. – Corou ainda mais. – Acho que vai ser possível.

– Certo. – Me levantei, o sinal do quarto tempo iria soar em poucos minutos. – Te vejo por aí.

– Ok. – ela murmurou, sem se mexer.

Entrei na escola sem nem olhar para trás para ver se ela me seguia.

(...)

Nossas bicicletas estavam encostadas em uma árvore e tomávamos sorvete de baunilha. Tinha mostrado a ela toda a cidade, e o último lugar que eu queria apresentar era o lago da cidade. Foi lá que eu aprendi a nadar e andar de bicicleta, o lugar que eu pesquei meu primeiro peixe e que eu dei meu primeiro beijo. Posso dizer que era um lugar muito especial.

Clare gostou dali. Ficou impressionada com tudo, observando a água cristalina com os olhos brilhando. Deitamos na grama e ficamos conversando um pouco. Descobri que ela gostava de ler, gostava de animais mesmo não tendo nenhum, tinha uma coleção de bottons de séries de livros e gostava de ouvir todo o tipo de música.

Descobri que, tecnicamente, tínhamos coisas em comum.

Ficamos mais algum tempo naquele lago, conversando sobre banalidades deitados em baixo de um grande carvalho velho. Até que perguntei a ela uma coisa que me arrependo até hoje.

– Como foi o seu primeiro beijo, Clare? – perguntei, ajeitando as mãos em baixo da cabeça. – O meu foi bem no meio do lago, no barco do meu pai. – Apontei, me lembrava claramente daquele dia. – Quando tinha doze anos.

Ela sentou-se e colocou a cabeça entre os joelhos novamente, as costas na madeira da árvore. Tenho quase certeza que vi lágrimas brotando de seus olhos.

– Na verdade... – Pigarreou, a voz baixa novamente. – Eu nunca beijei ninguém.

– Sério? – Eu estranhei, afinal, Clare tinha quinze anos. Tinha que acabar logo com aquilo. – Por quê?

– Eu não sei, Vincent. Acho que não sou o tipo de garota “atraente” que os garotos procuram. – Deu de ombros. – Mas isso não me incomoda mais, entende? Já me acostumei com isso.

– Isso não é verdade. – Me sentei de frente para ela, olhando fundo em seus olhos claros. – Você não pode simplesmente pensar assim, Clare.

– Ah, qual é! – Ela me olhou com uma expressão fatal, mas pude ver um pouco de tristeza por trás daqueles olhos. – Você me beijaria? Seja sincero.

Estudei Clare por alguns segundos, tentando decifrar o que ela queria dizer com tudo aquilo. Seus olhos cor de bola de gude brilhavam por conta das lágrimas que caíam, e tudo que eu pude pensar em fazer foi abraçá-la e deixar que suas lágrimas manchassem o meu peito, encharcassem a minha camiseta. Segurava seu corpo firme contra o meu, e não conseguia imaginar mais nada se não abraçar seus ombros.

Mal conhecia Clare Parker e estava deixando aquela garota de quinze anos e cabelos escuros chorar em mim. E não sabia o que dizer, nem o que fazer. Ninguém nunca chorou daquele jeito na minha frente, nem quando minha família descobriu que eu tinha câncer. Nem quando meu avô morreu, quando eu tinha cinco anos. Nem no meu pior pesadelo, quando eu estava no caixão.

(...)

Levei Clare para o lago mais algumas vezes, mas ela não chorou de novo, já que eu evitei falar naquele assunto novamente. Nós até nadamos algumas vezes, mas tínhamos que sair de lá antes do anoitecer, já que ela sentia muito frio. Mas na maior parte do tempo, nós apenas molhávamos o pé ou subíamos nas árvores.

Eu levava o meu rádio à pilha e minha câmera para lá, ensinava a Clare como tirar fotos perfeitas e focar a imagem. Ficávamos ouvindo músicas em baixo do sol e caçávamos sapos à noite, coisa que eu não fazia desde criança.

Descobri coisas sobre ela que eu nem imaginava que existiam. Por exemplo, Clare era extremamente fotogênica, mas odiava ser a modelo das minhas fotos. Quando Clare ficava muito tempo no sol, seu nariz e as maçãs do rosto enchiam de sardas. Clare tinha as covinhas mais bonitas do mundo, e eu não me cansava de fazê-la rir para observá-las.

Aproximamos-nos rapidamente, de um jeito quase inimaginável e surpreendente. Num dia ela era apenas uma desconhecida, no outro, podia até dizer que ela era minha amiga.

(...)

Na minha bancada na aula de laboratório, procurei por Clare, não a encontrando em lugar algum. Respirei fundo, um pouco preocupado, colocando meus óculos de proteção e seguindo as orientações da professora, tomando cuidado para não derramar nenhuma gota do produto químico.

As aulas foram passando, e Clare não apareceu em nenhum momento. Fiquei um pouco preocupado, já que a deixei em casa na noite anterior e ela não parecia muito bem. Entrou em casa com os olhos vermelhos e eu sentia que ela quase não respirava.

Depois das aulas, a diretora me pediu para entregar os deveres a ela, já que fui o único da escola que conversou com ela, além de eu saber onde ela morava. Peguei a minha bicicleta e fui até a casa dela, um sobrado antigo e amarelo, com a grama levemente alta e a cerca por consertar.

Bati na porta, e a mãe de Clare a abriu. Ela tinha me visto quando levei sua filha para casa e sorriu ao me ouvir perguntando sobre a garota. Acho que minha voz estava preocupada demais, ou estrangulada demais. Levou-me até a sala e me deu alguns biscoitos e chá gelado, e disse que logo ela desceria para me ver.

Alguns minutos e biscoitos depois, Clare apareceu. Ela estava de meias nos pés e moletom largo, e fiquei me perguntando mentalmente se ela só tinha roupas largas demais para seu corpo. Ela sentou ao meu lado, pegou um copo de chá e sorriu. Novamente aquele sorriso intenso nos lábios, mesmo com a lembrança das lágrimas dela fresca em minha memória.

– Bem, como você não foi às aulas hoje, trouxe todo o seu dever. – Entreguei os papéis a ela. – Pode me explicar porque faltou?

– Eu acabei pegando uma gripe forte por ter ficado até tarde no lago. – Bebeu um pouco do chá. – Minha mãe me mandou ficar por aqui até me sentir melhor. Minha saúde é um pouco frágil, entende?

– Me desculpe sobre a história do lago, devia ter te deixado em casa mais cedo. – Peguei sua mão. – Você está se sentindo melhor?

– Estou sim. – Seus lábios cor de escarlate se comprimiram em uma linha fina enquanto observava nossas mãos juntas, entrelaçadas.

– O que foi? – perguntei. Clare lançou seus olhos ao meu rosto, exatamente onde deveriam estar as minhas sobrancelhas.

Sim, “deveriam”, já que a quimioterapia tem um efeito colateral completamente ridículo de fazer todo o tipo de pelo do corpo cair, então eu não tinha sobrancelhas ou cabelo.

– Eu queria te pedir uma coisa, Vince. – sua voz estava trêmula e estrangulada. Ao deixar o copo de vidro na mesinha, pude ver que seus dedos tremiam. – Mas não aqui. Será que você poderia esperar alguns minutos, só para eu me trocar?

– Se trocar? – Cerrei as sobrancelhas. – Por quê?

– Por favor, logo você entenderá tudo. Só uns minutinhos, ok?

– Ok. – Sorri de lado, vendo a garota levantar do sofá e correr até as escadas.

Resolvi me levantar e caminhar um pouco pela sala, fazer o sangue fluir pelas minhas pernas. Encontrei uma mesa de fotos, e matei o tempo ali, absorto naquelas fotos antigas de Clare e seus pais. Só acordei de meus devaneios quando ouvi passos atrás de mim.

– Vince? – era ela me chamando. – Eu demorei muito?

– Não, eu até... – Simplesmente parei de falar quando a vi. Clare Parker estava estonteante naquele vestido vermelho, como a cor de seus lábios. Seu cabelo escuro e comprido estava arrumado em uma trança perfeita, seu rosto não carregava maquiagem nenhuma, mas eu sentia que seus olhos estavam mais brilhantes que todas as estrelas do infinito.

– Você até...? – Riu de um jeito fofo.

– Eu fiquei olhando essas fotos e nem percebi o tempo passar. – Dei cinco passos até ela, a madeira rangendo em baixo dos meus pés. – Você está maravilhosa.

– Obrigada. – Corou levemente. – Vamos?

– Vamos. – Estendi minha mão e Clare a segurou com firmeza. Gritou um “tchau” para mãe e saímos, mas fomos a pé, já que ela não poderia usar a bicicleta de vestido.

(...)

Fomos até uma colina completamente deserta, à cerca de um quilômetro da casa dela. Pulamos uma cerca de arame farpado e corremos pela propriedade. Sabia que era errado estar correndo furtivamente em uma propriedade privada, mas acho que era a única oportunidade que eu teria para fazer isso.

Quando chegamos até a clareira no meio das árvores da grande propriedade, simplesmente fiquei em silêncio. Clare parecia tão feliz e absorta em pensamentos que resolvi me calar e apenas observá-la. Seus olhos brilhavam enquanto observava o topo das árvores, e sem querer, um sorriso nasceu em meus lábios.

Sem fazer nenhum barulho, tirei minha câmera da mochila e fotografei a cena algumas vezes, um momento perfeito. Guardei a câmera quando percebi que ela se aproximava, não queria que ela soubesse das fotos antes de revelá-las.

Sentamos-nos em um tronco podre perto dali.

– E então, Clare? – Juntei as mãos no meu colo. – O que você queria me pedir?

– Bem... – Ela baixou o olhar para os pés. – Eu queria pedir para você se afastar de mim, Vincent.

– Me afastar de você? – Levantei seu rosto para olhar diretamente nos meus olhos. – Por quê?

– Eu já deixei muita gente triste, não quero fazer o mesmo com você.

– Mas... – sussurrei.

– Você é muito especial para mim, Vince. Deixou-me ter uma crise de choro no seu ombro sem nem saber o motivo, e ainda me abraçou e me acalmou. – Seu sorriso sumiu de seu rosto, transformando-se em uma linha fina. – Eu não quero te fazer sofrer como fiz com as outras pessoas. Eu sou uma droga de bomba nuclear, eu posso acabar com tudo ao redor quando eu explodir, e não vou conseguir controlar o estrago. Não quero te machucar.

Eu não respondi. Eu simplesmente não conseguiria dizer nada, não estava entendendo. Clare nunca iria me machucar, nem se ela quisesse.

Aproximei-me dela até nossas respirações se misturarem. Seus olhos azuis me estudavam, então afaguei sua bochecha levemente. Clare estava gelada apesar de o dia estar quente e o sol estar alto no céu.

– Vince... – Ela negou com a cabeça. – Por favor...

– Shh. – Coloquei meu dedo em seus lábios, calando-a. – Eu preciso.

– Não quero criar vínculos com você. Nem com ninguém. – Segurou minha mão. Sua voz estava quase chorosa, implorando para que eu parasse com tudo aquilo e a deixasse ir embora dali. – Eu simplesmente não posso deixar que isso aconteça.

– Vamos só... – Sorri levemente. – Aproveitar o momento, está bem?

Ela assentiu levemente. Parecia um pouco assustada, o que só me incentivou a ser o mais cauteloso possível. Segurei seu rosto levemente e juntei nossos lábios.

Não foi o melhor beijo do mundo. Clare Parker não estava nem um pouco preparada para aquele momento, quase ficou estática, não sabia o que fazer. Tentei ao máximo não assustá-la, fui a pessoa mais calma e paciente do planeta Terra. Quando me separei dela, seus olhos estavam fechados, seu rosto corado.

Depois de deixá-la em casa, voltei para o meu quarto e fiquei pensando em Clare a noite inteira.

(...)

Depois daquela tarde na colina, quando a encontrei na escola, Clare simplesmente fugiu quando me viu no corredor. Virou as costas e começou a andar até a sala, até que eu a impedi, segurando seu braço. A ouvi respirando fundo antes de se virar.

– Clare... – chamei, fazendo-a virar seu rosto para mim, os olhos de bola de gude um pouco marejados. – Vamos conversar um pouco...

– Você não me ouviu! – Puxou o braço. – Eu disse para não se envolver comigo, eu não quero te machucar! Tudo foi um grande erro, Vince. Só me deixe ir embora e não olhe mais para mim, está bem?

– E porque você me machucaria? – Arqueei as sobrancelhas. – Por acaso você está fugindo?

– Olha, aquele foi o meu primeiro beijo, e eu nem queria que acontecesse! – exclamou, estudando-me com seus olhos claros. – Seu... Seu idiota! Meu Deus, será que você não pode me dar ouvidos pelo menos uma vez? Deixe-me sozinha, pare de falar comigo e...

Então eu abracei sua cintura e a beijei nos lábios mais uma vez. E ela correspondeu pela primeira vez, segurando minha nuca e aproximando-se mais do meu corpo. Quando nos separamos por falta de ar, sorri de canto, satisfeito por ter causado aquele efeito nela.

– Se você quisesse mesmo se afastar de mim não corresponderia esse beijo, e nem deixaria que aquele primeiro acontecesse. – murmurei, meu rosto muito próximo ao dela, sua respiração quente roçando a minha pele. – Você pensa que quer se afastar de mim, mas não quer. Nunca quis.

– Você é muito convencido, sabia? – sussurrou, um sorriso quase petulante nos lábios escarlate. Seu sorriso não me irritava mais. – Convencido e irritante.

A abracei pelos ombros e fomos juntos até a sala de inglês avançado, onde teríamos as próximas duas aulas juntos.

Depois das aulas, a levei até a minha casa, onde a mostrei todas as minhas fotos e meus álbuns. Clare ficou impressionada com todas elas, e sorriu ao ver que o rosto dela estava em algumas fotos.

(...)

Nos dez dias que se seguira àquele acontecimento inesperado, Clare não apareceu na escola, na lanchonete, no lago ou na colina, onde esperei por horas, até anoitecer. Estava completamente preocupado, e minha última opção foi ir até a casa dela. Peguei minha bicicleta e praticamente voei até a casa amarela.

Quando cheguei, joguei minha bicicleta na grama alta e corri até a porta, tocando a campainha. Precisava falar com ela, saber se ela estava bem, beijar seus lábios cor de escarlate mais uma vez. A mãe de Clare abriu a porta, e percebi que seus olhos estavam vermelhos.

– Sra. Parker, eu preciso falar com Clare. – Deixei toda a educação que meus pais me deram de lado. Estava desesperado. – Ela está?

Eu sabia que ela estava lá, a luz do seu quarto estava acesa.

– Querido, não acho que seja uma boa ideia. – sua voz estava embargada. – Ela não quer receber visitas.

– Meu Deus! – exclamei, levantando as mãos. – Ela sumiu por dez dias sem nem me dar notícias! Eu preciso vê-la, agora.

Então, Clare apareceu atrás de sua mãe. Estava péssima, seus olhos fundos e com olheiras escuras, sua pele estava mais pálida do que nunca, seus lábios escarlate tinham perdido a cor, estavam levemente rosados. A abracei apertado e beijei seus lábios levemente.

– Mamãe – sua voz estava fraca. – me deixe falar com Vincent, está bem?

Sua mãe apenas assentiu, nos deixando ir para os fundos do sobrado. Nos sentamos no balanço velho e enferrujado do quintal e olhei para ela, esperando uma resposta, uma explicação, qualquer coisa.

– O que aconteceu com você? – perguntei em um sussurro. – Eu te liguei várias vezes, te esperei na escola, na lanchonete, no lago, na colina. Você simplesmente sumiu.

– Vince... – sussurrou, os olhos marejados. – O que eu vou te contar agora era o que eu tentei evitar. Eu não queria te machucar. – Respirou fundo, olhando para o céu. – Eu estou morrendo.

Clare me explicou que tinha uma doença terminal, que descobriu depois de sentir fortes dores de cabeça e outros sintomas que nem quero me lembrar. Os médicos deram a ela apenas um ano de vida, e ele estava acabando. Ela estava morrendo.

Ela também me disse que chorou naquele dia no lago por causa de tudo que estava acontecendo, e não por causa de um primeiro beijo idiota. Disse que tinha me apresentado a clareira na colina porque era um lugar realmente muito especial para ela, e sempre ia para lá quando se sentia triste ou fraca demais para seguir em frente.

Ela também me contou que só foi para Chesters Ville porque era um sonho de infância. Sua avó morava na cidade, e ela sempre ia visitá-la quando era criança, e adorava a cidade. Então sua avó morreu e ela pôde ficar com a casa.

Então, quando ela me conheceu, sentiu medo. Clare tinha medo de me machucar, porque sabia que morreria a qualquer momento. Depois de ela me explicar tudo, a convenci a ir ao lago mais uma vez, pela última vez.

Levei alguns cobertores e travesseiros e nos deitamos na grama, a cabeça de Clare no meu peito, seguindo o movimento da minha respiração.

– Vince... – ela sussurrou.

– O quê?

– O meu primeiro beijo foi com você, então, eu estava pensando...

Levantei seu rosto para olhar diretamente para mim. Seu sorriso estava brilhante.

– Você pode negar se não quiser. – murmurou. – Eu estava pensando que eu quero que meu último beijo seja com você.

Não disse nada, apenas me abaixei para que nossos lábios se tocassem levemente. Foi um beijo calmo, lento e acolhedor. Quando nos separamos por falta de ar, a abracei mais perto de mim.

– Meu primeiro último beijo. – sussurrei.

– O meu também. – ela respondeu no mesmo tom de voz.

Então nós dormimos observando as estrelas naquele lago, em silêncio, nos aquecendo com nossos corpos juntos e aqueles cobertores grossos que peguei na garagem da minha casa. Não avisamos a ninguém onde estávamos, mas não me importei muito com isso naquele momento.

Clare me ensinou que sorrir faz bem para a alma. E é por isso que ela sorria, afinal, sua vida era feliz. Ela se sentia feliz, e era tudo que bastava.

No dia seguinte, eu acordei com o sol queimando meu rosto, mas Clare não. Ela não estava abraçada comigo, mas estava perto da água, deitada nas folhas secas e enrolada em um cobertor. Me assustou, já que estava mais pálida do que nunca tinha visto. Chamei seu nome, procurei sua pulsação, mas não achei nada, e ela estava em completo silêncio. Desesperei-me, e tudo que pensei em fazer foi correr até minha casa e chorar no colo da minha mãe. As palavras quase não saíam de minha boca quando ela me abraçou.

Clare Parker morreu no dia 25 de abril de 1996, aproximadamente às cinco da manhã, como os policiais me disseram na minha casa, algumas horas depois. Disseram que, provavelmente ela não sentiu nada durante a morte, mas eu sei que sentiu, pois ela saiu de perto de mim para não morrer no meu colo. Ela sabia que iria morrer.

Fizeram uma homenagem a ela, dando o nome dela ao lago da Chesters Ville. Quase todos daquela pequena cidade soltaram balões brancos nas margens do lago, e eu pisava exatamente onde ela estava deitada quando a encontrei morta. Depois de todos irem embora, deixei uma pequena coroa de flores ali, que fiz na aula de artes e pretendia dar a ela na noite do baile de inverno.

Dezoito anos depois de conhecê-la, eu ainda vou ao seu túmulo no pequeno cemitério da cidade deixar flores e recitar poemas, do jeito que ela gostava. Eu ainda deito naquele mesmo lugar no lago e observo as estrelas com meus dois filhos. Eu ainda vou para a clareira para tirar fotos com a minha esposa, Amber. E ainda guardo todas aquelas fotos que tirei de Clare Parker naquele tarde na propriedade de um desconhecido, onde ela deu seu primeiro beijo, junto com todas as outras.

Na minha primeira exposição de fotos profissional, as fotos que tirei de Clare foram as principais.

Clare Parker foi especial para mim, afinal, foi com ela que eu dei meu primeiro último beijo.

Notas finais
Gostaram? Ficou muito ruim?
Vão me deixar reviews?
Favoritos?

Beijos
:D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!