Meu Presente É Você
1 Nem todos os presentes podem ser comprados OneShot
Notas iniciais
Espero que gostem desta história tanto quanto eu gostei de escrevê-la, Joel provavelmente ficara por um bom tempo nas minhas lembranças natalinas.
Era um inverno rigoroso e Joel e Janine caminhavam desnorteados em meio a neve na noite cinzenta daquele natal.
-Pra onde vamos Joel? -perguntou a menor. -Aqui está muito frio.
-Não se preocupe Janine, eu vou encontrar um lugar seguro para passarmos a noite. -respondeu Joel segurando firme a mão pequena e desprotegida da irmã enquanto seguiam com neve até quase a cintura.
-Você sempre diz isso e nunca encontramos um lugar para ficar. -disse a garotinha inflando as bochechas rubras e cortadas pelo vento frio.
-Mas dessa vez será diferente. Eu prometo. -ele disse apertando mais a mão pequena entre a sua e apressando um pouco os passos, via varias luzes dentro das casas e silhuetas de famílias felizes, queria se afastar daquela parte da cidade o mais rápido possível, sabia o quanto àquelas imagens doíam no peito da irmã e no seu também.
Fazia alguns minutos que os garotos caminhavam desde sua ultima conversa, as luzes ficavam cada vez mais distantes umas das outras, e a parte movimentada e iluminada da cidade estava muito distante. Ao ver de Janine se aproximavam do desconhecido, passando por varias ruas que ela desconhecia por completo, mostrando um mundo totalmente novo a sua frente, porém nada disso importava naquele momento, a garota estava cansada demais, com fome de mais, com frio de mais, para prestar atenção em qualquer uma daquelas coisas que excitariam qualquer outra criança com sua pouca idade.
-Estamos quase lá Janine, aguente apenas um pouco mais. -Pedira o pequeno ao ver a garota começar a desanimar -Só mais algumas quadras, quase consigo ver daqui.
-Eu estou aguentando Joel, veja, eu estou aguentando. -Disse ela erguendo o rosto e sorrindo para o irmão, estava exausta, mas sabia que ele também estava e que a carga era difícil para ele, até mais do que para ela, podiam ser novos, mas ambos amadureceram rápido de mais.
Caminharam as poucas quadras que lhes faltavam e logo o imponente portão de ferro de mais de dois metros de altura estava a sua frente, Joel, com muita dificuldade, entreabriu o portão dando passagem para a irmã, entrando logo após ela.
O caminho lá dentro também era cheio de neve, mas os grandes muros de pedra bloqueavam boa parte do vento gélido, muito embora ainda estivessem sofrendo o impacto do sereno e do frio do inverno.
Joel procurava pelo caminho certo a tomar dobrando aqui e ali quando necessário, certificando-se de fazer o caminho exato e não errar na hora de chegar ao ponto especifico daquele labirinto.
-O que são essas coisas grandes e cumpridas por todos os lados, com essas pedras e cruzes atrás delas? -perguntou inocentemente a garota se aproximando mais do irmão.
-São lápídes. -Respondeu o mais velho depois de repuxar na memória o nome daquelas coisas, fazia tempo que não via uma.
-E pra que elas servem Joel? -perguntou ela, demonstrando um pouco da curiosidade constantemente reprimida.
-Servem para guardar os mortos. -Ele disse, como se não fosse nada de mais enquanto pulava uma delas, a fim de chegar, finalmente, no local desejado, se apoiando contra o grande mausoléu, algumas poucas lagrimas escorreram pelo seu rosto, mas ele logo tratou de seca-las.
-Então, o papai e a mamãe, estão em um desses? -perguntou a pequena, dando a volta no mesmo tumulo que o irmão saltou e se aconchegando nos braços do mesmo.
-Não Jann, eles não estão em nenhum desses aí. -disse ele apontando para a infinidade de túmulos enfileirados pelo cemitério.
-Então onde eles estão? -perguntou ela com a curiosidade nata de uma criança em sua idade.
-Eles estão aqui. -disse o maior após colocar a mão na parede fria do mausoléu.
A pequena, sem entender muito bem as palavras do irmão e seu olhar triste, entendera que aquela era a casa dos pais e logo tratou de levantar-se e bater repetidas vezes na grande porta. -Mamãe, papai, vocês estão aí? ... Somos nós, Janine e Joel, seus filhos. ... Abram a porta mamãe...
Desolado ao ver a irmã entender tudo errado Joel tratou de puxa-la para seus braços. -Eles não te ouvem Jann, eles estão mortos.
-Mas, então, porque uma casa Joel, porque não um túlumo? -perguntou ela, confusa.
Joel riu fraco antes de responder. -Porque não um tumulo? Bem, Janine, eu já lhe contei inúmeras vezes a história do casamento dos nossos pais, mas, nunca te disse no que gastaram toda a grana que haviam juntado, eles estavam decididos, ninguém, jamais, poderia dizer que seus filhos não haviam um lugar para morrerem. Eles construíram um mausoléu para a família. -vendo a cara cada vez mais confusa de sua irmã ele logo tratou de explicar. -Isso não é uma casa, Jann, isso aqui é um mausoléu, um lugar onde as pessoas guardam dos corpos das pessoas que já morreram, que nem os túmulos.
-'Tendi, 'tendi. -disse a pequena.
Ficaram em completo silencio por alguns minutos, estava cada vez mais frio, outra nevasca se aproximava e Janine tremia muito.
Joel, vendo a situação da irmã lembrou-se daquilo que fora as ultimas palavras de sua mãe. Abraçou a irmã o mais forte que conseguia antes de afasta-la minimamente de si e começar a retirar as próprias vestes de inverno da parte superior do corpo. Janine fitava o irmão sem entender, como podia ele, estar tirando as roupas quando o frio os assolava de forma tão intensa.
Sorrindo em compreensão, Joel pôs-se a colocar as roupas que outrora tirara, na irmã, garantindo assim que ela não morreria congelada. -Melhor assim, não? -perguntou por fim.
-Muito mais quentinho, mas e você? não está com frio? -a menina indagou ameaçando retirar as roupas que o irmão lhe dera para que ele voltasse a vesti-las.
-Eu? Frio? Não sinto frio algum Jann, pode ficar com tudo isso pra você. agora deite-se aqui e vamos dormir, já está tarde. -disse ele forçando um sorriso embora por dentro tremesse e sentisse cada pedacinho de seu corpo congelar aos poucos.
Janine fez o que o irmão pedira e deitou-se novamente sobre seu corpo, abraçando-o e sendo abraçada por ele, aconchegou-se ali como fazia todas as noites e logo estava começando a adormecer. Joel, sorriu vendo a face serena da irmã e sussurrou perto de sua pequena orelhinha. -Nem todos os presentes podem ser comprados. Você foi o meu presente Janine.
Já mais dormindo que acordada, Janine sorriu e entrou de vez para o mundo dos sonhos após ouvir tais palavras do irmão.
A noite fria de inverno passou e na manhã seguinte tudo parecia tranquilo no cemitério, até que inquieta uma garotinha despertou.
-Joel, Joel, acorda. -dizia ela enquanto chacoalhava os ombros do mais velho. Porém, resposta alguma ouvia.
Cansada de tanto tentar deitou a cabeça sobre o peito do irmão, as lagrimas escorriam por seu rosto e banhavam a única peça que sobrara no corpo frio, uma regata branca, velha e desbotada, o desespero tornou-se maior ainda quando não sentiu o peito do maior subir e descer nem ouviu as batidas ritmadas de seu coração.
Desesperada Janine levantou-se, olhou profundamente para o irmão e bradou aos quatro ventos, -Eu não queria seu presente, eu só queria você aqui. -desabando sobre o mesmo em seguida.
Os gritos chamaram a atenção do coveiro que ficou estupefato ao ver tal cena, uma garota com seus recém completados sete anos abraçada ao corpo morto de um rapaz de no máximo 17.
Demorou, mas conseguiu acalmar a criança e procurando nos bolsos das vestes de ambos encontrou alguns pedaços de papel amassados, em um, dois nomes, Janine Peterson Smirnov e Joel Peterson Smirnov, no outro, uma pequena carta, escrita de ambos os lados, o primeiro pedia encarecidamente que a pessoa que tivesse encontrado sua irmã a levasse até o endereço descrito no papel e a entregasse aos Petersons junto à carta, pois seu outro lado era destinado aos avós.
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