Meu Parceiro De Apartamento
31 Capítulo 31 - Tua carta
Notas iniciais
– Sinto muito, mas a senhora Eliza não resistiu... – disse o médico com uma feição de lamento, e eu já nem me mexia. – Ela faleceu ontem de madrugada, mas resolvemos avisar hoje para poderem vê-la... Só contei toda a verdade quando Peter chegou, eu havia dito que ela estava tendo outra recaída, mas foi apenas para não deixá-lo exaltado demais...
Como assim? A Eliza havia morrido? Não, não era verdade! De todas as maneiras possíveis eu queria pensar que era mentira, até porque ela era uma mulher de garra, e nunca iria morrer tão facilmente, eu pensava. Peter estava quieto, eu não escutava um simples choro, e aquilo me deixava ainda mais aturdida. Me sentei na cadeira ao lado de Peter com os olhos marejados e confusa, assustada, com medo. Muito medo. O médico que antes estava a nossa frente, se retirou pedindo licença e entrando na sala onde Eliza estava.
Não aguentei ficar sem chorar por muito tempo. Logo, eu já soluçava alto, pondo as mãos em meus olhos tentando parar, mas não, era impossível, eu havia perdido minha melhor amiga, aquela amiga que me daria conselhos a vida toda, e ainda conheceria David.
E o Robert? Como ele iria reagir? Ele já não tinha idade para aguentar essas notícias tão melancólicas. Enquanto chorava, eu fazia essas afirmações e perguntas, cada uma era uma lágrima ou duas. Olhei para Peter e o abracei, ele com certeza precisava de alguém, mesmo ainda sem olhar para mim, senti sua mão tocar a minha como se agradecesse pelo abraço.
Já depois de muito choro, vi novamente o médico sair do quarto de Eliza, me levantei com muitas lágrimas, mas sem soluçar, e fui até ele, eu precisava ser forte, forte a ponto de Peter erguer a cabeça.
– E-Eu posso vê-la?
– Pode, mas eu gostaria que o senhor Peter fosse primeiro, já que é da família.
– Ok. – me virei para Peter que se levantava, seus olhos estavam muito, muito vermelhos, tive novamente vontade de chorar.
– Eu queria que avisasse para o meu pai... – disse em um tom quase indescritível ao médico. Ele apenas afirmou com a cabeça, Peter olhou para mim. – Me espera aqui...?
– C-Claro, eu também quero falar com ela... – resmunguei já com vontade de chorar novamente. Novamente me sentei.
– Ah, Elizabeth Raynes, certo? – disse o médico voltando a falar, afirmei com a cabeça. – Bem... encontramos uma carta na mão de Eliza, pelo que parecia ela estava a enfeitando. Olhei o destinatário e vi que ela você...
Peguei a carta com medo, minhas mãos tremiam, guardei-a em uma bolsa, com certeza eu a leria em casa. Vi Peter entrar no quarto e fechar a porta, o esperei, e ao longo ainda soltei algumas lágrimas. Depois de mais ou menos meia hora, Peter saiu do quarto, mas já um pouco mais calmo. Tentei também ficar calma, mas era impossível.
– Eu... – tentei falar algo, mas as palavras não saíam.
– Pode entrar... – disse Peter com a cabeça baixa e os olhos extremamente vermelhos, mas sem choro algum.
– Obrigada... – respondi entrando no quarto e fechando a porta devagar.
Olhei novamente os arredores, estava com um ar terrível, não era por menos, Eliza havia morrido, mas só que aquilo não entrava de modo algum na minha cabeça. Com mais alguns passos me deparei com ela, era ela, Eliza, minha grande amiga que dormia eternamente.
Me sentei a cadeira que ficava a sua frente e voltei a chorar, as máquinas já desligadas davam um ar mais sombrio e catastrófico, olhei diretamente em seu rosto, estava calmo, tranquilo, como se estivesse descansando em paz, sorri fraco por pensar que ela já não estivesse sofrendo. Toquei sua mão e rezei um pouco, rezei por sua alma, tudo.
Alguns minutos se passaram, eu já havia parado de chorar, mas no fundo, tudo aquilo ainda era fúnebre demais, e não deixaria de ser por um bom tempo, eu teria que ter um tempo para realmente pensar que ela estava bem. Saí do quarto com minha bolsa em mãos, fiz uma breve reverência com a cabeça para Peter.
– E agora? – perguntei séria, mas sem vontade de chorar. – Como vai ficar?
– Já avisaram meu pai...
– Mas e aí? – arregalei os olhos.
– Ele ficou muito assustado, pegou um taxi e está vindo pra cá... – vi novas lágrimas se formarem em seus olhos, vê-lo naquele estava também me dava vontade de cair aos prantos.
– A-Acho melhor eu ir, não quero atrapalhar o momento em família de vocês.
– Não. Fica, por favor.
– Eu vou ficar do seu lado, Peter, pode apostar. – sorri fraco e segurei sua mão, que o mesmo apertou com força.
– Obrigado, Liza, nunca imaginei ter uma amiga como você.
– É... parece que foi ontem que nos conhecemos.
– Ah, é verdade. – sorriu amarelo, sei que ele ainda estava abalado.
– Nos veremos quando? Acho que você não vai depois de amanhã para a escola, vai?
– Sim, eu vou, o enterro de minha mãe será amanhã.
– Entendo, eu não perderei por nada...
– E mais uma coisa – me alertou antes que eu me despedisse. – Pode levar o David, me lembro que me contou que ele queria conhecê-la, ela me disse o mesmo.
Estranhei um pouco o que ele havia dito, mas no momento, provavelmente ele não estaria pensando no meu namoro, muito menos eu, apenas afirmei com a cabeça e lhe dei um abraço, logo, me despedi com passos lentos.
Fui até a entrada do hospital e mandei uma mensagem para David vir me buscar, enquanto ele não chegava me sentei no banco que havia na pracinha, lá me lembrei de tudo que convivi com Eliza, foi pouco, mas significou muito para mim.
Em 8 minutos David apareceu, fui até ele com tristeza, ele saiu do carro apressado e me deu um abraço, ele parecia preocupado.
– Ela morreu, David... – sussurrei ainda o abraçando.
– O-O quê?
– Ela não aguentou... – novamente lágrimas saíram de meus olhos.
– Meu Deus... meus pêsames, sinto que se eu tivesse a conhecido, eu ficaria bem mais chocado... – senti muita tristeza em sua voz.
– Acho que sei como deveria se sentir, e como... Vamos pra casa, quero ficar um pouco no quarto. – saí de seus braços e fui até o carro.
Ao chegarmos não falamos mais nada, encostei a cabeça no vidro do carro e voltamos. Uma noite tão boa que passei com David, e no outro dia uma notícia tão terrível como aquela...
Quando entramos no quarto, soltei a mão de David e fui para minha cama sem falar muito, eu precisava refletir um pouco, reconhecer a verdade que já me rodeava. Me joguei na cama e soltei minha bolsa no chão, sem perceber, deixei cair um tipo de papel, daí me lembrei da carta, tremi de pensar no que tinha escrito. Me levantei sorrateiramente da cama e peguei a carta, tranquei a porta do quarto para não ser interrompida e a abri. Ela não estava muito enfeitada, tinha apenas o remetente e o destinatário, a folha era realmente de carta. Comecei a ler.
Querida Eliza...
Não sei o que está fazendo agora ou até onde está, mas talvez eu já não estou tão bem de saúde como pensaria estar, mas tenho muita fé de que conseguirei minha alta e sairei daqui muito feliz, e claro, com as pessoas que mais amo.
Me lembro quando você veio até meu quarto para conversar, eu parecia dormir, não é? Mas eu a escutei, escutei tudo o que disse, sobre aquele seu namorado, fiquei muito sentida de você, ele era um cafajeste. Fiquei com muita vontade de acordar e lhe dar conselhos e mais conselhos, lembra-se quando eu lhe disse que adorava falar com jovens? Pois é, com você principalmente.
Você sabe que Peter também me procurou muito, e saiba que ele me contou muitas coisas sobre ele e... você. Não sei se ele sequer um dia te disse, mas ele gosta de você, não como amigo, me entende? Claro que sim, os jovens são bem sabidos, correto? Peter me contou que estava apaixonado por você, senti pena dele, até porque você mesma me disse que estava amando David, não é? Fico feliz por vocês dois, saiba que eu irei ao casamento de vocês quando eu sair daqui! Haha.
Podemos fazer várias coisas juntas, não é? Ir à praia, jantar na casa uma da outra, como amigas! Mesmo eu sendo velha, já fui jovem, e tenho grandes histórias com Robert, haha. Mas claro, sei que faz faculdade e não tem muito tempo, quem sabe nas suas férias? Eu adoraria!
E você, como vão indo as coisas? E o David está bem? Estou louca para conhecê-lo, traga-o para o hospital se eu não sair daqui, ok? Quero ter uma leve conversinha com ele!
A carta já deve está chegando ao final, e acho melhor contar o que eu acho... Tudo bem? Escutei os médicos dizerem algo que realmente me deixou assustada...
Eu... acho que não vou conseguir... Estou velha demais para poder fazer todas essas coisas, sabe? Eu tenho tido muitas recaídas de vez em quando... Os médicos que conversavam atrás da porta disseram que talvez eu não aguente, minhas quedas eram mais frequentes, e até eu suspeitava disso.
Como será que é a morte? E se eu morrer, Liza? Se isso acontecer, peço para que fique do lado de Robert e principalmente de Peter, ele vai se sentir só, eu sei que vai, ele têm alguns amigos na faculdade, mas você é especial pra ele, então, por favor... – Algumas lágrimas estavam apagando as palavras, senti vontade de chorar muito, mas muito mesmo. –... fique ao lado dele até que ele se acostume...
Deve estar pensando que estou tentando fazê-la chorar, mas é apenas a verdade, no começo dessa carta eu fui bem otimista, mas quem é que sabe o futuro? Uma cartomante, talvez? Não sei, apenas sei que não estou tão bem de saúde, agora mesmo estou tossindo muito e com dor de cabeça. Eu realmente estou com medo, mesmo sendo uma velha, estou com medo, aonde será que eu vou? Céu? Um outro mundo ou universo? Estou nervosa, todos os dias me pergunto como é a morta, é algo que eu não queria descobrir agora, pois tenho uma família e uma linda amiga...
Vou pensar positivo, ok? Vou pensar que nada disso está acontecendo e que eu passarei por isso muito bem! Então... nos veremos brevemente, eu espero.
Um beijo de sua velha.
Com aquela carta em mãos, as mesmas começaram a tremer e o choro veio alto, muito alto, solucei e gritei com um choro que eu nunca havia escutado de mim mesma. Era como uma criança que levava uma queda e implorava pela salvação da mãe, mas o pior era que aquilo que eu acabara de ler não tinha uma solução, e nem salvação...
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