Meu Novo Crepúsculo

13 O alento nas sombras


Meus músculos tensionados recebiam os jatos de água fervente como um abraço carinhoso; todavia, eu permaneci anestesiada por uma carga que transcendia o físico. Sob o ruído constante do chuveiro, minha mente mergulhava em um repasse frenético das últimas dezesseis horas.

O dia, em sua totalidade, havia sido um ciclo interminável de vigília silenciosa, disfarces e pavor. O ponto nevrálgico era que nenhuma dessas angústias fora externada ou debatida abertamente; Charlie, Bella e eu permanecemos confinados, coexistindo com desesperos particulares sem a coragem necessária para confrontar o problema de frente.

O peso do luto de papai se arrastou pela casa como uma névoa, enquanto minha irmã desempenhava um papel de falsa sanidade, tentando sufocar a tempestade obsessiva que já se tornara intrínseca a ela. Como uma corda esticada ao limite, tentei inutilmente preservar o equilíbrio e a ordem, ainda que o pânico pulsasse em minhas veias. Eu temia pela segurança de cada habitante de Forks, mas minha preocupação se voltava especialmente para Charlie, Isabella e Jacob — sendo este último minha maior fonte de inquietude, por atuar como peça ativa em um conflito que eu ainda não compreendia plenamente.

Icetran havia impedido meu pai de avançar rumo à escuridão, mas a que custo? O ambiente agora exalava uma hostilidade muda; o rancor nos olhos de Bella era uma nova fissura no vidro que eu lutava para manter íntegro. E, acima de tudo, existia o medo. O odor acre vindo da floresta, o sinal de alerta da matilha e a visão de Jacob — um guerreiro exaurido sob a copa de um cedro — tornavam nítido que o perigo deixara de ser uma hipótese distante. Era um cerco.

Desliguei o registro e, no mesmo instante, fui atingida pelo silêncio ensurdecedor daquela atmosfera familiar.

Tão logo saí do box, me sequei e me envolvi em um roupão espesso, denso como o ar que pairava sobre nós. Nem aquela camada de tecido foi capaz de mitigar o frio que se instalara em minha alma. Caminhei pelo corredor nas pontas dos pés, sem qualquer desejo de sinalizar minha movimentação. Após o jantar, meu pai e Isabella haviam se retirado, e eu percebia suas presenças apenas pelos ruídos abafados que atravessavam as paredes. A chuva agora castigava o telhado, consolidando o clima que, àquela altura, já era habitual.

Assim que girei a maçaneta e entrei em meu quarto, a fragrância de pinho e terra úmida, acompanhada por um calor reconfortante, preencheu meus pulmões antes mesmo que meus olhos captassem a silhueta robusta sentada no parapeito da janela.

— Jake? — sussurrei, sentindo o peito descomprimir diante de sua figura. O alívio foi tão agudo que minhas pernas fraquejaram.

Jacob emergiu das sombras com agilidade felina. A luz lunar que filtrava pela vidraça contornava seus ombros largos e sublinhava sua fisionomia abatida. Mesmo com o evidente desgaste físico e mental, ele não hesitou em esboçar um sorriso generoso para mim.

— Eu não quis partir sem te ver — murmurou, a voz vibrando na penumbra. — Passei o dia observando vocês. A energia aqui dentro estava sufocante, mesmo para quem vigiava do lado de fora.

Fui atingida pelo calor dele no instante em que me lancei em seus braços. As mãos quentes e ásperas de Jacob circundaram minhas costas em um abraço protetor; seu toque era a única âncora que me mantinha presa à realidade.

— Você não saiu dos meus pensamentos em nenhum segundo, Jake — confidenciei, ocultando o rosto em seu peito. — Eu estava preocupada. Por algum motivo, consegui captar cada som vindo da floresta.

— O seu sentido mais aguçado é a nossa ligação, meu amor — o tom de sua voz carregava uma reverência quase religiosa. — Você me ouve, e eu sou incapaz de me afastar diante da menor possibilidade de você estar em perigo.

Me aninhei ainda mais em seu abraço, inspirando o cheiro de vida que emanava dele. Lembrar a força da nossa união parecia ser, naquele momento, a única certeza sólida e segura em meio ao caos.

Agarrada em suas mãos, conduzi Jacob até minha cama onde, em um movimento rápido e fluido, ele se sentou contra a cabeceira e me puxou para que eu deitasse entre as suas pernas. O peso do seu corpo e a firmeza do seu abraço criavam uma espécie de santuário, onde o mundo lá fora não podia me alcançar.

Permanecemos assim por alguns minutos, aproveitando a rara quietude. O único som era o da nossa respiração compassada e o ritmo forte do coração dele contra minhas costas. Era um alento tão necessário que eu teria ficado ali para sempre, mas a dúvida ainda queimava em minha mente.

Ainda em seus braços, quebrei o silêncio.

— O que era aquilo, Jake? Aquela aparição pela manhã… O vulto na varanda.

O corpo dele tensionou sob o meu ao mesmo tempo em que um longo suspiro escapou pelos seus lábios. Mesmo sem visualizar seu rosto, eu sabia que a ruga entre as sobrancelhas agora estava lá.

— Como já suspeitávamos, são vampiros nômades. — Sua explicação era baixa e cautelosa. — Identificamos três rastros diferentes, mas, até agora, só vimos de fato um deles.

Jacob fez uma pequena pausa.

— Por alguma razão, eles estão indo e vindo entre Forks e as cidades vizinhas. Sam acredita que a presença residual dos Cullen e, claro, nossa existência aqui, possa estar servindo de chamariz.

Inclinei levemente a cabeça, buscando por seu rosto.

— Por que ele esteve tão perto de casa?

— O sanguessuga que rompeu o perímetro, aparentemente, é o líder deles. Ele solo chegou aqui porque estava desesperado, fugindo de nós. Encurralamos ele perto do rio e ele usou a casa de vocês como uma rota de fuga. Estava tão assustado que sequer se importou em ser visto. Depois disso, ele se embrenhou na mata fechada e seguiu em direção a Seattle.

O olhar de Jake estava vazio, parado num ponto fixo qualquer do quarto.

— Então não foi un ataque planejado? — indaguei.

— Não. Mas eles estão testando limites. — Ele apertou o abraço, como se tentasse me proteger do que ele próprio narrava. — Me preocupo se eles entenderão o rastro do Cullen e o meu como um desafio. Não queremos chamar a atenção para a sua casa.

O calafrio na espinha quase gelava meus ossos. De modo geral, Jacob sempre me poupava ao máximo, alardeando apenas o que era estritamente importante. Se ele próprio estava dando luz à situação, o perigo era real.

— O que faremos sobre isso?

— Sam vai conversar com Carlisle, explicar a situação e talvez unir forças. — Sua voz não carregava uma única pitada de ânimo. — Em primeira instância, vamos entender o que eles sabem e pedir para que Edward se afaste da casa.

Meu peito falhou uma batida. Em uma constatação óbvia, se a presença de Edward e Jacob representava perigo e o primeiro precisava se afastar, meu namorado acabaria seguindo pelo mesmo caminho.

— Você também vai ficar longe de mim? — senti as lágrimas alcançando a borda da íris.

Jake depositou um beijo terno no topo da minha cabeça e me puxou mais em direção a si.

— Nem se eu quisesse — sussurrou. — Sam achou melhor que os mais experientes assumissem a ronda por aqui. Mas o ideal seria que vocês pudessem ficar na reserva conosco… para maior segurança e para a minha tranquilidade.

— E qual seria a justificativa para o Charlie?

— Ainda não sei, amor… Vou falar com meu pai quando amanhecer, ele conhece o xerife como ninguém.

Naquele momento, o calor que irradiava da pele de Jake ia além da sensação de conforto que me proporcionava; de alguma forma, eu conseguia sentir o peso de sua hesitação. Ele ajeitou minha cabeça em seu peito e acariciou meus cabelos com uma lentidão pensativa antes de começar a falar.

— E como ela está? Isabella — perguntou, a voz saindo mais grave e carregada. — Foi possível perceber, mesmo do lado de fora, que vocês estavam em conflito.

A exaustão física me atingiu novamente apenas por recordar a cena.

— Ela está vivendo um transe perigoso, Jake — engoli em seco, sentindo o nó na garganta se apertar. — Desde o acidente com a van, Bella acredita que se colocar em perigo é a forma mais fácil de chamar a atenção de Edward. Ela queria se atirar na floresta, tentou convencer o papai a ir lá para fora… Não consigo entender o que está acontecendo com ela. Isso que ela tem com o Cullen é doentio.

Eu pouco conhecia sobre a natureza dos vampiros e, tampouco, sabia sobre a forma deles de se relacionarem para além do desejo por sangue; ainda assim, minha irmã parecia quase enfeitiçada pela criatura.

— Bella nunca quis vir para Forks, não de verdade — desabafei, sentindo o peito apertar. — Ela encontrou nessa obsessão um alento. Minha irmã não está psicologicamente bem e, provavelmente, na cabeça dela, Edward é algum tipo de salvação… um herói.

Jacob não respondeu de imediato. Senti seus dedos traçarem círculos lentos no meu braço, mas o movimento era mecânico, sinal de que ele estava processando algo difícil de dizer.

— Amor, a situação não pode continuar como está — ele parou o movimento dos dedos e me apertou um pouco mais contra si. — Ela está representando um perigo para si própria e também para vocês. Talvez seja melhor contarmos para Bella a verdade.

Inclinei a cabeça para trás, tentando ler o que seus olhos escondiam na penumbra.

— Sobre os lobos e os nômades?

— Não apenas sobre isso — havia uma crueza nova em sua voz. — Seria prudente que ela soubesse sobre Edward. Sobre o que ele e a família dele realmente são. Ela criou uma imagem santificada de todos os Cullen, Ness. Bella precisa saber que ele é o vilão; se ela for capaz de entender a natureza desses sanguessugas, tenho certeza de que essa obsessão cai por terra.

A observação de Jacob carregava uma força racional, ainda que ele não considerasse todas as variáveis emocionais.

— O estado mental de Isabella me preocupa, Jake. Tenho medo de como ela vai receber todas essas informações — o pavor consumia meu peito. — Pense em uma pessoa emocionalmente fragilizada descobrindo que o seu mundo de fantasias é real. Não consigo ver como isso poderia melhorar o estado mental dela.

— Ela vai sair do estado de endeusamento e passar a temer, como deve ser — ele rebateu, os olhos fixos em mim, brilhando na escuridão do quarto.

— Nós estaríamos atirando ela em um novo tipo de choque. Ela viveria em medo constante.

Suspirei longamente, imaginando a maior quantidade de cenários possíveis. Por um momento, a ideia de mandar Isabella de volta para Phoenix me pareceu a mais adequada, mas tão logo o pensamento surgiu, ele desapareceu. Eu teria que sair de Forks e acompanhá-la em uma nova mudança, tendo em vista a personalidade instável de Renée. Eu não podia deixá-la sozinha, mas também não podia suportar a ideia de deixar Jacob.

Voltamos a ficar em silêncio; cada um perdido entre as próprias ideias, enquanto o peso do segredo parecia ocupar cada centímetro vago do quarto.

Jacob parecia ter percebido que havíamos atingido o limite lógico do que era possível resolver naquela noite quando seu corpo relaxou abaixo de mim.

— Vamos deixar isso para depois. — Sua fala seguia o tom de murmúrio adotado para não sermos pegos. — Não é como se fôssemos capazes de dar o destino correto para a situação agora. Eu quero aproveitar esse tempo com você, Renesmee, quero falar sobre o que não nos machuca e fingir que só existe nós dois nessa cidade.

Rotacionei meu corpo para estarmos frente a frente; assim como ele, eu ansiava por me prender em nossa bolha onde nada era capaz de nos atingir, onde éramos quase normais, sem lobos e vampiros, apenas nós.

No fundo dos olhos cansados de Jacob, entre o brilho natural e a escuridão do quarto, ele me encarava com a costumeira adoração. O amor fica evidente mesmo quando não era posto em palavras.

— Eu senti tanto a sua falta, amor. — Confessou ele, a voz vibrando mesmo com o tom oitavas abaixo. — No início, eu achei que era apenas o instinto de proteção, mas é mais do que isso. Mesmo na floresta, em meio ao barulho da chuva e dos outros lobos, eu conseguia isolar o som da sua respiração aqui dentro. Eu sinto quando você está agitada, Ness. É como se meu próprio corpo respondesse ao seu ritmo.

Toquei seu rosto, sentindo a textura da sua pele contra a palma da minha mão.

— Eu também sinto você, Jake. Hoje, quando o vulto passou pela janela, eu não precisei ver para saber que você estava perto. Meu coração simplesmente reconheceu o seu. É como se houvesse um fio nos ligando, independente da distância.

Jacob sorriu; um sorriso genuíno que, pela primeira vez naquelas horas, atingia seus olhos cansados. Ele me puxou para um beijo — o primeiro daquela noite —, e o contato de nossas bocas me fez perceber o quanto eu ansiava por aquele toque. Era como se apenas naquele instante eu pudesse, finalmente, respirar. Suas mãos me alcançavam com uma firmeza que transmitia segurança, me envolvendo em um aperto que, embora decidido, transbordava gentileza.

Enquanto nossas respirações se misturavam, o peso dos problemas com os quais teríamos que lidar ficava cada vez mais distante. Jake mapeava meu rosto com o polegar, como se estivesse memorizando cada detalhe meu naquela penumbra.

Ele me apertou um pouco mais, colando nossas testas enquanto recuperávamos o fôlego. Ele parecia relutante em se afastar, como se soubesse que, uma vez que cruzasse aquela janela novamente, o peso da matilha e dos nômades cairia sobre seus ombros outra vez.

— Amor… — Ele sussurrou, a voz carregada de uma hesitação cuidadosa. — Eu não queria te deixar sozinha esta noite. Sei que os rapazes estão fazendo ronda lá fora, mas isso não me deixa menos aflito.

Ele fez uma pausa, buscando meus olhos na penumbra antes de continuar:

— Se eu prometer ser silencioso e sair antes do primeiro sinal de luz… você me deixa passar a noite com você? Só para eu saber que você está dormindo e que nada vai romper esse perímetro enquanto eu estiver aqui.

Um alívio imediato inundou meu peito. A ideia de encarar o restante daquela madrugada sozinha, ouvindo os ruídos da casa e os delírios silenciosos de Bella, era sufocante. Ter Jacob ali, como uma presença constante e quente ao meu lado, era tudo o que eu realmente precisava.

— Por favor — respondi, quase em um suspiro. — Fica.

Jacob não precisou de um segundo convite. Ele se acomodou sob os lençóis comigo, puxando-me para o seu abraço e transformando o próprio corpo em uma barreira entre mim e o resto do mundo. Ali, ouvindo o pulsar calmo do seu coração, eu finalmente soube que conseguiria dormir.

Em contraponto ao meu estado prévio de alerta, aquela foi uma noite sem sonhos. A presença constante de Jacob ao meu lado, seu calor febril e o pulsar firme do seu coração serviam como um escudo intransponível. Fosse pelo cansaço acumulado ou pela segurança de sua presença, minha mente desligou por completo.

Meu primeiro despertar aconteceu quando a claridade pálida e cinzenta, tão característica de Forks, começou a romper a escuridão do quarto, filtrando-se timidamente pelas frestas da cortina. O ambiente ainda estava imerso em sombras, mas o ar já perdia o peso denso da madrugada.

— Sei que o sol está quase nascendo e que o Charlie pode acordar a qualquer minuto... mas eu não consigo simplesmente levantar e ir embora — murmurou, o hálito quente contrastando com o frescor que começava a invadir o quarto. Ele escondeu o rosto nos meus cabelos, apertando-me contra o peito como se quisesse congelar o tempo. — Só mais cinco minutos, Ness. O resto do mundo pode esperar um pouco.

Inclinei o rosto em direção ao seu peito, ouvindo as batidas aceleradas do coração dele, que misturavam a adrenalina do risco com a doçura daquele momento. Minhas mãos se prenderam em sua camiseta, compartilhando do mesmo desejo de atrasar o amanhecer. A pele dele continuava quente, o único ponto de calor em uma manhã gelada que se desenhava lá fora.

Permanecemos abraçados em silêncio por um breve período, deixando que o carinho nos abastecesse para o dia que viria. Quando o rádio da viatura de Charlie emitiu o primeiro chiado fraco no andar de baixo, indicando que meu pai havia acordado, Jacob depositou um beijo demorado e macio em meus lábios — um gosto de despedida que fez meu peito apertar de antemão.

— Agora eu realmente preciso ir — sussurrou, afastando-se com relutância e me olhando nos olhos. — Sam já deve estar me esperando na linha do tratado. Vou falar com meu pai sobre o Charlie assim que o dia clarear. Fique bem, Ness. Qualquer coisa, você sabe que eu vou te ouvir.

Assenti silenciosamente, sentindo o peso da realidade retornar com a iminência da solidão.

Jacob se levantou e, com a agilidade felina que eu já conhecia, cruzou o quarto até a janela. Ele destrancou o vidro com um clique quase imperceptível, olhou para a floresta uma última vez para garantir que o perímetro estava limpo e, em um movimento fluido, desapareceu na névoa da manhã, fechando a vidraça atrás de si.

Deitada ali, encarando o teto e sentindo o lado da cama onde ele estava esfriar gradualmente, o silêncio da casa voltou a me sufocar. Os passos pesados de Charlie começaram a ecoar no corredor, e eu soube que o dia tenso estava apenas começando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.