Notas iniciais
Boa tarde, pessoal! Como vocês estão? Por aqui, o clima já é de total preparação para o Natal. Estou repostando o capítulo 4 e queria pedir desculpas pelo erro técnico de antes. Na primeira versão, apenas o parágrafo inicial aparecia para vocês; como para mim a visualização estava normal, demorei a perceber. Muito obrigada por terem me avisado! Se notarem qualquer outro erro ou bug, por favor, me deem um toque. Agradeço de coração pela compreensão de todos. 🎄✨

No fim da tarde de sexta-feira, pela primeira vez desde que havíamos chegado a Forks, a chuva nos concedeu uma trégua. O céu ainda preservava sua habitual paleta acinzentada, mas o tom agora era mais suave, como se a opressão das nuvens tivesse se dissipado em uma névoa fina e luminosa. Bella pareceu revigorada pela queda da umidade; havia uma leveza inédita em seus gestos, embora tal animação não fosse o suficiente para convencê-la a me acompanhar até a Reserva.

Deixei a picape sob os cuidados de minha irmã e segui meu próprio rumo, pegando carona com os gêmeos. Isabella ainda estava manobrando nosso carro quando o Silverado de Alec já ganhava a estrada principal, deixando para trás o asfalto úmido do estacionamento da escola.

Redescobrir o caminho para La Push foi uma grata surpresa; era como se um cenário à parte tivesse sido esculpido nos limites de Forks. À medida que avançávamos, o fundo esverdeado e denso da floresta dava lugar a uma diversidade de tons terrosos e marrons que, mesmo com os termômetros marcando próximos dos cinco graus, remetiam-me a uma reconfortante sensação de calor. Eu estivera na Reserva com Charlie uma única vez, aos cinco anos, e as memórias daquela época eram pouco mais que borrões de cores e cheiro de mar.

A viagem foi mais curta do que eu gostaria. Alec preencheu cada segundo com um novo assunto, navegando por temas que iam de motores a histórias locais, enquanto Jane mantinha os olhos observadores nas estações de rádio, trocando-as com uma frequência rítmica. Quando o carro finalmente parou, estávamos diante de uma propriedade robusta que lembrava um chalé suíço, posicionada estrategicamente em uma encosta privilegiada que parecia vigiar o oceano.

Por dentro, a casa era ainda mais impressionante: uma arquitetura rústica fundida a um toque inesperado de elegância. O cheiro de madeira tratada e especiarias fazia-me sentir como se tivesse caminhado para dentro de um cenário de filme.

— Seja bem-vinda, Renesmee. — Jane, pela primeira vez desde que a conheci, deixou de lado sua reserva habitual e sorriu de forma genuína. Ela parecia verdadeiramente satisfeita por ter companhia. — Fique à vontade, por favor. Aceita um chocolate quente?

Assenti com um movimento de cabeça, retribuindo o sorriso, enquanto Alec indicava que eu deveria me acomodar no grande sofá branco que dominava o centro da sala.

— Você pode vir aqui sempre que quiser — informou o rapaz, cordialmente. — A esta hora, nossos pais ainda estão no hospital, mas eles voltam a tempo para o jantar, caso queira ficar.

— Hoje minha visita será rápida, mas prometo voltar em outra ocasião — respondi, sentindo o conforto do ambiente desarmar minha guarda. — Combinei de encontrar o Jacob, lembra?

Alec arqueou uma sobrinha, com um brilho travesso nos olhos.

— Você e ele estão ficando ou algo assim?

— As garotas da Reserva se interessam muito pelo Black — confidenciou Jane, dando um gole em sua xícara fumegante enquanto me observava por cima da borda com uma curiosidade astuta. — Há uns anos, ele era apenas um garoto franzino e desajeitado. Então, de repente, ele começou a ficar forte, alto... e barulhento. Como se tivesse crescido para caber em uma personalidade que ele nem sabia que tinha.

— É o sangue Quileute — Alec completou, jogando-se em uma poltrona lateral. — Alguns deles amadurecem de um jeito mais intenso. Mas o Jacob... ele parece estar sempre operando em uma voltagem mais alta que os outros.

Embora eu não guardasse registros nítidos da fisionomia anterior de Jacob, a imagem do rapaz que preenchera a nossa cozinha e a sala de estar algumas noites antes permanecia vívida em minha mente. Os ombros largos que pareciam testar a resistência das costuras de sua roupa, o calor reconfortante que emanava de sua pele e os olhos de um negro profundo, quase hipnotizantes, eram traços que o impediam de passar despercebido em qualquer ambiente. Através da confidência de Jane, percebi, com um sobressalto de consciência, que eu não era a única espectadora impressionada com os detalhes de Jacob Black.

Decidi não aprofundar o assunto, preferindo recolher minhas próprias impressões em um canto reservado da mente. Enquanto finalizava o chocolate quente, mudei o curso da conversa para temas mais triviais, como a carga de lições de casa e a rotina da escola. Alec e Jane demonstraram certa apreensão com o novo volume de matérias, o que me levou a sugerir que formássemos um grupo de estudos durante os intervalos do almoço — uma proposta que pareceu selar nossa aliança naquele ambiente acadêmico hostil.

Por volta das cinco e quinze, decidi que era hora de partir. Peguei o celular e redigi uma mensagem para Jacob. Eu havia conseguido seu número com Charlie dois dias antes e, desde então, nossas interações haviam crescido em um volume considerável, criando uma familiaridade digital que eu ansiava traduzir para o mundo real.

“Oi, Jake. Estou na casa dos gêmeos. Consegue vir me buscar ou a Harley ainda está ganhando de você?”

A resposta vibrou em minhas mãos quase instantaneamente. Jacob, com sua habitual autoconfiança, contou vantagem sobre nunca sofrer com uma montagem e avisou que estaria ali em cinco minutos. Eu sequer precisei fornecer o endereço; na Reserva, as coordenadas eram traçadas por laços de sangue e vizinhança, e todos sabiam exatamente onde cada um se encontrava.

Jacob foi cirúrgico em sua estimativa. Exatos cinco minutos após nossa troca de mensagens, o ronco ruidoso de um motor potente reverberou contra as paredes de madeira do chalé, estilhaçando a calmaria do ambiente e contrastando bruscamente com a sofisticação rústica do lugar. Aproximei-me da vidraça a tempo de ver a caminhonete escura de Billy estacionar de forma abrupta, levantando uma cortina de poeira e cascalho. Jacob saltou do veículo com uma vitalidade contagiante; vestia apenas uma camiseta fina de algodão cinza — que parecia justa demais para seu porte — e jeans surrados, com uma mancha de óleo persistente perto do joelho. Ao me ver, seu rosto se iluminou em um sorriso.

Me despedi dos gêmeos com um aceno apressado, balbuciando palavras de gratidão pela hospitalidade, e desci os degraus da varanda aos saltos. Assim que me aproximei, o perfume de Jacob me envolveu; aquela mistura amadeirada e quente que eu já começava a considerar familiar. Depositei um beijo rápido em sua bochecha antes de subir no banco do carona. O interior da cabine parecia ter encolhido diante da presença dele; seu ombro estava a meros centímetros do meu e a energia que ele emanava parecia consumir todo o oxigênio disponível, substituindo-o por um calor febril.

— E então, como foi a primeira semana? — ele perguntou, engatando a marcha à ré com uma facilidade bruta. — Vejo que sobreviveu sem o sol de Phoenix.

Soltei uma risada, sentindo-me estranhamente leve.

— Tudo dentro do esperado — dei de ombros, observando seu perfil enquanto deixávamos a propriedade. — Bella e eu já não somos a novidade do momento, então as atenções finalmente se dissiparam. A rotina com Charlie é mais simples do que com Renée. Mamãe sempre foi muito volátil, um turbilhão de emoções; já o papai é uma constante, e esse silêncio dele me acalma.

— E a Bella? — Jacob questionou, desviando o olhar da estrada por um breve segundo para me encarar.

— Ela parecia mais animada hoje — respondi, fazendo um inventário mental do comportamento dela. — Acho que a trégua da chuva foi um alento. Mas Isabella ainda vive em seu próprio casulo, processando as mudanças no ritmo dela. O que aconteceu com Edward no primeiro dia... acho que foi um golpe severo na autoestima dela.

— Edward Cullen? — Os dedos de Jacob tencionaram instantaneamente ao redor do volante, os nós dos dedos ficando brancos. — O que exatamente rolou entre eles?

No mesmo instante, senti um nó na boca do estômago. Percebi que o incidente do primeiro dia era algo íntimo que Bella havia me confidenciado em um momento de vulnerabilidade; mencionar aquilo fora um deslize. O conforto da companhia de Jacob era tão genuíno que eu simplesmente parara de filtrar as informações.

— Bom... para ser sincera, não sei se é certo falar sobre isso sem a autorização dela — murmurei, hesitante.

— Prometo guardar segredo, Renesmee — ele insistiu, sua voz ganhando um tom mais sério, quase urgente.

Suspirei fundo, rendendo-me à confiança instintiva que ele me despertava.

— Eles são parceiros na aula de Biologia, toda segunda, quarta e sexta. No primeiro dia, no refeitório, os olhares foram estranhos. Bella parecia hipnotizada, e ele... ele parecia querer apertar o pescoço dela. Na aula, ela disse que ele a encarava com uma fúria contida, sem dizer uma única palavra. Ao final do horário, ela o viu na coordenação tentando trocar de turma desesperadamente e sentiu que ela era o problema. Depois disso, nem ele, nem os irmãos voltaram a aparecer. Talvez não haja ligação, mas para a Bella, a culpa é toda dela.

— Foi por isso que você disse aquelas coisas na outra noite? — Jake mordia o lábio inferior, parecendo absorto em pensamentos sombrios. — Sobre ter uma sensação ruim com a presença deles?

— Para ser honesta, Jake... aquele sentimento veio antes mesmo de a Bella me contar o que houve. Foi algo instintivo.

Jacob e eu mergulhamos em um silêncio reflexivo, interrompido apenas pelo ronco rítmico do motor. Eu me peguei repassando mentalmente os detalhes que colhera sobre os Cullen e a conversa tensa que tivera com Isabella no mercado. Jake parecia processar as informações com seriedade, talvez traçando uma ponte entre os meus relatos e as convicções de seu pai; havia uma rigidez inédita em seus ombros. Quando finalmente estacionamos, ele desligou o motor e, por um instante, o único som audível foi o estalar do metal esfriando sob o capô, um eco solitário na quietude da Reserva.

— Seja bem-vinda — disse ele, e sua voz recobrou o tom animado, como se ele fizesse um esforço consciente para dissipar a tensão anterior.

A residência dos Black era uma construção compacta de madeira, cujas janelas brancas criavam um contraste charmoso com o vermelho vivo das paredes. Era exatamente o tipo de refúgio que se espera encontrar em um lugar cercado por uma vegetação tão exuberante. Visualmente aconchegante, eu conseguia imaginá-la decorada para o Natal, com luzes coloridas e guirlandas destacando-se contra a névoa. A oficina de Jake ficava alguns metros à direita: um grande galpão em tons similares aos do imóvel, coberto por telhas acrílicas que deixavam transparecer a luz cinzenta do fim de tarde. O interior tinha um cheiro honesto de solvente e graxa, e o espaço era preenchido por diversas carcaças metálicas que pareciam aguardar, pacientemente, para retornar à vida.

Antes de iniciarmos os trabalhos, lembrei-me de enviar uma mensagem para Charlie.

“Oi, pai. Só passando para lembrar que estou em La Push. Jake vai me levar para casa mais tarde. Deixei comida pronta para você e a Bella, só precisa aquecer. Qualquer coisa, me liga.”

Jacob estava radiante ao me mostrar seus projetos, descrevendo cada peça com o entusiasmo de um pai orgulhoso. Tecnicamente, eu não era tão perspicaz quanto ele; eu era apenas uma entusiasta que conhecia a teoria, enquanto ele dominava a prática com uma naturalidade invejável. Ainda assim, senti que formaríamos uma boa dupla.

— Você tem um espaço incrível — comentei, acomodando-me em um banquinho de madeira ao lado dele. — Pensa em transformar isso em uma profissão oficial quando a escola acabar? Cursar Engenharia Mecânica, ou algo assim?

— Tenho pensado muito sobre a faculdade — confessou ele, concentrado na limpeza de um cabo de vela. — Eu seria a primeira pessoa da família a conquistar um diploma. Sei que meu pai ficaria orgulhoso. Rebecca até iniciou o curso, mas parou quando engravidou. Acredito que a Universidade de Seattle seja minha melhor opção; ficar longe do Billy não está nos meus planos agora.

Ele me lançou um meio sorriso, carregado de uma maturidade precoce que me impressionou.

— E você? Já tem planos para quando terminar a escola, Renesmee?

A vida pós-ensino médio era uma pauta constante em minha mente. Em Phoenix, meus planos giravam em torno das universidades do Arizona; eu sempre gostei de criar raízes. No fundo, Renée esperava que eu mantivesse o roteiro inicial e, assim como Bella prometera fazer, retornasse para casa. Mas, com essa nova vida sendo construída em Forks, percebi que meus desejos precisavam ser revisitados.

— Tenho cogitado não sair de Washington — admiti, e meu pé começou a bater freneticamente contra o chão. Era a primeira vez que eu externalizava aquele pensamento, e ouvi-lo em voz alta o tornava perigosamente real. — Mas ainda não sei exatamente qual carreira seguir.

Seus olhos negros me fitaram com um brilho intenso que não fui capaz de identificar, mas tive a sensação de que partilhávamos um segredo feliz. Um silêncio confortável tomou conta da oficina e, pela hora seguinte, trabalhamos com afinco nas motos. Dividir espaço com Jacob era tão natural e fácil quanto respirar.

Diferente de Renée, Charlie não estabelecera um toque de recolher rígido para mim ou para Isabella. Contudo, por pura força de hábito e um senso intrínseco de disciplina, eu acreditava que retornar após as vinte horas seria uma indelicadeza com a hospitalidade de meu pai. Por isso, a cada intervalo de tempo, eu consultava o relógio para certificar-me de que permanecia dentro do limite do razoável. Jacob notava o gesto, seus olhos acompanhando o movimento do meu pulso, mas optava pelo silêncio, respeitando meu espaço.

Por volta das dezoito e trinta, Billy surgiu na soleira da oficina. Era a primeira vez que eu o via naquela tarde, e sua presença parecia preencher o galpão com uma gravidade que contrastava com a leveza do nosso trabalho.

— Ei, Billy! — saudei, sentindo uma animação genuína. Era impossível não me sentir acolhida em sua presença; havia algo nele que emanava estabilidade. — Como o senhor está?

— Renesmee, é muito bom tê-la por aqui — respondeu ele, e as rugas nos cantos de seus olhos se aprofundaram em um sorriso caloroso. — Espero que Jacob a esteja tratando com a cortesia que merece.

— Seu filho tem sido um excelente anfitrião, fique tranquilo — brinquei, trocando um olhar cúmplice com Jake.

— E ele já a convidou para a fogueira de hoje à noite? — O questionamento foi direcionado a Jacob, mas os olhos de Billy permaneciam fixos nos meus, conferindo ao convite um peso de formalidade.

— Para ser sincero, achei que não pudesse — confessou Jake, mordendo o lábio inferior. Percebi, então, que aquele era um tique recorrente: uma manifestação física de sua ansiedade sob pressão. — Pensei que fosse necessária a permissão expressa de um ancião.

Billy observou-me em um silêncio ponderador, tão intenso que cheguei a acreditar que fosse capaz de ler minha alma. Eu compreendia a importância da cultura ancestral Quileute, mas a forma como ele pontuou o assunto carregava uma carga extra. Não soava como um evento social, mas como um rito de passagem.

— Jacob — a voz de Billy soou carregada de autoridade, reverberando pela oficina. — Fico satisfeito que conheça as leis; elas existem para a proteção de nosso povo, isso é um fato. Mas não afaste aqueles cujos sentidos são tão apurados que se diferenciam dos demais. Renesmee tem se provado uma excelente observadora desde que chegou.

Ele voltou-se para mim, e a intensidade de sua expressão suavizou-se em algo que beirava a reverência.

— Você é filha de Charlie Swan, um homem honrado que sempre respeitou este chão. Você tem olhos que buscam a verdade, menina, e o conselho jamais fecharia as portas para alguém disposto a ouvir. Você tem minha permissão para sentar-se à fogueira hoje à noite.

Um calafrio percorreu minha espinha, mas não era provocado pelo clima. Era a sensação eletrizante de ser reconhecida por algo maior. Jacob soltou a respiração que parecia estar prendendo, e a tensão em seus ombros dissipou-se, substituída por um brilho de orgulho que ele não tentou esconder. O convite era solene demais para ser recusado.

— Obrigada, Billy — agradeci, e o sentimento era genuíno. — Eu só preciso verificar se está tudo bem para o meu pai.

— Pode deixar que eu me entendo com aquele velho — Billy afirmou, com a certeza de quem conhecia Charlie há décadas. — E não me agradeça, Renesmee. Apenas mantenha-se aquecida; o vento em First Beach não costuma ser gentil com garotas do deserto.

Ele manobrou a cadeira de rodas para fora, deixando para trás um rastro que ia além das marcas de pneus no chão batido. O clima havia mudado; eu sentia como se um pacto tivesse sido selado. Agora, eu fazia parte de um compromisso com a ancestralidade local. Jacob me encarava fixamente, com a expressão de quem espera que sua companhia fuja a qualquer momento. Abri um sorriso para tranquilizá-lo.

— Talvez eu precise de um casaco seu emprestado — comentei, tentando dissipar a densidade do ar. — Acho que não tenho aquecimento suficiente para o Alasca de hoje.

Ele retribuiu o sorriso, achando graça da sugestão — afinal, qualquer peça do seu vestuário me engoliria por completo. Ainda assim, estendeu a palma da mão esquerda em minha direção, um convite mudo que aceitei sem hesitar. Caminhamos juntos para a residência dos Black, onde o interior revelou-se tão acolhedor quanto a fachada prometia. Acomodei-me na cozinha enquanto aguardava Jacob finalizar o banho e trocar-se; Billy já não estava mais lá, deixando-nos com o silêncio confortável daquela espera.

Minutos mais tarde, Jacob surgiu no cômodo, preenchendo o espaço com sua presença imponente. Ele vestia um casaco de moletom em um tom de vermelho acastanhado que parecia recém-lavado; o perfume suave de amaciante era perceptível mesmo a certa distância. Em minha direção, ele estendeu uma segunda peça: uma jaqueta robusta, com forros extras, que, ao contrário da dele, carregava o perfume amadeirado e característico de Jacob.

— Vai ficar enorme — Jake comentou, deixando escapar uma risada baixa — mas garanto que vai te aquecer.

De fato, as mangas ultrapassavam minhas mãos e a barra da peça alcançava a metade das minhas coxas. O isolamento térmico trouxe-me uma sensação imediata de alívio e proteção contra as temperaturas que, segundo após segundo, declinavam ainda mais.

O trajeto entre a residência dos Black e a First Beach consistia em uma trilha de chão batido, serpenteada por árvores monumentais que pareciam tocar o céu. La Push destoava de Forks até mesmo na sonoridade da floresta; ali, o rugido das ondas quebrando ao longe abafava qualquer estalo da mata. Jacob caminhava ao meu lado adotando uma postura alerta, como quem mapeia cada sinal de perigo oculto nas sombras. Estávamos a uma distância curta um do outro e senti-me grata por ainda conseguir perceber seu calor habitual, persistente mesmo através das diversas camadas de roupa.

À medida que a trilha se abria para a costa, Jake envolveu meus ombros com o braço, guiando-me com cuidado pelo trecho final da descida. Por trás da vegetação densa, a extensa faixa de areia escura finalmente se revelou, causando um impacto visual absoluto — como se dois mundos distintos colidissem naquele horizonte.

No centro da praia, uma enorme pira de troncos antigos queimava com vigor; as labaredas alaranjadas pareciam dançar em uma coreografia selvagem em resposta ao mar revolto. Ao redor do fogo, um grupo considerável de pessoas já se posicionava; o único rosto familiar era o de Billy. Havia ali rapazes com uma estrutura física similar à de Jake, exibindo a mesma musculatura densa e o tom de pele avermelhado. Todos possuíam uma beleza única e magnética, mas, em meus olhos, nenhum se equiparava a ele. Os homens mais velhos ocupavam o centro do círculo, enquanto os jovens e as mulheres se distribuíam ao redor. Quando a distância entre nós e a fogueira diminuiu, os olhares se voltaram em nossa direção; não com a curiosidade invasiva que experimentei em meu primeiro dia de aula, mas com um silencioso senso de reconhecimento.

Jacob conduziu-me para um espaço entre um rapaz de estatura impressionante, que aparentava ter cerca de vinte anos, e uma moça com uma cicatriz profunda perto do olho esquerdo, que me lançou um sorriso inesperadamente caloroso. Billy fixou seus olhos nos meus com um olhar profundo, quase de aprovação. Parecia genuinamente satisfeito por me ver integrar aquele círculo.

— Fique à vontade, está bem? — Jacob sussurrou em meu ouvido. Seu hálito quente, em contraste com a brisa gélida que soprava do oceano, fez minha pele formigar pelo choque térmico. — Mais tarde eu te apresento a todos.

Assenti silenciosamente, acomodando-me.

Gradualmente, os murmúrios das conversas foram diminuindo; ninguém precisou solicitar atenção ou silêncio, foi como se o botão de volume fosse girado por uma mão invisível. O crepitar da lenha e o rugido do Pacífico tornaram-se o som de fundo daquela atmosfera saturada de expectativa. Não havia espaço entre Jacob e eu; meu lado esquerdo fundia-se ao seu direito, criando uma pressão reconfortante. Todos assumiram expressões solenes, deixando para trás qualquer vestígio das risadas anteriores.

Em sua posição de destaque, Billy parecia ter crescido em estatura. Sentado em sua cadeira, ele parecia ter sido esculpido em madeira de cedro. O contorno de seu rosto e as marcas da idade eram acentuados pelas sombras errantes que a fogueira projetava.

— Alguns contos foram criados apenas para assustar crianças — sua voz soou forte como um trovão, carregada de uma autoridade absoluta. — Mas as histórias de nosso povo não foram inventadas para entretenimento; elas são nossa proteção. O povo Quileute carrega em seu sangue uma advertência ancestral.

O calafrio que percorreu meu corpo não pôde ser contido pela jaqueta pesada, pelo calor da fogueira ou pela temperatura febril de Jacob. Olhei de soslaio para Jake; ele parecia tão absorto quanto os demais, mas muito menos impressionado do que eu.

— Há gerações, nosso povo deparou-se com uma criatura capaz de mudar o curso de nossa história — complementou um senhor de traços indígenas marcantes, cujos cabelos compridos eram completamente embranquecidos pelo tempo. — Apesar da aparência de homens, eles não pertenciam ao mundo dos vivos. Eram mais rápidos que o olho humano e fortes o suficiente para quebrar qualquer resistência. Suas peles, com aspecto de mármore, eram duras como pedra e carregavam o gelo de muitos invernos.

— Os Quileutes são o povo oriundo do sol; nossos ancestrais cultuavam o astro-rei através de danças e ritos ao redor do fogo — continuou Billy, o olhar fixo nas chamas. — Esse calor corre em nossas veias e se manifesta quando eles se aproximam. Nós fomos abençoados com o fogo. Mas, sempre que o frio retorna, o gene sente e reage. Está acontecendo agora, bem diante de nós.

Billy voltou-se para mim. Senti que seu olhar era capaz de atravessar meu peito; ele parecia querer me entregar um segredo que eu ainda não era capaz de decifrar.

— Meu tataravô, Ephraim Black, foi quem selou o tratado há mais de cem anos — sua atenção seguia ancorada em mim. — Quando foram pegos caçando em nossas terras, eles alegaram ser diferentes dos outros de sua espécie. Precisávamos garantir a segurança de nossas mulheres e crianças; por isso, o espaço foi delimitado. Eles não possuem permissão para cruzar nossa fronteira. Ainda assim, mesmo à distância, a presença deles faz com que nos revelemos, um a um.

Senti-me perdida, e até mesmo decepcionada comigo mesma. Havia uma densidade na história que, diferente do restante do grupo, eu não conseguia captar plenamente. Senti como se estivesse falhando com a confiança de Billy. "Olhos que buscam a verdade", ele dissera, mas a verdade parecia escorregar por entre meus dedos.

Jacob pareceu captar minha súbita inquietude. Por baixo da manga larga da jaqueta, seus dedos alcançaram os meus, entrelaçando-os com uma firmeza que me ancorou no presente. O calor dele era real; as lendas eram apenas palavras, mas a mão de Jacob era o fogo que Billy acabara de descrever.

Jacob pareceu captar minha súbita inquietação e, por baixo da manga larga da jaqueta, seus dedos alcançaram os meus, criando um emaranhado de conforto. Seu aperto foi como uma proteção silenciosa, uma âncora que me manteve firme enquanto a narrativa de Billy ecoava pela praia. Até o último fôlego daquela história, ele não soltou minha mão.

Pouco a pouco, o coro de vozes voltou a sobressair e o círculo ritualístico começou a se dissipar. Todos pareciam ter superado rapidamente o impacto do que fora contado, focando apenas na comida que era servida e no calor das conversas paralelas. Em silêncio, Jacob me guiou em direção ao seu grupo e, conforme prometido, encarregou-se das apresentações.

— Renesmee, estes são Quil e Embry — Jake indicou os rapazes. Fui cumprimentada por sorrisos largos e uma energia tão vibrante que parecia reverberar ao redor deles. — E esta é a Emily; ela estava sentada ao seu lado agora pouco.

Ele se referia à moça com a cicatriz profunda que eu identificara ao chegar. Ela moveu-se com uma graça extraordinária, como se flutuasse em vez de caminhar sobre a areia. Seus braços envolveram-me em um abraço rápido e genuinamente gentil.

— É um prazer te conhecer, Renesmee — disse ela, com uma voz doce e acolhedora. — O Jacob tem falado muito sobre a nossa nova vizinha de Forks. Fico feliz que esteja aqui.

Senti minhas bochechas corarem com a revelação de que Jake andava comentando sobre mim, embora eu também tivesse mencionado o nome dele a Charlie e aos gêmeos com uma frequência considerável.

— Eu é que agradeço por me receberem — respondi com sinceridade.

— Alguém que recebe a benção de um Black para se juntar à fogueira será sempre bem-vinda entre nós — Emily afirmou, selando o acolhimento.

Havia uma harmonia fascinante na convivência entre todos eles; mais do que amigos, pareciam extensões uns dos outros, partes de um organismo único. Emily era nitidamente o coração do grupo, uma figura de autoridade afetuosa que todos respeitavam. Só naquele momento percebi que Jacob e eu ainda estávamos com as mãos entrelaçadas; ao constatar o fato, dei um leve aperto em seus dedos, um sinal silencioso de que eu me sentia confortável naquele ambiente.

Emily, como notei posteriormente, era namorada do rapaz corpulento que a acompanhava, Sam. Os dois formavam um casal magnético; olhavam-se com uma adoração que eu nunca presenciara, movendo-se como se a vida dele orbitasse ao redor dela. Era poético e intenso. Peguei-me pensando na sorte de quem vive algo tão absoluto e se, um dia, eu teria essa mesma fortuna.

Jacob interrompeu meus devaneios ao me estender um prato repleto. Havia uma porção generosa de costelas suínas suculentas e pães de milho macios. Agradeci a gentileza e, juntos, nos sentamos em um tronco úmido perto da arrebentação para comer.

— Espero que esta noite não te faça querer pegar o primeiro avião para Phoenix amanhã cedo — brincou ele, embora eu sentisse que ele avaliava cuidadosamente minha reação, buscando qualquer sinal de desconforto.

— Eu gosto de estar aqui — admiti, sorrindo para ele. — Só não sou capaz de compreender as histórias tão bem quanto vocês. Ainda é tudo muito nebuloso. Sinto-me parada diante de uma obra de arte, mas próxima demais para enxergar os detalhes.

Jake tocou meu braço suavemente, seus olhos fixos nos meus. Desde o primeiro dia, havia algo naquela imensidão negra de suas orbes que me prendia de forma irremediável.

— Algumas coisas precisam ser sentidas antes de serem compreendidas — sua voz caiu para um tom suave. — Existem coisas que nem eu mesmo entendo completamente. Mas, se meu pai achou que você deveria estar aqui, é porque ele sabe que você vai entender tudo no momento certo.

O restante da nossa refeição foi preenchido por um silêncio confortável. Quando terminamos, já passava das vinte e uma horas, e solicitei que ele me levasse de volta a Forks. Fiz questão de me despedir de todos e, claro, reforçar meu agradecimento a Billy pelo convite.

— Você já tem os fragmentos, menina. Precisa apenas permitir que eles se unam — respondeu Billy, mantendo o enigma. — Observe o que está à sua volta, tanto aqui quanto do outro lado da fronteira. O padrão vai aparecer quando você estiver pronta para enxergá-lo.

Durante a caminhada de volta pela trilha, conversamos sobre amenidades — a escola, o tempo que passamos juntos — e finalizamos com a promessa de nos vermos no domingo. Charlie viria à Reserva para celebrar o aniversário de Harry Clearwater, o homem que dividira a narração das lendas com Billy.