Meu Namorado É Um Gato!
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Notas iniciais
Proveitem
Meu namorado é um gato!
Saí do carro quando já me encontrava na pequena sala que teríamos a aula. Na verdade, fomos deixadas lá, mas nossa aula não exatamente seria lá. Como estávamos em um curso Técnico, era comum termos aulas praticas uma vez o outra, e esse era um dos raros momentos em minha aula de suíno que conseguia ter uma aula pratica. Não deveria ter nada de mais, como não poderíamos castrar o suíno, como todos nós esperávamos desde o ano passado, apenas faríamos coisas simples, que de acordo com o nosso professor, faziam parte do trabalho de um técnico em agropecuária. Na verdade eu nem prestava muita atenção nas aulas dessa matéria, eram pura lógica e cansavam muito, preferia dormir ou até mesmo ficar ouvindo musica nesses momentos.
Encarei as pessoas sentadas entorno do pequeno prédio amarelo que era a sala de aula, deveria dizer que não agradei muito ao ver as pessoas da minha sala. Meu coração pensou, senti-me julgada, e preferi me manter distante. Talvez fosse coisa da minha imaginação, mas não queria me encontrar em um lugar onde não me sentia bem. E já fazia bastante tempo que aquela sala deixara de me agradar. Sentei em um lugar distante, aumentando o volume de meus fones para assim isolar-me desse mundo que pouco me agradava.
Quando era mais nova isso também acontecia. Eu tinha entrado em depressão aos onze anos, minha salvação era minha mente, que de uma hora para outra me levava para mundos que ela criava, mundos que eu adorava, e me faziam questionar se aquela não era a realidade e o que vivia não passava de um mal sonho. Suspirei e deixei a musica me levar no embalo, obrigando-me a pensar nele... Já fazia alguns meses que minha mente não conseguia tirar seu rosto de minhas memórias, não conseguia se focar em outra coisa e eu me sentia novamente apaixonada por ele. Talvez sempre o tenha amado, apenas confundi um amizade com algo mais e acabei estragando tudo.
Meu coração doeu ao pensar e balancei a cabeça com força. O professor tinha chegado, já não teria mais que pensar tanto sobre isso. A aula pratica não tinha tido nenhum toque em especial, apenas olhamos a monta e o parto de uma das porcas que ali se encontravam. Era algo que para mim já não tinha mais tanto fascínio. A musica retumbava alta em meus ouvidos o tempo todo, mas em nenhum desses momentos tirou minha atenção do que queria aprender. E quando a aula acabou, fiz questão de caminhar sozinha na direção da próxima aula.
Essa era mais para frente, voltando pelo caminho que tínhamos vindo. Na sala de topografia, perto dos prédios de Silvicultura do superior. Era um caminho longo até chegar lá, mas todos já estávamos acostumados a isso, e andávamos em nosso próprio ritmo para chegar, as vezes atrasando. Suspirei, retirando um dos fones para ouvir quando o carro do professor chegaria perto de onde estava. Uma vez quase me atropelou por estar lendo e ouvindo musica enquanto andava, mas isso não vinha ao caso, adorava andar distraída e nem ao menos preocupava-me tanto com minha vida.
O carro passou quando estava perto da hora e logo em seguida escutei um miado. Travei no lugar, não poderia ter sido minha imaginação. E novamente o miado ecoou perto de onde estava, obrigando-me a tirar o fone para identificá-lo melhor. Estava bastante perto, e não foi surpresa minha ver aquele gatinho que tinha me seguido, e que aliás eu havia me esquecido completamente por causa da minha pressa em chegar a tempo na aula, todavia, para meu espanto, estava dentro de um dos enormes buracos feitos perto da estrada que levava para todos os cantos da escola. Ele miava desesperado, pulando sobre o enorme bloco de concreto que tinha jogado em um dos cantos do buraco. Aquela era uma das erosões que tinham sido feitas pela chuva, e que foram aumentadas para que a mesma não inundasse a estrada.
- Que faz aí?! – questionei surpresa, como se ele realmente fosse me responder. Ele me encarou, e não sei se foi impressão minha, mas jurei vê-lo alegre só de me ver. E também não sei o que me deu na cabeça para fazer o que fiz, deixando minha mochila em um canto do lugar e saltando, tremula, dentro do buraco. Sempre tive interessem em saber como seria estar em um deles e como faria para subir novamente, todavia nunca tivera coragem até o momento. – Seu gato problemático, me seguiu até aqui? Deveria pelo menos tomar cuidado.
O peguei, erguendo-o e limpando seu pelo com cuidado para logo em seguida colocá-lo na parte de cima onde estava a estrada. Encarei o lugar, como subiria agora? Não pediria ajuda, é claro. Não era de fazer escândalo e seu eu tinha entrado eu podia sair. Coloquei as mãos sobre a beirada, agarrando o lugar o mais firme que conseguia, e com toda a força que tinha me impulsionei para cima, escalando o enorme bloco de concreto caído em uma das beiradas do buraco. Sorte que o buraco não era tão grande, se não teria ficado por lá mesmo.
Suspirei e encarei o pequeno a meu lado, que agora esfregava o pequeno rostinho em meu braço. Sorri e acariciei sua cabeça, se ele realmente tinha me seguido até aqui, quer dizer que realmente queria estar perto de mim, se não já teria ido embora. Coloquei minha mochila sobre as costas, o levantei com cuidado e o abracei contra meu peito, procurando o deixar o mais confortável possível.
- Ok, você ganhou. Vou ficar com você até arrumar um jeito de me largar. – ele miou, parecendo alegre. Comecei a me perguntar, enquanto voltei a andar, se estava realmente enlouquecendo pensando que aquele gato estava demonstrando emoções. Acariciei as costas do pequeno felino, encarando-o com carinho enquanto ele dormia. Tinha que admitir que tinha uma fraqueza por esses animais e me encantava quando algum chegava a adormecer em meus braços, como naquele momento.
Sua respiração pacifica se juntava a minha e formava uma sincronia surpreendente, seu pequeno corpo se encaixava perfeitamente em meus braços e sua presença cobria o vazio que estava sentido já fazia bastante tempo. Estava chegando no prédio dois, distante por uns cinquenta metros da sala de topografia quando Bruna conseguiu me alcançar. Minha roupa suja pelo esforço que fiz para sair do buraco chamou-lhe a atenção, mas não mais que o pequena massa peluda acomodada em meus braços. Ela o encarou e então olhou pra mim.
- Desde quando esta acolhendo animais? – questionou e eu ri baixinho, negando com a cabeça. O pequeno voltou a se aconchegar mais em meus braços e eu a acaricia-lo as costas.
- Ele esta me seguindo desde que subi para tomar café, e acho que por causa disso acabou caindo em um dos buracos que tem lá trás. – comentei apontando para o caminho sobre meu ombro. Ela me olhou surpresa já supondo o que eu ia dizer em seguida. – E eu o ajudei a sair.
- Você não pulou dentro daquele buraco, né? – eu apenas sorri constrangida em resposta. Ela gritou para mim, falando que ela loucura, rindo da minha cara enquanto eu apenas me preocupava em chegar rápido a sala. Já estava virando costume me atrasar para as aulas de irrigação e sabia que isso tinha que mudar.
Entramos na sala e não era de se admirar quando todos os olhares se voltaram para mim. Também, com a roupa completamente suja, a calça na parte dos joelhos quase rasgada por tê-los usado para me impulsionar para cima e com um gato em meus braços não era de si admirar chamar a atenção. Abaixei a cabeça e tratei de ignorar qualquer um daqueles olhares, colocando cuidadosamente o gato em cima de uma das mesas da sala, a qual eu iria me sentar. Em seguida, tirei minha blusa de frio e a ajeitei sobre a mesa atrás dela e peguei o pequeno, colocando-o sobre a blusa para que tivesse mais conforto para se deitar.
Ele tinha acordado e agora me olhava, atento, com aqueles enormes olhos castanhos que eu ainda tinha a impressão de terem um brilho humano. Acariciei-lhe a cabeça e voltei meu olhar para minha mochila, procurando dentro da mesma o caderno de Irrigação que provavelmente seria lotado de mais cálculos sobre a água que seria despejada no solo, ou coisa parecida. Era a pior matéria no curso.
— Que gato é esse na sala? – olhei surpresa para trás, tendo que levantar um pouco a cabeça por ainda me encontrar inclinada na direção da mochila. O professor tinha acabado de entrar, alto, pele clara e os cabelos negros. Icaro não era meu professor favorito, muitas vezes o xingava por sua matéria ser chata e ele ainda complicar mais as coisas, mas tinha até momentos que era legal. Ergui-me e ele olhou para mim, com os olhos vesgos como de costume, o que era motivo de chacota entre todos os alunos de agropecuária. – É seu Luana?
- Ele me seguiu até aqui, não quer me largar. Teria problema ficar aí quieto na sua aula Icaro? – questionei o encarando. Duvido que aquele pequeno gato fizesse barulho, na maior parte das vezes ficava quieto me encarando. Icaro o encarou por um tempo e então riu, indo para a frente da turma, já que me encontrava bastante atrás.
— Apenas não o deixe fazer bagunça. – disse e eu sorri. As coisas no dia até que não estavam muito ruins. A aula se passou tão tranquila como se o pequeno gato não estivesse lá. Eu teria esquecido de sua existência se de repente ele não tivesse pulado no meu colo e ficado por lá, quieto e calmo como se nada tivesse acontecido. Era bom, deveria admitir, tê-lo por perto, tanto pelo fato de gostar muito de animais como também por me transmitir uma sensação aconchegante de conforto.
No horário de almoço eu tive que novamente deixá-lo do lado de fora, mas dessa vez tomei o cuidado de não esquecê-lo e procurei pedir a uma das funcionarias do refeitório alguma coisa pra poder levar para ele. O coitado deveria estar faminto. Foi meio complicado convencê-la a deixar, mas por fim, escondi alguma coisa dentro de minha mochila e sai do refeitório bem de fininho. Acabou que o levei para pensão onde ficava enquanto o alimentava pelo caminho. Queria deixá-lo lá por um tempo, só enquanto as aulas terminavam por aquele dia, mas acabou que a ideia não deu muito certo.
Cheguei ao quarto, deixei o pequeno gato sobre minha cama e retirei minhas blusas de frio junto com minha blusa do técnico, ficando apenas com o sutiã. Procurei minha blusa do médio dentro de meu armário, era a mesma rotina sempre, apesar daquele pequeno gato sentado sobre minha cama me encarando sem parar enquanto eu trocava de roupa. Logo que terminei, dei dois pedaços de biscoito que tinha guardado para o pequeno gato, peguei minhas coisas e sai, procurando a chave para trancar a porta logo em seguida.
Sem que eu visse, o pequeno gato escapuliu um pouco antes de fechar a porta e já se encontrava parado na escada, esperando-me com a cauda balançando de um lado para o outro de modo despreocupado. Suspirei no momento e neguei com a cabeça, bem sabendo que ele não desistiria. Voltei para a escola sempre com ele a minha cola, obrigando-me a carregá-lo novamente enquanto subia a enorme escada que levava ao prédio um. Ai veio aula de História e logo em seguida de Matemática, nenhuma das duas me chamou muita atenção, apenas o simples fato da minha professora do ultimo horário, Silvana que pouco sabia de calculo, obrigar-me a deixar o pequeno gato do lado de fora.
O mais engraçado foi ouvir ele miando o tempo inteiro, atrapalhando a aula da professora, até eu mudar de lugar e ficar perto da porta, acariciando sua cabeça. Ainda tenho em mente o pensamento que ele tinha ficado com raiva da professora não tê-lo deixado entrar, mas como seja, não prestava atenção na aula mesmo, e nem o ouvia miar, meus fones estouravam os ouvidos simplesmente porque achava a matéria fácil de mais.
Era sempre a mesma rotina e chegava sempre a parte que mais ansiava. A parte que conseguia falar com ele. Terça era o horário mais razoável que tinha, quando minha aula terminava as 16h e 15min, dava tempo de ir em casa, tomar um banho, me aprontar e ir até a casa dos meninos só para roubar net. Todavia, isso me preocupava, estava ficando mais dependente da presença dele, mesmo que virtualmente, a cada dia. Se isso continuasse e alguma coisa acontecesse seria pior que da ultima vez. Tentei esquecer esse detalhe. Brenndo já tinha me demonstrado várias vezes que realmente gostava de mim e eu acreditava fortemente nele, mas... o medo de me machucar novamente me impedia de não pensar nisso.
Liguei o computador, era cedo, podia ficar conversando com ele até dar a hora de ir dormir. Não tinha dever, o que estava sendo um milagre esses dias. Esperei, esperei, esperei e esperei e nada dele aparecer. Isso me preocupava, ele não costumava demorar tanto para aparecer, mas tentei pensar que talvez ele não tivesse tempo, ou que por alguma complicação não pudesse. Não podia pedir para que todos os dias que mexesse no computador ele também mexesse só pra falar comigo, seria muito ilógico e possessivo. O problema era que eu tinha um lado muito possessivo.
“Oi linda” começou a mãe dele em um bate papo do face. Estranhei, não estava acostumada ainda a falar com ela por isso ainda travava. Como dizia minha amigo: Eram sogros!
“oii ^^” respondi respirando fundo para me manter calma, olhando algumas outras coisas que tinham abertas nas paginas que abria. Logo ela falou de novo.
“O Brenndo te falou alguma coisa sobre para onde ele ia?” questionou e eu estranhei. Ele tinha saído? E a mãe dele não sabia onde estava? Nesse horário?
“Ele não me disse nada não. Por que? Não esta em casa?” o coração apertou, o que teria acontecido?
“Até ontem a noite ele estava aqui, mas não o vi nem soube de nada dele desde manhã. Pensei que ele tivesse te falado algo”
“Não me falou nada não. Ele não deixou recado nem nada?” perguntei novamente, o coração já se encontrando na garganta. Por favor, que esteja bem.
“Não, simplesmente sumiu.” Tremi, sem saber o que responder exatamente. A respiração ficou pesada e a frustração de não poder fazer nada pesou meu peito. “Mas não se preocupe, vamos achar ele. Se ficar sabendo de alguma coisa, me fala ta certo?”
“Pode deixar. Por favor, encontre ele logo...”
Depois disso não tive mais ânimos muito menos disposição para continuar mexendo no computador. Deviam ser umas 19h e 30min quando fui embora da casa dos meninos, sempre com o pequeno gato em meus braços, eu acariciando-o pela cabeça de modo distraído, procurando não pensar muito sobre Brenndo. Com certeza eles o achariam, nada tinha acontecido com ele. Provavelmente saiu pra fazer alguma coisa e esqueceu de avisar... Isso, seria isso. Ai meu deus, por favor, que nada tenha acontecido.
Cheguei na pensão e simplesmente me deitei, deixando o pequeno em um canto e abraçando o pequeno cachorrinho de pelúcia que tinha o mesmo nome que meu namorado “virtual”. Minha preocupação entalava minha garganta, só conseguia pensar naquilo e as probabilidades que vinham em minha mente eram assustadoras. Encolhe-me mais na cama, sentindo pequenas patinhas pisotearem meu ombro de leve e então um carinho em meu rosto. Acariciei o pequeno gato a minha frente, com seus olhos reluzindo em meio a escuridão.
- Ele vai ficar bem, não é? – questionei para o pequeno que duvido muito conseguisse me entender, ou saber do que eu estava falando. – Queria poder fazer alguma coisa, odeio ter que apenas esperar para saber se alguma coisa aconteceu. Acho que estou amando aquele garoto mais do que deveria... Vou acabar me atrapalhando de novo. – o pequeno gato se aconchegou perto de mim e eu o abracei. Assim talvez me sentisse melhor. – Sabe, acho que sempre o amei... Mesmo com o medo que sentia antes, mesmo com a confusão que aprontei ano passado. Apenas queria saber como posso fazê-lo saber o que sinto, não estou perto para mostrar a ele, e falar não é o suficiente... Que droga, queria estar tanto do lado dele...
Tentei deixar essa frustração de lado, beijei o pequeno gato e me aconcheguei mais a cama. E por instantes, enquanto estava prestes a dormir profundamente, senti algo tocando meus curtos cabelos, acariciando-me de um modo tão... sei lá! Apenas sei que foi bom e me embalou durante o sono...
Notas finais
Bjão!!!
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