Meu Melhor Amigo
1 Um
Notas iniciais
Matt
— Matheus, venha tomar café! — E mais uma vez os berros de sempre. Os gritos de minha mãe cortavam todo o silêncio que fornecia uma manhã calma de segunda-feira.
Ainda sonolento descia as escadas, pronto para o café e animado para o restante do dia. Após meses trancado no quarto, o bilhete de aviso de voltas às aulas finalmente havia chegado, e eu estava superfeliz. Não que fosse comum um adolescente gostar de estudos, mas como idosos repetem: tudo de mais faz um pouco mal. E o que eu estava praticando de forma excessiva dentro dessas longas semanas era o completo e absoluto nada. As férias são sempre tediosas, já fazia um bom tempo em que eu não me ocupava com algo. Precisava voltar para a escola o quanto antes. Há alguns dias eu não via meu melhor amigo Felipe, sendo este uma das razões por me deixar extremamente empolgado.
— Bom-dia, mãe! — cumprimentei-a pausadamente, com um olhar alegre e compreensivo, me pondo a sentar em uma das cadeiras.
— Ora, vejo que temos alguém contente hoje.
Acho que só minha mãe para me fazer rir tão cedo. Como consegue? O carisma e simpatia da mesma contagiava qualquer um que se pusesse a sentar com ela na cozinha. O sorriso sincero me fazia ficar ainda mais disposto, e vê-la servindo-me uma aparentemente deliciosa fatia de bolo de chocolate eu só conseguia sorrir mais.
— Posso saber o motivo de toda essa felicidade de uma hora pra outra?
— É apenas ânimo — afirmo. — Meu primeiro dia de aula, meus amigos, esse café maravilhoso...
Levo a primeira colher até a boca. Eu amo chocolate.
— Nossa! Bom saber que meu lindo filhinho é tão estudioso assim — comenta. Ela vira-se contra a pia e após rir, começa a trabalhar com a pouca louça que sobrara do jantar da noite anterior. — Ou só quer mesmo bater perna com o Felipe?
— Claro que não, a senhora sabe que esse seu lindo filhinho apenas quer estudar e se tornar alguém. — Eu me esforçava ao máximo para segurar o riso sardônico e forçado enquanto referia a mim mesmo pela forma que ela costumava chamar-me. — Mas claro, também quero ver meus amigos e badernar um pouco.
— Ah, é mesmo? — Virando-se pra mim, encosta o indicador na minha testa cutucando-a. — Pois antes de ir “badernar”, mocinho, arrume seu quarto primeiro. Aquela cesta de roupa suja está um rebeubéu. — Mamãe sempre falava a mesma coisa.
Girei a maçaneta da porta cinza do meu quarto enquanto rodopiava e cantarolava trechos de músicas de artistas que eu nem sabia que gostava mais. Minha cabeça deu uma leve palpitada ao me deparar com meu quarto, fazendo-me parar com a canção. Estava realmente uma bagunça. Eu não conseguia sequer ver meu próprio tapete que estava recoberto por todas aquelas embalagens de batatas e latas de refrigerantes diets. Recortes de fotos minhas com Felipe além de letras desenhadas com papel colorido formando nossos nomes na parede ficavam perto do meu espelho que estava completamente imundo, e que quando olhei, vi que precisava de uma limpeza o mais rápido possível.
Comecei a pentear meus cabelos com o pente que eu tinha pegado na cabeceira do meu pai lentamente depois de ter ligado uma música em um volume adequado. As cerdas penteavam com facilidade meu cabelo ondulado e negro enquanto saía pela minha boca um “lalalala” calmo acompanhando a melodia. Uma raridade.
Durante o processo não deixei de escutar lá de baixo novamente os gritos de minha mãe. Alguns pássaros que me faziam companhia até então em pé no canto da janela do banheiro assustaram-se, voando mais uma vez para longe. Talvez no dia seguinte voltassem. Ou não. Minha mãe mesmo um doce conseguia ser bastante irritante quando queria. Pobres bichos.
O sol começava a esquentar-se lentamente iluminando meu quarto absurdamente sujo. Eu iria limpá-lo quando chegasse. Só devia certificar-me que o cansaço proporcionado por um dia inteiro de estudos não me impedisse de realizar tal tarefa, assim como em todos os dias onde os olhos vermelhos e bocejos eram motivos e boas desculpas para os adiantamentos de sempre.
Um leve suspiro embaçou minha imagem, e passei a mão sobre o espelho. Tentando transmitir um ar de segurança, eu mirava a mim mesmo nitidamente. Ao me deparar com pequenos fios de barba formando no queixo e alguns cravos salientes ao lado destes, pensamentos como “você já está um rapaz” rodeavam minha mente. Aquilo me enchia de orgulho. De certa forma para um garoto de quinze anos se sentir um pouco mais velho era bom; não que eu já quisesse ter um emprego ou que já não curtia mais videogames e pistas de carrinhos. Mas, qual é? Pelos incomodavam, no entanto, só em saber que eu os tinha já me deixava bem contente.
Uma risada se fixara em meu rosto pardo.
Ao redor do espelho, fotos minhas com Felipe me passavam uma única mensagem: você está sentindo falta dele. E estava certo. A última vez que nos vimos foi mês passado, na festa de final de ano, onde habitualmente nossas famílias se reuniam. Ao barulho de fogos de artifícios, gritos, do alto de uma ponte soltamos juntos balões azuis. De mãos dadas, fizemos desejos secretos, como em todos os anos. Até hoje eu não soube o porquê de Felipe ter chorado após abrir os olhos, e por educação, não perguntei. Ele enxugou suas lágrimas na manga da camisa. Após sorrir, entrou no carro de seu pai, e até sumir de vista, olhávamos um para o outro.
Senti meu estômago contrair após desgrudar uma das fotos do mural e observá-la com a mão. Eu precisava revê-lo logo.
A música emitida pelo alto-falante do meu celular havia se repetido umas três vezes e eu sequer tinha notado. Estava ocupado demais. O meu sorriso bobo e olhar direcionado para a fotografia de Felipe foi rapidamente substituída por uma expressão assustada. Minha mente parou por um instante após perceber que eu já estava dez minutos atrasado para a escola.
Após pôr a mochila no ombro, saí como um furacão do meu quarto. Desci imediatamente as escadas correndo. Dei um beijo em minha mãe. E enfim saio de casa. “Sabia que você ia se atrasar, moleque!”, foi a última coisa que ouvi dela. Espero que ela não abra a porta do meu quarto até minha chegada, pois o “rebeubéu” que tanto odiava continuava lá.
Em uma cidadezinha pacata, o centro de Carolina do Norte não era tão distante. Caminhar até lá não me deixava frustrado. A Rua número 14 parecia ter sido feita para mim. Padarias, lojas, bancas de revistas e outros estabelecimentos simples enchiam por completo aquela rua estreita. Sendo nem tão pequena quanto a número 10 e nem tão grande quanto a número 12, onde supostamente Felipe mora, a mesma era pouco movimentada, mas o padeiro João gostava disso. Um lugar onde todos se conhecem e vivem em uma ótima harmonia eu não trocaria por nada, dizia ele. Iris parecia concordar, Ana também. Caminhando até deixar parte desta para trás, eles acenavam para mim e eu retribuía em sorrisos e risadas. “Você está enorme!” disse Mário, o cabeleireiro. Logo eu sairia do beco em que caminhava, e no fim deste eu já avistava Cíntia, a floriculturista do bairro.
— Bom dia, senhor Matheus — diz, inclinando o olhar para mim.
— Bom dia!
— É o seu primeiro dia na escola, certo? — perguntou enquanto mexia no monte de flores na barraca.
— É sim — murmuro. Enquanto conversava, usei o polegar para ajeitar a posição da minha sobrancelha que eu tinha quase certeza que estava um pouco bagunçada. Típico.
— Bom, então... — Ela arranca uma pequena flor roxa dali. — Fique com isto!
Tirei minha mão do rosto e devagar aproximei minha mão para pegá-la. Era realmente adorável. Com pétalas de diversos tons e uma pequena fita vermelha no corpo, aquela linda rosa fez apaixonar-me por ela no mesmo instante. O sopro matinal fazia a mesma mover-se. E envolvo a flor com ambas as mãos impedindo que fugisse ou deixasse ir embora um pedaço de cada parte que a formava.
— Espero que se divirta Matt. — Enquanto sentia o ótimo aroma que a flor transmitia, olhei por cima dela e vi... Era Luíza, uma garota da mesma idade que eu, filha de Cíntia, na qual a ajudava com o dinheiro, entregas e encomendas. Ela me chamava de Matt e não de Matheus assim como Felipe. Eu gosto desse apelido. Com uma personalidade tímida e misteriosa, ela tinha belos olhos castanhos, usava óculos de lente bem grossa, e, embora eu os ache bastante atraentes, ele sempre foi motivo de ser caçoada e humilhada pelos outros garotos do bairro. Ela estava em um vestido rosa e um casaco vermelho. O sorriso de Luíza era brilhante, não por causa do aparelho verde, e sim por ser tão sincero e lindo.
— Obrigado pela flor, Cíntia. — agradeci — E a você também, Luiza. — Dei o meu melhor sorriso, a única simples coisa que poderia oferecer como retribuição.
Algumas situações como esta mudavam drasticamente o meu dia.
Assim que parei com os sapatos novos em frente à escola, eu achei que a mesma iria engolir-me. Tão enorme. O que aconteceu com ela? Estava diferente. O relógio central e clichê continuava ali. Reparo que mais dois pilares foram adicionados e a cor azulada foi substituída por um básico cinza, fazendo-me sentir no exército, ou como os alunos do ensino fundamental brincavam: em uma prisão. Era intimidador voltar para aquele lugar depois de bastante tempo. Perguntava-me se seria difícil me encaixar ali novamente e se alguém ainda lembrava-se do rapaz inteligente do segundo ano que gosta de Biologia.
Eu rezava para que eu estivesse dando uma boa impressão assim que cruzei o portão. Acho que eu devia ter posto uma camisa mais larga, pois a mesma já começara a irritar minha pele. O jeans azul parecia confortável, e também feio. Um rapaz com uma calça verde-limão passou por mim cumprimentando-me. Certo, talvez eu não esteja tão ruim assim.
As árvores davam uma boa sombra, eu conseguia ver vários alunos sentados abaixo delas enquanto abraçavam e repetiam frases como “quanto tempo!” simpaticamente. Todos sorrindo e felizes. Aquilo era lindo de se ver, nem pareciam que existiam confusões às vezes — como quando houve uma discussão pela cor tema do projeto de ciências.
Pensamentos iam e viam e até então nada de Felipe. Será que ele viria hoje? Será que acordou a tempo? Felipe conseguia me deixar preocupado em segundos. Talvez seu despertadorzinho infantil não tivesse feito bastante efeito, mas acho que de qualquer forma ele iria enfim aparecer. Mesmo sendo desnecessário presenciar o primeiro dia de aula, ele também estava sentindo minha falta, não estava?
Após pedir uma informação para uma garota loura, soube que minha sala ficaria no segundo andar. Suspiro. Que escada enorme! Duas voltas, belos corrimões negros, pareciam que foram pintados minutos antes; degraus confortáveis.
E que degraus.
Eu achava que aquela escadaria não teria mais um final. Mas eram somente duas simplórias voltas. Você está nervoso, Matheus. Acalme-se. Certamente eu não sabia o que estava havendo comigo. Era a mesma antiga escola, bem, com uma pintura nova, mas isso não importava, a conhecia muito bem. Todos os cantos, saídas, entradas, labirintos, eu a conhecia. Por que eu estava tão nervoso? Da cor azul, a minha preferida, comprei estojos, cadernos e lapiseiras. Minha mochila estava bem confortável, e minha aparência não era uma das piores do ambiente. Então por que toda aquela aflição? Existe vida após o primeiro de aula.
Soprei os cabelos para o alto. Há quase uma semana eu já estava preparando-me para hoje. Estava ansioso para conhecer novas pessoas, saber se meus amigos de sempre ficariam comigo na mesma sala de aula e estes novos se dariam bem comigo. Socialismo? Nunca tive problemas, eu me adaptava fácil. Notas ruins? Eu tinha as melhores da turma, com bastante esforço claro. Doença? Uma leve dor de cabeça pela manhã não matava ninguém.
Então...
Por que eu estava tão nervoso?
Reviro os olhos para mim mesmo. Ridículo! Após ver que com apenas mais um passo eu concluiria aqueles infindos degraus, bocejo já cansado dos que eu deixara para trás. Solto minha mão do corrimão quente, e com um descuido meus pés deslizam-se do solo.
“Ele vai cair”, a mesma loura grita de baixo agitando os estudantes que andavam pelo local. Não consegui pensar em nada, aquilo estava sendo rápido demais. Balanço os braços e o quadril tentando voltar ao equilíbrio, porém sem êxito; eu iria cair, eu iria descer escada abaixo.
Uma mão me segura firmemente pela camisa. Mesmo sem ver direito, o toque dela parecia ser familiar.
— Quer morrer antes mesmo de começar o ano?
— Felipe?!
— Vamos, suba — falou, me puxando para cima.
O que foi aquilo?! Meu Deus. Um pequeno ataque cardíaco? Meu coração estava palpitando. Meus olhos emudeceram-se. Eu vendo a morte de tão perto e Felipe resolve surgir assim? Eu quase acabando de sair de um susto e entrando em outro? Ainda bem. Ainda bem que Felipe apareceu.
— Matt! — grita. Eu conseguia ver apenas seu maxilar mexendo a minha frente enquanto com o polegar e o indicador movia meus olhos, afim de uma visão melhor. — Matt! Está me ouvindo?!
Que dor de cabeça.
— Você está bem? — Felipe suaviza a voz. Após virar-me para trás e certificar-me do que acontecera, me distancio da escada receoso, encostando-me ao corrimão ao lado para me acalmar e reerguer meus pensamentos. Logo minha respiração volta e mesmo ainda fraco, assenti que sim com o rosto. — Que bom! — Ele riu pra mim enquanto apoiava cada mão em meus ombros.
Faço um esforço para comentar algo.
— É sim. — Dei-lhe de volta o sorriso mesmo ainda tragicamente tonto.
Ele me olhou de cima abaixo. Riu de novo e ficamos olhando um para o outro em silêncio por um instante. Desde quando Felipe mudara tanto? Seu cabelo loiro parecia mais suave, seus braços pareciam mais fortes e firmes. Bem firmes mesmo. Suas mãos em meus ombros fazia-me tremer em pé. Seus olhos continuavam os mesmos, tão claros e brilhantes. No reflexo destes observo a mim mesmo boquiaberto. Balanço a cabeça. Certo, acho que eu devia falar algo. O silêncio já começara a ficar um tanto constrangedor, e de forma alguma ele largava meu corpo. Continuava ali, olhando-me com aquele olhar infantil de uma criança que acabara de ganhar um carrinho de metal novo.
Notei que seus lábios tremiam como se quisesse dizer algo.
Finalmente eu havia chegado à escola e finalmente subi as escadas onde nestas diversas emoções ficaram gravadas em cada passo. Acima da mesma, quando quase no fim, eis que meu pé não pisara concretamente sobre o solo, e que se não fosse pela forte mão de Felipe que parara minha queda, eu poderia no momento estar em uma ambulância. E agora ele estava ali, parado em minha frente, fitando-me com os olhos.
E eu, idiota, sem saber o que dizer.
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