Notas iniciais
Uma garota da minha turma anda me perseguindo por achar que eu seja ateu, já que de algum modo ela aparenta ofender-se com algumas piadas toscas que solto em grupos de Whatsapp. Então começa a falar o quanto Jesus é um homem bom, toda abobada e orgulhosa. Chego em casa e fico me perguntando se ajo da mesma maneira quando falo de algum ídolo. De qualquer forma, é bem complicado assumir seu ateísmo (?!) cercado de pessoas fúteis prontas para lhe cuspirem, tão quanto a homossexualidade.

— Bom isso que vem acontecendo já faz muito tempo? — Matt colocou uma das alças da sua mochila em seu ombro.

Eram quatro da tarde e na companhia um do outro rondávamos entre as ruas após o termino das aulas. A rua estreita quase não recebia os fracos raios solares da tarde morna, o vento dava uma completa calmaria para ambos. De longe podíamos avistar belos pássaros voando, cantando uma deliciosa melodia que cobria o furacão que eram carros e outros veículos. Por mais que eu quisesse ter uma conversa distinta dos meus problemas pessoais, Matt insistia em perguntar. Eu não o censurava por isso, pois eu sabia que o mesmo só estava preocupado. Preocupação era diferente de curiosidade. E eu sabia disso como ninguém.

— Um ano — o respondo sem dar de volta o olhar. Eu odeio vê-lo com cara de preocupado. — Faz um ano que ele começou com isso.

Minha mãe era uma perfeita esposa, até demais. Eu acredito que seja um bom filho, na média. Seu trabalho era digno de um homem de trinta e sete anos de idade, ideal. Então por quê? Dizem que o álcool servia para afogar mágoas, anestesiar dores, esquecer problemas. Mesmo não estando com nenhum desses “sintomas”, meu pai insistia em beber, e consequentemente, realizar suas barbaridades.

— Eu lamento... — As palavras de Matt foram verdadeiras, e ao ouvi-las, uma bolha de ar se prendeu em minha garganta.

— Tá tudo bem — falei e levei uma bala que tinha tirado do bolso esquerdo até a boca.

Caminhávamos lentamente, sem pressa. O vento balançavam as árvores como também nossos cabelos. O barulho de um bairro comum estava pairando os poucos, e na companhia do silêncio do pequeno beco em que entramos, o clima recebe um ar melancólico. Os olhos de Matt me seguiam, e evitando-o, caminho mais rápido, pronto para sair dali.

— Não, não está. Eu sei que não. — Matt bloqueia meus passos e caminhando devagar segura firme meu pulso colocando-me contra o muro cinza. — Se estivesse você não estaria tão estranho como agora.

Sinto a parede quente. Talvez fosse meu corpo. Meus joelhos enfraqueceram-se, tremiam. Com a boca bastante úmida, a dificuldade para expressar-me era imensa. Matt fitava-me com os olhos. Aquele olhar de preocupação, de raiva, de “me conte o que está havendo”.

Envergonhado, desvia o rosto olhando para baixo, para a pequena pedra que sem querer havia pisado, como se a mesma fosse relevante para o momento. Sem soltar-me, Matt ergue a cabeça, e após morder o lábio inferior, diz:

— Presta atenção, você é meu melhor amigo. Sempre que precisar de ajuda eu faço questão de ver como você está. Me desculpa, mas, eu não posso ficar parado. Me incomodo vendo você assim.

Algumas pessoas que andavam por ali observavam aquela cena, no entanto eu não conseguia processar nada na minha mente além de apenas sentir um nervosismo com as mãos de Matt me segurando. Sua respiração era cindível, eu poderia senti-la e concluir o quanto estava nervoso. Matt suava, meu coração batia.Com um nó na garganta, era quase impossível comunicar-me.

— Obrigado — murmuro.

Tento agradecer, mas ele me interrompe e aperta mais forte meus ombros.

— Me promete uma coisa: — Matt assentiu. — Quando tiver passando por aperto, fique na minha casa. Dormiremos juntos.

Fixei os olhos nos deles e ele desviou o olhar, piscou repentinamente e passou a língua entre os dentes cobertos pelos lábios tentando provavelmente procurar a consciência perdida. Restou-me somente ficar calado. Como eu poderia falar sendo que naquele momento eu sentia apenas o pânico crescendo em mim?

Os bicos dos pássaros sobre a grama e o arrastar de seus pés faziam um barulho insuportável do meu lado mesmo sendo insignificantes seus ruídos no meio de todos aqueles carros, caminhões e mulheres chamando seus filhos para o jantar. Eu vi o céu perder sua iluminação e o pobre sol desaparecendo lentamente no meio de todas aquelas nuvens brancas e curvadas, dando assim lugar ao temporal nublado e frio acompanhado do balançar das árvores com folhas e rosas de pétalas das cores mais variadas. A lua estava surgindo.

Admito que no momento senti um leve formigamento no exterior da boca onde desde a semana passada formavam os primeiros pelos da barba loira que eu almejava desde os oito anos. Eu queria falar alguma coisa, eu queria dizer que sim, eu tinha que sair daquela situação propícia.

Quando meus lábios se abriram finalmente, eu hesito, pois sem explicações, o celular do Matt começa a tocar. Ele se vira, largando por fim meu corpo, o retira da mochila e leva-o até ao seu ouvido esquerdo.

— O que você quer mãe? — Ele me olha e levanta as sobrancelhas fazendo uma expressão de tédio com o rosto. — Não se preocupe, eu já estou indo.

Matt desliga seu celular rapidamente, vira a mochila e o coloca dentro de volta. Com o impacto, com certeza pudemos ouvir algum lápis se quebrando ali dentro.

— Bem, acho bom não se atrasar, já andamos o suficiente por hoje. — Amarrei o cadarço do meu sapato que havia se soltado durante o ocorrido. — Vou indo. Nos vemos.

Viro as costas e caminho o mais rápido que podia para sair daquele pesadelo, mas não o suficiente, pois ele me alcançara. Segurou-me pelo braço forçando-me novamente a encará-lo.

— Você ainda não me respondeu. — Ele mexia no bolso, disfarçando sua irritação e desassossego com a fatalidade, continuava de costas pra mim, evitando qualquer contato visual.

Ignorando-o retirei com força seu braço do meu, acho que o machuquei, mas não me importei. Continuei andando, e ele na minha direção oposta, tentou caminhar também. Estávamos em certa distância um do outro, e virado contra ele, gritei por seu nome.

— Matt! — O barulho do seu tênis que sempre fazia um ruído quando caminhava e das correntes e chaveiros coloridos da sua mochila que batia um contra o outro já não podiam ser mais ouvidos. Assim que me escutou, ele parou. — Obrigado por isso.

Silêncio.

— É meu dever como seu amigo...

Matt acenou com a cabeça, eu com o braço, as luzes amareladas da rua já haviam sido acendidas, e escutando pessoas fechando suas portas e vira-latas remexendo no lixo deixado por elas, notei que precisava ir pra casa.

Matt disse um leve “até logo”, sua voz estava falhada. Ele se virou e fazendo o mesmo, me viro também.

Continuamos nosso caminho. Ele pra número 14. Eu pra número 12.