Meu Melhor Amigo
7 Sete — Fôlego. - Parte 1
Notas iniciais
Felipe
Na parede marrom acinzentada do meu quarto ficava um velho pôster de um cara musculado e bonito que, como em todos os dias, o observa refletido no espelho enquanto me aprontava para ir à escola. Era mais um novo dia e eu precisava começá-lo bem. Ontem quando cheguei da casa de Matt, pus meu pijama o mais rápido possível e fui imediatamente para frente do computador. Mesmo estando na companhia do outro a noite, passamos também a madrugada inteira conversando juntos. O assunto com Matt parecia não querer acabar mais, e, no meio de todas aquelas caixas de sorvetes sobre o teclado e risadas, não notamos que o dia já estava amanhecendo. Ele surtou e começou a reclamar sorrindo que a culpa era minha, que eu estava incentivando a faltar à aula. Pensando no papo de ontem eu vestia minhas meias azuis da sorte. Matt, o que eu menos penso quando estou consigo é se terá aula ou qualquer outra coisa no dia seguinte.
Minha mãe não estava na cozinha, queria desejá-la um bom dia. Coitadinha, trabalha tanto. Minha mãe era empregada doméstica na casa dos Jones, família rica — e poderosíssima — da rua 13, e depois que se demitira, parece que seu serviço havia se expandido. Como sempre, o café da manhã já estava pronto sobre a mesa, mesmo coberto eu podia sentir o cheiro vindo ao encontro das minhas narinas e chacoalhando meu estômago. Eu estava faminto. Ontem quando conversava com Matt pela internet eu assaltava a cozinha de quinze em quinze minutos, mas mesmo assim, parece que aquelas barras de cereais não amenizaram muito.
Eu precisava comer logo, mas antes eu me perguntava onde minha mãe estaria.
Eu bati na porta do seu quarto fazendo uma pequena parte da música de Van Halen com os dedos. Minha mãe a conhecia, era superfã na adolescência, e sempre que ouvira na porta sabia que era eu. Aquilo era desde meus cinco anos de idade. Eu estava animado por causa de ontem. Nada estragaria meu dia. De dentro minha mãe ordenara que eu pudesse entrar. Normalmente ela sempre me atende na porta, o que me fez estranhar um pouco. O quarto de minha mãe se resumia em uma cadeira de balanço, uma mesa com uma velha, porém boa maquina de costura seguida de uma cama de casal recentemente comprada em um dos bairros chiques da cidade onde minha mãe e meu pai costumavam comprar os móveis para mobiliar nossa antiga confortável casa. Dei uma vista ao redor e vi que meu pai não estava naquele quarto. Eu esperava encontrá-lo ao pé da cama dormindo por conta da ressaca alcoólica, mas o que vi era apenas uma pobre mulher, minha mãe, de costas para mim, com as mãos sobre o rosto movendo-as e limpando com um lenço branco pequenas gotículas de água que saiam pelas órbitas de seus olhos vermelhos e cansados. Estava ela chorando?
Sentei ao seu lado e perguntei o que havia acontecido enquanto retirava mechas do cabelo que cobria seu rosto. Antes que me respondesse, não deixei de notar que a cama estava vazia. “Ele nos abandonou?” perguntei arregalando os olhos. Ela balançou a cabeça dizendo que não, e logo em seguida me falou que ele havia saído para beber mais uma vez e que logo estaria voltando. Eu a abracei confortando-a e de repente a gente se larga por conta de um barulho que havia vindo da cozinha. Não tínhamos dúvidas de que era ele.
— Essa não. — choramingou.
Meu pai entrou no quarto com um pulo. Esperaria apenas seu falatório sem nexo e sem sentido como a de qualquer outro bêbado de Alana. Mas dessa vez foi diferente. Ele não apenas iria chamar minha mãe para fazer um almoço naquela manhã e me empurrar para escola. Meu pai iria fazer algo extremamente diferente e ruim. Eu estava com um pressentimento péssimo apertando meu peito.
Ele chutou a porta com uma força sobrenatural, me pegou pela orelha e inexplicavelmente me atirou sobre o chão. Com a batida o pedaço da minha unha do dedo mindinho foi embora, mas o pior ainda estaria por vir. Ele me batia incontrolavelmente nas costas. Dava chutes agressivos que a qualquer momento eu poderia ouvir minha costela se romper. Sem mais nem menos eu já me encontrava de bruços no chão, o homem no qual me chutava na barriga levantou a blusa para erguer seu cinto e provavelmente iria me arrancar com ela gritos desesperados de dor, que até agora eu não tinha fôlego o suficiente para liberá-los. Meus olhos travaram e eu conseguia apenas sentir minha audição falhando e voltando, voltando e falhando. O chão estava quente, e eu envolvia meu estômago com os braços para protegê-lo da temperatura e do impacto de seus chutes enquanto tentava sugar o ar que ele me tirava. O desespero aumentava ao ver meu pai cruel me agredindo brutamente. Seu sapato duro batia contra meu pescoço e minhas vértebras quebrariam ali. Eu fechava os olhos, eu não queria ver aquilo. Eu gritei. Eu conseguia ouvir passos vindos em direção á nosso apartamento, mas não conseguia ver nada. Quando ousei abrir os olhos, apenas vi as pernas da minha mãe tremendo no chão no qual recebia gotas secas banhadas no ardor e sofrimento; eram lágrimas. Minha mãe estava já de joelhos tentando o segurar enquanto gritava por socorro e piedade o mesmo.
Eu tentei pedir ajuda, mas o pânico que me rodeava não me permitia e me dava coragem. Quando enfim eu achava que iria perder a consciência, dois homens surgiram no quarto. O primeiro o agarrou por trás, eu enfim pude abrir os olhos; o segundo tentava acalmar a mulher descontrolada que até agora estava com sua própria força impedindo meu pai de me socar. Eles o arrastaram até a sala, alguns barulhos de objetos quebrados podiam ser ouvido vindo de lá, até que de repente tudo se silenciou. Minha mãe suspirou e se sentou sobre a cama, eu a olhei e pude ver sua expressão de derrotismo, arrependimento, mal estar. Ela não estava bem. Eu queria ajudá-la, mas estava paralisado ali estirado no chão. Um moço invade nosso quarto, não era nenhum dos dois de antes, provavelmente seria algum pedestre que passeava por ali e curioso foi ver o que havia.
— Ele desmaiou! — O velho exclama com um ar de alivio. Com certeza meu pai havia dado muito trabalho para as pessoas que agora eram uma multidão na minha sala de estar cochichando e perguntando uns aos outros o que havia acontecido.
Cambaleando e ainda com um forte machucado no braço direito fui em direção á eles. Estavam circulados em volta do sofá em que meu pai estava desmaiado com parte da blusa aberta e metade da calça ainda suja de álcool. Sem ligar para o mal cheiro que ele transmitia fui me aproximando dele passando entre aquelas pessoas de braços cruzados com suas feições de negação. Uma senhora ainda de camisola encostou a mão no meu ombro e foi sensível comigo. Eu olhava para aquela pessoa dormindo no meu sofá de um jeito que eu nunca olhei antes. Eu não conseguia ver mais meu pai. Eu via somente um cara, um cara totalmente irreconhecível com atitudes de adolescentes que nem mesmo eu cometia. O homem sério que me ensinou a andar de bicicleta e jogar xadrez não era mais aquele. No sofá eu via um completo estranho. Na primavera do ano passado quando ele me comprou o tênis que eu sempre o pedi e que eu estava usando agora, eu disse: “Você é o melhor pai do mundo”. Eu abaixei a cabeça e os vi tão bem cuidados. Na última fileira do sapato, havia resíduos da bebida que ele havia trazido consigo antes de me jogar contra o chão. Limpei-a esfregando nas meias do outro pé, e a frase que eu sempre dizia nos meus aniversários, festas natalinas ou quando ele me chamava para andar de skate no parque foi substituída por um duro “eu te odeio” seguido do meu dar de ombros e meu desprezo eterno assim que bati a porta do meu quarto com força.
Junto com uma terrível enxaqueca que eu tinha impressão que iria se prolongar por semanas eu sentia imensas gotas de sangue drenando e escorrendo pelos meus ouvidos e fonte.
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