Meu Melhor Amigo

20 É claro que também era o dia da minha última escolha entre Eduardo e Dale.


Notas iniciais
Bom, eu nem sei por onde começar... Faz tanto tempo e nem sei se alguém ainda vai realmente ler o final dessa história. Porém, eu precisava completá-la, algo no fundo da minha mente sempre me chamava para terminar esse capítulo que acabou se tornando o último. Não posso me desculpar por passar quase um ano sem postar nada, além de não cumprir com as minhas palavras que falavam sobre o futuro dos personagens. A verdade, é que eu resumi tudo aqui, em um único capítulo, sei que os acontecimentos vão parecer meio atropelados e muito repentinos, mas não deixa de ser aquilo que aconteceria a um longo prazo. Enfim, espero que gostem (na verdade, espero que qualquer um que um dia já acompanhou essa história possa ler o final), me perdoem mais uma vez por isso e boa leitura. PS: O capítulos tem quatro momentos de narração, para isso tive que colocar o nome do narrador de cada momento no meio dos parágrafos mesmo, sendo o último um epílogo. E eu provavelmente não revisei perfeitamente por ser um capítulo grande, sorry for that.

Narrador: Luke

3 anos depois,

O dia da formatura e do meu aniversário, mais especificado como 20 de janeiro. O último dia que irei narrar, o último do começo da minha jornada. É claro que também era o dia da minha última escolha entre Eduardo e Dale.

Eu acordo bem cansado. A semana havia sido muito agitada. Eu havia corrido por toda a cidade mexendo em documentos, indo até a faculdade, comendo em casa, resolvendo de novo a matricula e voltando. Eu nunca imaginei que se matricular em uma faculdade fosse tão difícil assim. Mas eu estava tão empolgado, ia realizar um dos meus sonhos. Daqui a duas semanas estaria realmente começando a estudar para ser um arquiteto.

Hoje o dia se resumiria em: pela manhã, ir até a faculdade para resolver as últimas assinaturas da matrícula; pela tarde, sair com Dale para alugar nossos ternos e pela noite, a formatura. Eu não sabia o que pensar, mas algo deveria mudar, eu tinha 18 anos.

Eu temo descer a escada e encontrar uma festa surpresa lá embaixo. Mas para a minha sorte, meus pais estavam ocupados demais se preparando para ir ao colégio da minha irmã para pegar seu boletim. Os dois me desejam parabéns e se despedem de mim, eles não estavam se preocupando muito porque amanhã teria uma festa reservada para a família, a qual eu tanto insistira para que não acontecesse. Decido tomar café rapidamente e antes de sair me deparo com Lilly à porta da casa.

Dirigir não é algo difícil, para mim tem a ver com prática. Meus pais me deram o carro duas semanas atrás de presente de aniversário adiantado. Lilly disse que havia preparado um presente especial, mas que só entregaria amanhã, porque ainda não estava completamente pronto.

Chego à faculdade, o dia é bonito e ensolarado. Eu chego à recepção e a atendente, morena de olhos verdes que já me conhecia, me manda diretamente para o setor onde deveria entregar meus documentos finais. A faculdade fora outra conquista minha nesses três anos, eu passara o ano passado todo estudando e consegui minha nota para passar em quinto lugar no vestibular mais concorrido da cidade, por coincidência, a mesma faculdade onde Dale estudava. Dale estava indo para o quinto período do curso de Ciência da Computação.

Chegando na sala, a nova atendente pede para que eu aguarde minha vez e eu me sento ao lado de uma moça que não parecia ser muito mais velha que eu. A única coisa que se destaca nela são seus cabelos dourados que caem em cascatas sobre seus ombros, ela está com o rosto centrado para o colo, onde um livro que não reconheço encontra-se aberto. Alguns momentos depois que eu sento ao lado dela, ela tira sua atenção do livro e vira para mim, seu sorriso é exuberante e bonito.

–Bom dia. –ela fala calorosamente.

–Bom dia. –respondo com educação.

–Meu nome é Dayana, mas pode me chamar de Day se quiser. Sou caloura de Medicina. –ela diz com naturalidade, mas eu me intimido um pouco. Ela deveria ser muito inteligente.

–O meu é Luke, você pode me chamar de Luke se quiser. –ela dá uma risada baixa. –E vou cursar Arquitetura.

Ao contrário do que imaginei, ela não esboça nem um pingo de orgulho ou deboche. Nós desenvolvemos um diálogo descontraído e divertido até a hora em que terminamos de entregar tudo e podemos ir. Na saída, ela estende o braço e oferece a mão para que eu aperte.

–Amigos? –ela pergunta sorrindo. Seus olhos castanhos escuros são profundos e hipnotizantes. Eu vejo logo que seremos grandes amigos.

–Amigos. –respondo e aperto a mão dela.

–Até o primeiro dia então, cuidado, ouvi falar que os trotes daqui não são leves.

–Eu já me informei sobre isso, pode deixar, irei me cuidar. Até.

Ela se vai e eu me dirijo ao carro. Eu volto para casa com um sorriso grande no rosto e coloco uma música qualquer para tocar. Ligo para Dale e confirmo o horário em que ele vai para a minha casa. O dia estava passando depressa e leve, como se tudo que estava acontecendo estivesse ansiando por um momento por vir. Talvez fosse só a minha empolgação com a formatura mesmo.

Ao chegar em casa encontro minha mãe pondo os pratos à mesa. Meu pai e Lilly encontram-se sentados esperando, eu me junto a eles. O almoço é divertido, passamos a maior parte do tempo conversando sobre lembranças engraçadas das nossas vidas em todos os meus aniversários. Teve um em que eu caí do telhado, outro onde Lilly botou fogo em uma cama elástica... Eu levanto da mesa no momento em que meu pai acaba de contar quando acordou só de cueca em um banco de praça, o mesmo dia em que descobriu que era sonâmbulo.

–Mãe, eu vou sair com Dale para alugarmos os ternos para a noite. Vejo vocês mais tarde. –digo. Despeço-me do meu pai e da minha irmã também e vou até a porta de entrada.

–Boa tarde, será que é aqui onde mora meu namorado mesmo?-Dale pergunta sorrindo, por coincidência estava na frente da porta quando eu a abri.

–A não ser que tenha outro namorado, suponho que esteja na casa certa. –digo e ele se aproxima para me beijar.

–Vamos, temos pouco tempo para alugar esses malditos ternos. –ele diz enquanto eu fecho a porta.

–Tempo não é problema para quem tem carro. –falo balançando a chave do carro na cara dele.

–Não brinca! -ele praticamente grita e tem uma reação até melhor do que a minha de quando descobri. Eu escondera dele a notícia por esses dias, porque sabia que seria uma grande surpresa para ele também. Seus olhos parecem brilhar de alegria e ele então me segura nos braços e me gira. Coloco meus braços ao redor do seu pescoço enquanto ele me carrega até o veículo. –Vamos, Sr.Motorista.

Como eu havia dito, tempo não era problema. Demoramos apenas alguns minutos até chegar em uma rua cheia de lojas de aluguel para roupas de eventos. A primeira loja não tinha ternos, apenas vestidos, Dale brincou dizendo: “Mas são vestidos que queremos mesmo.”, acho que a atendente não gostou muito. Passamos por mais duas lojas onde não havia roupas para o nosso tamanho e finalmente na quarta loja em que entramos encontramos algo.

–O que acha desse?-Dale pergunta colocando um blazer azul-claro na sua frente, com alguns detalhes em preto e uma rosa branca no bolso da frente, a roupas contrastava totalmente com o rosto dele.

–Sou meio suspeito para falar, mas esse está perfeito para você. –digo e ele se aproxima sorrindo, ele coloca os lábios próximos ao meu ouvido.

–Vamos atrás do seu logo, sempre achei que você ficaria muito sexy com roupa formal. –ele sussurra e eu solto um riso descontrolado. Ele faz o sorriso que traz toda a minha felicidade à tona, seus olhos levemente fechados e sua boca torta para o lado faziam-me sentir que o dia valera alguma coisa.

Seguimos à procura da minha roupa para a noite. Estava tudo passando tão leve e alegre ao mesmo tempo, minha vida estava finalmente onde eu sempre quis que ela estivesse e era como se tudo pelo que eu já passara me conduzira até aquele momento. Eu conseguia lembrar hoje de todos os acontecimentos que fizeram minha vida mudar completamente, desde quando me descobri gay, meu amor com o Eduardo e a chegada de Dale, tudo estava ali dentro de mim e haviam me tornado isso que eu sou hoje.

Quando saímos da loja, Dale segura os dois ternos, o meu seria um preto que ele dissera casar completamente com os meus olhos. Dirijo de volta para casa e Dale começa a contar uma história sobre um trote do curso dele onde deixaram o calouro preso no elevador por um dia completo. Meu sorriso é natural e o vento balança meu cabelo para o alto. Eu não tinha um aniversário tão normal desde quando meu pai batera o carro na árvore do vizinho na madrugada.

–No que você está pensando?-pergunta Dale repentinamente. Ele chega próximo a mim e apoia sua cabeça no meu ombro.

–Nada. O dia está sendo perfeito demais para ser verdade. –respondo e sinto seu sorriso mesmo não o vendo. Ele vem para mais perto e coloca seu rosto na frente do meu. –Nós vamos acabar batendo.

–Feliz aniversário. –ele diz e me beija. Quando ele se afasta, tem uma pequena caixa em cima do meu colo, provavelmente algo como uma joia.

–O que é isso?-pergunto olhando para o trânsito à frente.

–Não vai abrir?-ele pergunta meio revoltado, sua boca forma um pequeno bico de insatisfação e não posso deixar de rir.

–Estou ocupado tentando evitar a nossa morte, muito obrigado. –digo, mas a verdade é que eu queria largar o volante e ver o que tinha ali dentro.

No primeiro sinal fechado, abro a caixa. Dentro havia um colar fino de prata com uma medalha muito interessante, um meteoro pendia no centro, com muitos detalhes em vermelho e amarelo. Minhas bochechas parecem esquentar e um sorriso maior ainda é inevitável. Ele se lembrava do dia da chuva de meteoros, a primeira vez que eu aceitei que o amava tanto quanto amava Eduardo. Seguro o colar com força e lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto.

–Eu te amo. –digo e aproximo-me dele para beijá-lo calorosamente. Meu coração se enche de prazer e felicidade, eu poderia morrer naquele momento e iria totalmente bem. Tudo o que eu queria estava ali na minha frente.

–Acredite em mim, eu nunca iria querer parar isso, mas o sinal abriu há dez segundos. –ele diz e eu me desperto da surrealidade que era estar com ele. Dou marcha no carro e partimos novamente.

Chegamos à frente da minha casa, então saio do carro já com o presente no pescoço. Espero Dale sair também, ele sai do carro sorrindo e vem na minha direção, é quando sua expressão muda completamente. Seu sorriso se desfaz em um segundo e seu rosto permanece estático em uma reação de choque. Eu viro para ver o que o deixara tão assustado.

Meu coração parece parar por um instante. Minhas mãos e pernas começam a tremer e lágrimas descem pelo meu rosto sem que eu nem mesmo tenha tempo de tentar controlá-las. Fecho os olhos na tentativa de acreditar que eu estava errado, mas nada muda. Na escada da entrada da minha casa estava um garoto com cabelo loiro balançando ao vento, os olhos verdes me fitavam e pareciam tremer incontrolavelmente, seus lábios encontravam-se meio separados e seus dedos tentavam se esconder por debaixo da manga do casaco. Eduardo estava ali, na minha frente.

Minhas pernas trêmulas movem-se sem o meu consentimento. Tanto tempo, tantos anos, a necessidade de estar perto dele continuava ali, apenas esperando um momento para se manifestar. Seu rosto agora está a centímetros do meu e sinto seus olhos me penetrarem profundamente. Ele olha implacavelmente para mim, sem mover um músculo e eu não sei o que fazer. Minha mente parece voar e meus pensamentos se enrolam de uma forma inexplicável, sinto uma força puxando-me para mais perto dele. Seus braços me envolvem em um abraço que vence qualquer espaço entre nossos corpos, suas mãos apertam minhas costas com muita força, sinto suas lágrimas caindo em meu ombro e sua respiração incontrolada oscila ao meu ouvido.

Tudo parece sumir ao meu redor e eu não enxergo por algum tempo, as únicas coisas que conseguia sentir eram suas costas quentes em minhas mãos mais uma vez, seu queixo recostado em meu ombro e seu corpo preenchendo o espaço vazio dentro de mim, o abismo que havia sido aberto dentro de mim o qual tinha a certeza que nunca curaria, agora poderia ser cicatrizado.

Minutos se passam, horas, dias... Eu realmente não sabia. Quando ele finalmente resolve se afastar, eu aperto ainda mais suas costas, temendo a mínima ideia de seu corpo escapar-me das mãos. Então ele apenas coloca seu rosto na frente do meu, desistindo qualquer tentativa de sair totalmente do abraço. Tudo é tão novo e nostálgico ao mesmo tempo, sinto desejo de beijá-lo e imediatamente a realidade volta um pouco à minha cabeça.

Afasto-me dele e sinto certa resistência, porém não esqueceria mais que meu namorado estava a poucos metros de distância. Viro para Dale e ele encontra-se com os braços cruzados, não consigo decifrar seu rosto, talvez uma expressão beirando a dor. Meu coração aperta e vou para perto dele, não sei o que dizer então apenas seguro suas mãos

–Você sabia? -ele pergunta, quase baixo demais para eu ouvir. Balanço a cabeça em sinal de negação, seus olhos fecham por um segundo e ele parece aliviado. Fico ao lado dele e Eduardo se aproxima.

–Olá, Dale. –ele não havia mudado quase nada, suas únicas mudanças realmente visíveis eram a estatura maior e seus olhos, que pareciam mais profundos e ancestrais, como se ele tivesse mil histórias para contar. Seu cabelo loiro parecia brilhar ao sol, com ondas desgrenhadas e fios soltos pela sua testa.

–Eduardo... –Dale provavelmente não sabia o que falar, eu mesmo não sabia como agir. Tudo na minha mente parecia passar em flashes e eu não conseguia focar em nada, minhas mãos ainda tremiam e eu não sabia quanto tempo conseguiria permanecer em pé.

–Eu só vim aqui para ver Luke mais uma vez. –ele olha nos meus olhos e parece enviar choques de tensão e alegria por todo o meu corpo, aquecendo-me por dentro. –Eu precisava vê-lo, espero que entenda. Queria também agradecer por tudo o que fizeram, mandando a polícia atrás da minha mãe, no fim, eu entendi o porquê de esconderem aquilo de mim.

–É muito bom saber que deu tudo certo lá. –responde Dale e eu tento abrir a boca para falar algo, mas as palavras me escapam. Eu tinha a sensação de estar em alguma realidade alternativa, observando os acontecimentos em segundo plano.

–Feliz aniversário, Luke. –Eduardo diz e meu coração dispara. Era como se no fundo eu pensasse: Ele realmente se lembra? No fundo do meu interior, eu sabia que Eduardo ainda me importava, muito, e isso me assustava.

–Obrigado. –é tudo que consigo falar, saindo como um ruído sussurrado. –Eu gostaria de conversar a sós com você, se Dale permitir.

Olho para Dale, a ideia com certeza lhe traria dor e angústia, talvez até certo medo empregado nas marcas vincadas em sua testa e o desespero iminente em seu rosto. Porém eu não podia negar, eu ansiava estar mais uma vez com Eduardo, ouvir sua voz e estar ao lado dele pelo menos mais uma vez e Dale teria que compreender isso. Então solto suas mãos e apenas balanço a cabeço para lhe avisar que está tudo bem, ele consente e sorri para mim, me encorajando.

–Eu vou para casa. Estarei esperando lá. –Dale fala e beija minha testa, sinto seus lábios ansiosos se afastarem e ele parte. Vejo-o indo embora até que ele some e posso virar para olhar Eduardo novamente, certificando-me mais uma vez que ele era real.

–Vamos entrar?-ele pergunta e eu sorrio.

Já dentro do meu quarto, ele se senta na beira da cama. Parece se perder ao observar todos os cantos do lugar, suas mãos passam pelo lençol como se ele tentasse sentir tudo, provavelmente lembrando de tudo que ali mesmo acontecera.

Sento-me ao lado dele, porém não consigo encará-lo. Não sabia o que dizer, muito menos o que fazer. Eu havia passado três anos da minha vida reprimindo a parte de mim que ansiava esse reencontro, e agora que ele acontecia, eu não fazia ideia de qual seria o seu caminho. Minha mente parecia um emaranhado de sentimentos sobre os quais eu não tinha controle, o passado ia e vinha nos meus pensamentos. O que eu deveria fazer?

–É tudo muito estranho, não é? Todo o tempo que se passou e eu nunca passei um dia sequer sem pensar em você. –Eduardo diz enquanto encara os retratos em cima da minha estante, a maioria deles com os momentos mais especiais que eu tivera com Dale. –Você parece que conseguiu seguir muito bem sua vida e eu fico feliz por isso. Naquele dia, quando meu irmão morreu, fiz Dale prometer que cuidaria de você se eu o magoasse. Eu nunca achei que isso fosse realmente acontecer, mas ele com certeza é um homem de palavra.

As lembranças mais uma vez tomam conta da minha mente. Dale há muito tempo me contara o que ele e Eduardo tinham conversado naquele dia, contudo eu nunca relacionei isso aos três anos que eu passei com Dale. Nenhum de nós três provavelmente imaginou essa promessa sendo cumprida até que ela estivesse aqui, na nossa frente. Pelo jeito, a vida nos dá essas dicas imperceptíveis sobre nós mesmos que só iremos conhecer quando já for tarde demais para serem descobertas.

–Eu estou com medo, Eduardo. –falo finalmente, as lágrimas voltando mais uma vez. Viro para encarar seus olhos, a dor transbordando pelas minhas palavras. –Eu não quero escolher de novo, eu não quero. Achava que nunca passaria por isso mais uma vez, então você aparece e tudo volta à minha mente...

–Você não precisa ter medo de nada, Luke. –Eduardo diz e sua mão desliza pela minha bochecha enquanto ele enxuga minhas lágrimas. Ele sorri apesar de tudo. –Eu não vim aqui para repetir a história. Só precisava vê-lo, pelo menos mais uma vez. Um pouco egoísta, eu sei, mas eu não vou ficar.

–Não vai ficar?-meu coração se aperta e ele coloca sua mão sobre a minha. Nossos rostos agora estão a poucos centímetros de distância.

–Eu vou voltar para Londres. Eu comecei a faculdade de Direito lá, terminei o primeiro período uma semana atrás. –ele soa muito orgulhoso. Meu sorriso é inevitável, porém o que ele acabara de dizer no momento era o pior dos meus pesadelos. Ele parece perceber minha tristeza pela notícia. –Por que ficou assim? Não vai precisar escolher nada, sua vida continuará feliz com Dale como já é.

–Você não entende?!-falo meio indignado, meu senso de egoísmo toma conta de mim e eu solto tudo o que estou sentindo de uma vez. –Eu não queria escolher mais uma vez porque eu já sabia aonde isso me levaria. No momento em que lhe vi de novo, eu sabia que não existia uma versão de mim que não escolheria você.

Sua reação é um enigma para mim. Eu aceitaria um tapa naquele instante, ele poderia fazer isso por Dale, eu não me importaria. Mas eu não falara nada menos que a verdade e não me sentia nem um pouco orgulhoso por isso, porém eu não controlo o que sinto e nunca entenderia completamente os sentimentos que eu nutria pelo homem à minha frente.

–Luke, eu não posso fazer isso. Eu preciso ir embora. –Eduardo diz se levantando. Seguro sua mão como um último sinal de resistência. –Pense em Dale. Ele não merece isso mais uma vez.

–Ele me entenderia. –digo e levanto também. –Eu sei o quanto estou sendo egoísta nesse momento, mas Dale só quer me ver feliz e isso é tudo o que ele sempre quis. Ele sabe o tamanho do meu amor por ele, porém também conhece tudo que eu sinto por você.

Por um momento eu sinto que tudo vai se repetir. Imagino Eduardo saindo pela porta e me deixando para sempre, sinto o buraco no meu peito voltando gradativamente e fazendo Dale infeliz pelo resto da minha vida. Porém, isso não acontece.

Narrador: Dale

Meus passos ecoam pelo ar enquanto volto para a minha casa. Eu poderia estar desolado, decepcionado ou apenas muito triste, contudo eu não sentia isso. Na verdade, eu sentia absolutamente nada. O vazio dentro de mim parecia me consumir e a cada segundo que passa parece que esqueço o anterior. Meus olhos se fecham e quando se abrem já esqueço a última imagem que vi.

Nesse exato momento eu provavelmente já perdi o meu único amor. Ele já não me pertencia mais. A dor que eu deveria sentir não estava ali. Não tinha alguém para culpar, porque eu não podia julgar qualquer pessoa seguindo o seu coração, eu nunca faria isso. Eu ainda amo Luke acima de tudo e essa é a única coisa que importa.

Abro os olhos mais uma vez e vejo o mar. O céu nublado parecia me puxar para mais perto e o vento gelado me aconchegava de alguma forma. Encontro-me em um penhasco, minha mente provavelmente me levara ali sem eu perceber. A praia parece ínfima ali embaixo, comparada à imensidão azul que seguia para o infinito. Olho para baixo e vejo as ondas indo de encontro às rochas como sempre, quase muito pequenas para enxergar daqui de cima. Era tudo tão grande, tão perfeitamente contrastante e encaixado, como partes de um quebra-cabeça sem fim.

Desde o primeiro dia que tive Luke como namorado eu sabia sua ida iminente. Eu previ a volta de Eduardo e, dentro de mim, já aceitava tudo isso. Luke seria feliz e eu estou grato por isso. No entanto, eu não conseguiria conviver mais um dia comigo mesmo sabendo que nenhum dos meus dias posteriores seria melhor ou nem mesmo igual àqueles em que estive com ele ao meu lado.

Luke nunca conheceria o lado de mim capaz de se matar e assim é melhor, ele só precisava lembrar-se de mim como eu me apresentei para ele, a melhor forma de mim. A verdade é que eu sempre fora deprimido demais para qualquer coisa. Antes de conhecer Luke, eu me mutilava constantemente e como ninguém se importava eu não precisava esconder isso. Meus pais nunca olhavam para mim por mais de um minuto, sempre muito ocupados em manter suas vidas de aparências, eu era apenas o “adolescente problemático”. Até quando comecei a me embriagar nas festas da escola, era tudo para me manter vivo nesse mundo cheio de dor. Em uma dessas festas, eu observei um garoto mais novo, mais baixo e com certeza mais maduro que muitos ali. Ele sempre se destacava para mim, seus olhos castanhos sempre muito escuros e profundos, seu sorriso raro e espontâneo. Eu me apaixonei em segredo por muito tempo, até ter a chance de conhecê-lo. Esse sentimento pareceu ligar algo dentro de mim, como se pela primeira vez eu tivesse razão para continuar respirando, e eu realmente tive.

Meu cabelo é lançado para trás pelo vento e fecho os olhos pela última vez. Vou à extrema beira do penhasco e sinto a ponta dos meus pés pairarem no vazio. Eu poderia me despedir de tudo sem nenhum ressentimento, pois, mesmo que por pouco tempo, eu fui feliz e isso era tudo que eu precisava. Há muito tempo, prometera a mim mesmo que esperaria no mínimo um momento feliz, poderia ser um segundo sequer, para poder finalmente partir. Não consigo segurar o sorriso se formando no meu rosto quando vejo imagens dos meus momentos com Luke se formarem na minha mente. Solto um pequeno: “Obrigado” e dou meu passo para o infinito desconhecido.

Narrador: Eduardo

Tudo passa como um borrão na minha mente. Todas as lembranças da minha antiga vida com Luke, minha vida na Inglaterra, meu retorno repentino, em nenhum desses momentos eu esquecera meu grande amor. Na verdade, minha vida sempre dependeu dele e não é algo que eu possa superar. Não sei se acredito em algo tão místico como destino, mas minha ligação com Luke era muito mais sobrenatural do que eu poderia crer.

Hoje seria o último dia sem Luke do meu lado. Meu corpo como um todo ansiava o momento em que o teria novamente, porém, certa parte obscura de mim, perguntava se tudo poderia acabar mais uma vez. Mesmo assim, eu o aguardava no lugar que o abandonei da última vez, nosso refúgio, nossa base.

Um mês se passara desde o dia em que ele pedira um tempo para ficar sozinho após a morte de Dale. Eu nunca o vira em pior estado e da última vez que vislumbrara seu rosto estava tão triste e desolado que eu tentava esquecer essa lembrança. Apesar de tudo, ele também amara Dale demais e sua perda com certeza fora a pior coisa que já o aconteceu, certamente pior do que a vez em que o deixei, pois, seria permanente.

–Nostálgico, não acha?-Luke aparece na porta e seu sorriso é a única coisa necessária para me convencer que tudo ficaria bem. Ele se aproxima de mim e senta ao meu lado no novo colchão que arranjara para cá, já que o antigo já não servia mais.

–Você parece melhor. Espero que não se culpe pela... Você sabe. –digo com os olhos abaixados. Nos primeiros momentos após descobrirmos sobre o suicídio, Luke automaticamente se culpou pelo ocorrido e o mesmo aconteceu dentro de mim. Porém, alguns dias após a morte, foi deixada uma carta na porta do quarto de hotel onde me encontrava. Uma carta escrita por Dale. –Ele escreveu para você também, estou certo?

–É... Sim. –ele mantém o rosto fixo para frente, como se não quisesse olhar diretamente para mim. Ele provavelmente nunca olharia para pessoas da mesma forma. –Ele sempre permanecerá comigo, de alguma forma.

–Então, eu não queria apressar as coisas, porém temos nosso primeiro dia juntos na faculdade daqui a pouco, mesmo que não seja exatamente na mesma sala. –digo sorrindo para ele. Durante esse mês, arrumar os obstáculos para a minha permanência aqui foi meu objetivo e os cumpri com êxito. A reação de Luke não é imediata, porém quando ele finalmente se move acontece tudo como eu esperava. Em um momento ele está em cima de mim, seu rosto a centímetros do meu. Seus olhos castanhos me fitam com malícia.

–Desculpa por começar essa nova fase das nossas vidas sendo uma má influência, porém, eu não pretendo ir à faculdade hoje. –sua presença é tudo que preciso e, por algum motivo, eu sabia que nada mais poderia nos separar. Ele me beija vorazmente e nossos corpos juntos sabem como são conectados de algum jeito. A única parte de mim ainda não totalmente sobrepujada por Luke vem do fundo da minha consciência e diz: “Você sempre será a minha única fonte de vida.”. O pensamento logo se vai e deixo-me levar pelos meus sentimentos, naquele momento, completamente em sincronia com a pessoa agora considerada o homem da minha vida.

Epílogo

Seguimos caminhando lado a lado, seus dedos entrelaçados nos meus como eu adorava. O vento é leve e a sensação de estar feliz e realmente vivo nunca foi tão real. O sol começa se pôr no horizonte e Eduardo senta-se na areia enquanto o mar quase chega aos seus pés. Ele é tão lindo, fios rebeldes do seu cabelo loiro caem na testa e me aproximo dele apenas para apreciar o efeito de arrumá-los. Seu sorriso é tudo que eu preciso ver todo dia para confirmar que será o melhor dia da minha vida e ficar fitando seus olhos verdes, perdendo-me na infinidade de sentimentos ali contidos, tornou-se minha maior, e melhor, distração.

–Eu te amo. –digo ao sentar-me também. Já havia me convencido que dizer essas mesmas três palavras todo o dia para ele nunca seria o suficiente para expressar a proporção dos meus sentimentos por ele, porém ele já sabia disso.

–Eu também te amo. Mais do que qualquer coisa. –ele diz e seu nariz encosta-se ao meu. O seu sorriso, o meu sorriso, tudo parecia tão... Perfeito.

Eu costumava considerar a felicidade apenas uma utopia de um estado nunca totalmente alcançado pelo ser humano. Porém, cada dia com ele me fazia ser tão nitidamente feliz e realizado que já não havia como eu pensar do mesmo modo. Talvez a maioria das pessoas só precisasse perceber que a felicidade geralmente está ali do lado dela e nunca será algo a ser conquistado, apenas acontece.

Olho para o alto e vejo a imensidão que nos cerca, tomada por tonalidades laranja e avermelhadas. Meus olhos se enchem de lágrimas na onda de sentimentos que me atinge. Talvez aniversários tivessem esse objetivo afinal, lembrar toda a sua vida até o presente momento. Contudo, hoje não era apenas meu aniversário, mas o dia que marcou, dez anos atrás, a perda do meu outro grande amor. Eu nunca o esqueci e nunca o esquecerei, porque ele sempre seria de alguma forma uma parte de mim, e isso me completava.

Não posso ter certeza que minha vida continuará assim, pois a vida era muitas coisas, todavia, previsível não fazia parte desse leque de características. Apesar disso, uma certeza eu sempre carregaria comigo: “Meu nome é Luke e eu amo um homem chamado Eduardo, além disso, existe outro homem sempre fazendo parte de mim denominado Dale, e com esses dois eu sempre continuaria seguindo em frente, não importa o tempo ou lugar, no meio desse infinito e desconhecido universo.”.

–O mar é um dos seres mais admiráveis, não acha? –Eduardo diz após vários minutos, ou seriam horas? Ele então vira para mim e junta seus lábios aos meus. –Talvez logo depois de você.

–Você com certeza está na minha frente. –digo e selo mais uma vez nosso amor com um beijo, como faria todos os dias pelo resto da minha vida.

Notas finais
No fim, só gostaria de agradecer todos que leram a história (se qualquer um chegar aqui, já que o mesmo aconteceu com minha outra fic e ninguém mais voltou, são consequências dos meus atos) e todos os comentários e por tudo. Além disso, se leu o capítulo, gostaria de saber se apreciaria a ideia de postar um outro capítulo apenas para inserir as cartas escritas por Dale para Luke e Eduardo (afinal, não expliquei como chegaram ou o que foi escrito). Assim, deixo essa história finalizada, mais uma vez agradecendo a todos vocês que leram, acompanharam ou comentarem. Abraços, Jake,
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!