Aquele cheiro de novo…

Fazia três dias que o cheiro começou. Mofo. Era como se todos os móveis estivessem apodrecendo.

A casa estava insuportavelmente húmida e quente.

Roberto olhou para o seu filho brincando com um caminhão de brinquedo no chão da sala. Ele olhou por alguns segundos lembrando-se da época em que sua esposa estava viva e seu filho era uma criança sociável e feliz. Ele andou lentamente ate seu filho e sentou-se no chão na frente dele.

“Posso brincar?”

“Claro!”- Seu Filho falou com alegria.

O pai esticou sua mão para alcançar o caminhão, mas o brinquedo deslizou para trás. Pensando que talvez o calor tivesse mexido com sua cabeça, Roberto tentou mais uma vez pegar o caminhão e ele deslizou para frente.

“Pai! É a vez de o Fred brincar com o caminhão!” -repreendeu o menino.

Fred...Fred...Fred esse nome fez a cabeça de Roberto girar.

“Já falei para parar com isso! Não Existe nenhum Fred!”- Gritou o pai. Talvez fosse o calor, mas ultimamente estava mais irritado com tudo. ** Como se não bastasse o moleque ter me feito perder a chance de comer alguém ele ainda fica me jogando na cara essa porra desse amigo imaginário!** — pensou com raiva o pai enquanto pegava, com forca, o filho pelo braço aproximando o de sua face. Ele contemplou por alguns segundos a face assustada do menino sentindo uma estranha sensação de realização.

A raiva foi embora e deixou uma sensação de culpa. **Como alguém poderia sentir tanto ódio de um filho ou pensar que o mesmo, quando falava do amigo imaginário, estivesse zombando o pai?**- pensou Roberto sentindo vergonha da sensação que trazia ver o filho assustado.

“Pai, você assustou ele! Ele voltou para a parede”- Chorou o menino.

Tentando entender a fala da criança, ele olhou para a parede. Gotas de um liquido preto pingavam de baixo de um porta retrato da família. Ele não tinha reparado que a foto estava arruinada pela água, ela parecia estar podre.

Roberto soltou o braço do filho deixando nele a marca de sua mão, só então percebeu o quão forte apertava-o.

“Filho, vá brincar no seu quarto.”

“Mas pai...”

“Eu disse: vá-brincar-no-seu-quarto!”- Ordenou o homem, sentido raiva outra vez.

O menino, com os olhos marejados, marchou ate o quarto.

Ele removeu o porta retrato da parede e notou o quanto o papel de parede estava mofado. Ele tocou o liquido. Olhando para o liquido em sua mão, percebeu que a textura era mesma da água, provavelmente era apenas uma infiltração.

Ouviu um barulho vindo da parede do mesmo local de onde as gotas saiam.

Tisc..Tisc...Tisc...

Como se alguma coisa estivesse rasgando o papel de parede de dentro para fora.

Roberto olhou para a parede e observou enquanto formava-se uma pequena bola que ia amentando gradativamente de tamanho a cada segundo. O papel de parede cedeu. De dentro da bolinha saiu uma aranha não muito maior que uma moeda de vinte e cinco centavos. Ele observou o aracnídeo e teve uma leve impressão de que era observado pelo o mesmo.

A aranha pulou em seu rosto. Roberto passou a mão em sua face desesperadamente. Quando o aracnídeo foi jogado ao chão ele o pisoteou. Odiava aranhas.

Tisc....tisc....tisc..tisc tisc tisc

Sem coragem de olhar a parede Roberto ficou encarando seu sapato. O barulho amentava rapidamente. Continuou encarando seu sapato ate que uma legião de aranhas, do tamanho da primeira, entrou em seu campo de visão. Elas estavam em cima de seu pé e algumas em sua perna, ele sentia suas patas cabeludas contra a sua pele. Paralisado de medo observava as aranhas tomando conta de seu corpo. Ele ouvia um ruído ao fundo, que, aos poucos se transformou em um som concreto.

“Pai!”

O grito do menino despertou Roberto e ele olhou em volta. O que viu podia ser descrito para ele, sendo um aracnofóbico, como a visão do inferno. As paredes, o chão e o teto de sua casa estavam tomados por aranhas.

“Pai!”

Ele ouviu maior urgência na voz do menino. Tomado por uma coragem repentina conseguiu mover-se e foi em direção ao quarto do filho. A cena que viu era perturbadora. Seu filho estava roxo com a boca e os olhos abertos e de ambas as cavidades saiam milhares de aranhas. Antes de poder se mexer ou esboçar alguma reação a criança sorriu e o encarou com a orbita de seus olhos, que assim como a sua boca, estavam cheios de aranhas.

“Sabe quem eu sou?”- Disse o filho com uma voz que não o pertencia e uma voz que com certeza não era humana.

Roberto acordou ensopado de suor com o filho ao seu lado.

“Pai, o senhor esta bem?”- Perguntou o menino com os olhinhos grandes de preocupação. **”azuis como os da mãe”- Disse a enfermeira entregar o filho em seu colo pela primeira vez** essa memoria não fez o pai se sentir melhor.

“Estou, só tive um pesadelo... O que aconteceu enquanto brincávamos?”- Roberto perguntou ao filho, pois não sabia mais o que era realidade ou sonho.

“Você apenas disse que estava se sentindo cansado, então você deitou no sofá e dormiu. A uns dois minutos estou tentando te acordar. Você estava gritando algo sobre aranhas.”

“Estou bem filho...Já esta tarde vá dormir você tem aula amanha.”

Joao pareceu arrependido de ter acordado o pai, mas o obedeceu e foi caminhando lentamente da sala ate seu quarto.

Por mais que tivesse dormido aparentemente a tarde toda Roberto estava cansado e sentindo febril. Vagarosamente subiu as escadas ate o seu quarto e jogou-se na cama, em menos de 5 minutos havia adormecido de novo, mas não por muito tempo...

O relógio na sua cabeceira marcava exatamente três e vinte da manha quando Roberto foi acordado por um grito infantil. Assustado, ele deu um pulo para fora da cama e saiu de seu quarto. No corredor, notou que a luz do banheiro estava acesa. Ele andou em direção ao banheiro, na porta sentiu seus pés ficarem molhados e olhou para baixo. O banheiro estava encharcado com a água que saia da pia.

Apressando-se para fechar a pia não percebeu de imediato que a água estava muito quente. Assim que terminou sua tarefa suas mãos estavam doloridas e vermelhas. Ele olhou o estado do banheiro, teria muito trabalho para limpar essa bagunça.

Roberto levantou a cabeça e encarou o espelho embaçado, reparou que não apenas o formato de sua face aparecia, mas também uma silhueta preta.

Um novo grito fez Roberto lembra-se de qual era sua verdadeira missão. Havia pequenas pegadas de criança saindo do banheiro e descendo as escadas. **Isso estava aqui antes?** antes que ele pudesse puxar pela memoria o que teria ocorrido ouviu outro grito e apressadamente começou a seguir as pegadas que o levaram ate a cozinha.

“Joao! Joao Guilherme!”- o pai gritou, mas não houve resposta.

Ele ouviu um novo grito.

“Joao, cadê você?!”- ele gritou mais alto dessa vez.

Ouvindo passos o homem se virou para trás e encontrou seu filho coçando os olhos.

“O que foi papai?”- disse o menino com sono.

“O que aconteceu? Por que estava gritando?”

“Pai, eu não gritei. Eu estava dormindo no meu quarto...Temos visita?”- A criança falou apontando para a janela da cozinha onde, por causa do vidro opaco, só via-se a silhueta de um homem.

“Já chega dessa palhaçada!”- Gritou o pai. Tomado de raiva, ele foi ate a gaveta mais próxima e de lá retirou uma faca quando se voltou para janela a silhueta havia desaparecido.

Ele não iria desistir tão fácil. Roberto foi ate a porta que se encontrava na cozinha que dava acesso ao jardim e a abriu a tempo de ver o homem, que antes estava parado em frente a sua janela, entrando na floresta que ficava atrás do seu jardim.

“Fique aqui”- O pai falou para o filho o mais autoritário possível.

Ele fechou a porta com raiva e correu floresta adentro.

Já deveria ter andado uns 10 metros quando começou a ouvir passos vindos de sua direta, mas quando se virou não havia nada, logo em seguida ouviu passos de sua esquerda e se virou...nada.

“Quem você é?! O que você quer?”- Gritou.

Nenhuma resposta.

Andou mais um pouco quando ouviu mais passos, mas dessa vez eles não vinham de só um lugar e sim de vários.

“Quem está aí?! Quem você é?!”- Gritava em quanto, girando em círculos, tentando localizar de onde os passos vinham.

Assim como vieram, os passos se foram. Roberto resolveu sair daquele lugar. Sua coragem havia o abandonado.

Quando estava prestes a sair da floresta sentiu duas mãos molhadas agarrarem seu ombro e uma respiração húmida e quente.

“Você sabe quem eu sou”- disse a mesma voz que sairá da boca cheia de aranhas do seu filho em seus pesadelos a única diferença era que dessa vez ele não iria acordar.

Isso era real, não um pesadelo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.