Notas iniciais
Mais um capítulo meninas. Espero que gsotem.

POV EDWARD

Nunca fui um homem de me distrair com facilidade.

Sempre consegui separar o trabalho dos problemas pessoais. Quando atravessava as portas da empresa, minha cabeça funcionava como uma máquina perfeitamente ajustada: reuniões, contratos, investimentos, decisões.

Mas, naquela manhã...

Nada parecia funcionar.

Estava sentado atrás da enorme mesa de madeira da minha sala havia quase vinte minutos, encarando o mesmo contrato sem realmente ler uma única linha.

Minha mente insistia em voltar para ela.

Bella.

A imagem dela na noite anterior parecia gravada na minha memória.

O momento em que o estrondo da bandeja ecoou pela cozinha.

O som nem havia sido tão alto.

Uma empregada tropeçara, a bandeja escorregara das mãos e pratos haviam se espatifado contra o chão.

Um acidente comum.

Para qualquer pessoa.

Menos para Bella.

Ela simplesmente congelou.

Ainda conseguia enxergar o terror estampado em seu rosto.

Os olhos arregalados.

A respiração descompassada.

As mãos tremendo tanto que ela nem percebeu.

Ela não estava mais ali.

Estava revivendo alguma lembrança.

Alguma cena que eu nem conseguia imaginar.

Fechei os olhos por um instante.

Aquela expressão...

Era impossível esquecer.

Não era medo de um barulho.

Era medo de alguém.

Meu maxilar se contraiu imediatamente.

O filho da mãe que fez aquilo com ela...

Apenas imaginar aquele homem era suficiente para fazer meu sangue ferver.

Eu nem o conhecia.

Nunca tinha visto seu rosto.

Mesmo assim, sentia vontade de encontrá-lo.

Queria perguntar como alguém conseguia olhar para uma mulher como Bella e escolher machucá-la.

Como alguém conseguia destruir a paz de outra pessoa daquele jeito.

Ela se assustava com um simples barulho.

Com um simples prato caindo.

Que tipo de inferno ela havia vivido?

Passei as mãos pelo rosto.

Respirei fundo.

Violência nunca resolveria nada.

Eu sabia disso.

Mas havia momentos em que controlar a raiva era difícil.

Principalmente quando lembrava dela tentando esconder as lágrimas enquanto dizia que já estava bem.

Não.

Ela não estava.

Qualquer um conseguia perceber.

Ela apenas tentava convencer a si mesma.

Na noite anterior eu havia comentado, com muito cuidado, que talvez chegasse o momento de denunciar aquele homem.

Não forcei.

Nem insisti.

Só disse que ele precisava responder pelo que fez.

Que a polícia precisava encontrá-lo antes que machucasse outra mulher.

Bella apenas abaixou a cabeça.

Seus olhos ficaram distantes.

Como se ainda estivesse presa naquele relacionamento.

E aquilo me incomodava mais do que eu gostaria de admitir.

Ela merecia viver sem medo.

Merecia voltar a sorrir.

Merecia dormir uma noite inteira sem acordar assustada.

Suspirei.

Quando foi que Isabella Swan passou a ocupar tanto espaço na minha cabeça?

A resposta veio quase imediatamente.

Desde que voltou.

Porque, por mais que eu implicasse com ela desde o momento em que nos reencontramos, a verdade era outra.

Bella sempre chamava atenção.

Quando era adolescente, era a garota tímida que escondia o rosto atrás dos cabelos compridos.

Hoje...

Era uma mulher.

E Deus...

Que mulher.

Seu sorriso continuava delicado.

Os olhos castanhos continuavam transmitindo uma doçura absurda.

Mas agora havia algo mais.

Ela havia amadurecido.

Ficado ainda mais bonita.

Era impossível não reparar.

Não importava o quanto eu tentasse agir normalmente.

A batida na porta interrompeu meus pensamentos.

— Posso entrar ou você pretende continuar encarando esse contrato até ele assinar sozinho?

Sorri de lado antes mesmo de levantar a cabeça.

— Entra, Emmett.

Meu irmão entrou carregando um copo enorme de café.

Logo atrás dele vinha Jasper, segurando um tablet.

Os dois pararam diante da minha mesa.

Emmett cruzou os braços.

— Você está péssimo.

— Obrigado.

— Não foi um elogio.

Jasper puxou uma cadeira.

— Dormiu mal?

Fiquei alguns segundos em silêncio.

Os dois me conheciam bem demais.

Seria inútil fingir.

— Dormi Pouco.

Emmett arqueou uma sobrancelha.

— Bella?

Balancei a cabeça.

— Isabella.

Os dois trocaram um olhar discreto antes de voltarem a me encarar.

Jasper foi o primeiro a falar.

— Alice comentou que ela passou mal ontem. Alice ligou hoje para ela.

Apoiei os cotovelos sobre a mesa.

— Não foi exatamente isso.

Contei tudo.

O barulho da bandeja.

A maneira como Bella empalideceu.

A crise de pânico.

A dificuldade para respirar.

Como precisei falar com calma até ela conseguir voltar ao presente. Nem toquei nela com medo dela relembrar o desgraçado.

Enquanto eu falava, os semblantes dos dois ficavam cada vez mais sérios.

Quando terminei, a sala mergulhou em silêncio.

Foi Emmett quem respirou fundo primeiro.

— Cara... Que merda.

Assenti lentamente.

— Eu sabia que ela tinha passado por um relacionamento abusivo. Mas ver...É diferente. Muito diferente.

Jasper apoiou os braços nos joelhos.

— Você percebe na hora que o trauma continua ali.

— Exatamente. Ela reagiu como se estivesse correndo perigo naquele instante. Só porque ouviu um prato cair.

Passei a mão na nuca.

— Aquilo não sai da minha cabeça.

Emmett balançou a cabeça negativamente.

— Alice ligou para ela. Ela comentou que aconteceu por alto, mas não entrou em detalhe.

Respondeu Jasper.

— Imagino que ainda seja difícil falar.

— Eu tentei conversar um pouco com ela depois.

Os dois me olharam atentos.

— Disse que talvez chegasse a hora de denunciar esse cara. Que a polícia precisava encontrá-lo. Antes que ele machucasse outra pessoa.

Emmett suspirou.

— E ela?

— Não respondeu. Só ficou olhando para o chão. Mas disse que tinha medo.

Lembrei da expressão dela naquele momento.

Frágil.

Como se apenas ouvir a palavra "denunciar" fosse pesado demais.

— Ela tem medo.

Falei baixo.

— Dá para perceber.

Jasper concordou.

— Faz sentido. Homens assim costumam controlar as vítimas por muito tempo. Mesmo depois que elas conseguem ir embora. O medo continua.

Fechei as mãos em punhos.

— Isso é o que mais me irrita. Ela está longe dele...E ainda assim vive assustada. Como se ele pudesse aparecer a qualquer momento.

Emmett se levantou. Caminhou até a janela.

— Se eu encontrasse esse sujeito...

Parou a frase no meio.

Sorri sem humor.

— Eu também pensei nisso. Mais de uma vez.

Jasper olhou diretamente para mim.

— Não resolveria. O que resolveria é vê-lo preso.

Assenti.

Era exatamente isso.

Minha vontade era outra. Mas minha razão sabia que Bella precisava de justiça. Não de vingança, mas eu quero colocar a mão nele nem que seja cinco minutos.

— Ela precisa denunciar.

Falei.

— No tempo dela.

Completou Jasper.

Concordei.

Mesmo que a espera fosse insuportável.

Depois de alguns segundos em silêncio, Emmett voltou a sorrir daquele jeito característico.

— Agora vamos falar de outra coisa.

Revirei os olhos.

— Lá vem.

— Você está completamente ferrado.

— Como?

— Você não para de falar dela há vinte minutos.

— Estou preocupado.

— Claro. Preocupadíssimo.

Ele sorriu.

— Também ficou preocupado quando percebeu que ela é absurdamente bonita?

Bufei.

— Emmett...

— Responde.

Jasper riu discretamente.

Cruzei os braços.

— Ela sempre foi bonita.

Meu irmão abriu um sorriso enorme.

— Ah... Então você reparou.

Olhei para os dois.

— Vocês são insuportáveis.

— Não respondeu minha pergunta.

Revirei os olhos novamente.

— Sim. Ela é bonita. Muito.

Os dois riram.

— Sabia.

— Mas isso não muda absolutamente nada.

Emmett apontou para mim.

— É exatamente isso que um homem interessado diria.

— Sai da minha sala.

Ele deu uma gargalhada.

— Acertei.

Jasper levantou-se também.

— Vamos deixar o nosso querido irmão fingindo que não pensa na Bella a cada cinco minutos.

Peguei uma caneta.

— Cinco segundos para vocês desaparecerem.

— Estamos indo.

Emmett abriu a porta.

Antes de sair, ainda olhou por cima do ombro.

— Só um conselho.

— Nem começa.

— Tenta implicar um pouquinho menos com ela. Ela fica bonitinha quando cora.

Fechei os olhos.

— Rua.

Ele riu alto enquanto saía da sala.

Assim que a porta fechou, o silêncio voltou.

Olhei novamente para o contrato sobre a mesa.

Sorri sozinho.

Idiotas.

...

O expediente terminou mais tarde do que eu gostaria.

Quando estacionei em frente à casa dos meus pais, já passava das sete da noite.

Assim que entrei, ouvi vozes vindas da cozinha.

Amelie , uma das empregadas ,conversava animadamente com minha mãe enquanto a outra empregada ajudava a colocar os pratos na mesa.

— Filho!

Esme sorriu ao me ver.

Aproximei-me para lhe dar um beijo na testa.

— Cheguei.

Ela acariciou meu rosto rapidamente.

— Como foi o trabalho?

— Cansativo.

— Imagino.

Olhei discretamente ao redor.

— Cadê a Isabella?

O sorriso de minha mãe diminuiu um pouco.

— Ela não desceu.

Franzi a testa.

— Aconteceu alguma coisa?

— Disse que está enjoada desde o fim da tarde e preferiu ficar no quarto.

Meu olhar subiu automaticamente para o segundo andar.

— Ela jantou?

Esme balançou a cabeça.

— Não conseguiu.

Meu peito apertou.

— Ela está muito mal?

— Acho que é mais cansaço do que qualquer outra coisa.

Fez uma pausa antes de abrir um dos armários.

— Preparei um chá para ela.

Pegou uma bandeja pequena, colocou uma xícara fumegante sobre ela, algumas torradas e um potinho com mel.

Fez tudo com o cuidado típico dela.

Como se estivesse cuidando de alguém da família.

Sorri discretamente.

Minha mãe realmente tinha esse dom.

Ela olhou para mim.

— Você pode levar?

Peguei a bandeja de suas mãos.

— Claro.

Ela ajeitou a xícara mais uma vez.

— Diz para ela não se preocupar em descer. Se quiser descansar, está tudo bem.

Assenti.

Antes de subir, Esme segurou meu braço.

— Edward.

Olhei para ela.

— Obrigada.

Franzi a testa.

— Pelo quê?

Ela sorriu daquele jeito tranquilo que só ela sabia fazer.

— Por estar cuidando dela.Por fazê-la se sentir segura.

Olhei para a bandeja em minhas mãos.

Depois para as escadas.

Sem perceber, respondi quase num sussurro:

— Ela merece se sentir segura.

E, naquele momento, eu nem imaginava que, poucos minutos depois, toda a minha capacidade de manter a compostura seria colocada à prova.

Subi as escadas lentamente, segurando a bandeja com cuidado.

Não porque ela estivesse pesada.

Mas porque, de alguma forma, aquele simples gesto parecia carregar mais significado do que deveria.

Era apenas um chá.

Algumas torradas.

Um pouco de mel.

Nada demais.

E ainda assim eu sentia como se estivesse prestes a entrar em um território desconhecido.

Parei diante da porta do quarto de Bella e bati duas vezes.

— Isabella?

Esperei.

Nada.

Franzi a testa.

Bati novamente.

— Isabella, sou eu.

Nenhuma resposta.

Meu primeiro pensamento foi que ela poderia ter piorado.

Talvez estivesse passando mal.

Talvez tivesse desmaiado.

A preocupação veio antes mesmo de eu perceber.

Girei a maçaneta devagar.

— Isabella?

Entrei no quarto.

— Eu vou entrar, tudo bem?

Avisei, embora soubesse que provavelmente ela não estava ouvindo.

O quarto estava vazio.

A bandeja em minhas mãos parecia ficar mais pesada a cada segundo.

Olhei ao redor.

A cama estava arrumada.

O celular dela estava sobre o criado-mudo.

Mas Bella não estava ali.

Meu coração acelerou.

— Isabella?

Foi quando ouvi.

O som da água.

Vinha do banheiro.

Soltei o ar que nem percebi que estava segurando.

Claro.

Ela estava tomando banho.

Fechei os olhos por um instante, aliviado.

Que idiota.

Eu tinha imaginado mil possibilidades antes de pensar na mais simples.

Coloquei a bandeja sobre a mesa e me virei para sair.

Mas antes que eu conseguisse alcançar a porta...

Ela abriu.

E tudo parou.

Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.

Bella estava parada ali.

O cabelo molhado caindo pelos ombros.

Uma toalha enrolada no corpo.

As bochechas ficando vermelhas no mesmo instante em que percebeu minha presença.

E eu...

Eu simplesmente esqueci como funcionava respirar.

— Edward?!

A voz dela saiu mais alta do que pretendia.

Piscar foi a única coisa que consegui fazer.

— Eu...

Minha voz falhou.

Ótimo.

O grande Edward Cullen.

O homem que conseguia comandar reuniões com centenas de pessoas.

Completamente sem palavras diante de uma mulher de toalha.

Bella apertou a toalha contra o corpo.

— Você entrou no meu quarto.

Era uma acusação.

Mas o rosto dela estava tão corado que quase parecia outra coisa.

Voltei a mim.

— Eu bati.

Ela arregalou os olhos.

— Eu estava no banho.

— Eu percebi.

A resposta saiu rápida demais.

E, pela expressão dela, eu soube imediatamente que tinha piorado a situação.

Bella ficou ainda mais vermelha.

— Edward...

Passei a mão pela nuca.

Tentando parecer normal.

Falhando completamente.

— Eu só vim trazer o chá.

Apontei para a bandeja.

Como se aquilo explicasse tudo.

Ela olhou para a mesa.

Depois para mim.

— Você invadiu meu quarto por causa de um chá?

Um sorriso apareceu no canto da minha boca.

— Não sabia que precisava de autorização assinada para cuidar de alguém.

Ela tentou segurar o sorriso.

Tentou.

Mas perdeu.

E aquilo me deixou perigosamente satisfeito.

— Você é impossível.

— Já ouvi isso antes.

— Imagino.

Ela revirou os olhos.

E foi naquele momento que percebi algo.

Ela estava constrangida.

Mas não assustada.

Não havia medo no olhar dela.

Só vergonha.

E, estranhamente, aquilo me deixou mais tranquilo do que deveria.

— Vou sair.

Falei.

Finalmente dando a ela algum espaço.

Mas antes que eu me virasse, não consegui evitar.

— Embora eu precise admitir uma coisa.

Ela estreitou os olhos.

— O quê?

Olhei para ela por um segundo a mais do que deveria.

— Eu nunca imaginei que minha preocupação com você terminaria me causando um infarto.

Os olhos dela se arregalaram.

— Edward!

Sorri.

Ela ficou completamente vermelha.

— Você é um idiota.

— Talvez.

Dei um passo em direção à porta.

— Mas você sorriu.

Ela ficou em silêncio.

Porque era verdade.

E eu sabia.

Naquele momento, aquele pequeno sorriso significava mais do que qualquer outra coisa.

Saí do quarto antes que eu mesmo fizesse algo ainda mais imprudente.

Fechei a porta.

E encostei a testa nela por alguns segundos.

Perfeito.

Eu tinha acabado de perceber que estava completamente perdido.

Porque ver Bella sorrindo era perigoso.

Mas ver Bella corando por minha causa...

Era muito pior.