Meu Lugar Seguro
4 Capítulo 4
Notas iniciais
POV BELLA
Uma semana.
Quando cheguei à casa dos Cullen, eu esperava me sentir deslocada.
Afinal, aquela não era minha casa. Eu não conhecia aquela rotina
Não conhecia os horários.
Não sabia onde ficavam as coisas.
Não sabia até onde eu podia ocupar espaço sem parecer que estava invadindo.
Mas Esme tinha um jeito especial de fazer qualquer pessoa sentir que pertencia.
Ela nunca fazia perguntas demais.
Nunca me olhava com pena.
Apenas estava ali.
Carlisle era igual.
Ele tinha aquela calma que fazia tudo parecer menos assustador.
Talvez fosse por isso que estar ali era tão diferente de tudo o que eu tinha vivido nos últimos meses.
Naquela casa, ninguém esperava que eu justificasse minha existência.
Ninguém fazia eu me sentir um peso.
Mas havia uma pessoa que continuava sendo um verdadeiro enigma.
Edward.
Era quase engraçado.
Eu estava morando na mesma casa que ele.
Dormíamos em quartos no mesmo corredor.
Tomávamos café na mesma cozinha.
Jantávamos na mesma mesa.
E ainda assim...
Eu quase nunca o via.
Pela manhã, quando eu descia, ele já tinha saído.
Às vezes encontrava apenas uma xícara de café esquecida sobre a bancada.
Ou algum documento deixado sobre a mesa da sala.
Provas de que ele tinha estado ali.
Mas ele nunca estava.
Durante o dia, parecia desaparecer.
Eu sabia que ele trabalhava muito.
Carlisle havia comentado algumas vezes que, desde que Edward assumira a presidência da empresa, ele praticamente não conseguia tirar férias.
Mas ainda assim...
Era impressionante.
Como alguém conseguia morar em uma casa daquele tamanho e parecer um fantasma dentro dela?
A única certeza que eu tinha era que, por volta das sete da noite...
Edward Cullen reaparecia.
Pontualmente.
Sempre com a mesma expressão concentrada.
Sempre tirando o relógio do pulso antes de sentar à mesa.
Sempre parecendo que tinha acabado de sair de uma reunião importante.
Era quase como se ele tivesse uma vida paralela.
Uma vida em que eu não existia.
E eu não sabia por que aquilo me incomodava.
Talvez porque, quando eu era adolescente, eu passei anos querendo ser notada por ele.
E agora que ele finalmente me via...
Parecia fazer questão de fingir que não.
Suspirei.
Ridículo.
Completamente ridículo.
Eu tinha problemas muito maiores do que a minha antiga paixão pelo irmão da minha melhor amiga.
Uma paixão adolescente.
Uma coisa que deveria ter ficado no passado.
Mas aparentemente meu cérebro ainda não tinha recebido essa informação.
Naquela manhã, acordei mais cedo do que o normal.
Não por algum motivo específico.
Apenas não conseguia mais ficar deitada.
Peguei um moletom por cima da roupa de dormir e abri a porta do quarto.
No mesmo instante...
Outra porta se abriu.
Parei.
Ele também.
Por alguns segundos, apenas nos encaramos.
Edward estava saindo do quarto usando uma camisa social branca e calça escura.
A gravata ainda estava solta em volta do pescoço.
Os cabelos estavam levemente bagunçados.
Provavelmente porque tinha acabado de passar a mão por eles enquanto se arrumava.
Meu primeiro pensamento foi que ele parecia cansado.
Meu segundo pensamento foi que ele ainda conseguia parecer irritantemente bonito mesmo cansado.
O que era injusto.
Muito injusto.
Meus olhos se moveram para a porta atrás dele.
Depois para a minha.
Depois novamente para ele.
E então percebi.
— Seu quarto é em frente ao meu.
A frase saiu antes que eu pudesse evitar.
Edward olhou para as duas portas.
Depois para mim.
— Sim.
— Eu não tinha percebido.
Um pequeno movimento apareceu no canto da boca dele.
Não chegava a ser um sorriso.
Edward raramente dava esse luxo.
— Percebi.
Cruzei os braços.
— Você percebe tudo?
— Quase tudo.
— Isso parece uma característica bastante arrogante.
— Ou uma característica útil.
— Depende.
— De quê?
Inclinei a cabeça.
— De quem está sendo observado.
Por um segundo, ele ficou em silêncio.
Aqueles olhos verdes permaneceram nos meus.
Como se estivesse tentando entender exatamente o que eu queria dizer.
E talvez eu também estivesse.
Porque a verdade era...
Eu tinha percebido.
Durante aquela semana.
As pequenas coisas.
Edward sempre levantava os olhos quando eu entrava na sala.
Sempre sabia quando eu estava por perto.
Sempre parecia notar detalhes que ninguém mais notava.
Mas nunca comentava.
Nunca demonstrava.
Era como se ele tivesse construído uma parede invisível ao redor dele.
E, por algum motivo estranho...
Eu queria descobrir o que existia do outro lado.
— Você realmente nunca percebeu que os quartos eram em frente?— ele perguntou.
Sua voz me trouxe de volta.
Dei de ombros.
— Eu estava mais preocupada em aprender onde ficava a cozinha.
— Prioridades interessantes.
— A comida é importante.
— Não vou discutir isso.
Sorri.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
Ele ajeitou a manga da camisa.
— Não se acostume.
Revirei os olhos.
— Você faz questão de ser difícil, não faz?
— Você faz questão de tentar provar que eu sou.
— Talvez porque você facilite.
Ele passou por mim.
Mas antes de continuar pelo corredor...
Parou.
Virou levemente o rosto.
— Isabella.
Olhei para ele.
— Sim?
— Bom dia.
Foi simples.
Completamente normal.
Mas, vindo dele...
Pareceu diferente.
— Bom dia, Edward.
Ele assentiu e continuou andando.
Fiquei olhando por alguns segundos.
Até perceber uma coisa.
Ele tinha parado.
Ele poderia simplesmente ter ido embora.
Mas não foi.
E eu não sabia exatamente por quê.
Naquela noite, desci para o jantar um pouco mais tarde.
Não porque estava atrasada.
Apenas porque passei mais tempo escolhendo uma roupa do que gostaria de admitir.
Era estranho.
Antes...
Eu não pensava tanto nisso.
Depois de tudo...
Eu passei a escolher roupas pensando primeiro no que evitaria discussões.
No que não chamaria atenção.
No que não causaria problemas.
Agora eu estava tentando reaprender a escolher por mim.
Peguei um vestido preto simples.
A saia ficava um pouco acima do joelho.
Nada exagerado.
Apenas algo que eu gostava.
Como estava frio, coloquei uma meia-calça escura.
Quando olhei meu reflexo no espelho, fiquei alguns segundos parada.
Ainda parecia estranho reconhecer aquela pessoa.
Aquela mulher.
Não a garota assustada que tinha chegado ali.
Mas alguém que estava lentamente voltando.
Respirei fundo.
E desci.
Quando cheguei ao último degrau...
Eu senti.
O olhar.
Não precisei procurar.
Edward estava sentado à mesa com Carlisle e Esme.
Os três conversavam sobre a reforma da casa dele.
— O arquiteto disse que a parte externa deve estar pronta até a próxima semana — Edward comentava.
Carlisle assentiu.
— Então você finalmente vai conseguir voltar.
— Provavelmente.
Esme sorriu.
— Você fala como se estivesse falando de uma reunião.
Edward olhou para a mãe.
— Estou falando de uma casa.
— Sua casa.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Sim.
Foi uma resposta simples.
Mas havia algo nela.
Como se aquela casa significasse mais do que apenas paredes e móveis.
Então ele percebeu minha presença.
Seus olhos encontraram os meus.
E por um instante...
Eu tive certeza.
Ele olhou.
Não apenas para o meu rosto.
O olhar dele desceu rapidamente.
Para o vestido.
Para minhas pernas cobertas pela meia-calça.
E voltou imediatamente.
Tão rápido que talvez outra pessoa nem tivesse percebido.
Mas eu percebi.
Porque Edward Cullen podia fingir muitas coisas.
Só não podia fingir que não tinha olhado.
E o mais interessante...
Era que ele parecia tão incomodado por eu ter percebido quanto eu estava.
— Boa noite — falei.
Ele desviou os olhos para o prato.
— Boa noite, Isabella.
Sorri levemente.
Porque, pela primeira vez em uma semana...
Eu tinha certeza de uma coisa.
Edward Cullen não era tão indiferente quanto queria parecer.
O jantar naquela noite foi mais silencioso do que o normal.
Não um silêncio desconfortável.
Era apenas a maneira daquela família funcionar.
Carlisle tinha o hábito de ouvir mais do que falar.
Esme sempre fazia perguntas sobre o dia de todos.
E Edward...
Edward parecia conseguir estar presente e distante ao mesmo tempo.
Ele participava da conversa.
Respondia quando perguntavam algo.
Fazia comentários inteligentes.
Mas havia uma parte dele que parecia sempre estar em outro lugar.
Talvez fosse por isso que eu achava tão curioso quando ele prestava atenção em alguma coisa.
Ou em alguém.
Como agora.
Eu tentava ignorar. De verdade.
Mas era difícil quando a pessoa em questão parecia ter esquecido que eu conseguia enxergar.
— A reforma está demorando mais do que você esperava? — Carlisle perguntou.
Edward apoiou os talheres no prato.
— Menos do que eu esperava.
— Isso é uma surpresa.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Carlisle.
— Você nunca foi muito paciente com mudanças.
Edward ergueu uma sobrancelha.
— Eu gosto de planejamento.
— Você gosta de controle.
Esme falou calmamente, como se estivesse apenas comentando sobre o clima.
Edward olhou para ela.
— Existe diferença?
Ela sorriu.
— Para você, talvez não.
Não consegui evitar um sorriso.
Porque, de alguma forma, aquilo parecia muito verdadeiro.
Edward percebeu.
Claro que percebeu.
Ele sempre percebia.
— Alguma coisa engraçada, Isabella?
A forma como ele disse meu nome deveria ser irritante.
Formal demais.
Distante demais.
Mas havia algo no jeito como ele falava que fazia parecer uma provocação.
— Nada.
— Tem certeza?
— Tenho.
Inclinei levemente a cabeça.
— Só estava pensando que sua mãe talvez tenha razão.
Carlisle abaixou o olhar para esconder um sorriso.
Esme pareceu satisfeita.
Edward, por outro lado...
Apenas me observou.
— Isso é uma conclusão perigosa para alguém que mora aqui há apenas uma semana.
— Talvez eu seja rápida em aprender.
— Ou rápida em julgar.
— Você está dizendo que eu estou errada?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
E lá estava.
Aquela pausa.
Aquela maneira dele pensar antes de responder.
Como se escolhesse cada palavra com cuidado.
— Estou dizendo que você gosta de ter uma opinião.
Sorri.
— E você gosta de fingir que não tem.
Um pequeno movimento apareceu no canto da boca dele.
Quase um sorriso.
Quase.
Mas eu vi.
Depois do jantar, Esme foi para a sala enquanto Carlisle recebeu uma ligação.
Eu fiquei alguns minutos na cozinha ajudando a organizar algumas coisas.
Na verdade, eu nem precisava.
Os empregados cuidavam de tudo.
Mas ainda era estranho simplesmente sentar e deixar outras pessoas fazerem qualquer coisa por mim.
Era um hábito antigo.
A sensação de que eu precisava compensar o espaço que ocupava.
Quando terminei de guardar algumas coisas, ouvi passos atrás de mim.
Não precisei olhar para saber quem era.
Edward.
Era impressionante como eu já reconhecia a presença dele.
E isso deveria me preocupar um pouco.
— Você não precisa fazer isso.
Virei-me.
— Fazer o quê?
Ele apontou discretamente para a bancada.
— Ajudar.
Dei de ombros.
— Eu sei.
— Então por quê fez?
A pergunta era simples.
Mas a resposta não era.
Porque eu não sabia explicar.
Porque durante muito tempo eu aprendi que receber qualquer coisa significava dever algo em troca.
Porque era mais fácil fazer alguma coisa do que aceitar que alguém queria cuidar de mim.
— Costume.
A resposta saiu baixa.
Edward me observou.
Não com pena.
Nunca com pena.
Era outra coisa.
Atenção.
— Você não precisa provar que merece estar aqui.
Meu coração apertou levemente.
Porque ele tinha acertado uma coisa que eu nunca tinha dito.
Desviei o olhar.
— Eu sei.
Ele permaneceu em silêncio.
Como se soubesse que eu estava mentindo.
E talvez soubesse.
Edward parecia saber muitas coisas.
— Boa noite, Isabella.
Ele saiu antes que eu pudesse responder.
Fiquei olhando para o corredor vazio.
Era irritante.
Muito irritante.
Como aquele homem conseguia dizer poucas palavras e ainda assim deixar tantas coisas para trás?
Os dias seguintes seguiram quase iguais.
Edward continuava desaparecendo durante o dia.
Eu continuava encontrando apenas pequenos sinais da presença dele pela casa.
Uma xícara de café.
Uma pasta esquecida.
O som distante da voz dele no escritório.
Mas, à noite...
Nós nos encontrávamos.
Não de uma maneira planejada.
Nunca era.
Apenas acontecia.
Às vezes na sala.
Às vezes na cozinha.
Às vezes no corredor.
E sempre existia aquela troca.
Um comentário.
Uma provocação.
Um olhar que durava um pouco mais do que deveria.
Eu comecei a perceber padrões.
Edward olhava quando achava que eu não estava vendo.
Quando eu entrava na sala, ele levantava os olhos.
Quando eu ria de alguma coisa que Esme dizia, ele observava.
Quando eu prendia o cabelo enquanto preparava café...
Ele olhava por alguns segundos antes de voltar para o celular.
E talvez a pior parte fosse...
Eu gostava.
Não do fato de ele olhar.
Mas do fato de que ele me via.
Depois de tudo que aconteceu...
Ser vista sem ser controlada era uma sensação nova.
Estranha.
E perigosa.
Na sexta-feira à noite, eu estava no quarto lendo quando ouvi uma batida na porta.
Franzi a testa.
Não esperava ninguém.
— Entra.
A porta abriu.
Era Esme.
— Desculpe incomodar.
Sorri.
— Você nunca incomoda.
Ela entrou segurando uma xícara.
— Trouxe chá.
Aceitei.
— Obrigada.
Ela sentou na poltrona próxima à janela.
— Está se adaptando?
Pensei antes de responder.
— Sim.
E era verdade.
— Ainda parece estranho.
— Normal.
Ela sorriu.
— Esta casa é grande.
Olhei ao redor.
— Muito.
— Mas uma casa não é feita pelo tamanho.
Ela olhou para mim.
— É feita pelas pessoas.
Baixei os olhos para a xícara.
Esme tinha uma maneira de falar que sempre chegava onde precisava.
— Obrigada por me deixar ficar.
Ela segurou minha mão.
— Bella.
A forma como ela falou meu nome fez meus olhos se levantarem.
— Você não está aqui porque estamos fazendo um favor.
Uma pausa.
— Você está aqui porque queremos você aqui.
Engoli em seco.
Ainda era difícil acreditar nisso.
Mas eu estava tentando.
Mais tarde, depois que Esme saiu, resolvi descer para pegar água.
A casa estava silenciosa.
Aquele silêncio confortável.
Caminhei pelo corredor e desci as escadas.
Quando cheguei próximo à cozinha...
Ouvi uma voz.
Edward.
Ele estava no escritório, falando ao telefone.
Parei sem intenção.
— Não, mantenha a equipe acompanhando a reforma.
Uma pausa.
— Eu volto para lá assim que estiver concluída.
Fiquei parada por alguns segundos.
Até perceber que estava ouvindo uma conversa que não deveria.
Continuei andando.
Mas antes que pudesse chegar à cozinha...
Um barulho forte ecoou.
Uma das bandejas que um funcionário carregava caiu no chão.
O som do metal batendo contra o piso foi alto.
Muito alto.
E meu corpo reagiu antes da minha mente.
Eu congelei.
Porque, de repente...
Eu não estava mais naquela casa.
Eu estava de volta naquele apartamento.
O copo quebrando.
A voz dele aumentando.
O medo.
A certeza de que alguma coisa ruim iria acontecer.
Minha respiração ficou presa.
As mãos começaram a tremer.
Eu tentei dizer para mim mesma que não era real.
Que tinha acabado.
Que eu estava segura.
Mas meu corpo não acreditava.
— Isabella.
A voz veio de longe.
Mas eu conhecia.
Edward.
Abri os olhos.
Ele estava parado alguns passos à minha frente.
A expressão dele tinha mudado completamente.
Não era mais a expressão controlada de sempre.
Era preocupação.
Mas ele não se aproximou.
Não tocou em mim.
Apenas ficou ali.
Me dando espaço.
— Olhe para mim.
Eu tentei.
Mas minhas mãos tremiam.
— Eu...
Minha voz falhou.
Edward respirou fundo.
— Está tudo bem.
Neguei com a cabeça.
Porque naquele momento parecia impossível.
— Não está.
A resposta saiu quase em um sussurro.
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então falou:
— Você está aqui.
Pisquei.
— Não está lá.
Minha respiração continuava irregular.
— Está na casa dos Cullen.
Mais uma respiração.
— Está segura.
As palavras dele não apagaram a lembrança.
Mas me trouxeram de volta.
Pouco a pouco.
Até eu conseguir sentir novamente o chão sob meus pés.
E Edward continuou ali.
Sem exigir nada.
Sem perguntar.
Apenas ficando.
Depois de alguns minutos, minha respiração finalmente começou a voltar ao normal.
Não de uma vez.
Não como nos filmes, em que tudo desaparece depois de algumas palavras certas.
Era mais lento do que isso.
Mais difícil.
Mas aconteceu.
O aperto no peito diminuiu.
O tremor das minhas mãos ficou menos intenso.
E, aos poucos, eu consegui lembrar onde estava.
A casa dos Cullen.
Não aquele lugar.
Não aquela noite.
Ali.
Edward continuava parado na minha frente.
Ainda mantendo distância.
E, de alguma forma, aquilo fez diferença.
Porque eu não precisava me preocupar com mais nada.
Não precisava me defender.
Não precisava explicar.
Ele apenas estava ali.
— Desculpe.
A palavra saiu antes que eu pudesse impedir.
As sobrancelhas dele se juntaram levemente.
— Você não precisa se desculpar.Pelo quê?
Olhei para o chão.
— Por isso.
— Isabella.
A maneira como ele disse meu nome fez com que eu olhasse para ele.
— Você não precisa se desculpar por ter uma reação a algo que machucou você.
Fiquei em silêncio.
Porque era estranho ouvir aquilo.
Durante dois meses, qualquer emoção minha parecia ser um problema.
Se eu estava triste, era drama.
Se eu estava com medo, era exagero.
Se eu questionava alguma coisa, era porque eu queria criar uma discussão.
Era difícil aceitar que alguém pudesse simplesmente...
Entender.
— Eu achei que estava melhor.
Edward inclinou levemente a cabeça.
— Você está.
Franzi a testa.
— Como pode dizer isso?
Ele respondeu sem hesitar.
— Porque há um mês você talvez não conseguisse ficar aqui agora.
Olhei para ele.
Edward continuou:
— Você teve um momento difícil.
Uma pausa.
— Mas você passou por ele.
A simplicidade daquela frase me atingiu mais do que deveria.
Porque talvez eu estivesse esperando que ele dissesse que eu estava quebrada.
Que eu ainda era aquela pessoa assustada que chegou ali.
Mas ele não disse.
Ele apenas enxergou.
— Você sempre fala assim? — perguntei.
Ele pareceu confuso.
— Assim como?
— Como se estivesse fazendo uma análise.
Pela primeira vez naquela noite, um pequeno sorriso apareceu.
— É um defeito profissional.
— Você transforma tudo em um caso?
— Nem tudo.
Ele fez uma pausa.
Os olhos dele encontraram os meus.
— Algumas coisas são apenas observadas.
Meu coração acelerou um pouco.
Porque eu sabia exatamente o que aquela frase significava.
Ele observava.
Muito mais do que deixava transparecer.
Desviei o olhar.
— Você observa demais.
— Você já mencionou isso.
— Porque continua sendo verdade.
— Talvez você preste atenção demais em mim.
A provocação veio baixa.
Quase tranquila.
Mas estava ali.
Sorri de lado.
— Talvez você dê muitos motivos.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
A tensão entre nós voltou.
Não aquela tensão desconfortável.
Era diferente.
Uma coisa silenciosa.
Como se estivéssemos sempre próximos de dizer algo que nenhum dos dois dizia.
Até que Edward desviou o olhar primeiro.
E, curiosamente...
Aquilo me deu uma pequena sensação de vitória.
Voltamos para a sala.
Ele não perguntou novamente o que tinha acontecido.
Não insistiu.
Não tentou arrancar detalhes.
E eu percebi que aquilo dizia muito sobre ele.
Edward Cullen tinha o hábito de querer entender tudo.
Ele analisava contratos.
Tomava decisões importantes.
Controlava situações.
Mas comigo...
Ele parecia saber quando não deveria tentar controlar.
Sentei no sofá.
Ele ficou na poltrona em frente.
O silêncio entre nós não era estranho.
Era confortável.
Depois de alguns minutos, ele falou:
— Isabella.
Olhei para ele.
— Sim?
Ele demorou um pouco antes de continuar.
— Existe uma coisa que eu preciso dizer.
Meu corpo ficou levemente tenso.
Não por medo.
Apenas pela seriedade na voz dele.
— Sobre o quê?
Edward apoiou os braços na cadeira.
— Sobre o que aconteceu com você.
Meu olhar caiu imediatamente.
Eu sabia.
Mesmo sem ele dizer.
— Eu não quero pressionar você.
A voz dele continuou calma.
— E não vou pedir detalhes agora.
Assenti.
— Mas quando você estiver pronta...
Ele fez uma pausa.
Como se escolhesse cuidadosamente cada palavra.
— A polícia precisa saber quem fez isso.
O silêncio ficou pesado.
Não por causa dele.
Por causa da verdade.
— Eu sei.
Minha voz saiu baixa.
Edward continuou:
— Não estou dizendo isso porque acho que você deve alguma coisa a alguém.
Olhei para ele.
— Então por quê?
Ele respirou fundo.
— Porque pessoas assim raramente param sozinhas.
Meu estômago se apertou.
— Edward...
— Eu sei que falar sobre isso pode parecer impossível agora.
Ele manteve os olhos nos meus.
— Mas se existir uma chance de impedir que ele faça isso com outra pessoa...
Ele deixou a frase terminar sozinha.
Eu entendi.
E talvez fosse isso que mais me assustava.
Porque uma parte de mim queria esquecer.
Queria fingir que nunca aconteceu.
Queria deixar aquele homem desaparecer da minha vida.
Mas outra parte...
A parte que estava começando a recuperar minha própria voz...
Sabia que ele tinha razão.
— Eu tenho medo.
A admissão saiu antes que eu pudesse impedir.
Edward não desviou.
— Eu sei.
— E se ele descobrir?
A expressão dele mudou.
Muito pouco.
Mas mudou.
Algo mais duro apareceu em seus olhos.
— Ele não vai chegar perto de você.
A certeza na voz dele me surpreendeu.
Não era uma promessa exagerada.
Não era uma frase de alguém tentando parecer um herói.
Era apenas Edward.
Direto.
Seguro.
— Você não pode garantir isso.
— Não.
Ele concordou.
E aquilo me surpreendeu ainda mais.
Ele não tentou mentir.
— Mas posso garantir que você não precisa passar por isso sozinha.
Fiquei olhando para ele.
Porque aquela frase parecia simples.
Mas, para mim...
Não era.
Durante meses eu tinha me sentido completamente sozinha.
E agora havia alguém sentado na minha frente dizendo que eu não precisava mais estar.
— Obrigada.
Ele apenas assentiu.
— De nada.
Um silêncio se formou novamente.
Mas dessa vez era diferente.
Mais leve.
Na manhã seguinte, acordei pensando naquela conversa.
No jeito como Edward tinha ficado ali.
Na maneira como ele não tentou me salvar.
Apenas me apoiou.
Talvez fosse isso que tornava tudo tão confuso.
Porque quando eu era mais nova, eu achava que Edward Cullen era apenas um homem bonito que eu admirava de longe.
Agora...
Eu começava a perceber que havia muito mais nele.
Ele era difícil.
Teimoso.
Arrogante em muitos momentos.
Extremamente convencido.
Mas também era cuidadoso.
Observador.
E, principalmente...
Ele fazia eu me sentir segura.
E depois de tudo que aconteceu...
Eu sabia o valor disso.
Desci para tomar café.
A casa estava silenciosa.
Como quase sempre.
Preparei minha xícara e me virei.
Edward estava parado na entrada da cozinha.
Como se tivesse surgido do nada.
Como sempre.
— Você tem o hábito de aparecer sem fazer barulho?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você tem o hábito de reclamar quando alguém aparece?
Sorri.
— Talvez.
Ele caminhou até a bancada.
Pegou o café.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio.
Então ele olhou para mim.
— Dormiu bem?
Era uma pergunta simples.
Mas eu sabia o que ele realmente queria perguntar.
Eu estou bem?
Assenti.
— Sim.
Ele observou meu rosto por alguns segundos.
Como se estivesse verificando se eu estava dizendo a verdade.
— Bom.
Apenas isso.
Mas antes de sair...
Ele parou.
— Isabella.
Olhei para ele.
— Sim?
— Se precisar de alguma coisa...
Uma pausa.
— Me avise.
Meu coração bateu um pouco mais forte.
Não pela frase.
Mas pelo jeito que ele disse.
Como se aquilo fosse óbvio.
Como se cuidar de mim fosse algo natural.
Ele saiu antes que eu pudesse responder.
E eu fiquei ali, segurando minha xícara de café, tentando entender uma coisa que começava a ficar cada vez mais difícil de ignorar.
Edward Cullen ainda era um mistério.
Mas talvez...
Pela primeira vez em muito tempo...
Eu não tivesse medo de descobrir.
Fale com o autor