Meu Lugar Seguro
24 Capítulo 24
Notas iniciais
POV BELLA
Havia alguma coisa particularmente cruel em descobrir que eu ainda conseguia ficar empolgada com coisas normais.
Ou talvez aquilo nem pudesse ser chamado de normal.
Eu estava sentada diante do notebook havia quase quarenta minutos, encarando a página de inscrição aberta na minha frente.
Li o nome do processo seletivo mais uma vez.
Depois os requisitos.
Depois o salário.
De novo.
Definitivamente não deveria ter olhado para o salário outra vez.
— Meu Deus — murmurei.
Era muito dinheiro.
Não apenas mais do que eu já tinha ganhado na vida. Era o tipo de salário que, poucos meses antes, eu sequer cogitaria receber algum dia.
Mas aquele não era exatamente o tipo de vaga em que alguém simplesmente enviava um currículo e esperava uma ligação.
Era um dos processos seletivos internos e externos mais concorridos da Cullen Corporation Enterprises.
E eu estava prestes a me inscrever.
Ainda parecia absurdo.
A empresa estava expandindo uma das áreas ligadas à análise econômica, inteligência de mercado e planejamento estratégico, justamente um dos campos da Economia pelos quais eu sempre fui apaixonada.
Carlisle tinha sido o primeiro a sugerir que eu tentasse.
Depois Alice.
Esme praticamente transformou a ideia em uma campanha.
E Edward...
Bem, Edward tinha colocado o notebook na minha frente naquela manhã e dito apenas:
"Você quer. Então tente."
Simples assim.
Como se eu não estivesse prestes a disputar uma vaga em uma das empresas mais importantes do país.
Como se centenas de pessoas provavelmente não estivessem fazendo exatamente a mesma coisa naquele momento.
Como se meu sobrenome não fosse Swan enquanto o dele estava estampado no alto daquela página.
Ou, pior, como se eu não fosse namorada de um Cullen.
— Você já conferiu isso umas seis vezes.
A voz de Edward veio atrás de mim.
Virei o rosto.
Ele estava encostado no batente da porta, braços cruzados, gravata frouxa e um sorriso divertido no rosto.
— Três.
— Cinco.
— Três.
Ele caminhou até mim.
— Eu estava contando.
— Você não tem uma empresa para administrar?
— Tenho.
— Então vá administrar.
— Estou tentando. Mas tem uma mulher ocupando minha mesa há quase uma hora.
Olhei ao redor.
Só então percebi que, tecnicamente, estava mesmo no escritório dele.
— Você me mandou usar seu computador.
— E me arrependo profundamente.
— Cullen.
Ele riu e puxou uma cadeira para se sentar ao meu lado.
Olhei novamente para a tela.
Meu estômago se revirou.
— Tem gente muito mais qualificada se candidatando.
— Provavelmente.
Virei o rosto imediatamente.
— Era aqui que você deveria dizer que não.
— Você quer que eu minta?
— Um pouco de apoio emocional seria interessante.
Edward sorriu.
— Bella, é um processo extremamente concorrido. Algumas pessoas que estão se candidatando provavelmente têm mais experiência profissional do que você. Outras terão menos. Algumas terão currículos excelentes e não vão passar da primeira etapa. Outras podem surpreender durante o processo. É justamente para descobrir isso que existe uma seleção.
Aquilo não ajudou em nada.
— Estou me sentindo muito melhor.
Ele riu.
— Você quer que eu diga que a vaga já é sua?
— Não!
Respondi tão rápido que Edward ergueu as sobrancelhas.
— Na verdade...
Fechei o notebook pela metade.
— Eu quero falar sobre isso de novo.
O sorriso dele desapareceu.
— Tudo bem.
Respirei fundo.
— Se eu fizer essa inscrição...
— Quando fizer.
— Edward.
— Continue.
— Se eu fizer — enfatizei —, você não vai fazer absolutamente nada.
Ele franziu a testa.
— Nada em relação a quê?
— Ao processo.
— Bella...
— Estou falando sério.
Virei a cadeira para ficar de frente para ele.
— Não quero ligação. Não quero indicação. Não quero que você converse com ninguém. Não quero que meu currículo apareça em cima de uma pilha porque sou sua namorada. Não quero que alguém receba um telefonema dizendo para prestar atenção em mim.
Edward me encarou.
— Terminou?
— Ainda não.
Ele quase sorriu.
— Claro que não.
— Se eu passar, eu quero saber que passei porque fui boa.
Minha voz diminuiu.
— Eu preciso saber disso.
Dessa vez, ele não brincou.
— E vai saber.
Observei seu rosto.
— Promete?
— Bella, eu não tenho como facilitar esse processo para você.
Pisquei.
— Você é Edward Cullen.
— Informação impressionante.
— Edward.
Ele riu.
— Estou falando sério. Eu não participo desse processo.
— Como assim?
— Como assim exatamente isso. A Cullen Corporation é grande, Bella. Eu não fico escolhendo quem entra em cada departamento.
— Mas você poderia interferir.
— Poder, provavelmente poderia. Mas não vou.
Cruzei os braços.
— Essa parte da contratação passa primeiro pelo recrutamento corporativo, depois pelos responsáveis técnicos da área. Dependendo da fase, há avaliação externa também. Eu não participo de nenhuma delas.
— Nenhuma?
— Nenhuma.
Senti meus ombros relaxarem um pouco.
Edward continuou:
— E confio na equipe que contratei justamente para fazer isso. Se eu começasse a interferir em seleção porque conheço um candidato, além de ser antiético, estaria dizendo a eles que não confio no trabalho que fazem.
— Então ninguém vai saber?
Ele fez uma careta.
— Bella, algumas pessoas sabem quem você é.
Meu ânimo morreu.
— Ótimo.
— Mas saber quem você é não significa que alguém vai alterar sua nota.
— Minha nota?
— Você realmente não leu o regulamento.
Abri o notebook imediatamente.
Edward riu.
— Eu li!
— Cinco vezes e pulou a parte importante.
— Cala a boca.
Rolei a página.
Prova técnica.
Estudo de caso.
Análise de dados.
Entrevista técnica.
Dinâmica.
Entrevista final.
Meu sorriso desapareceu aos poucos.
— Tudo isso?
Edward estava se divertindo demais.
— Você queria concorrência justa.
— Eu queria. Não precisava ser uma Olimpíada.
Ele gargalhou.
Empurrei seu ombro.
— Não ri.
— Você está reconsiderando seus princípios?
— Jamais.
Continuei lendo.
Quanto mais lia, porém, mais uma sensação diferente surgia por baixo do nervosismo.
Empolgação.
A prova técnica abrangia justamente assuntos de que eu gostava. Análise econômica, interpretação de indicadores, cenários de mercado, projeções, raciocínio quantitativo.
Cliquei no detalhamento do estudo de caso.
Meus olhos correram pelas informações.
— Isso é...
Edward me observou.
— O quê?
— Muito interessante.
— É?
Ignorei o tom provocador.
— Eles dão um cenário econômico e você precisa avaliar o impacto nas decisões da empresa.
Continuei lendo.
— Tem análise de risco, projeção, comportamento de mercado...
Um sorriso escapou antes que eu pudesse impedir.
— Eu adoro isso.
Quando olhei para Edward, ele estava me observando.
Não a tela.
A mim.
— O quê?
— Nada.
— Você está com aquela cara.
— Que cara?
— Aquela cara de quem vai dizer alguma coisa irritantemente bonita.
Ele sorriu.
— Eu gosto de ver você falando de alguma coisa que ama.
Baixei os olhos.
Aquela felicidade pequena continuava ali e eu quase tinha esquecido como era senti-la.
— Eu era boa nisso — falei baixinho.
— Era?
Olhei para ele.
Edward apontou para mim.
— Cuidado com o tempo verbal.
Sorri.
— Eu sou boa nisso.
— Melhor.
Voltei para a tela. O medo ainda estava lá.
Não apenas de fracassar.
Era maior.
Conseguir aquela vaga significaria voltar a trabalhar.
Ter meu próprio salário de novo.
Minha rotina.
Colegas.
Responsabilidades.
Significaria sair de casa todos os dias e existir em um lugar onde eu não era a mulher que Nathan machucou.
Eu seria Bella Swan.
Economista.
Funcionária.
Talvez independente novamente.
E aquilo era maravilhoso.
Também era aterrorizante.
— Edward...
— Hum?
— E se eu passar?
Ele me olhou como se a pergunta fosse estranha.
— Você trabalha.
— Na sua empresa.
— Na empresa em que eu trabalho.
— Você é praticamente dono dela.
— Detalhes burocráticos.
Ri.
Mas logo fiquei séria.
— Eu vou ganhar...
Olhei novamente para o salário.
— Isso.
— Sim.
— Por mês?
Edward soltou uma risada.
— Normalmente salários funcionam assim.
— Edward!
— Desculpa.
Olhei para aquele número novamente.
Era difícil explicar o que ele representava.
Não era luxo.
Não era comprar coisas caras.
Era liberdade.
A possibilidade de pagar minhas próprias contas.
De não depender de ninguém.
De construir alguma coisa que fosse minha.
Edward pareceu entender sem que eu precisasse dizer.
— É um ótimo salário — falou. — Mas é uma posição exigente.
— Eu sei.
— Se passar, ninguém vai aliviar porque você é minha namorada.
Olhei imediatamente para ele.
— Ótimo.
— Provavelmente vão cobrar mais.
— Melhor ainda.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Vou guardar essa frase.
— Não se atreva.
Edward aproximou a cadeira.
— Está pronta?
Olhei para o botão.
Enviar candidatura.
Meu coração acelerou.
— Não.
— Tudo bem.
Olhei para ele.
— Tudo bem?
— Você não precisa fazer hoje.
Voltei os olhos para a tela.
Poderia fechar.
Pensar mais.
Esperar.
Encontrar vinte motivos pelos quais aquela vaga era grande demais para mim.
Nathan teria encontrado cinquenta.
A lembrança surgiu sem convite.
As vezes em que ele dizia que eu não conseguiria.
Que eu não era tão inteligente quanto imaginava.
Que ninguém me contrataria.
Que eu precisava dele.
Minha mão foi até o mouse.
— Bella?
Cliquei.
A página carregou.
Candidatura realizada com sucesso.
Fiquei imóvel.
Edward também.
Olhei para ele.
— Eu fiz.
Um sorriso surgiu lentamente no rosto dele.
— Fez.
— Eu estou concorrendo a uma vaga na Cullen Corporation Enterprises.
— Está.
— Contra provavelmente centenas de pessoas.
— Possivelmente milhares, dependendo do número final de inscrições.
Meu queixo caiu.
— Você é péssimo dando apoio.
Edward começou a rir.
— Vem aqui.
Ele mal terminou a frase e eu já estava abraçando-o.
Edward me puxou para o colo.
— Eu fiz mesmo — murmurei contra seu pescoço.
— Eu sei.
— E você não vai mexer em nada.
— Não vou.
Afastei-me para encará-lo.
— Nem uma ligação.
— Nenhuma.
— Nem um comentário.
— Não.
— Nem um "por acaso, Isabella Swan..."
— Bella.
— Estou conferindo.
Ele segurou meu rosto.
— A única coisa que vou fazer é torcer por você.
— Muito?
— Irracionalmente.
Sorri.
— Isso pode.
Ele me beijou.
Quando se afastou, olhei novamente para a confirmação na tela.
Ainda havia insegurança.
Ainda havia medo.
Ainda existiam dias em que o simples pensamento de reconstruir minha vida parecia grande demais.
Mas, pela segunda vez eu estava tentando de novo recomeçar e havia outra coisa disputando espaço com tudo aquilo.
Expectativa. Eu queria aquela vaga.
Queria muito.
Não porque pertencia aos Cullen.
Não porque Edward trabalhava ali, mas porque aquela área era minha.
Porque eu amava Economia.
Porque queria descobrir até onde conseguiria chegar quando ninguém estivesse segurando minhas asas.
E, se algum dia meu nome aparecesse naquela lista de aprovados, eu queria olhar para Edward e saber que nem mesmo ele poderia dizer que tinha colocado Bella Swan ali.
Eu teria chegado sozinha.
E aquela ideia me fez sorrir.
James me encontrou naquela tarde no escritório de Carlisle.
Eu procurava um documento que Esme tinha pedido quando ouvi duas batidas na porta aberta.
— Bella?
Meu corpo enrijeceu antes mesmo que eu me virasse.
Era estranho.
Ainda acontecia.
Aquela reação automática que eu não conseguia explicar.
James estava parado próximo à porta.
— Oi.
— Posso falar com você?
Coloquei a pasta sobre a mesa.
— Claro.
Ele entrou, mas permaneceu a uma distância respeitosa.
— Eu queria pedir desculpas.
Franzi a testa.
— Pelo quê?
— Pelo jantar.
Imediatamente me lembrei dos comentários e da maneira como Edward havia reagido.
Da tensão que tomou conta da mesa.
James soltou um suspiro.
— Eu passei do limite. Fiz alguns comentários que não deveria ter feito.
— James...
— Não. — Ele levantou uma mão. — Eu fui inconveniente. Principalmente sabendo que você passou por algumas coisas difíceis. Eu deveria ter tido mais cuidado.
Meu desconforto diminuiu um pouco.
— Tudo bem.
— Não, não está. Tenho esse problema terrível de achar que sou mais sensato do que realmente sou.
Sorri educadamente.
— Edward provavelmente concordaria com você.
James riu.
— Tenho certeza.
Por alguns segundos, pareceu completamente normal.
Gentil.
Até simpático.
E senti uma pontada de culpa por todas as vezes em que meu corpo reagiu à presença dele como se estivesse diante de alguma ameaça.
Talvez fosse exatamente aquilo que eu já sabia.
Trauma não obedecia à lógica.
— Estamos bem? — perguntou.
Assenti.
— Estamos.
— Ótimo.
Quando passou por mim para sair, senti seu perfume.
E meu estômago virou.
Fechei os olhos.
Por um segundo...
Nathan.
Abri os olhos imediatamente.
James já estava na porta.
— Bella?
— Estou bem.
Ele me observou por um instante.
— Tem certeza?
— Tenho.
Esperei até ele sair e então apoiei as mãos sobre a mesa.
Não era Nathan.
Era só o perfume que me lembrou ou minha mente me enganando mais uma vez.
É trauma do que vivi.
Eu sabia disso.
Sabia.
Naquela noite, Edward apareceu no meu quarto pouco depois das onze.
— Você deveria estar dormindo.
Olhei para ele da cama.
— Você também.
— Acabei de chegar aqui.
— Eu sei.
Ele parecia cansado.
Aquela semana estava sendo particularmente difícil na empresa. Reuniões, contratos, problemas que surgiam um atrás do outro.
Mesmo assim, ele tinha vindo.
Por mim.
— Vem aqui.
Edward não discutiu.
Tirou os sapatos, deixou o paletó sobre a cadeira e se deitou ao meu lado.
Passei os dedos pelos cabelos dele.
— Você está exausto.
— Estou.
— Então por que veio?
Ele abriu um olho.
— Pergunta idiota.
Sorri.
— Sua casa fica mais perto da empresa.
— Você não está na minha casa.
Meu coração fez aquela coisa irritante que ainda fazia quando ele dizia certas coisas.
Beijei sua testa.
Edward ergueu o rosto.
O beijo seguinte encontrou meus lábios.
Lento.
Familiar.
Seguro.
E talvez fosse exatamente por isso que, quando suas mãos encontraram minha cintura, eu não recuei.
Aproximei-me.
Beijei-o novamente.
Dessa vez sem pressa.
Edward ainda tinha aquele cuidado comigo que às vezes chegava a ser quase exagerado. Parava diante de qualquer hesitação, procurava meu olhar, esperava.
Naquela noite, porém, eu não queria que ele parasse.
— Bella...
Encontrei seus olhos.
— Eu quero.
Ele ainda me observou por alguns segundos.
Depois me beijou.
E o restante do mundo pareceu desaparecer.
Não houve pressa.
Não houve medo.
Só nós dois, entre beijos, carícias e palavras sussurradas que ficaram guardadas naquele quarto.
Pela primeira vez, percebi que intimidade podia ser exatamente aquilo.
Não perder o controle.
Mas escolher entregá-lo por alguns instantes porque confiava que a outra pessoa o devolveria intacto.
Mais tarde, deitada contra o peito dele, desenhei círculos distraídos sobre sua pele.
— Você vai ficar?
— Tente me expulsar.
Sorri.
— Convencido.
Ele beijou meus cabelos.
E dormi ouvindo o coração dele.
Dois dias depois, Esme apareceu no café da manhã praticamente radiante.
— Carlisle vai me sequestrar.
Carlisle abaixou o jornal.
— Tecnicamente, não é sequestro quando você já arrumou três malas.
Alice riu.
— Três?
— Duas — Esme corrigiu.
— Eu vi três.
— A terceira é pequena.
Carlisle olhou para mim.
— Vamos passar a noite em West Cliff. Reservei uma pousada na região das montanhas.
Esme sorriu.
— Faz muito tempo que não fazemos uma viagem só nós dois, mesmo que seja curta.
— Que romântico — falei.
— Voltamos amanhã depois do almoço — Carlisle explicou. — Tenho compromissos no fim da tarde.
Edward apontou para as malas próximas à escada.
— E ela precisa levar metade do closet para menos de vinte e quatro horas.
Esme lançou um guardanapo nele.
— Edward!
Todos riram.
Durante algumas horas, quase esqueci que a saída deles significava uma coisa.
Eu ficaria sozinha naquela noite.
Edward provavelmente só sairia da empresa depois das dez e não viria para a mansão.
Alice tinha seus próprios compromissos, ela dormiu ontem na mansão, pois Jasper viajou, mas já chegou hoje. Então ela iria embora.
Emmett e Rosalie estavam na casa deles.
Não era exatamente um problema.
Eu conseguia ficar sozinha.
Precisava conseguir.
Edward: Ainda no escritório.
Olhei para a mensagem e sorri.
Bella: Imaginei.
Poucos segundos depois:
Edward: Jantou?
Bella: Sim.
Mentira.
Edward: Bella.
Olhei para o telefone, indignada.
Bella: Como você sabe?
Edward: Porque conheço você.
Bella: Vou comer.
Edward: Agora.
Bella: Mandão.
A resposta demorou poucos segundos.
Edward: E apaixonado. Vá comer.
Mordi o lábio para conter o sorriso. Eu poderia pedir para ir para a casa dele.
Sabia disso.
Edward provavelmente mandaria um carro ou viria pessoalmente me buscar, mesmo no meio daquela semana infernal.
Por isso não pedi.
Ele estava trabalhando até tarde todos os dias.
Não queria transformar minha insegurança em mais uma preocupação para ele.
Então comi alguma coisa, tomei banho e coloquei uma camiseta larga de dormir e um short curto.
Perto das onze, desisti de tentar dormir.
Decidi assistir a um filme.
Desci as escadas no escuro e fui até a cozinha pegar suco.
Quando acendi a luz...
Parei.
James estava encostado na bancada.
Sem camisa.
Segurando uma taça de vinho.
Meu coração disparou.
— Desculpa — falei automaticamente.
Os olhos dele percorreram meu corpo.
Dessa vez, não houve nem mesmo a tentativa de esconder.
Cruzei os braços sobre mim.
James sorriu.
— Não precisa se desculpar.
— Eu achei que estava sozinha.
— Cheguei há pouco tempo.
Ele ergueu a taça.
— Tio Carlisle disse que eu podia ficar aqui quando precisasse. E hoje eu lembrei de um vinho maravilhoso que ele tem na adega e com muito trabalho cansativo resolvi vir tomarpara relaxar.
— Ah.
Abri a geladeira.
Senti seus olhos em mim novamente.
Peguei o suco.
— Vai assistir alguma coisa? — perguntou.
— Talvez.
— Posso fazer companhia.
— Acho que vou dormir.
— Você acabou de dizer que ia assistir alguma coisa.
Fechei a geladeira.
— Mudei de ideia.
Ele riu.
— Você sempre fica tão nervosa perto de mim?
Meu coração bateu mais forte.
— Não estou nervosa.
— Está.
James tomou um gole do vinho.
— E eu provavelmente mereço isso depois do jantar.
— Você já pediu desculpas.
— Posso pedir novamente.
Ele se aproximou um pouco e instintivamente recuei.
Algo passou pelo rosto dele.
Rápido demais para eu compreender.
— Bella... — sua voz ficou mais baixa. — Eu realmente sinto muito.
— Tudo bem.
— Edward é um homem de sorte.
Meu desconforto aumentou.
— James...
— Estou elogiando.
— Eu sei.
Seus olhos desceram outra vez.
— Você é linda.
Apertei o copo.
— Acho melhor eu subir.
— Fica.
A palavra saiu rápida.
Firme.
Meu corpo inteiro congelou.
Por um segundo...
Não era aquela cozinha.
Não era aquela casa.
Não era James.
Fica.
Nathan.
Ele estava me lembrando ele.
Meu peito apertou.
James inclinou a cabeça.
— Bella?
Pisguei.
— Eu estou cansada.
Ele pegou outra taça.
— Toma um vinho comigo.
— Não, obrigada.
— Uma taça.
— Eu não quero.
— Vai ajudar você a relaxar.
Meu estômago revirou.
— Eu prefiro meu suco.
James deu um passo na minha direção.
— Você não precisa ter medo de mim.
E foi justamente aquela frase que fez tudo piorar.
A porta da frente abriu.
— Bella?
Nunca senti tanto alívio ao ouvir uma voz.
— Edward.
Ele apareceu na cozinha segundos depois.
Seu olhar passou por mim.
Depois por James.
Sem camisa.
Pela garrafa de vinho.
Pela segunda taça sobre a bancada.
E voltou para mim.
— Está tudo bem?
Assenti rapidamente.
— Está.
James tomou outro gole.
— Estávamos conversando.
Edward olhou para ele.
— Eu perguntei para ela.
— E ela respondeu.
A mandíbula de Edward se contraiu.
James sorriu.
— Relaxa, primo.
— Coloca uma camisa.
— Essa casa não é sua.
— E ela está desconfortável.
James olhou para mim.
— Está?
Abri a boca.
— Eu só...
Edward se colocou discretamente entre nós.
— Não faça isso.
James riu sem humor.
— Isso o quê?
— Não coloque Bella nessa posição.
— Que posição? De responder por si mesma?
— De precisar justificar por que não quer ficar sozinha com você.
O silêncio caiu.
— Edward — murmurei.
James pousou a taça.
— Você acha que todo homem que olha para ela quer alguma coisa?
Edward avançou um passo.
— Quando olha como você estava olhando, sim.
— Talvez você devesse se perguntar por que isso incomoda tanto.
— James.
— Talvez porque você saiba exatamente como conseguiu chegar perto dela.
Edward ficou imóvel.
Meu coração disparou.
— O que você quer dizer? — perguntou.
James deu de ombros.
— Uma mulher vulnerável. Assustada. Dependendo de você para tudo. Você apareceu como o herói perfeito.
Edward avançou.
Segurei seu braço.
— Edward.
— Repete.
— Você ouviu.
— Edward, por favor.
Ele olhou para mim.
Foi suficiente.
Edward respirou fundo e recuou.
Então voltou os olhos para James.
— Bella está comigo porque ela escolheu estar comigo.
A voz dele saiu baixa.
Controlada.
— E você vai respeitar isso.
James soltou uma risada curta.
— Claro.
— Isso significa parar de flertar com ela.
— Eu estava sendo gentil.
— Então aprenda outra maneira.
James inclinou a cabeça.
— Você sempre responde por ela?
Vi a mandíbula de Edward travar novamente.
— James...
Dessa vez fui eu.
— Chega.
Os dois olharam para mim.
Meu coração ainda estava acelerado, mas continuei:
— Eu não quero que vocês briguem por minha causa.
James tomou outro gole.
— Não estamos brigando por você.
Edward soltou uma risada sem humor.
— Não?
James o encarou.
— Só acho curioso você agir como se fosse o único homem no mundo autorizado a se aproximar dela.
— Não. Só sou o homem com quem ela escolheu estar.
— Depois que você apareceu no momento perfeito.
Edward deu outro passo.
— Cuidado.
— Estou mentindo?
— Você não sabe absolutamente nada sobre nós.
— Sei que ela estava fragilizada. Sei que você praticamente a cercou de proteção desde que ela chegou. Casa, segurança, médicos, ....
— James! — interrompi.
Ele me olhou.
— Desculpa.
Edward não desviou os olhos dele.
— Não fale sobre o que você não entende.
— Talvez eu entenda mais do que você imagina.
Meu estômago se contraiu.
Edward ficou completamente imóvel.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Então segurei a mão dele.
— Vamos subir.
Ele ainda permaneceu olhando para James.
Depois entrelaçou os dedos nos meus.
— Vamos.
No corredor, parei.
— Ele pediu desculpas.
Edward virou-se.
— O quê?
— Antes. Pelo jantar. Talvez ele realmente estivesse tentando ser legal e eu...
— Não.
— Edward...
Ele segurou meu rosto.
— Você não precisa transformar desconforto em culpa para proteger os sentimentos de alguém.
Meus olhos arderam.
— Eu não sei por que fico assim perto dele.
Edward ficou em silêncio.
— Às vezes parece...
Parei.
— Parece o quê?
Engoli em seco.
— Nathan. Ele as vezes me lembra o Nathan.
O rosto de Edward mudou.
— Bella...
— Eu sei que não é ele.
Falei rapidamente.
— Eu sei. É absurdo. Eles não são iguais. James está aqui, todo mundo conhece James há anos, ele é seu primo... eu sei. James é loiro, são completamente diferentes, mas a voz dele me deixa tensa, sei que é coisa da minha cabeça, mas apesar dele querer me ajudar, ele me deixa nervosa.
Edward não respondeu imediatamente.
Apenas me abraçou.
— Você não precisa explicar.
Fechei os olhos.
— Meu corpo parece não saber a diferença.
Ele beijou minha testa.
— Então eu vou respeitar o que seu corpo está tentando dizer, mesmo antes de entendermos.
— Por que você veio hoje? Está tão cansado.
— Não queria que você se sentisse só, eu não iria vir, mas mudei de ideia e foi bom.
Na manhã seguinte, encontrei James na varanda.
Dessa vez, vestido.
Ele se levantou assim que me viu.
— Bella.
Parei.
— Bom dia.
— Eu preciso pedir desculpas.
Quase ri.
— De novo?
Ele passou a mão pelos cabelos.
— Principalmente por ontem.
Parecia genuinamente constrangido.
— Eu bebi mais do que deveria. E fiz comentários inadequados.
— James...
— Não. Você estava desconfortável e eu continuei insistindo. Foi errado.
Aquilo me surpreendeu.
— Obrigada.
Ele assentiu.
— Edward estava certo sobre isso.
— Não diga isso perto dele. Vai aumentar o ego.
James riu.
Eu também.
E, por alguns segundos, o peso da noite anterior desapareceu.
— Posso perguntar uma coisa? Agora sobre a investigação.
— Pode.
— Você chegou a registrar alguma ocorrência contra Nathan em Oklahoma?
Meu sorriso diminuiu.
— Não.
James assentiu lentamente.
— Imaginei.
— Por quê?
— Pelo que você me contou. Você saiu sem olhar para trás. Mulheres que conseguem fugir nessas circunstâncias muitas vezes têm medo de procurar a polícia imediatamente.
Fiquei quieta.
A explicação fazia sentido.
Ele era advogado.
Já tinha dito que trabalhara em casos envolvendo violência contra mulheres.
— Ele chegou a ameaçar você por mensagem?
— Algumas vezes.
— Você ainda tem essas mensagens?
— Não sei. Talvez algumas, eu estou com novo celular.
James assentiu.
— Não apague nada que encontrar.
Franzi a testa.
— Por quê?
— Porque, se algum dia você decidir fazer alguma coisa judicialmente mesmo, qualquer registro pode ajudar.
— Ah.
— Fotos, mensagens, e-mails. Qualquer coisa.
Assenti.
— Certo.
James hesitou.
— Ele conhecia sua rotina de trabalho?
Meu corpo ficou um pouco mais rígido.
— Por quê?
— Para avaliar até que ponto ele exercia controle sobre você.
A resposta veio rápido.
Profissional.
Perfeitamente plausível.
— Conhecia.
— Tinha acesso às suas contas?
— Algumas.
— Senhas?
— James...
Ele imediatamente ergueu as mãos.
— Desculpa.
Suspirei.
— Não gosto muito de falar disso.
— Eu sei. Fui longe demais.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
— Só estou tentando entender o tipo de homem com quem estamos lidando.
A palavra chamou minha atenção.
— Estamos?
James sorriu.
— Você está namorando meu primo. Isso praticamente faz de você família por aqui. Gostando Edward ou não, se eu puder ajudar juridicamente, vou ajudar.
Eu deveria ter achado bonito.
Talvez uma parte de mim tenha achado.
Mas outra parte...
Outra parte continuava inquieta.
— Bella?
Virei.
Edward estava parado à porta.
Seu olhar passou por mim e parou em James.
— Bom dia — James disse.
Edward não respondeu imediatamente.
James soltou o ar.
— Também devo desculpas a você.
Edward ergueu uma sobrancelha.
— Deve.
— Eu passei do limite ontem.
— Passou.
— Não vai acontecer novamente.
Edward ficou alguns segundos em silêncio.
— Ótimo.
James estendeu a mão.
Edward olhou para ela.
Depois apertou.
Frio.
Rápido.
— Estamos bem? — James perguntou.
Edward soltou sua mão.
— Estamos entendidos.
James sorriu.
— Serve.
Ele passou por Edward e entrou na casa.
Edward esperou alguns segundos.
— O que ele queria?
— Pedir desculpas.
— Só isso?
Hesitei.
— Fez algumas perguntas sobre Nathan.
O rosto de Edward perdeu qualquer vestígio de leveza.
— Que perguntas?
Contei.
Não todas nos mínimos detalhes, porque algumas eu mesma já tinha esquecido.
Mas contei sobre as mensagens.
A rotina.
As contas.
Edward permaneceu quieto.
Quieto demais.
— Ele disse que poderia ser importante se algum dia eu quisesse fazer alguma coisa judicialmente.
— Entendi.
— Ele é advogado, Edward.
— Eu sei o que ele é.
O tom me fez franzir a testa.
— Você ainda está irritado por ontem.
— Estou.
— Ele pediu desculpas.
— E eu aceitei.
— Não parece.
Edward finalmente olhou para mim.
— Eu disse que aceitei as desculpas. Não disse que esqueci o que aconteceu.
Suspirei.
— Vocês dois são impossíveis.
Ele se aproximou.
— Talvez.
Beijou minha testa.
Mas quando se afastou, seus olhos voltaram para a porta.
Havia alguma coisa ali.
Não exatamente desconfiança.
Ainda não.
Mas atenção.
Como se Edward tivesse acabado de ouvir uma nota errada em uma música que conhecia bem.
Mais tarde, ele me levou para sua casa.
Eu só descobri que havia algum motivo quando Edward entrou na sala e mandou que eu esperasse.
— O que você está fazendo?
— Nada.
— Toda vez que você diz "nada", alguma coisa acontece.
Ele voltou com uma pequena caixa nas mãos.
Cruzei os braços.
— Edward Cullen.
— Isabella Swan.
— Você comprou alguma coisa.
— Excelente capacidade de dedução. Vai se sair bem na seleção.
Tentei não rir.
— Você precisa parar de me dar coisas.
— Não.
— Argumento excelente.
Edward sentou ao meu lado e colocou a pequena caixa sobre minha mão.
— Abre.
— Se tiver diamantes aqui, eu vou embora.
— Dramática.
Abri.
E fiquei em silêncio.
Dentro havia um colar delicado.
Uma corrente fina, discreta, com um pequeno pingente de estrela.
— Edward...
Passei a ponta do dedo sobre ele.
— É lindo.
— Vira.
Retirei o colar cuidadosamente e virei o pingente.
Havia uma palavra minúscula gravada atrás.
Escolha.
Meu peito apertou.
Olhei para ele.
— Por quê?
Edward pegou o colar das minhas mãos.
— Vira.
Afastei os cabelos.
Ele colocou a corrente em meu pescoço.
Os dedos dele tocaram minha nuca enquanto fechava o fecho.
Depois deixou um beijo no meu ombro.
— Porque você está começando a escolher de novo.
Engoli em seco.
Edward tocou o pequeno pingente.
— Escolheu tentar aquela vaga.
Outro beijo.
— Escolheu voltar a pensar no que quer para sua vida.
Seus olhos encontraram os meus.
— Escolheu ficar comigo.
Sorri entre as lágrimas.
— Essa última parece bastante vantajosa para você.
— Sem dúvida foi sua melhor decisão.
Ri.
— Convencido.
Ele sorriu.
Mas então ficou sério.
— Eu quero que você tenha alguma coisa que lembre que sua vida é sua, Bella.
Passei os dedos pelo pingente.
— Mesmo quando você tiver medo.
Ele segurou minha mão.
— Mesmo quando alguém tentar convencer você de que não consegue.
Nathan.
Não precisou dizer.
— Mesmo se você não passar naquela seleção.
Fiz uma careta.
— Estragou o momento.
Edward riu.
— Estou falando sério.
— Eu também quero passar.
— Eu sei.
— Muito.
— Eu sei.
Apoiei a cabeça em seu ombro.
— E se eu não passar?
Edward beijou meus cabelos.
— Você vai ficar triste.
— Péssima tentativa de consolo.
— Provavelmente vai reclamar da equipe de recrutamento da minha própria empresa.
— Com certeza.
— Vai dizer que eles não sabem reconhecer talento.
— Exatamente.
— Eu vou concordar secretamente.
Levantei a cabeça.
— Secretamente?
— Eu disse que confio na equipe. Preciso manter alguma dignidade profissional.
Comecei a rir.
Edward me puxou para mais perto.
— E depois você tenta outra coisa.
Meu sorriso diminuiu.
— É.
— Porque uma resposta não decide quem você é.
Olhei novamente para a estrela.
Escolha.
— Eu amo você — falei.
Edward ficou quieto por um instante.
Mesmo depois de tudo, eu ainda gostava da maneira como aquelas palavras conseguiam afetá-lo.
Ele tocou meu rosto.
— Fala de novo.
Sorri.
— Não.
— Bella.
— Você ouviu.
— Quero confirmação.
— Está ficando mimado.
Ele me puxou pela cintura.
— Culpa sua.
Beijei-o.
— Eu amo você.
Edward encostou a testa na minha.
— Eu amo você também.
Fechei os olhos.
Por alguns minutos, fiquei ali.
Protegida pelo calor do corpo dele, pelo som de sua respiração, pela pequena estrela repousando contra meu peito.
Eu tinha enviado uma candidatura para um emprego que realmente queria.
Tinha planos.
Tinha medo.
Tinha Edward.
E, pela primeira vez em muito tempo, começava a acreditar que talvez fosse possível construir uma vida em que o meu passado existisse sem controlar tudo o que vinha depois.
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