Meu Lugar Seguro
23 Capítulo 23
Notas iniciais
POV BELLA
Eu não sabia exatamente em que momento tinha começado a respirar de novo.
Talvez tivesse sido quando contei a Edward.
Talvez antes.
Talvez no instante em que parei de tentar convencer todo mundo e principalmente a mim mesma de que estava bem.
A última semana parecia ter durado meses.
Quando eu fechava os olhos e tentava organizar tudo o que havia acontecido, era quase ridículo perceber que tinham sido apenas alguns dias.
Alguns dias.
Foi o suficiente para eu perder Edward.
Receber mensagens de Nathan.
Voltar a sentir medo de andar sozinha.
Parar de dormir.
Parar de comer.
Desmaiar no trabalho.
Pedir demissão de um emprego do qual eu estava gostando.
Pesquisar passagens para Oklahoma como se voltar para o lugar de onde eu tinha fugido pudesse, de alguma maneira absurda, proteger as pessoas que eu amava.
E depois...
Edward.
Outra vez.
Sempre Edward.
Virei de lado na cama e olhei para o celular sobre o criado-mudo.
Nenhuma mensagem nova.
Era estranho como a ausência de uma notificação podia provocar tanto alívio.
Dias atrás, eu gostava quando meu celular vibrava.
Poderia ser Alice.
Esme.
Alguma mensagem do trabalho.
Edward.
Principalmente Edward.
Agora, toda vez que ouvia aquele som, meu estômago se contraía antes mesmo que eu visse a tela.
Nathan tinha conseguido isso.
Outra coisa.
Mais uma.
O pensamento fez meus olhos arderem.
Virei de costas e encarei o teto.
Eu odiava aquilo.
Odiava saber que, mesmo depois de tanto tempo, ele ainda conseguia entrar na minha vida sem sequer precisar estar diante de mim.
Uma mensagem.
Algumas palavras.
Era tudo de que Nathan precisava para me transformar novamente naquela garota que verificava portas.
Que olhava por cima do ombro.
Que decorava saídas.
Que dormia pouco porque dormir significava baixar a guarda.
Eu tinha melhorado.
Tinha certeza disso.
Até aquela semana.
E talvez fosse justamente por isso que a queda tivesse doído tanto.
Porque eu realmente tinha acreditado que estava deixando tudo para trás.
Nova York tinha começado a parecer minha.
A mansão tinha começado a parecer casa.
Eu tinha um emprego.
Uma rotina.
Amigos.
Família.
Edward.
Fechei os olhos.
Edward.
Só pensar nele ainda doía por motivos diferentes.
Porque, no meio de todo aquele inferno, nós também tínhamos conseguido destruir o que havia entre nós por alguns dias.
E eu tinha sofrido.
Muito mais do que queria admitir.
Eu estava com raiva dele.
Ainda achava que Edward Cullen conseguia ser o homem mais idiota de todo o estado de Nova York quando decidia pensar por duas pessoas ao mesmo tempo.
Mas eu o tinha perdoado.
Nós tínhamos nos perdoado.
E, tecnicamente...
Sorri sozinha.
Nós estávamos juntos novamente.
Talvez fosse ridículo o quanto isso me fazia sentir melhor.
Não porque eu precisasse de um namorado para sobreviver.
Não era isso.
Eu sabia ficar sozinha.
Tinha ficado sozinha quando não deveria ter precisado.
Sabia fugir sozinha.
Sabia juntar meus pedaços sozinha.
Sabia levantar depois de coisas que deveriam ter me destruído.
Mas Edward era diferente. Com ele eu não precisava provar nada.
Esse era o problema.
Ou talvez fosse justamente a melhor parte.
Eu confiava nele.
Completamente.
A constatação ainda me assustava às vezes.
Nathan tinha me ensinado que confiar em alguém era entregar uma arma e esperar para descobrir quando ela seria usada contra você.
Edward tinha me ensinado outra coisa.
Com Edward, confiança não parecia rendição, parecia descanso.
Quando finalmente contei sobre as mensagens, alguma coisa dentro de mim cedeu.
Eu tinha passado dias carregando aquilo sozinha.
Escondendo o celular.
Inventando desculpas.
Dizendo que estava cansada.
Dizendo que não tinha fome.
Dizendo que estava tudo bem.
Sempre aquela maldita frase.
Estou bem.
Eu não estava.
E, no momento em que contei a Edward, nada magicamente se resolveu.
Nathan continuava solto.
As mensagens tinham existido.
Eu continuava sem emprego.
Continuava assustada.
Mas o peso diminuiu.
Porque Edward sabia.
E saber que ele sabia significava que eu já não precisava vigiar todas as portas sozinha.
Suspirei.
Talvez aquilo fosse perigoso.
Talvez eu estivesse depositando segurança demais em uma única pessoa, mas era a verdade.
Edward era minha saída.
Não no sentido de me salvar.
Eu já tinha aprendido que ninguém podia construir uma vida inteira esperando ser salvo.
Era outra coisa.
Se uma sala ficasse pequena demais, eu procurava Edward.
Se meu peito apertasse, eu queria Edward.
Se uma mensagem chegasse, a primeira pessoa em quem eu pensava era Edward.
E quando ele estava perto...
Eu conseguia respirar.
Era simples assim.
Edward era o lugar onde meu corpo finalmente entendia que podia baixar a guarda.
Meu lugar seguro.
Fiquei na cama por mais alguns minutos antes de sentir cheiro de café.
Olhei o horário.
Tarde.
Muito tarde para os padrões de Esme.
Levantei.
Eu ainda estava de pijama, mas coloquei um robe por cima e prendi o cabelo de qualquer jeito.
A casa estava silenciosa demais.
Desci os primeiros degraus devagar.
Então ouvi vozes.
Carlisle.
Esme.
E outra.
Parei.
James.
Não era medo.
Eu precisava deixar isso claro para mim mesma.
James não era Nathan.
Eu sabia disso.
Tinha repetido tantas vezes que já começava a parecer absurdo precisar repetir novamente.
Eles nem sequer se pareciam.
Nathan tinha cabelos escuros.
Olhos castanhos.
James era loiro, olhos verdes.
Edward conhecia James desde criança.
Alice conhecia.
Carlisle.
Esme.
Todos eles tinham histórias com aquele homem que começavam muitos anos antes de eu sequer saber que a família Cullen existia.
James era James.
Nathan era Nathan.
Ainda assim...
Havia alguma coisa.
Não sabia explicar.
Um jeito de olhar.
Uma inflexão na voz.
Um movimento.
Coisas pequenas demais para receberem um nome.
E talvez nem fossem reais.
Depois das mensagens daquela semana, eu estava enxergando Nathan em sombras.
Provavelmente era apenas isso.
Continuei descendo.
— Bom dia, querida — Esme falou assim que me viu.
— Bom dia.
Carlisle sorriu.
— Dormiu bem?
— Melhor.
Era verdade.
Então olhei para James.
Ele estava sentado à mesa com uma xícara de café na mão.
Parecia completamente à vontade.
Como alguém que já tinha tomado café naquela cozinha centenas de vezes.
Provavelmente tinha.
— Bom dia, Bella.
— Bom dia.
— Espero que não se importe com invasores logo cedo.
Esme riu.
— Você é família. Não é invasor.
— Fala isso porque ainda não viu quanto eu pretendo comer.
— Já estou vendo.
Carlisle dobrou o jornal.
— Você continua comendo como se tivesse quinze anos.
— Metabolismo privilegiado.
— Falta de educação — Esme corrigiu.
James levou a mão ao peito.
— Tia Esme.
Sorri.
Era difícil permanecer tensa naquela cena. Ele parecia pertencer ali.
Não como alguém tentando pertencer.
Ele pertencia.
Abri um armário.
— Quer café? — Esme perguntou.
— Quero.
— Senta. Eu faço.
— Esme...
— Bella.
Conhecia aquele tom.
Sentei.
James sorriu.
— Não adianta discutir.
— Estou descobrindo.
— Passei anos tentando.
— E nunca aprendeu — Carlisle disse.
— Algumas batalhas valem a pena.
Esme colocou uma xícara diante de mim.
— Obrigada.
— Come também.
— Eu vou.
Ela me lançou o olhar de mãe.
Peguei uma torrada imediatamente.
James riu.
— Ela faz isso com todo mundo?
— Pior com quem ela gosta — Carlisle respondeu.
— Então Bella está ferrada.
— James!
— O quê?
Sorri novamente.
Talvez eu tivesse sido injusta.
Ele era legal.
Essa era a palavra, legal.
James era engraçado.
Educado quando queria.
Tinha a mesma facilidade de Alice para ocupar um ambiente sem parecer forçado.
— E você? — ele perguntou.
— Eu?
— Dormiu bem?
— Dormi.
— Está melhor?
A pergunta me deixou um pouco desconfortável.
Ele percebeu.
— Desculpa. Ontem você parecia...
— Estou melhor.
— Ótimo.
Sorriu.
E desviou.
Sem insistir.
Gostei disso.
Peguei a xícara.
Quando ergui os olhos novamente, James estava olhando para mim.
Ou melhor...
Para baixo.
Demorei um segundo para perceber.
Meu robe tinha se aberto um pouco quando sentei, nada demais.
Mas a camiseta por baixo tinha um decote maior do que eu normalmente usaria diante de visitas.
Os olhos de James permaneceram ali tempo demais.
Meu corpo ficou rígido.
Então ele levantou os olhos.
Rápido.
Como se nunca tivesse acontecido.
— Tio Carlisle estava me contando que você trabalha com economia.
Puxei discretamente o robe.
— Trabalhava.
— Trabalhava?
Carlisle olhou para mim.
Esme também.
— Eu saí.
James percebeu o clima.
— Desculpa.
— Não precisa.
— Gostava?
A pergunta doeu mais do que deveria.
— Muito.
Minha voz saiu baixa.
Eu gostava.
Era isso que tornava tudo pior.
Eu tinha conseguido aquele emprego.
Não Carlisle.
Não Edward.
Não Alice.
Eu.
Meu currículo.
Minha entrevista.
Minha capacidade.
E pela primeira vez em muito tempo, havia alguma coisa na minha vida que parecia completamente minha.
Nathan tinha conseguido arrancar aquilo também.
Não diretamente.
Nunca diretamente.
Mas eu sabia por que tinha saído.
Porque comecei a olhar para a porta.
Porque meu celular vibrava e eu esquecia o que estava fazendo.
Porque desmaiei.
Porque comecei a imaginar Nathan entrando a qualquer momento.
Eu não conseguia trabalhar daquele jeito.
— Bella?
Pisquei.
James estava me olhando.
— Desculpa.
— Tudo bem?
— Sim.
A palavra saiu automática.
Ele não pareceu acreditar, mas não comntou.
Carlisle saiu pouco depois e Esme começou a organizar algumas coisas para o almoço.
Eu me ofereci para ajudar, mas ela recusou.
Naturalmente. Mesmo com empregados, ela fazia questão de fazer comida na maioria das vezes.
James permaneceu na cozinha.
— Bella?
Olhei.
— Posso conversar com você?
Meu corpo ficou ligeiramente tenso.
— Sobre?
— Uma coisa.
Ótimo.
A pior resposta possível.
Ele percebeu.
— Nada ruim.
— Isso não ajudou.
James riu.
— Justo.
Esme olhou para nós.
— Podem usar o escritório.
— Não precisa — respondi rapidamente.
James ergueu as mãos.
— Se você não quiser, esquece.
A facilidade com que recuou me fez sentir idiota.
— Não. Tudo bem.
— Tem certeza?
Assenti.
— Tenho.
Entrei no escritório primeiro.
James fechou a porta, mas não completamente.
Deixou uma fresta.
Percebi.
E não sabia se tinha feito de propósito.
— Pode sentar.
Escolhi uma poltrona.
Ele ficou na outra, à minha frente.
Não atrás da mesa.
Outro detalhe que percebi.
— Antes de qualquer coisa — começou — você não precisa responder nada que não queira.
Franzi a testa.
— Certo.
James apoiou os braços nas pernas.
— Aquele dia, quando cheguei...
Meu estômago apertou.
— Eu assustei você.
— Já falei que...
— Eu sei.
Ele me interrompeu gentilmente.
— E não estou perguntando por quê.
Esperei.
— Só que depois comecei a prestar atenção.
Não gostei daquela frase, talvez tenha aparecido no meu rosto.
— Isso ficou pior do que eu pretendia.
— Um pouco.
Ele sorriu.
— Deformação profissional.
— Advogado.
— Infelizmente.
— Pensei que advogados gostassem de ser advogados.
— Só os psicopatas.
Ri.
— Edward disse que você é bom.
— Edward admitiu isso?
— Mais ou menos.
— Vou gravar na próxima vez.
Sorri.
James ficou sério novamente.
— Eu trabalho com muitos casos complicados, Bella.
Esperei.
— Alguns envolvem mulheres que passaram por violência dentro de relacionamentos.
Meu sorriso desapareceu.
— E eu posso estar completamente errado.
Silêncio.
— Mas acho que você passou por alguma coisa assim.
Meu coração bateu mais forte.
Desviei os olhos.
— James...
— Você não precisa contar, eu soube por alto que Alice trouxe uma amiga que não estava bem, mas eu percebi assim que vi você a primeira vez.
— Como percebeu?
Ele respirou fundo.
— Algumas coisas
— Quais?
— Você observa ambientes.
Fiquei imóvel.
— Portas principalmente.
Engoli.
— Quando alguém chega perto demais sem você perceber, seu corpo reage antes de você.
Meus dedos se fecharam.
— Teve aquele dia, quando estendi a mão, você olhou primeiro para ela antes de olhar para mim.
A vergonha veio imediatamente.
— Não precisa ficar constrangida.
— Eu não estou.
Mentira.
— Bella.
Olhei.
James não sorria.
— Eu já vi isso muitas vezes.
Alguma coisa naquela frase me fez relaxar um pouco.
— No trabalho?
— Sim.
— Você defende mulheres?
— Entre outras coisas.
— E ganha?
Um sorriso apareceu.
— Bastante.
— Convencido.
— Realista.
Fiquei quieta.
— Foi um namorado? — perguntou.
Meu peito apertou e ele percebeu.
— Esquece. Não deveria ter perguntado assim.
— Foi.
Ele parou.
— Certo.
Olhei para minhas mãos.
Não sabia por que tinha respondido.
Talvez porque ele não tivesse insistido.
Talvez porque agora Edward soubesse.
Depois de contar para Edward, parecia menos impossível dizer algumas coisas em voz alta.
— O nome dele era Nathan Oliver.
James permaneceu imóvel.
— Nathan.
— Sim.
— Vocês ficaram juntos quanto tempo?
— Uns dois meses.
— Ele machucou você?
A pergunta deveria ser simples, mas não foi.
Minha garganta fechou.
— Bella, não precisa...
— Sim.
A palavra saiu baixa.
— Ele machucou.
James assentiu.
Não fez aquela expressão.
Piedade.
Eu odiava piedade.
— Você denunciou?
— Não no começo.
— Depois?
Assenti.
— E ele está solto.
Não era pergunta.
— Está.
— Sabe onde?
— Não.
Meus dedos começaram a esfregar uns contra os outros.
— Ele entrou em contato comigo.
James ficou sério.
— Recentemente?
Assenti.
— Como?
— Mensagens.
— Ameaças?
— Não exatamente.
— Mas você entendeu como ameaça.
Olhei para ele.
— Eu conheço Nathan.
James assentiu lentamente.
— Claro.
Minha respiração começou a ficar estranha.
Eu não queria aquilo.
Não queria voltar mentalmente para aquelas mensagens.
Para Oklahoma.
Para as noites sem dormir.
— Bella?
Respirei fundo.
Não entrou ar suficiente.
— Acho que...
Parei.
O escritório pareceu menor.
— Ei.
James mudou de postura.
— Olha para mim.
Não consegui.
— Bella.
Minha mão foi ao peito.
— Eu estou bem.
— Não está.
— Eu só...
— Não precisa continuar.
Ele se levantou devagar.
Meu corpo ficou tenso.
James parou imediatamente.
— Posso chegar perto?
A pergunta me surpreendeu.
Assenti.
Ele se aproximou.
Agachou diante da poltrona.
— Respira.
Fechei os olhos.
— Devagar.
Tentei.
— Isso.
A voz dele...
Por um instante.
Um segundo.
Meu corpo reagiu.
Abri os olhos.
James estava ali.
Loiro.
Olhos verdes.
Preocupado.
James.
Não Nathan.
— Olha para mim — ele repetiu. — Você está aqui.
Respirei.
— Ninguém vai machucar você aqui.
Outra respiração.
Melhor.
— Isso.
Ele segurou minhas mãos.
Meu primeiro impulso foi puxar, mas não puxei.
— Está tudo bem.
Assenti.
— Desculpa.
— Nunca pede desculpa por isso.
A porta abriu.
— Bella?
Edward.
Nunca uma voz me trouxe tanto alívio.
Virei imediatamente.
Ele parou.
Seus olhos desceram para um James agachado diante de mim.
Minhas mãos entre as dele.
A expressão de Edward mudou.
— O que está acontecendo?
James soltou minhas mãos imediatamente e levantou.
Edward nem olhou para ele.
Veio direto até mim.
— Você está bem?
Assenti.
— Bella.
— Estou.
Ele se abaixou na minha frente.
Exatamente onde James estava.
Mas era diferente.
Com Edward tudo era diferente.
Sua mão tocou meu rosto.
— Está respirando direito?
— Agora estou.
— O que aconteceu?
— Eu fiquei um pouco...
— Ansiosa — James completou.
Edward finalmente olhou para ele.
— Eu perguntei para ela.
James ergueu as mãos.
— Certo.
Toquei o braço de Edward.
— Estou bem.
Ele olhou novamente para mim.
E foi ridículo.
Porque meu corpo relaxou quase imediatamente.
Edward estava ali.
Era só isso.
Ele estava ali.
— Por que vocês estão aqui? — perguntou.
O tom não era exatamente amigável.
— Eu chamei Bella para conversar — James respondeu.
Edward levantou devagar.
— Sobre o quê?
— O que aconteceu com ela.
O maxilar dele travou.
— Por quê?
— Porque eu posso ajudar.
— Ela já tem ajuda.
— Não estou dizendo que não tem.
— Então?
James cruzou os braços.
— Sou advogado, Edward.
— Eu sei sua profissão.
— Então sabe que tenho experiência com esse tipo de caso.
Edward ficou imóvel.
— Que tipo?
James olhou rapidamente para mim.
— Violência doméstica.
O silêncio ficou pesado.
Edward deu um passo na direção dele.
— Você chamou Bella sozinha para um escritório para fazer ela falar sobre isso?
— Edward.
Levantei.
Ele olhou para mim.
— Ele não fez nada.
— Você estava quase tendo uma crise.
— Porque eu comecei a falar do Nathan.
A preocupação no rosto dele aumentou.
— Você contou?
Assenti.
— Um pouco.
Edward respirou pelo nariz.
Olhou para James.
— Ela não precisa falar sobre isso com você.
— Talvez precise falar com alguém que possa fazer alguma coisa juridicamente.
— Nós já estamos cuidando.
— Quem é "nós"?
— Não importa.
— Importa se esse homem está entrando em contato com ela.
Edward ficou tenso.
— James.
— O quê?
— Não precisa se meter nisso.
A porta se abriu novamente.
— Meter no quê?
Emmett.
Claro.
Rosalie apareceu atrás dele.
Depois Alice e Jasper vinha logo atrás.
— Reunião secreta? — Emmett perguntou.
Alice olhou para mim.
O sorriso desapareceu.
— Bella?
— Estou bem.
— Todo mundo resolveu falar isso nessa casa — Edward murmurou.
Alice veio até mim.
— O que aconteceu?
— Nada.
— James estava me contando que pode ajudar.
Emmett olhou para o primo.
— Com Nathan?
Meu corpo ficou rígido.
James olhou para mim.
— Imagino que seja ele.
— É — respondi.
Emmett entrou de vez.
— Então deixa.
Edward virou.
— Ninguém perguntou.
— Estou falando com Bella.
— E ela acabou de ter uma crise falando sobre isso.
— Isso não significa que ela não queira ajuda.
— Eu não disse isso.
Jasper entrou na conversa.
— James realmente é bom, Edward.
— Eu sei que ele é bom.
— Então qual é o problema? — Emmett perguntou.
— O problema é que vocês estão todos falando como se Bella não estivesse aqui.
Silêncio.
Foi imediato.
Edward olhou para mim.
E naquele instante percebi.
Ele tinha visto.
A sala cheia.
Todo mundo opinando.
Todo mundo decidindo.
Meu peito começando a apertar outra vez.
Edward veio até mim.
Não me tocou.
Só ficou perto.
— Bella.
Olhei para ele.
— Você quer que James entre nisso?
Ninguém falou.
Era só comigo.
Minha decisão.
Olhei para James.
Depois para Alice.
Emmett.
Jasper.
Rosalie.
E finalmente Edward.
Ele não queria.
Eu conhecia Edward o suficiente para perceber.
Não sabia por quê.
Talvez ciúme.
Talvez proteção.
Talvez simplesmente não gostasse da ideia de outra pessoa entrando em uma parte tão íntima e feia da minha vida, mas ele não decidiu por mim.
Esperou.
Pensei no trabalho.
Na minha mesa.
Nas pessoas de quem eu gostava.
Na sensação de finalmente estar construindo alguma coisa.
Pensei no pedido de demissão.
No meu celular.
Nas passagens para Oklahoma.
Nas noites acordada.
Em Nathan conseguindo tirar de mim, outra vez, coisas que eu tinha levado meses para reconstruir.
Não.
Eu estava cansada.
Cansada de fugir.
— Quero.
Edward não se mexeu.
Olhei para James.
— Eu quero sua ajuda.
— Bella...
Edward parou.
Respirou.
— Tem certeza?
Assenti.
— Eu quero minha liberdade de volta.
Minha voz falhou.
Engoli.
— Eu quero poder trabalhar sem olhar para a porta. Quero sair sozinha sem pensar que ele está me seguindo. Quero parar de sentir medo toda vez que meu celular toca.
Meus olhos arderam.
— Eu quero Nathan preso.
Edward me observava.
Havia alguma coisa dolorosa em seu olhar.
Mas também orgulho.
Talvez.
James se aproximou.
— Então vamos fazer isso.
Estendeu as mãos.
Dessa vez fui eu quem permitiu que segurasse as minhas.
— Eu vou ajudar você.
Assenti.
— Prometo.
Apertei os dedos dele.
— Obrigada.
James sustentou meu olhar.
— Nós vamos colocar todos eles atrás das grades.
Respirei fundo.
Pela primeira vez em dias, aquelas palavras não me deram medo.
Deram esperança.
— Está bem.
James sorriu.
Ao meu lado, Edward permaneceu em silêncio.
Quando olhei para ele, seu rosto estava sério.
Muito sério.
Eu sabia que ele não tinha gostado, mas não tentou mudar minha decisão.
Apenas estendeu a mão para mim.
Soltei uma das mãos de James.
E segurei a de Edward.
Sem pensar.
Os dedos dele se fecharam nos meus imediatamente.
Meu corpo relaxou.
Ali.
De novo.
Aquela sensação.
Por mais que eu quisesse minha liberdade de volta.
Por mais que estivesse decidida a lutar.
Por mais que James pudesse me ajudar a colocar Nathan atrás das grades...
Era em Edward que eu procurava abrigo.
E talvez eu devesse ter medo de precisar tanto dele.
Mas não tinha.
Porque pela primeira vez na minha vida depender um pouco de alguém não parecia uma prisão.
Parecia ter, finalmente, para onde voltar.
Nos dias seguintes, descobri uma coisa sobre medo. Ele não desaparecia quando o perigo ganhava um nome.
Também não desaparecia quando você decidia enfrentá-lo.
Mas diminuía.
Às vezes.
James começou a cuidar da parte jurídica.
Não precisei contar tudo novamente. Eu não disse nada sobre a parte das tentativa de violência por todos aqueles quatro homens.
Ele pediu informações objetivas, explicou que precisaria de documentos, registros, denúncias anteriores e, principalmente, que eu não apagasse nenhuma mensagem que Nathan enviasse. Ele até pegou meu número.
Edward esteve presente em praticamente todas as conversas.
Não porque James exigisse.
Muito menos porque eu tivesse pedido.
Edward simplesmente aparecia.
E eu gostava.
Gostava mais do que deveria.
Talvez estivesse um pouco...
Grudada.
O pensamento era vergonhoso, mas verdadeiro.
— Você vai continuar me seguindo?
Edward levantou os olhos do celular.
— Estou sentado.
— Você entendeu.
— Não.
— Está aqui desde cedo.
Ele olhou ao redor da sala da mansão.
— Meus pais moram aqui.
— Você não.
— Detalhes.
Revirei os olhos.
Continuei lendo.
Ou tentando.
Edward estava no outro sofá.
Longe o suficiente para não parecer que me vigiava.
Perto o suficiente para eu saber exatamente onde estava.
E talvez essa fosse a pior parte.
Eu sabia o tempo todo.
Se Edward levantava, meus olhos acompanhavam.
Se saía da sala, alguma parte idiota do meu cérebro registrava.
Se demorava para voltar, eu percebia.
Odiava perceber.
Naquela tarde, ele levantou.
Não olhei.
Continuei no livro.
Ouvi seus passos.
Depois nada.
Esperei.
Trinta segundos.
Talvez quarenta.
Levantei os olhos.
Não estava.
Voltei para o livro.
Li a mesma frase três vezes.
Onde ele tinha ido?
Ridículo.
Passei a página.
Não tinha entendido nenhuma palavra.
Dois minutos.
Talvez três.
— Bella?
Quase pulei.
Alice estava parada na entrada.
— O quê?
Ela sorriu.
Não gostei.
— Nada.
— Então para de me olhar assim.
— Assim como?
— Como se soubesse alguma coisa.
— Eu sei muitas coisas.
— Parabéns.
Ela sentou ao meu lado.
— Cadê o Edward?
Meu olhar foi automaticamente para o corredor.
Alice começou a rir.
— Ah, meu Deus.
— O quê?
— Nada.
— Alice.
— Você fez exatamente o que eu sabia que faria.
— Eu não fiz nada.
— Eu perguntei onde Edward estava e você olhou para a porta.
— Porque ele saiu por ali.
— Claro.
Voltei para o livro.
— Vai embora.
— Você está grudada nele o tempo todo.
— Não estou.
— Está.
— Não.
— Bella.
Fechei o livro.
— Eu só gosto que ele fique perto.
O sorriso de Alice desapareceu um pouco.
Ela entendeu.
— Eu sei.
— E isso é patético.
— Não é.
— É um pouco.
— Talvez um pouquinho.
Empurrei o ombro dela.
Alice riu.
— Idiota.
— Mas você está melhor.
— Estou.
E estava.
Ainda acordava algumas vezes durante a noite.
Ainda verificava o celular cedo demais.
Ainda tinha momentos em que um carro parado por tempo demais do lado de fora fazia meu coração acelerar, mas estava melhor.
— Contar para ele ajudou, não foi?
Olhei para Alice.
Assenti.
— Muito.
Ela sorriu.
— Meu irmão vai ficar insuportável se descobrir.
— Por isso não conta.
— Que ele é seu cobertor emocional?
— Alice!
Ela gargalhou.
— Eu vou matar você.
— Quero ver tentar.
— O que está acontecendo?
Edward apareceu carregando duas canecas.
Meus olhos foram direto para ele.
Alice viu.
Claro que viu.
— Nada — respondi.
— Sua namorada está ameaçando me matar — Alice disse.
Edward me entregou uma das canecas.
Café.
Do jeito que eu gostava.
— Quer ajuda?
— Edward!
— O quê?
Alice levantou indignada.
— Vocês merecem um ao outro.
Ela saiu.
Edward sentou ao meu lado.
Não no outro sofá.
Ao meu lado.
— O que foi?
— Nada.
— Você está vermelha.
— Cala a boca.
— Agora fiquei curioso.
— Não vai descobrir.
Ele bebeu o café.
— Descubro tudo.
Olhei para ele.
— Não tudo.
A frase saiu antes que eu pensasse.
O sorriso diminuiu.
— Ainda não.
Havia uma promessa naquilo.
Não ameaça.
Promessa.
Ainda não.
Nathan.
As mensagens.
A investigação.
Tudo.
Edward tocou meu joelho.
Um gesto pequeno.
Meu corpo relaxou.
Odeiei Alice por estar certa.
Apoiei a cabeça no ombro dele.
Edward ficou imóvel por um segundo.
Depois senti seus lábios no meu cabelo.
— Cansada?
— Um pouco.
— Dormiu mal?
— Um pouco.
— Quer ir para minha casa hoje?
Meu coração aqueceu.
— Para quê?
— Dormir.
Levantei a cabeça.
— Essa foi a pior tentativa de sedução que já ouvi.
Ele sorriu.
— Não era uma tentativa de sedução.
— Hum.
— Se fosse, você saberia.
— Convencido.
— Você gosta.
— Às vezes.
— Mentira.
Voltei a encostar nele.
Edward passou o braço ao redor dos meus ombros.
Fechei os olhos.
Aquilo.
Era daquilo que eu precisava.
Não perguntas.
Não Nathan.
Não advogados.
Não investigações.
Só aquilo.
Alguns minutos em que eu podia existir sem estar esperando alguma coisa ruim acontecer.
Eu dormi na casa de Edward naquela noite.
E dormi de verdade.
Acordei apenas uma vez.
Devia ser pouco depois das três.
Abri os olhos no escuro sem saber exatamente o que tinha me acordado.
Meu coração estava acelerado.
Aquela sensação.
Por alguns segundos, não reconheci o quarto.
Então senti um braço pesado na minha cintura.
Edward.
Respirei.
O quarto dele.
A casa dele.
Nova York.
Segura.
Virei devagar.
Ele dormia.
Fiquei observando.
Era estranho pensar que aquele homem tinha sido capaz de me deixar tão furiosa poucos dias antes.
E que agora era exatamente quem eu precisava ver.
Passei os dedos de leve pelo rosto dele.
Edward se mexeu.
— Bella?
A voz rouca de sono.
— Dorme.
Ele abriu os olhos.
— Está tudo bem?
Sorri.
Claro que essa seria a primeira pergunta.
— Está.
— Pesadelo?
— Não.
— Mensagem?
— Não.
A mão dele encontrou meu rosto.
— Então o quê?
— Nada.
— Bella.
Aproximei-me.
Beijei.
Só para ele parar de perguntar.
Edward demorou aproximadamente meio segundo para reagir.
A mão saiu do meu rosto e foi para minha cintura.
Quando me afastei, ele estava sorrindo.
— Se essa for sua nova forma de mandar eu calar a boca, apoio.
— Dorme.
— Agora?
— Edward.
— Você começou.
Ri baixo.
Ele me puxou novamente.
Dessa vez não para me beijar.
Só me colocou contra o peito.
— Dorme, Swan.
Fechei os olhos.
— Boa noite.
— Boa noite.
Adormeci antes de perceber.
Alguns dias depois, Carlisle decidiu que todos precisávamos jantar juntos.
Eu suspeitava que Esme tivesse decidido e usado Carlisle como porta-voz.
A mesa estava cheia.
Alice e Jasper.
Rosalie e Emmett.
James.
Edward.
Eu.
Carlisle e Esme.
Era muita gente.
Muito barulho.
Estranhamente, eu gostava.
Durante a semana anterior, uma mesa cheia teria me deixado desconfortável.
Naquela noite, parecia normal.
Ou o mais próximo de normal que eu tinha sentido em algum tempo.
Edward estava ao meu lado.
Não por acaso.
Alice tentou sentar ali.
Ele simplesmente puxou a cadeira antes.
— Infantil — ela reclamou.
— Lenta — ele respondeu.
— Eu sou sua irmã.
— Meus pêsames.
Eu ri.
Alice apontou para mim.
— Não incentiva.
— Não fiz nada.
— Vocês dois estão irritantes desde que voltaram.
Meu garfo parou.
Edward também.
Emmett levantou a cabeça.
Rosalie sorriu.
Esme fingiu enorme interesse no próprio prato.
James franziu a testa.
— Voltaram?
Alice percebeu tarde demais.
— Ah.
— Alice — murmurei.
— Foi mal.
James olhou para Edward.
Depois para mim.
— Vocês estão juntos?
Edward respondeu antes.
— Estamos.
Olhei para ele.
A facilidade com que disse fez alguma coisa quente se espalhar dentro de mim.
Estamos.
Sem dúvida.
Sem hesitação.
James levantou as sobrancelhas.
— Interessante.
Edward estreitou os olhos.
— O que é interessante?
— Nada.
— Então não fala desse jeito.
— Que jeito?
— James — Carlisle advertiu, embora parecesse quase divertido.
James ergueu as mãos.
— Não fiz nada.
— Ainda — Jasper comentou.
A conversa mudou.
Por alguns minutos.
Até Jasper olhar para mim.
— Bella, você viu que abriram as inscrições?
Franzi a testa.
— Para quê?
— O processo seletivo.
Meu estômago deu uma pequena volta.
— Ah.
Edward olhou para mim.
Todos olharam para mim.
Ótimo.
Exatamente o que eu queria.
— Não é nada.
— Se é o que estou pensando, não é "nada" — Carlisle disse.
Olhei para ele.
Traidor.
Esme se animou.
— Aquele da empresa?
— Sim — Jasper respondeu.
James observava.
— Que empresa?
— A nossa — Emmett explicou.
Meu desconforto aumentou.
Edward percebeu.
— Vocês podem parar de falar como se ela não estivesse sentada aqui?
— Obrigada.
Jasper riu.
— Certo. Bella, você viu?
— Vi.
— E?
— E nada.
— Vai se inscrever?
Peguei a taça de água.
— Não sei.
— Por quê? — Carlisle perguntou.
Olhei ao redor.
Muitos olhos.
Inclusive os de James.
Ele me observava com atenção demais.
Não exatamente como naquela manhã, mas eu percebia.
Sempre percebia.
— Porque é...
Procurei as palavras.
— Muito.
— Muito o quê? — Esme perguntou.
— Grande.
Emmett franziu a testa.
— Essa explicação foi péssima.
— Eu sei.
Respirei.
— Eu pesquisei sobre a vaga.
Jasper assentiu.
— Então sabe que combina com seu perfil.
— Sei que a área combina.
— Economia — James comentou.
Olhei para ele.
— Sim.
— Mas não é uma vaga simples — continuei. — É um cargo importante.
— E? — Rosalie perguntou.
— E eu...
Parei.
Não gostava de falar aquilo.
Principalmente diante de todos.
— Eu não tenho tanta experiência.
— Experiência se adquire — Carlisle respondeu.
— Não é só isso.
Olhei para minhas mãos.
— Eu não estou exatamente no melhor momento psicológico para entrar em um processo desses.
O silêncio mudou.
Edward tocou discretamente minha perna por baixo da mesa.
— É muito concorrido — continuei. — Tem várias etapas. Gente muito mais preparada vai tentar. E eu acabei de...
Meu peito apertou.
— Sair de um emprego porque não consegui continuar trabalhando normalmente.
— Bella — Esme começou.
— É verdade.
— Foi uma situação excepcional — Rosalie disse.
Olhei para ela.
— Você não saiu porque era incompetente — continuou. — Saiu porque alguém estava aterrorizando você.
A palavra foi dura, mas correta.
— Isso não muda o fato de que eu não estou cem por cento.
— Ninguém está cem por cento — Alice respondeu.
— Você entendeu.
— Entendi.
Ela sorriu.
— E acho que deveria fazer mesmo assim.
— Também acho — Jasper disse.
— Eu também — Emmett acrescentou.
— Vocês são suspeitos.
— Por quê? — Emmett perguntou.
— Porque são vocês.
— Argumento forte.
Esme tocou minha mão.
— Fazer a inscrição não obriga você a aceitar nada.
— Eu sei.
— Então faça — Rosalie disse. — No pior cenário, você não passa.
— Rose — Alice reclamou.
— O quê? É verdade.
Rosalie olhou para mim.
— E se não passar, continua viva. Tenta outra coisa. Mas se nem se inscrever, já decidiu por eles.
Aquilo me fez pensar.
Carlisle assentiu.
— Além disso, o processo é longo.
— Uns três meses — Jasper comentou.
Edward finalmente falou.
— Tempo suficiente.
Olhei para ele.
— Para quê?
Seus olhos encontraram os meus.
— Para resolvermos Nathan.
A mesa ficou silenciosa.
— Edward...
— Você está pensando como se fosse começar amanhã.
Ele virou um pouco o corpo para mim.
— Não vai.
— Eu sei.
— São meses, Bella.
Sua mão encontrou a minha.
— E em três meses muita coisa pode mudar.
— Você não pode prometer isso.
— Não estou prometendo que tudo vai estar perfeito.
Apertou meus dedos.
— Estou dizendo que não vou deixar esse filho da puta continuar roubando coisas de você.
Meu coração apertou.
— Edward — Esme repreendeu pelo palavrão.
— Desculpa.
Não parecia.
Sorri.
— Tenho certeza de que teremos avançado muito até lá — James disse.
Olhei para ele.
— Mesmo?
— Sim.
— Você acha que conseguimos prender Nathan?
— Acho que temos caminhos.
Edward ficou sério.
— Vamos conseguir.
James olhou para ele.
— Eu acabei de dizer isso.
— Você disse que acha.
— E você está prometendo uma coisa que juridicamente não controla.
A tensão surgiu tão rápido que quase pude tocá-la.
— Não estou falando juridicamente.
— Percebi.
— Meninos — Esme avisou.
Suspirei.
— Por favor.
Edward olhou para mim.
A expressão suavizou imediatamente.
— Tudo bem.
James também assentiu.
— Desculpa.
Jasper retomou.
— Então?
— Então o quê?
— Inscrição.
— Vocês não desistem?
— Não — Alice respondeu.
Carlisle sorriu.
— Talvez seja bom para você ter alguma coisa para focar.
James franziu a testa.
— Não sei se concordo.
Todos olharam para ele.
— Com o quê? — perguntei.
— Com Bella entrar nisso agora.
Estranhei.
— Por quê?
— Você acabou de dizer que não está bem.
— Eu disse que não estou cem por cento.
— Exatamente.
James apoiou os braços na mesa.
— Esse processo parece importante. Concorrido. Vai exigir muito.
— E daí? — Alice perguntou.
— Talvez ela precise descansar.
— Eu já descansei demais — respondi.
— Não estou dizendo que você não seja capaz.
— Parece — Rosalie comentou.
James olhou para ela.
— Estou dizendo o contrário. Se é tão concorrido, talvez fosse melhor Bella fazer quando estiver em condições de entregar tudo.
— Ou talvez fazer agora ajude — Carlisle disse.
James voltou o olhar para ele.
— Como?
— Objetivo.
Meu interesse aumentou.
Carlisle continuou:
— Bella passou os últimos dias reagindo ao que Nathan faz. Mensagem. Medo. Mudança de rotina. Trabalho.
Fiquei quieta.
— Talvez seja importante ela ter alguma coisa que não tenha relação nenhuma com ele.
Esme assentiu.
— Algo dela.
Aquelas duas palavras me atingiram.
Algo meu.
Exatamente.
— E pelo potencial dela — Carlisle continuou — não vejo motivo para não tentar.
— Eu também não — Jasper falou.
— Nem eu — Rosalie.
— Muito menos eu — Alice.
Emmett levantou a mão.
— Meu voto conta?
— Não — Edward respondeu.
— Então também sou a favor.
Ri.
Olhei para Edward.
— E você?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Está perguntando sério?
— Estou.
— Quero que faça.
— Mesmo?
— Principalmente porque você está com medo de não conseguir.
Fiz uma careta.
— Isso deveria me incentivar?
— Conheço você.
— Lá vem.
— Se eu disser que talvez seja difícil demais...
Estreitei os olhos.
Ele sorriu.
— Você vai se inscrever só para provar que eu estou errado.
— Manipulador.
— Funciona?
O pior era que funcionava.
Respirei fundo.
— Está bem.
Alice se inclinou.
— Está bem o quê?
— Eu vou fazer.
O sorriso de Esme foi imediato.
— Sério?
— Vou me inscrever.
Emmett bateu uma mão na mesa.
— Aí.
— Mas...
Todos pararam.
— Tem uma condição.
Edward franziu a testa.
— Qual?
Olhei ao redor da mesa.
— Ninguém vai interferir.
Silêncio.
— Em nada.
Olhei primeiro para Carlisle.
— Nada de ligação.
Depois Jasper.
— Nada de falar com ninguém.
Emmett.
— Nada de favor.
Alice.
— Nada de investigar concorrente.
Ela abriu a boca.
— Eu nem...
— Alice.
— Certo.
Por fim, olhei para Edward.
— E você.
Ele levou a mão ao peito.
— Por que eu recebi um "e você" especial?
— Porque você é você.
— Ofensivo.
— Verdadeiro.
— Eu não vou interferir.
— Promete?
O sorriso desapareceu.
— Prometo.
Assenti.
— Quero conseguir porque mereci.
— Você vai — Edward respondeu.
James soltou uma risada baixa.
Olhei para ele.
— O quê?
— Nada.
Edward ficou tenso.
— Fala.
James girou a taça entre os dedos.
— Só achei interessante.
— O quê?
— Bella pedir que ninguém interfira.
— E?
James olhou diretamente para Edward.
— Principalmente você.
A mão de Edward ficou imóvel sobre a mesa.
— O que você quer dizer?
— Nada demais.
— Então para de falar pela metade.
James sorriu.
— Estou dizendo que talvez ela saiba que você teria condições de facilitar bastante as coisas.
Meu estômago apertou.
— James — Carlisle advertiu.
— O quê? Não é verdade?
Edward soltou minha mão.
— Cuidado.
A voz dele mudou.
Baixa.
Fria.
James percebeu.
— Com o quê?
— Com o que está insinuando.
— Eu não insinuei nada.
— Insinuou que Bella só teria vantagem nesse processo por minha causa.
— Não foi isso.
— Foi exatamente isso.
— Edward — falei.
Ele não olhou.
James se recostou na cadeira.
— Você tem interesse direto nela.
A frase me deixou desconfortável.
— E?
— E ela está tentando entrar numa empresa onde sua família é dona e você o CEO.
— James — Jasper interferiu. — O processo não funciona assim.
— Eu sei como processos seletivos funcionam.
— Então deveria saber que Bella vai passar pelas mesmas etapas que qualquer pessoa — Carlisle disse.
James levantou as mãos.
— Ótimo.
— Não parece que você acha ótimo — Edward respondeu.
— Eu só acho curioso você ser tão enfático.
— Porque ela é minha namorada.
Silêncio.
Meu coração bateu mais forte.
James olhou para mim.
Depois para Edward.
— Sua namorada?
Edward nem piscou.
— Algum problema?
— Isso realmente é sério?
Meu rosto esquentou.
— Isso não é da sua conta — falei.
James me olhou.
— Bella...
— Não.
Ele pareceu surpreso.
— Minha relação com Edward não tem nada a ver com esse processo.
— Eu não disse que...
— E não tem nada a ver com você.
Edward olhou para mim.
Não consegui interpretar a expressão.
James ficou sério.
— Eu só estou dizendo que talvez esse não seja o melhor momento para você se envolver com alguém.
Meu estômago afundou.
Edward levantou da cadeira.
— Chega.
James também ficou de pé.
— Senta.
— Não manda em mim.
— Então aprende a cuidar da sua vida.
— Estou tentando proteger ela.
— De mim?
— Se for necessário.
Edward riu sem humor algum.
— Você chegou praticamente ontem.
— E já vi o suficiente.
— Não viu porra nenhuma.
— Vi uma mulher vulnerável que acabou de sair de uma situação de violência e você...
A cadeira de Edward bateu no chão.
— Termina essa frase.
Meu coração disparou.
— Edward.
Ele não me ouviu.
Ou ouviu e não conseguiu parar.
James deu um passo.
— Você sabe exatamente o que estou dizendo.
— Não. Quero ouvir.
— Você deveria ter vergonha de se aproveitar de uma mulher que está claramente fragilizada.
O silêncio foi brutal.
Levantei.
— James!
Edward avançou.
Emmett levantou no mesmo instante.
Jasper também.
— Repete — Edward disse.
— Edward, para! — segurei seu braço.
Ele estava rígido.
— Repete.
James não recuou.
— Você ouviu.
— Você não sabe absolutamente nada sobre nós.
— Sei que ela passou por violência. Sei que está assustada. Sei que depende de você para se sentir segura e...
— CHEGA!
Minha própria voz me surpreendeu. Todos olharam para mim.
Eu tremia de raiva
Não de medo.
— Não fala da minha relação como se eu não estivesse aqui.
James abriu a boca.
— Bella, eu...
— Não.
Meu peito subia rápido.
— Edward não está se aproveitando de mim.
Silêncio.
— Eu escolhi ficar com ele.
Olhei para Edward.
Os olhos dele estavam em mim.
Minha garganta apertou.
— E sim, eu me sinto segura com ele. Isso não significa que eu seja incapaz de decidir com quem quero estar.
James baixou um pouco a cabeça.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Mas foi o que pareceu.
— Eu só...
— James.
Carlisle levantou.
Não precisou aumentar a voz.
— Basta.
James olhou para ele.
— Tio...
— Você ultrapassou um limite.
A mandíbula de James travou.
Carlisle olhou para Edward.
— E você também.
Edward ainda estava furioso.
— Ele...
— Eu ouvi.
Carlisle foi firme.
— Senta.
Por alguns segundos, achei que Edward não faria.
Então olhou para mim.
Respirou.
Puxou a cadeira.
Sentou.
James fez o mesmo.
Ninguém falou.
Eu também me sentei.
Queria desaparecer.
Aquela sensação voltou.
Todo mundo olhando.
A mesa silenciosa.
Os dois primos irritados.
Por minha causa.
Baixei os olhos.
Talvez eu não devesse ter mencionado a vaga.
Talvez não devesse ter aceitado a ajuda de James.
Talvez...
Uma mão encontrou a minha debaixo da mesa.
Edward.
Olhei.
Ele ainda estava irritado, mas comigo, não.
Nunca comigo.
Seus dedos se entrelaçaram nos meus.
Apertaram.
Não.
Não tinha sido minha culpa.
Eu sabia o que ele estava dizendo sem que precisasse abrir a boca.
Mesmo assim, a vergonha continuava ali.
Do outro lado da mesa, James permanecia em silêncio.
Quando levantei os olhos, ele estava me olhando.
A expressão tinha mudado.
Não havia provocação.
Parecia arrependido.
Desviei.
Encostei um pouco mais minha cadeira na de Edward.
Quase imperceptível.
Ele percebeu.
Sempre percebia.
Seu joelho tocou o meu.
E permaneceu ali.
Talvez Alice estivesse certa.
Talvez eu estivesse grudada nele.
Naquele momento, não me importei.
Porque a mesa estava cheia.
Minha cabeça também.
E, no meio de todo aquele barulho que ninguém fazia, eu só conseguia pensar em uma coisa:
Edward estava ali.
E eu estava segura.
Eu amo o Edward.
Fale com o autor