Meu Lugar Seguro

19 Capítulo 19


Notas iniciais
Oi, mais um capitulo que ficou muito grande. Espero que leiam tudo. Boa leitura.

POV EDWARD

Existem conversas que você não deveria ouvir.

Não porque sejam secretas.

Mas porque chegar no meio delas é, às vezes, pior do que não ouvir absolutamente nada.

Eu só descobriria isso tarde demais.

Estava indo procurar Alice.

Nada importante. Uma questão relacionada ao trabalho dela, que ela havia me pedido orientação , que provavelmente poderia ter esperado até o dia seguinte, mas eu sabia que ela estava na mansão e resolver aquilo pessoalmente seria mais rápido do que trocar vinte mensagens com minha irmã.

Eu já conhecia aquela casa o suficiente para não precisar perguntar onde ninguém estava.

Minha mãe estava na cozinha.

Meu pai, provavelmente no escritório.

E as vozes de Alice e Bella vinham da sala menor no fim do corredor.

Ia entrar.

Então ouvi meu nome.

Parei.

— ...Edward não entenderia isso.

A voz de Bella.

Meu primeiro impulso foi continuar andando.

Meu segundo foi ficar.

O segundo venceu.

— Porque você não fala para ele — Alice respondeu.

— E eu vou falar o quê?

Houve alguns segundos de silêncio.

— A verdade?

Bella soltou uma risada baixa.

Sem humor.

— Que verdade, Alice?

— Que você está com medo.

— Claro que eu estou com medo.

Minha mão apertou lentamente o celular.

Não sabia do que estavam falando.

Deveria ter entrado.

Deveria ter feito qualquer coisa que não fosse ficar parado naquele corredor ouvindo.

— Então conta logo para ele. — Alice disse.

Silêncio.

Longo demais.

Então Bella respondeu:

— Eu não sei se estou pronta para isso.

Foi como receber um golpe no estômago.

Fiquei imóvel.

— Bella...

— É sério. Eu não sei.

— Mas vocês se amam tanto. É nítido que ele vai entender e aceitar e não te julgar por isso.

Outro silêncio.

Dessa vez, minha cabeça respondeu antes dela.

Mas.

Sempre existia um mas.

— Mas acho que estou me precipitando demais com isso. Talvez eu devesse esquecer essa história.

Aquilo foi suficiente.

Talvez não devesse ter sido.

Mas foi.

Dei um passo para trás.

Não queria ouvir o restante.

Não precisava.

Ou pelo menos foi o que disse a mim mesmo enquanto voltava pelo corredor.

Eu não sabia o que queria encontrar naquela conversa.

Talvez Bella dizendo que estava feliz.

Talvez dizendo que me amava.

Talvez reclamando que eu era controlador, irritante e arrogante. Coisas que eu poderia aceitar sem problema algum porque eram verdade.

Mas não aquilo.

Eu não sei se estou pronta para isso. Mas acho que estou me precipitando demais com isso. Talvez eu devesse esquecer essa história.

Desde o início eu soube que estava entrando rápido demais na vida dela.

Bella tinha chegado até nós destruída.

Assustada.

Tentando sobreviver a coisas que eu nem conseguia imaginar completamente.

E eu prometi a mim mesmo que não seria mais um homem decidindo coisas por ela.

Então fui lá e me apaixonei.

Pior.

Fiz Bella se apaixonar por mim.

Ou pensei que tivesse feito.

Saí pela porta da frente sem me despedir de ninguém.


Ela me ligou naquela noite.

Olhei para o nome dela na tela até parar de tocar.

Cinco minutos depois, uma mensagem.

Bella: Você foi na mansão?

Não respondi.

Outra.

Bella: Alice disse que você estava procurando ela.

Joguei o celular no sofá.

Patético. Eu sabia.

Mas precisava de algumas horas antes de falar com Bella, porque naquele momento existiam duas versões de mim disputando espaço.

Uma queria dirigir até a mansão e perguntar exatamente o que ela quis dizer.

A outra queria manter o pouco de dignidade que ainda tinha.

A segunda ganhou.

Na manhã seguinte, Bella ligou novamente.

Ignorei.

À tarde, outra mensagem.

Bella: Edward, aconteceu alguma coisa?

Ri sozinho.

Talvez fosse injusto.

Provavelmente era.

Mas não consegui responder.


Ela apareceu na minha casa naquela noite.

Eu devia ter imaginado. Bella não tinha paciência para ser ignorada.

A campainha tocou uma vez.

Depois outra.

Na terceira, ouvi as batidas.

— Edward!

Fechei os olhos.

— Eu sei que você está aí!

Claro que sabia.

Fui até a porta.

Quando abri, Bella estava parada na minha frente usando jeans, uma blusa escura e aquela expressão que normalmente significava que eu estava a aproximadamente trinta segundos de levar um soco.

— Finalmente.

— Boa noite para você também.

Ela passou por mim sem pedir licença.

Fechei a porta.

— Entra.

Bella virou.

— Você está me ignorando desde ontem.

— Estive ocupado.

— Mentira.

— Então por que perguntou?

Os olhos dela estreitaram.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Você é péssimo mentindo.

— Engraçado.

— O que tem de engraçado?

— Nada.

Ela respirou fundo.

— Edward.

— Bella.

— Para com isso.

— Com o quê?

— Isso!

Ela apontou para mim.

— Você está estranho desde ontem. Não atende minhas ligações, não responde minhas mensagens e agora está falando comigo como se eu tivesse feito alguma coisa. O que eu fiz?

A pergunta deveria ter resolvido tudo.

Eu poderia simplesmente ter dito:

Ouvi você conversando com Alice.

Mas havia alguma coisa humilhante em admitir.

Talvez porque eu tivesse escutado uma conversa que não deveria.

Talvez porque uma parte de mim quisesse saber se Bella contaria espontaneamente aquilo que aparentemente estava escondendo.

— Nada.

— Para de responder "nada".

— Você perguntou.

— E você está sendo um idiota.

— Novidade.

— Edward.

— Bella.

Ela soltou o ar.

— Eu realmente não sei o que está acontecendo.

Olhei para ela.

— Não?

— Não.

A resposta me irritou.

Porque, na minha cabeça, ela sabia perfeitamente.

— Interessante.

— O que é interessante?

— Nada.

— Meu Deus.

Bella passou a mão pelo cabelo.

— Você está me punindo por alguma coisa e nem sequer vai dizer pelo quê?

— Eu não estou punindo você.

— Então o que está fazendo?

— Pensando.

— Há dois dias?

— Algumas coisas precisam de tempo.

A frase saiu antes que eu percebesse.

Bella ficou me olhando.

Ela não poderia saber por que aquilo significava tanto para mim.

— Certo — respondeu devagar. — Pensando em quê?

— Nós.

A postura dela mudou.

— O que tem nós?

Ali estava.

A chance.

Eu poderia perguntar.

Você quer estar comigo?

Mas eu já acreditava conhecer a resposta.

— Talvez a gente tenha ido rápido demais.

Bella piscou.

— O quê?

— Desde o começo.

— Eu ouvi. Só não entendi.

— Talvez eu tenha pressionado você.

— Pressionado?

— Para alguma coisa que você ainda não estava pronta.

O rosto dela mudou.

Não para culpa.

Na hora, porém, interpretei como surpresa por eu ter percebido.

— De onde está vindo isso?

— Importa?

— Claro que importa.

— Eu estou perguntando sobre nós.

— Não. Você está dizendo um monte de coisas estranhas e se recusando a explicar por quê.

— Talvez eu só esteja enxergando algumas coisas agora.

— Que coisas?

Não respondi.

Bella riu, incrédula.

— Isso é ridículo.

— É?

— Sim!

— Talvez não.

— Então fala, Edward.

Silêncio.

— Fala o que você acha que descobriu.

Eu poderia, mas não fiz.

— Não importa.

— Para mim importa!

— Talvez esse seja o problema.

Assim que falei, quis retirar.

Bella ficou imóvel.

— O que isso quer dizer?

— Eu não sei.

— Você sabe, sim.

— Bella...

— Não. Você começou isso.

Os olhos dela estavam presos aos meus.

— Se tem alguma coisa para dizer, diga logo.

Minha raiva se misturava com medo.

Um péssimo lugar para tomar decisões.

— Você está feliz comigo?

Ela pareceu surpresa.

— O quê?

— É uma pergunta simples.

— Não, não é. Não desse jeito.

— Então responde.

— Eu estava feliz até você começar a agir como um maluco.

— Bella.

— Sim, Edward. Eu estava feliz.

Estava.

A palavra me atingiu de forma completamente irracional.

— Estava.

Ela arregalou os olhos.

— Você só pode estar brincando.

— Não.

— Eu quis dizer antes dessa discussão!

— Eu entendi.

— Não parece.

— Talvez eu não queira ser alguém que você precise se convencer de que quer.

Bella me encarou.

— De onde você tirou isso?

Desviei o olhar.

— Não importa.

— Para de falar que não importa!

Ela já estava irritada e eu também.

— Eu não vou fazer isso com você.

— Isso o quê?

— Prender você numa coisa para a qual talvez não esteja pronta.

O silêncio foi imediato.

Bella me olhou de uma maneira estranha.

Como se tentasse descobrir quem tinha colocado aquela ideia na minha cabeça.

— Eu disse que não estou pronta para ficar com você?

Não.

Ela nunca tinha dito.

Não para mim.

— Você não precisa dizer tudo.

Foi a resposta mais covarde que eu poderia dar.

Bella soltou uma risada curta.

— Inacreditável.

— O quê?

— Você.

— Ótimo argumento.

— Você decidiu alguma coisa sozinho e agora está colocando na minha conta.

— Não estou colocando nada na sua conta.

— Está, sim!

Ela se aproximou.

— Você está dizendo que eu não estou pronta. Que eu não sei o que quero. Que você está me pressionando. Eu nunca disse nenhuma dessas coisas para você.

— Talvez porque você não consiga dizer.

O rosto dela caiu.

Eu soube que tinha passado do limite.

— Entendi.

— Bella...

— Não. Agora eu entendi.

— Não foi...

— Você acha que eu estou com você porque não consigo dizer não?

— Eu não disse isso.

— Então o que está dizendo?

— Que talvez você precise de espaço.

Ela ficou em silêncio.

Eu continuei. Porque aparentemente não tinha destruído o suficiente.

— Talvez nós dois precisemos.

— Você quer terminar comigo?

A pergunta veio tão direta que meu cérebro demorou um segundo.

— Eu quero que você tenha certeza.

— Não foi o que perguntei.

— Bella...

— Você quer terminar comigo?

Olhei para ela.

Eu queria dizer não.

Era tão simples.

Não.

Eu amava aquela mulher.

Não queria um único dia sem ela.

Mas também não queria acordar meses depois e descobrir que Bella ficara comigo porque tinha medo de decepcionar mais uma pessoa.

— Talvez seja melhor.

Vi exatamente quando ela ergueu a muralha.

Foi quase físico.

— Certo.

— Bella...

— Não.

Ela pegou a bolsa.

— Você tem razão.

Aquilo me atingiu.

— Tenho?

— Talvez seja melhor.

Orgulho reconhece orgulho.

O dela tinha acabado de entrar na sala.

— Você concorda?

Ela deu de ombros.

— Foi você quem disse.

— Não foi isso que perguntei.

Bella sorriu.

Não havia humor nenhum.

— Engraçado. Agora você quer respostas?

Mereci.

— Bella.

— Você já decidiu.

— Estou tentando fazer o que é melhor.

— Para de fazer isso.

— O quê?

— Fingir que está fazendo por mim.

A voz dela baixou.

— Se você quer terminar comigo, pelo menos tenha coragem de assumir que é porque você quer.

— Não é tão simples.

— É bastante simples.

Ela foi até a porta.

Segurei o pulso dela antes que abrisse.

Bella olhou para minha mão.

Soltei imediatamente.

— Espera.

— Para quê?

Não tinha resposta.

Ou tinha.

Só não consegui dizer.

Porque eu não quero que você vá.

Bella esperou alguns segundos.

Depois assentiu devagar.

— Foi o que pensei.

Abriu a porta.

— Boa noite, Edward.

E saiu.


Os três dias seguintes foram uma demonstração patética de orgulho.

Nenhum de nós procurou o outro.

Eu sabia que Bella estava na mansão.

Sabia que trabalhava normalmente.

Sabia que Alice estava irritada comigo porque minhas mensagens recebiam respostas monossilábicas.

Não perguntei nada.

Na quarta noite, fui jantar com meus pais.

Pelo menos foi essa a justificativa.

Bella estava na cozinha quando entrei.

Ela me viu.

Eu vi ela.

Nenhum de nós esperava o outro.

— Cullen.

— Swan.

Ela voltou a mexer no café.

— Veio visitar seus pais ou fiscalizar se sobrevivi?

— Ainda está viva?

Bella olhou para mim.

— Decepcionado?

— Profundamente.

— Vai superar.

— Já estou quase lá.

Ela soltou uma risadinha.

A primeira desde aquela noite.

O som fez alguma coisa dentro do meu peito que preferi ignorar.

Passei por ela.

— Você está usando minha caneca.

Bella olhou para a própria mão.

— Sua?

— Sim.

— Não tem seu nome.

— Eu usava sempre.

— Você não mora mais aqui.

— Continua sendo minha.

Bella tomou um gole olhando diretamente para mim.

— Agora é minha.

Sorri.

— Ladra.

— Processa.

Por alguns segundos, foi fácil.

Perigosamente fácil.

Bella encostada na bancada.

Eu perto demais.

Aquela tensão familiar entre nós.

Meu olhar caiu para a boca dela.

Ela percebeu.

— Nem pensa.

— Eu não fiz nada.

— Conheço essa cara.

— Você conhece várias coisas sobre mim.

A provocação saiu antes que eu pensasse.

Bella ficou quieta.

Meu sorriso diminuiu.

— Pelo visto, não tantas — respondeu.

Golpe baixo.

Merecido.

— Talvez não.

Ela colocou a caneca na pia.

Passou por mim.

O perfume ficou.

— Boa noite, Cullen.

— Boa noite, Swan.

Esperei ela sair para respirar direito.

Virou uma espécie de guerra.

Eu aparecia.

Bella provocava.

Eu devolvia.

Ela sorria quando não queria.

Eu olhava quando não deveria.

Nenhum dos dois falava sobre aquela noite.

Talvez porque conversar de verdade fosse perigoso.

Talvez porque estivéssemos esperando que o outro cedesse primeiro.

Então alguma coisa mudou.

Não aconteceu de uma vez.

Foi diminuindo.

As provocações ficaram menos frequentes.

Os sorrisos desapareceram.

Bella começou a chegar em casa e subir direto.

No início achei que estava me evitando.

Parte de mim até ficou irritada.

Até aquela noite.

Ela chegou do trabalho pouco depois das sete.

Eu estava conversando com Carlisle na sala.

A porta abriu.

Bella entrou.

Parou.

Por alguns segundos, ficou simplesmente parada no hall.

A bolsa pendurada no ombro.

O celular na mão.

— Bella? — Esme chamou.

Ela pareceu voltar.

— Oi.

Olhou para a sala.

Me viu.

Normalmente diria alguma coisa.

Você de novo.

Não tem casa?

Qualquer coisa.

Nada.

— Oi — falei.

— Oi.

E subiu.

Olhei para Carlisle.

Ele não pareceu perceber.

Eu percebi.

Mais tarde, fui à cozinha pegar água.

Bella estava lá.

Não me viu entrar.

O celular dela vibrou.

Ela olhou.

E alguma coisa aconteceu.

O corpo inteiro ficou rígido.

Os dedos apertaram o aparelho.

A respiração parou.

Observei em silêncio.

Ela leu novamente.

Depois bloqueou a tela.

— Bella?

Ela se virou tão rápido que bateu o quadril na bancada.

— Merda!

— Calma.

— Não aparece assim!

Franzi a testa.

— Eu entrei pela porta.

— Você não faz barulho.

— Desculpa.

Bella respirou fundo.

O celular ainda estava apertado na mão.

— Está tudo bem?

— Está.

— Não parece.

— Estou cansada.

Olhei para o telefone.

Bella percebeu.

Guardou no bolso.

— Quem era?

— Ninguém.

— Ninguém deixou você branca.

O rosto dela endureceu.

— Não começa.

— Só estou perguntando.

— E eu estou dizendo que não é nada.

— Bella...

— Nós terminamos, Edward.

Aquilo me calou.

Ela também percebeu.

Por alguns segundos, ficamos apenas nos olhando.

— Você deixou isso bastante claro — continuou.

A frase veio baixa.

Dessa vez não era provocação.

Pegou o copo.

Passou por mim.

— Boa noite.

Não tentei impedir.

Mas fiquei olhando enquanto ela saía.

Alguma coisa estava errada.

E, pela primeira vez, não consegui convencer a mim mesmo de que era consequência do término.


Dois dias depois, encontrei Emmett no meu escritório.

Ou, mais precisamente, ele invadiu meu escritório.

— Você não bate?

— Família não bate.

— Quem inventou essa regra?

— Eu.

Ele sentou.

— Sai.

— Não.

Continuei trabalhando.

— Você está uma merda.

— Obrigado.

— Bella também.

Minha caneta parou.

Emmett sorriu.

— Sabia.

— Sabia o quê?

— Que você ainda fica assim quando eu falo dela.

— Fico como?

— Igual cachorro quando escuta barulho de pacote.

— Vai se foder.

Ele riu.

— Por que vocês terminaram?

— Não é da sua conta.

— Eu sei.

— Então?

— Curiosidade.

Voltei ao documento.

— Não deu certo.

— Mentira.

Levantei os olhos.

— Perdão?

— Vocês estavam bem.

— Pessoas terminam.

— Pessoas normais. Vocês dois são obsessivos.

— Que análise brilhante.

Emmett apoiou os pés na lateral da minha mesa.

Empurrei para baixo.

— Tira.

— Então fala.

— Não.

— Foi você?

Silêncio.

Ele sorriu.

— Foi.

— Emmett.

— Por quê?

Talvez eu estivesse cansado de ouvir a pergunta dentro da minha própria cabeça.

— Porque ela não está pronta.

Ele ficou quieto.

— Para?

— Para isso. Para nós.

— Bella falou?

Meu maxilar apertou.

— Ouvi uma conversa.

— Com quem?

— Alice.

— E?

Olhei para ele.

— Ouvi o suficiente para entender que ela não está pronta e não sabe como me dizer.

Emmett me estudou.

— Ela falou isso?

— Não com essas palavras.

— Ah.

— Não começa.

— Eu não falei nada.

— Sua cara falou.

— Minha cara é bastante comunicativa.

— Emmett.

Ele ficou sério.

— Você perguntou para ela?

— Não.

— Por quê?

— Porque se Bella quisesse me contar, teria contado.

— Ou talvez a conversa não fosse sobre o que você acha.

A irritação veio instantânea.

— Eu não preciso que você faça análise da minha relação.

— Não estou fazendo.

— Parece.

— Estou só dizendo que ouvir metade de uma conversa é uma maneira bem eficiente de arrumar problema.

— Eu ouvi meu nome.

— E?

— E coisas suficientes.

— Certo.

Ele ergueu as mãos.

— Você é adulto.

— Obrigado.

— Um adulto burro, às vezes.

— Porta.

Emmett levantou rindo.

Mas antes de sair, parou.

— Falando sério.

Olhei para ele.

— Ela está estranha.

A irritação desapareceu.

— Você percebeu?

— Difícil não perceber.

— Como?

— Quietinha demais.

Ele deu de ombros.

— Antes ela estava puta com você. Agora parece outra coisa.

— Que coisa?

Emmett pensou.

— Não sei.

Então ficou sério.

— Mas não acho que seja você.

Depois que ele saiu, fiquei olhando para a porta fechada.

Talvez a conversa não fosse sobre o que você acha.

Afastei a frase imediatamente.

Eu sabia o que tinha ouvido.

Sabia.

Só não sabia mais se aquilo explicava o que estava acontecendo agora.

Porque a Bella que tinha saído furiosa da minha casa naquela noite estava machucada.

A Bella dos últimos dias estava assustada.

E eram duas coisas completamente diferentes.

Depois daquela conversa com Emmett, ficou impossível fingir que eu estava imaginando coisas. Comecei a observar Bella.

Não perseguir.

Observar.

Alice provavelmente diria que a diferença era mínima, mas eu tinha certeza de que existia.

E, quanto mais prestava atenção, menos gostava do que via.

Bella passou a chegar mais cedo em casa.

Não todos os dias. Não de uma forma que chamasse atenção imediatamente.

Mas o suficiente.

Parou de sair sozinha à noite. Quando precisava ir a algum lugar, aceitava com uma facilidade estranha quando Alice ou Esme se ofereciam para acompanhá-la.

Certa vez, Carlisle perguntou se ela queria carona.

Bella aceitou antes mesmo que ele terminasse a frase.

Aquilo me incomodou.

A Bella dos últimos meses tinha lutado para recuperar cada centímetro da própria independência.

Chegou ao ponto de ficar irritada quando alguém tentava protegê-la demais.

Agora parecia aliviada por não precisar ficar sozinha.

E havia o celular.

Sempre aquela merda de celular.

Às vezes passava horas sem tocar.

Bella parecia quase normal.

Conversava. Sorria pouco, mas sorria.

Então a tela acendia.

E ela mudava.

Não acontecia todas as vezes.

Esse detalhe me confundia.

Havia mensagens que Bella lia e simplesmente ignorava. Outras recebiam respostas rápidas.

Mas algumas...

Algumas faziam seus ombros ficarem tensos.

Faziam os dedos apertarem o aparelho.

Faziam Bella procurar uma desculpa para sair do ambiente.

Comecei a odiar o som das notificações dela.

Numa terça-feira, cheguei à mansão pouco depois das oito.

Esme estava sozinha na sala.

— Onde está todo mundo?

Minha mãe ergueu os olhos do livro.

— Seu pai está no escritório.

— Alice?

— Na casa dela.

Assenti.

Esperei.

Esme voltou para o livro.

Esperei mais alguns segundos.

Ela sorriu.

— Bella está no quarto.

Fechei a cara.

— Eu não perguntei.

— Eu também não disse que perguntou.

— Vocês são todos muito engraçados ultimamente.

— Obrigada.

Fui até a cozinha.

Não consegui chegar lá.

— Ela já jantou?

Esme fechou o livro.

Merda.

— O quê?

— Nada.

— Mãe.

— Você acabou de perguntar se Bella jantou depois de fingir que não queria saber onde ela estava.

— É uma pergunta normal.

— Claro.

— Ela comeu ou não?

O sorriso desapareceu do rosto dela.

— Quase nada.

Parei.

— Como assim?

— Disse que estava com dor de cabeça.

— De novo?

Esme franziu a testa.

— De novo?

Droga.

— Ela reclamou outro dia.

Minha mãe deixou o livro de lado.

— Você sabe de alguma coisa que eu não sei?

— Não.

— Edward.

— Estou falando sério.

Sentei no braço do sofá.

— Eu não faço ideia do que está acontecendo.

Esme ficou alguns segundos me observando.

— Eu tentei conversar com ela.

— E ela disse que está tudo bem.

— Exatamente.

Soltei uma risada sem humor.

— Resposta padrão.

— Ela está dormindo mal também.

Olhei para minha mãe.

— Como você sabe?

— A luz do quarto fica acesa até tarde. Anteontem fui pegar água quase quatro da manhã e ela ainda estava acordada.

— Fazendo o quê?

— Não sei. Quando bati, ela disse que estava lendo.

— Você acreditou?

Esme não respondeu.

Não precisava.

— Ela está comendo pouco, dormindo mal... — comecei.

— E está assustada.

A palavra me fez ficar imóvel.

— Você também acha?

— Também?

Desviei os olhos.

— Emmett comentou.

Minha mãe ficou ainda mais séria.

— Então não sou só eu.

Passei a mão pelo rosto.

— Eu pensei que fosse por causa do término.

— O término machucou Bella.

Meu estômago apertou.

— Eu sei.

— Mas não acho que explique tudo isso.

Olhei para a escada.

— Nem eu.

Dois dias depois, meu telefone tocou no meio de uma reunião.

Ignorei.

Tocou novamente.

Continuei falando.

Poucos minutos depois, minha assistente apareceu discretamente à porta.

Parei.

— O que foi?

— Desculpa interromper.

Ela olhou rapidamente para as outras pessoas.

— Tem alguém querendo falar com você.

— Estou em reunião.

— Eu expliquei.

— Então marca outro horário.

Ela hesitou.

— Ele disse que é sobre Isabella Swan.

Tudo dentro de mim ficou alerta.

— Quem?

— Adrian Whitmore.

Levei um segundo para reconhecer.

Chefe de Bella.

Fechei a pasta na minha frente.

— Cinco minutos.

As pessoas ao redor da mesa começaram a levantar.

— Não. Vocês ficam. Eu volto.

Saí.

Adrian estava na recepção.

Eu o reconheci.

— Whitmore.

Ele se levantou.

— Cullen.

Nem cumprimentei direito.

— Aconteceu alguma coisa com a Bella?

A expressão dele respondeu antes das palavras.

— É justamente por isso que estou aqui.

Apontei para minha sala.

— Entra.

Fechei a porta atrás de nós.

— Ela está bem?

Adrian permaneceu de pé.

— Eu esperava que você pudesse me responder isso.

— Por quê?

Ele respirou fundo.

— Bella pediu demissão hoje.

Por alguns segundos, tive certeza de que tinha ouvido errado.

— O quê?

— Pediu demissão.

— Por quê?

— Não disse.

— Conseguiu outro emprego?

— Não que eu saiba.

— Você perguntou?

Adrian me lançou um olhar.

— Claro que perguntei.

Sentei.

Aquilo não fazia sentido.

Bella gostava do trabalho.

Talvez não fosse o emprego dos sonhos dela, mas era dela.

Sua rotina.

Seu dinheiro.

Sua independência.

Coisas que tinham se tornado importantes justamente porque devolviam a ela algum controle sobre a própria vida.

— Quando?

— Hoje pela manhã.

— E você veio até aqui porque ela pediu demissão?

A pergunta saiu mais ríspida do que pretendia.

Adrian percebeu.

— Eu vim porque estou preocupado com ela.

Meu maxilar apertou automaticamente.

Foi ridículo.

Nós não estávamos juntos.

Ele era chefe dela.

Ainda assim, ouvir outro homem dizer que estava preocupado com Bella provocou uma reação que eu preferia não analisar.

— Preocupado como?

— Bella é uma das melhores pessoas que trabalham comigo

O ciúme morreu rápido.

Adrian não estava ali por aquilo.

— Ela é responsável. Pontual. Organizada. Aprende rápido. Não falta sem motivo e raramente preciso cobrar alguma coisa dela. Ela é talentosa e inteligentíssima.

Conhecia aquela Bella.

— Mas?

— Há alguns dias ela não é a mesma.

Meu corpo ficou tenso.

— Quantos?

— Uma semana. Talvez um pouco mais.

Praticamente o mesmo período.

— O que mudou?

— Começou com distrações.

— Que tipo?

— Coisas pequenas. Erros que qualquer pessoa cometeria, mas que não são comuns nela. Perder parte de uma conversa. Precisar que eu repita alguma coisa. Ficar olhando para o celular no meio de uma tarefa.

O celular.

Sempre ele.

— Aconteceu alguma coisa no trabalho?

— Não.

— Alguém incomodou ela?

— Não que eu saiba.

— Algum cliente? Funcionário?

— Cullen, se eu soubesse que alguém estava incomodando Bella, não estaria aqui perguntando para você.

Assenti.

Justo.

— Continua.

Adrian hesitou.

— Ontem ela passou mal.

Meu estômago apertou.

— Como?

— Desmaiou.

Levantei tão rápido que a cadeira bateu atrás de mim.

— Ela o quê?

— Foi rápido.

— Foi levada ao hospital?

— Não.

— Por quê?

— Porque recusou.

Claro que recusou.

— Você deixou?

— Ela é adulta.

— Ela perdeu a consciência.

— E eu tentei convencer. Outras pessoas também.

Passei a mão pelo rosto.

— Ela comeu?

— Não faço ideia.

Provavelmente não.

— O que aconteceu antes?

— Antes de desmaiar?

— Sim.

Adrian pensou.

— Ela estava trabalhando normalmente.

— Normalmente?

Ele fez uma expressão.

— O mais próximo disso nos últimos dias.

— E?

— O celular vibrou.

Fiquei imóvel.

— Ela recebeu uma mensagem?

— Imagino que sim.

— Você viu de quem?

— Não.

— O que ela fez ?

— Leu.

Ele franziu a testa.

— Ficou pálida.

Minha mão fechou lentamente.

— Depois?

— Levantou rápido e foi ao banheiro. Uma das meninas perguntou se estava bem. Bella disse que sim. Quando voltou, parecia sem ar.

— E desmaiou.

— Pouco depois.

Andei até a janela.

Nova York se estendia lá embaixo.

Milhares de pessoas.

Milhões de possibilidades.

E, pela primeira vez, pensei seriamente que alguém pudesse estar fazendo aquilo com ela.

Nathan.

— Hoje ela voltou?

— Sim.

Virei.

— Depois de desmaiar?

— Às oito em ponto.

Típico.

— E pediu demissão.

— Antes das dez.

— Você aceitou?

Adrian suspirou.

— Pedi que tirasse alguns dias.

— E?

— Não quis.

— Férias?

— Ofereci.

— Licença?

— Também.

— E ela simplesmente quer sair?

— Sim.

— Deu algum motivo?

— Disse que precisa resolver assuntos pessoais.

A frase não significava nada.

Ou significava tudo.

— Por que veio até mim?

Adrian ficou quieto por alguns segundos.

— Ontem, quando ela desmaiou, perguntei se havia alguém que eu pudesse chamar.

Esperei.

— Ela disse que não.

Aquilo doeu de uma forma que eu não esperava.

Claro.

Nós tínhamos terminado.

Talvez Bella tivesse deixado bastante claro no trabalho que eu não fazia mais parte da vida dela.

— Só que seu nome está no contato de emergência.

Olhei para ele.

— O quê?

— Seu nome e seu número.

Fiquei imóvel.

Alguma coisa apertou meu peito.

Bella tinha dito que não havia ninguém para chamar.

Mas meu nome continuava ali.

— Eu perguntei se deveria ligar para você , já que sabia que vocês estavam juntos.— Adrian continuou.

— O que ela disse?

— Não.

Claro.

— Quando mencionei seu nome, ela ficou nervosa.

Desviei o olhar.

Talvez eu estivesse errado.

Talvez aquilo fosse minha culpa.

Talvez terminar tivesse arrancado dela uma segurança que eu nem percebi que representava.

— Só que...

Olhei novamente.

— O quê?

— Eu não acho que seja só isso.

— Por quê?

Adrian demorou.

— Porque eu já vi gente passando por término.

Esperei.

— Bella não parece triste.

A frase me incomodou.

— Ela parece com medo.

Silêncio.

A mesma palavra.

De novo.

— O que você viu?

— Nada específico.

— Pensa.

— Cullen...

— Por favor.

Ele respirou fundo.

— Ela olha muito para a porta.

Meu estômago virou.

— Explica.

— Toda vez que alguém entra no escritório, Bella olha.

— Todo mundo olha.

— Não desse jeito.

Adrian hesitou.

— É como se ela precisasse ver quem entrou.

Portas.

A Bella que chegara àquela casa fazia exatamente isso.

Portas.

Janelas.

Corredores.

Saídas.

Sempre sabendo onde estavam.

— Mais alguma coisa?

— Às vezes ela vai até a janela.

— Para quê?

— Não sei.

— Olha para baixo?

— Para a rua.

Meu corpo inteiro ficou alerta.

— Como se procurasse alguém?

— Ou como se tivesse medo de encontrar.

Merda.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— Obrigado por vir.

Adrian assentiu.

Caminhou até a porta.

— Whitmore.

Ele parou.

— Se acontecer qualquer outra coisa...

Tirei um cartão da mesa.

Entreguei.

— Me liga.

Ele pegou.

— Bella pediu para eu não procurar ninguém.

— Eu sei.

— Ela vai ficar puta se descobrir.

— Eu sobrevivo.

Pela primeira vez, Adrian quase sorriu.

— Imaginei.

Abriu a porta.

Antes de sair, olhou para mim.

— Cullen.

— Sim?

— Ela é uma excelente funcionária.

— Eu sei.

— Eu não vim aqui para tentar convencer ela a voltar.

Esperei.

— Vim porque acho que alguém precisa perceber que ela não está bem.

A porta fechou.

Fiquei sozinho.

A reunião continuava me esperando.

Não voltei.

Peguei o celular.

Abri a conversa com Bella.

Fiquei olhando para o nome dela.

Digitei:

Precisamos conversar.

Apaguei.

Adrian esteve aqui.

Apaguei também.

Se eu dissesse aquilo, Bella provavelmente nunca mais confiaria nele.

Então escrevi:

Você está em casa?

Fiquei olhando.

Não enviei.

Porque Bella responderia perguntando por quê.

Eu perguntaria se estava bem.

Ela diria que sim.

E nós continuaríamos naquele círculo idiota.

Guardei o celular.

Peguei as chaves.

Eu podia aceitar que Bella estivesse com raiva de mim.

Podia aceitar que não quisesse voltar.

Podia aceitar até que nunca mais me perdoasse pela forma como terminamos.

Mas havia uma coisa que eu não conseguia aceitar.

Bella estava com medo.

E eu conhecia apenas uma versão dela que vivia olhando para portas, janelas e pessoas entrando em ambientes.

A Bella que tinha chegado até nós fugindo.

Não fui até Bella naquele dia.

Quis.

Dirigi metade do caminho até a mansão antes de mudar de direção.

Não porque tivesse desistido.

Porque finalmente entendi que chegar lá exigindo respostas provavelmente faria exatamente o contrário do que eu queria.

Bella se fecharia.

Eu pressionaria.

Ela usaria nosso término como barreira.

Eu perderia a paciência.

E terminaríamos discutindo.

Precisava de outra maneira.

Por sorte ou azar eu tinha uma irmã incapaz de respeitar limites.

Liguei para Alice.

Ela atendeu no segundo toque.

— Se for para perguntar da Bella, não.

Fiquei em silêncio.

— Edward?

— Como você sabia?

— Porque você nunca me liga às três da tarde para saber como eu estou.

— Talvez eu tenha mudado.

— Não mudou.

Suspirei.

— Você falou com ela hoje?

— Não.

— Preciso que fale.

Silêncio.

— O que aconteceu?

Olhei para a porta fechada do meu escritório.

— Ela pediu demissão.

Alice demorou alguns segundos.

— O quê?

— Hoje.

— Como você sabe?

— Adrian Whitmore veio aqui.

— O chefe dela?

— Sim.

— Por que ele foi até você?

— Porque Bella desmaiou ontem no trabalho.

— Ela o quê?

Afastei o telefone do ouvido.

— Não grita.

— Bella desmaiou e ninguém contou nada?

— Foi exatamente o que eu disse.

— Ela está bem?

— Não sei.

— Edward!

— É por isso que estou ligando.

Ouvi movimento do outro lado.

— Estou indo para a casa dos nossos pais.

— Alice...

— Você quer que eu fale com ela ou não?

— Quero.

— Então para de me dar ordens.

A ligação terminou.

Olhei para o celular.

— Psicopata.

Alice apareceu na minha casa algumas horas depois.

Eu estava esperando. Não admitiria, mas estava.

Assim que ouvi a porta, levantei.

Ela entrou.

Sozinha.

Meu estômago apertou.

— E?

Alice largou a bolsa no sofá.

— Oi para você também.

— Alice.

— Eu fui.

— E?

Ela me olhou.

A expressão respondeu.

— Nada.

— Como assim, nada?

— Nada, Edward.

— Você conversou com ela?

— Tentei.

— O que ela disse?

— Que está bem.

Soltei uma risada seca.

— Claro.

— Perguntei sobre o trabalho.

— E?

— Disse que pediu demissão porque quer um tempo.

— Um tempo para quê?

— Não disse.

— Perguntou do desmaio?

— Sim.

— E?

— Não tinha comido.

— Mentira.

— Provavelmente.

Comecei a andar pela sala.

— Você perguntou das mensagens?

Alice franziu a testa.

— Que mensagens?

Parei.

— O celular.

— O que tem?

— Toda vez que aquela porcaria toca, Bella muda.

Alice ficou séria.

— Eu já percebi.

— E você nunca perguntou?

— Claro que perguntei.

— E?

— Ela disse que não era nada.

— E você acreditou?

— Não.

— Então...

— Edward.

Alice me interrompeu.

— Eu não posso arrancar o telefone da mão dela.

— Pode tentar.

— E você acha que isso ajudaria?

Não respondi.

Não ajudaria.

— Ela estava como?

Minha irmã respirou fundo.

— Péssima.

Aquilo doeu mais do que deveria.

— Define.

— Cansada. Olheiras. Quase não falou comigo.

— Comeu?

— Mamãe fez ela comer alguma coisa.

— Quanto?

— Meu Deus, Edward.

— Quanto?

Alice me encarou.

— Pouco.

Passei a mão pelo rosto.

— Ela falou de mim?

Alice hesitou.

Percebi.

— Falou.

— O quê?

— Não importa.

— Alice.

— Não vou fazer isso.

— Fazer o quê?

— Virar pombo-correio de vocês dois.

— Eu só perguntei.

— E eu estou dizendo que não.

Cruzei os braços.

— Foi ruim?

— Não.

— Então foi bom.

— Edward.

— Ela sente minha falta?

Alice revirou os olhos.

— Vocês terminaram há poucos dias e já estão insuportáveis.

— Responde.

Ela suspirou.

— Eu perguntei se você sabia que ela tinha pedido demissão.

Meu peito apertou.

— E?

— Ela disse que não era mais problema seu.

Aquilo doeu.

— Certo.

Alice observou meu rosto.

— Mas...

Olhei.

— Mas o quê?

— Ela perguntou se você estava bem.

Fiquei quieto.

— Depois de dizer que não era problema meu?

— Exatamente.

Um sorriso quase apareceu.

Alice apontou para mim.

— Nem começa.

— Não fiz nada.

— Conheço você.

O sorriso desapareceu rápido.

— Tem alguma coisa acontecendo, Alice.

Ela assentiu.

— Eu sei.

— E não é o término.

— Também acho que não.

— Então me ajuda.

Minha irmã ficou em silêncio.

— Eu vou continuar tentando.

Era tudo que tínhamos.

Dois dias depois, encontrei Bella sozinha na sala da mansão.

Era fim de tarde.

Ela estava sentada no sofá, pernas dobradas, televisão ligada sem volume.

Não parecia assistir.

— Oi.

Bella levantou os olhos.

— Oi.

Nada de Cullen.

Aquilo começava a me irritar mais do que as provocações.

— Como você está?

— Bem.

— Original.

Ela voltou os olhos para a televisão.

— Veio visitar seus pais?

— Vim buscar você.

Isso conseguiu atenção.

— O quê?

— Vamos sair.

— Não.

— Eu nem disse para onde.

— Continua sendo não.

Entrei na sala.

— Minha casa.

Bella franziu a testa.

— Definitivamente não.

— Para lutar.

Ela ficou em silêncio.

Eu sabia que tinha acertado alguma coisa.

— Faz tempo.

— Não estou a fim.

— Você sempre está a fim de me bater.

— Nem sempre.

— Isso é preocupante.

Nenhum sorriso.

— Vamos.

— Eu disse não.

— Bella.

— Edward.

— Uma hora.

— Não.

— Meia.

— Não.

— Quinze minutos.

Ela finalmente olhou para mim.

— O que você está fazendo?

A pergunta veio cansada.

— Tentando fazer você sair dessa casa.

— Eu saio.

— Para onde?

— Não é da sua conta.

— Trabalho não vale mais.

Vi o instante em que ela ficou tensa.

Merda.

— Como você sabe?

Silêncio.

Eu tinha cometido um erro.

— Alice.

Mentira.

Bella estreitou os olhos.

— Alice não sabia.

Merda novamente.

— Minha mãe comentou.

— Esme também não sabia.

Eu devia parar de falar.

Bella levantou.

— Como você sabe que eu pedi demissão?

— Bella...

— Como?

Respirei fundo.

Não queria entregar Adrian.

— Não importa.

Ela riu sem humor.

— Você gosta muito dessa frase.

Golpe justo.

— Eu descobri.

— Ótimo.

— Por que pediu demissão?

— Porque quis.

— Você gostava daquele trabalho.

— Posso mudar de ideia.

— Depois de desmaiar?

Bella congelou.

Droga.

— Quem contou?

Não respondi.

— Edward.

— Você devia ter ido ao hospital.

— Quem contou para você?

— Isso não é importante.

— Para mim é.

— Para mim é importante você ter perdido a consciência no trabalho e ter voltado no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.

— Eu estava cansada.

— Você não estava comendo.

— Agora você controla minha alimentação?

— Não faz isso.

— Isso o quê?

— Transforma tudo numa briga para não responder.

Bella pegou o celular sobre o sofá.

— Eu não tenho que responder.

— Eu sei.

— Parece que não.

— Eu sei que terminamos.

Ela parou.

A frase ficou entre nós.

— Não preciso ser seu namorado para perceber que você está mal.

— Estou ótima.

— Você pediu demissão.

— Vou arrumar outro emprego.

— Você desmaiou.

— Acontece.

— Não, Bella. Não acontece.

Ela desviou os olhos.

— Vem comigo.

— Para quê?

— Lutar.

— Eu não quero.

— Você gostava.

— Eu mudei de ideia.

— Você está mudando de ideia sobre muitas coisas ultimamente.

Os olhos dela encontraram os meus.

— Talvez eu esteja.

Aquilo tinha endereço.

Eu.

Engoli.

— Tudo bem.

Bella pareceu surpresa.

Provavelmente esperava que eu insistisse.

— Tudo bem?

— Você não quer ir, não vai.

— Certo.

Caminhei até ela.

Não perto demais.

— Mas, se mudar de ideia...

— Não vou.

— Minha casa continua no mesmo lugar.

Pela primeira vez, alguma coisa quase apareceu nos olhos dela.

Um resquício daquela Bella que me provocava.

— Infelizmente.

Sorri.

— Essa foi fraca.

— Estou sem prática.

— Percebi.

Ela quase sorriu.

Então o celular vibrou.

O sorriso desapareceu antes de nascer.

Bella olhou para a tela.

Não pegou.

Eu olhei para ela.

Depois para o aparelho.

A tela apagou.

— Não vai ver?

— Depois.

— Bella...

— Não.

Uma palavra.

Mas havia medo nela.

Puro.

Cru.

E naquele instante tive certeza.

Aquela merda de telefone fazia parte de tudo.


O jantar aconteceu dois dias depois.

Carlisle tinha insistido.

Alice e Jasper apareceram.

Emmett e Rosalie também.

Eu fui porque minha mãe pediu.

Mentira.

Fui porque sabia que Bella estaria lá.

Ou deveria estar.

Quando me sentei, havia um lugar vazio.

O dela.

Olhei para a escada.

— Bella não vem? — Alice perguntou.

Esme tentou parecer casual.

— Disse que está sem fome.

— De novo? — Emmett perguntou.

Minha mãe lançou um olhar para ele.

— Está cansada.

Ninguém respondeu.

Carlisle colocou os talheres sobre a mesa.

— Ela passou mal novamente?

— Não — Esme respondeu. — Pelo menos não me contou.

O silêncio caiu.

Olhei ao redor.

Todos estavam preocupados.

Não era mais só eu.

— Há quanto tempo ela está assim? — Emmett perguntou.

— Alguns dias — Esme respondeu.

— Mais — falei.

Todos olharam para mim.

— O quê? — Carlisle perguntou.

— Começou antes.

Alice me observou.

— Com as mensagens?

Minha cabeça virou.

— Você também percebeu.

— Já falei que sim.

Carlisle franziu a testa.

— Que mensagens?

— Não sabemos — Alice respondeu.

Esme ficou séria.

— Alguém está incomodando Bella?

— Ela diz que não — falei.

— Então talvez devêssemos acreditar nela — Carlisle disse.

Olhei para meu pai.

— Você acredita?

Ele não respondeu.

Não.

Ninguém naquela mesa acreditava.

Tentei comer, mas não consegui.

A cadeira vazia me irritava.

Depois de alguns minutos, levantei.

— Aonde vai? — Alice perguntou.

— Banheiro.

Emmett olhou para a direção oposta.

— O banheiro é...

— Cala a boca.

Subi.

Não sabia exatamente o que faria.

Bateria.

Perguntaria se estava bem.

Ela diria que sim.

Eu voltaria.

Esse era o plano.

Parei diante da porta.

Bati.

Nada.

— Bella?

Silêncio.

Bati novamente.

— Bella.

Nada.

Meu peito apertou.

Girei a maçaneta.

A porta estava destrancada.

Abri devagar.

— Bella?

Ela estava dormindo.

Soltei o ar que nem tinha percebido que prendia.

Bella estava deitada de lado, por cima da colcha, ainda vestida.

Parecia ter simplesmente apagado.

Entrei.

Ia apenas fechar o notebook que estava sobre a cama para que não caísse.

Foi o que disse a mim mesmo.

A tela ainda estava acesa.

Minha mão parou antes de tocar.

Passagens aéreas.

Franzi a testa.

Olhei melhor.

Nova York.

Destino:

Oklahoma.

Meu corpo inteiro ficou frio.

Havia mais de uma aba aberta.

Voos.

Horários.

Preços.

Datas.

Algumas para aquela mesma semana.

Outra pesquisa:

voos Nova York Oklahoma amanhã

Fiquei imóvel.

Oklahoma.

Não.

Bella tinha fugido de lá.

Tudo o que ela havia construído desde que chegou até nós começara justamente porque precisava ficar longe daquele lugar.

Longe dele.

Nathan.

Por que diabos ela estava pesquisando passagem para voltar?

— O que você está fazendo?

A voz atrás de mim me fez virar.

Bella estava acordada.

Os olhos ainda pesados de sono.

Então viu para onde eu estava olhando.

O sono desapareceu.

Ela sentou imediatamente.

— Edward.

— Oklahoma?

Bella puxou o notebook.

Fechou.

— Sai do meu quarto.

— Você está pensando em voltar?

— Não é da sua conta.

— Para de falar isso.

— É verdade.

— Você fugiu daquele lugar.

— Eu sei de onde eu vim.

— Então por quê?

— Edward.

— Por que você está procurando passagem para Oklahoma?

— Eu estava olhando.

— Para amanhã?

Ela ficou quieta.

Meu coração acelerou.

— Você vai embora amanhã?

— Eu não disse isso.

— Então diz que não vai.

Silêncio.

— Bella.

— Eu não sei.

A resposta me atingiu.

— Como assim, não sabe?

— Significa que eu não sei.

— Por quê?

— Porque talvez eu precise ir.

— Precise?

A palavra saiu mais alta.

— O que tem lá que você precisa?

Ela desviou os olhos.

— Coisas minhas.

— Que coisas?

— Minhas, Edward.

— Você não queria nem ouvir falar daquele lugar.

— Pessoas mudam.

— Não desse jeito.

Bella levantou.

— Sai.

— Não.

Ela me encarou.

— Essa não é a sua casa.

— É a casa dos meus pais.

— Onde eu moro.

— Ótimo. Então manda minha mãe me expulsar.

— Edward!

— Não vou fingir que isso é normal.

— Eu não pedi para você fingir nada.

— Você pediu demissão.

Ela ficou imóvel.

— Parou de sair sozinha.

Os olhos dela mudaram.

— Você não come direito.

— Para.

— Não dorme.

— Para.

— Desmaiou no trabalho.

— Edward.

— Toda vez que seu celular toca você parece que vai vomitar.

— CHEGA!

A voz dela cortou o quarto.

Fiquei em silêncio.

Bella respirava rápido.

As mãos tremiam.

— Chega — repetiu, mais baixo.

Olhei para ela.

Não havia raiva.

Ou havia.

Mas por baixo dela existia aquilo novamente.

Medo.

— Isso não é por causa de nós.

Bella congelou.

Finalmente falei.

— É?

Ela não respondeu.

Dei um passo.

Bella não recuou dessa vez.

— Eu achei que fosse.

Minha voz saiu mais baixa.

— Achei que você estava assim porque terminamos.

Nada.

— Mas não é.

Bella desviou o rosto.

— Você não sabe de nada.

— Então me conta.

— Não.

— Por quê?

— Porque não.

— Bella...

— Você terminou comigo, Edward.

A frase me atingiu.

— Eu sei.

— Então para de agir como se ainda pudesse entrar aqui e exigir respostas.

— Eu não estou exigindo porque era seu namorado.

— Parece.

— Estou exigindo porque você está assustada. E antes de mesmo te beijar eu já te protegia.

Ela olhou para mim.

Acerto.

Vi.

— Não estou.

— Está.

— Sai.

— De quem?

O rosto dela perdeu a cor.

Meu coração bateu forte.

— De quem você está com medo?

— De ninguém.

Rápido demais.

— Bella.

— Sai.

— É ele?

Ela parou.

Eu também.

Não tinha planejado perguntar.

A palavra simplesmente saiu.

Talvez porque Oklahoma estivesse aberto naquela tela.

Talvez porque não existisse outra pessoa que explicasse aquela versão de Bella.

— Nathan?

O silêncio foi diferente.

Pesado.

Bella me encarou.

Por um instante, vi alguma coisa.

Pânico.

Então desapareceu.

— Não.

— Olha para mim e fala.

— Eu acabei de falar.

— Olha para mim.

— Para!

Ela pegou o notebook.

— Sai do meu quarto.

— Bella...

— Por favor.

Foi o por favor que me fez parar.

Não a raiva.

Não o término.

Aquilo.

Ela parecia cansada.

Pequena.

E eu odiei ver Bella daquela maneira.

Fui até a porta.

Parei antes de sair.

— Eu não sei o que está acontecendo.

Ela não olhou.

— Mas não vou fingir que não está acontecendo.

Silêncio.

— E se você realmente estiver pensando em voltar para Oklahoma...

Bella apertou o notebook contra o peito.

— Não vai sozinha.

Ela finalmente me olhou.

— Você não pode decidir isso.

— Eu sei.

— Então para.

Assenti.

Abri a porta.

Antes de sair, olhei uma última vez.

Bella estava sentada na cama.

Notebook fechado.

Celular ao lado.

E, mesmo de longe, consegui ver quando a tela acendeu.

Ela olhou.

O rosto mudou.

Então virou o aparelho para baixo.

Fechei a porta.

Quando voltei para a mesa, todos olharam para mim.

Minha cadeira ainda estava vazia.

Sentei.

— E aí? — Emmett perguntou.

Peguei o copo de água.

— Nada.

Alice me encarou.

Ela sabia que era mentira.

— Ela está dormindo? — Esme perguntou.

— Estava.

— Você acordou ela? — Carlisle perguntou.

— Sem querer.

Ninguém voltou a comer normalmente.

Olhei ao redor da mesa.

Minha mãe mexia na comida sem levar nada à boca.

Alice olhava para a escada.

Carlisle estava sério.

Até Emmett tinha perdido a vontade de brincar.

Jasper estava em silencio.

Rosalie parecia triste.

Bella tinha conseguido uma coisa impressionante.

Preocupar todos nós sem contar absolutamente nada.

E agora eu tinha mais uma peça.

Oklahoma.

Passei a mão pelo maxilar.

O término já não importava.

Ou importava.

Claro que importava.

Eu ainda queria Bella.

Ainda estava com raiva.

Ainda tinha perguntas sobre nós.

Mas tudo aquilo tinha acabado de ser empurrado para algum lugar muito menos urgente.

Porque Bella não estava apenas se afastando de mim.

Estava desmontando a própria vida.

Emprego.

Rotina.

Independência.

Nós.

E agora estava pesquisando como voltar para o lugar de onde tinha fugido.

Olhei para a escada.

Alguma coisa estava acontecendo.

Alguma coisa que Bella acreditava precisar enfrentar sozinha.

E, pela primeira vez desde que terminamos, eu já não estava tentando descobrir se ela ainda me amava.

Eu estava tentando descobrir se ela estava em perigo.






Oklahoma não saiu da minha cabeça.

Nem naquela noite.

Nem na manhã seguinte.

Nem quando cheguei à empresa e encontrei uma pilha de documentos esperando por mim.

Oklahoma.

Bella tinha pesquisado passagens para o lugar de onde fugira.

Não férias.

Não uma viagem qualquer.

Oklahoma.

Nathan.

Tentei me convencer de que existiam dezenas de explicações. Talvez tivesse alguma pendência. Algum documento. Alguma coisa deixada para trás.

Talvez quisesse resolver questões que nunca tivera coragem de enfrentar.

Talvez...

Parei de inventar desculpas.

Se fosse qualquer coisa normal, Bella teria dito.

Poderia ter mandado que eu cuidasse da minha vida e explicado que precisava buscar alguma coisa.

Poderia ter inventado uma desculpa.

Bella nem isso fez. Ela simplesmente se fechou

E quando mencionei Nathan...

Eu tinha visto.

Foi rápido.

Mas vi.

Medo.


Liguei para Alice naquela tarde.

— Não.

Franzi a testa.

— Eu nem falei nada.

— Vai perguntar da Bella.

— Talvez eu só queira conversar com minha irmã.

— Você nunca quer.

— Nossa relação é linda.

— O que aconteceu?

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— Ela está pesquisando passagem para Oklahoma.

Do outro lado, silêncio.

— Alice?

— Como você sabe?

— Vi no notebook.

— Você mexeu no notebook dela?

— Não.

— Edward.

— Estava aberto.

— E você estava fazendo o quê no quarto dela?

— Ela não desceu para jantar.

— Então você invadiu o quarto.

— Bati.

— Isso não melhora tanto quanto você acha.

— Alice.

Ela ficou séria.

— Oklahoma?

— Sim.

— Tem certeza?

— Eu sei ler.

— Para quando?

— Tinha pesquisa para o dia seguinte.

— Meu Deus.

Levantei da cadeira.

— Ela falou alguma coisa com você?

— Não.

— Nada?

— Não.

— Sobre Nathan?

Silêncio.

— Alice.

— Não.

— Você demorou.

— Porque estou pensando.

— Pensando no quê?

— Na última vez que Bella falou dele.

— Quando?

— Faz tempo.

— O que ela disse?

— Nada que ajude agora.

— Deixa eu decidir.

— Edward, não existe uma informação secreta. Ela só... não gosta de falar sobre ele.

Isso eu sabia.

— Eu perguntei se era Nathan.

— Para Bella?

— Sim.

— E?

— Negou.

Alice soltou o ar.

— Você acreditou?

Olhei pela janela.

— Não.

Não fui à mansão naquele dia.

Nem no seguinte.

Foi difícil. Mais do que gostaria de admitir.

Mas eu tinha prometido a mim mesmo que não transformaria preocupação em controle.

Bella já tivera alguém fazendo isso com ela.

Eu não seria outro.

Mesmo que ficar longe fosse uma merda.

Alice me mantinha informado sem admitir que fazia isso.

Comeu hoje.

Horas depois:

Está com Esme.

Depois:

Não, ainda não falou nada.

Naquela noite:

E antes que pergunte: está em casa.

Eu não tinha perguntado.

Ainda.

Dois dias depois, minha mãe ligou.

— Domingo.

— O que tem domingo?

— Almoço.

— Mãe...

— Não estou perguntando.

Sorri.

— Isso foi uma ordem?

— Considere um convite com consequências.

— Quem vai?

— Todo mundo.

Meu primeiro pensamento foi Bella.

O segundo foi me irritar comigo mesmo por meu primeiro pensamento ter sido Bella.

— Ela vai?

Esme ficou alguns segundos em silêncio.

— Ela mora aqui, Edward.

— Isso nunca impediu Bella de se esconder no quarto.

— Estou tentando convencê-la.

— Convencendo para quê?

— Para almoçar com a família.

Família.

A palavra ficou.

— Ela está melhor?

— Um pouco.

— Isso significa não.

— Significa que ontem ela comeu direito e ficou algum tempo comigo na cozinha.

— Falou alguma coisa?

— Não.

Claro.

— Domingo — Esme repetiu.

— Eu vou.

Minha mãe desligou satisfeita.


No sábado, encontrei Bella por acaso.

Pelo menos gosto de acreditar que foi por acaso.

Eu tinha ido buscar alguns documentos que Carlisle deixou comigo semanas antes.

Bella estava no jardim dos fundos.

Sozinha. Sentada num dos degraus.

Por um instante, fiquei apenas olhando.

Ela parecia melhor mas ainda cansada.

Mais magra talvez.

Ou talvez fosse impressão minha.

Mas havia cor no rosto.

E o simples fato de estar fora do quarto já era alguma coisa.

Abri a porta.

Bella olhou.

— Você.

— Também fiquei feliz em ver você.

— Não foi o que eu quis dizer.

— Mas foi o que seu coração disse.

Ela revirou os olhos.

Finalmente.

Quase senti falta.

— Sua autoestima devia ser estudada.

— Já tentaram. É extraordinária demais.

— Doença rara.

— Inveja é feio, Swan.

Ela ficou quieta por um instante ao ouvir o sobrenome.

Depois desviou os olhos.

Sentei no degrau acima. Não ao lado.

Espaço.

Bella percebeu.

— Veio fazer o quê?

— Buscar umas coisas do meu pai.

— Então por que está sentado?

— Cansei.

— Da sala até aqui?

— Estou envelhecendo.

— Trágico.

Sorri.

Silêncio.

Não era desconfortável.

Pela primeira vez em dias.

Bella olhava para o jardim.

Eu olhava para ela quando sabia que não estava vendo.

— Vai domingo? — perguntei.

— Para onde?

— Almoço.

— Eu moro aqui.

— Foi exatamente o que minha mãe disse.

Um pequeno sorriso apareceu.

— Esme está fazendo campanha.

— Contra você se esconder no quarto?

Ela me lançou um olhar.

— Eu não me escondo.

— Claro.

— Não comece.

— Nem falei nada.

— Sua cara falou.

— Emmett disse a mesma coisa.

— Pela primeira vez ele está certo.

Outro silêncio.

Eu queria perguntar sobre Oklahoma.

Queria perguntar sobre o celular.

Sobre o trabalho.

Sobre Nathan.

Não perguntei.

Bella parecia saber.

— Obrigada.

Franzi a testa.

— Pelo quê?

— Por não perguntar.

A honestidade me pegou desprevenido.

— Eu ainda quero respostas.

— Eu sei.

— Muitas.

— Imagino.

— E continuo achando que você está fazendo merda.

Ela soltou uma risada baixa.

— Aí está ele.

— Quem?

— O Edward irritante.

— Você sentiu falta.

— Nem um pouco.

— Mentira.

Bella olhou para mim.

Dessa vez, nenhum dos dois desviou.

Havia coisas demais naquele silêncio.

O término.

A discussão.

As coisas que eu não tinha contado.

As coisas que ela também escondia.

E tudo aquilo que continuava existindo apesar de nós dois.

— Você não sabe quando parar — ela murmurou.

— Com você?

Balancei a cabeça.

— Nunca soube.

O olhar dela caiu para minha boca.

Rápido.

Mas vi.

Meu corpo reagiu antes do bom senso.

Inclinei levemente para frente.

Bella percebeu.

Ficou imóvel.

Por um segundo, achei que ela não fosse recuar.

Então o celular vibrou.

Bella praticamente saltou.

O momento morreu.

Ela pegou o aparelho.

Leu.

O rosto mudou.

De novo.

— Bella.

— Preciso entrar.

Levantou.

— Espera.

— Edward...

— Era quem?

A muralha voltou.

— Não começa.

— Você estava bem há cinco segundos.

— Continuo bem.

— Não está.

— Eu tenho que ir.

Ela entrou.

Fiquei sentado.

Odiando aquele telefone.

E quem quer que estivesse do outro lado.

Domingo chegou com uma normalidade quase ofensiva.

Esme transformava qualquer almoço em evento.

Quando cheguei, havia comida suficiente para alimentar um bairro inteiro.

Emmett já estava lá.

Alice também.

Rosalie e Jasper.

Carlisle circulava pela cozinha tentando ajudar e sendo expulso pela própria esposa.

Bella não estava.

Claro.

— Ela vai descer — Alice disse quando me viu olhando para a escada.

— Eu não perguntei.

— Vocês precisam inventar outra frase.

Emmett apareceu atrás dela.

— Ele perguntou da Bella?

— Com os olhos.

— Ah.

Mostrei o dedo do meio.

— Família elegante — Carlisle comentou.

Bella desceu quase vinte minutos depois.

A sala mudou para mim.

Patético.

Mas verdadeiro.

Ela usava uma roupa simples.

Cabelo solto.

Nada especial.

Ainda assim, meus olhos foram direto para ela.

Bella percebeu.

Parou no último degrau.

— O quê?

— Nada.

— Então para de olhar.

Emmett começou a rir.

— Eu senti falta disso.

— Cala a boca — dissemos juntos.

Ele riu ainda mais.

Bella me olhou.

Por um instante, um sorriso apareceu.

Pequeno.

Real.

Aquilo foi suficiente para alguma coisa dentro de mim relaxar.

— Vem, querida — Esme chamou. — Está quase pronto.

Bella foi até a cozinha.

Alice passou por mim.

— Fecha a boca.

— Vai se ferrar.

Foi provavelmente a primeira refeição em dias em que Bella realmente comeu.

Eu percebi.

Esme também.

Minha mãe não comentou.

Ninguém comentou.

Era como se todos tivéssemos feito um acordo silencioso para não assustá-la.

Emmett falava sobre alguma coisa absurda.

Alice discutia com Carlisle.

Bella chegou até a rir.

E, durante alguns minutos, quase consegui esquecer.

Quase.

Então o celular vibrou sobre a mesa.

Bella parou.

Todos continuaram falando.

Eu não.

Meus olhos foram para ela.

Bella olhou para a tela.

Não pegou.

Virou o aparelho para baixo.

E continuou comendo.

Progresso?

Talvez.

Ou medo de que alguém visse.

Não sabia.

— Edward.

Voltei a atenção.

Carlisle me encarava.

— O quê?

— Eu perguntei sobre a reunião de terça.

— Ah.

Emmett sorriu.

— Ele estava ocupado.

Bella baixou os olhos para o prato.

Chutei Emmett por baixo da mesa.

— Filho da...

— Linguagem — Esme repreendeu.

— Ele me chutou!

— Acidente.

Bella começou a rir.

De verdade.

Meu olhar foi para ela.

Porra.

Eu sentia falta daquele som.

Ela percebeu.

O riso diminuiu.

Mas não desapareceu completamente.

Estávamos terminando quando ouvi um carro.

Não dei importância.

Esme deu.

Minha mãe olhou para Carlisle.

Ele sorriu.

Alice imediatamente ficou alerta.

— O quê?

— Nada — Esme respondeu rápido demais.

Emmett olhou entre os dois.

— Vocês estão escondendo alguma coisa.

— Talvez — Carlisle respondeu.

— Eu odeio surpresa — Alice reclamou.

— Mentira — falei. — Você adora.

— Quando sou eu que faço.

Bella observava a cena em silêncio.

A campainha tocou.

Esme levantou imediatamente.

— Eu atendo.

— Quem é? — Alice perguntou.

Minha mãe apenas sorriu.

Carlisle parecia igualmente satisfeito.

Franzi a testa.

— Pai?

— Espera.

Passos no hall.

A porta abriu.

Ouvi a voz de Esme.

Primeiro surpresa.

Depois uma exclamação alegre.

— Meu Deus!

Alice levantou.

— Quem é?

Carlisle também se levantou.

Um homem respondeu alguma coisa que não consegui entender.

A voz era familiar.

Muito familiar.

Demorei alguns segundos.

Então reconheci.

— Não acredito.

Emmett me olhou.

— Você sabe quem é?

Antes que eu respondesse, Esme apareceu na entrada da sala. Ela estava radiante.

— Olha quem resolveu finalmente voltar para cidade.

O homem surgiu atrás dela.

Cabelo loiro.

Um pouco mais comprido do que eu lembrava.

Olhos verdes.

Sorriso fácil.

A mesma expressão convencida de sempre.

— Sentiram minha falta?

Alice soltou um grito.

— JAMES!

Ela atravessou a sala praticamente correndo.

James abriu os braços e recebeu minha irmã numa gargalhada.

Carlisle foi logo atrás.

Emmett levantou.

Jasper também.

Rosalie em seguida.

Eu também.

— Filho da puta — murmurei.

James me viu por cima do ombro de Alice.

O sorriso aumentou.

— Olha só quem ainda está vivo.

— Infelizmente para você.

— Cullen.

— James.

Ele soltou Alice e veio na minha direção.

Nos abraçamos daquele jeito rápido que homens fazem quando não pretendem admitir que realmente sentiram falta. Apesar de eu não ter sentido falta dele mesmo.

— Quando você chegou? — perguntei.

— Hoje.

— E não avisou?

— Estragaria a diversão.

— Continua idiota.

— Continua arrogante

— Você está bem.

James passou a mão pelo cabelo.

— Gostou?

— Horrível.

Ele riu.

Esme já reclamava que ele estava magro.

Alice falava ao mesmo tempo.

Emmett e Jasper faziam perguntas.

Por alguns segundos, tudo virou barulho.

Família.

James sempre provocava aquilo.

Era impossível ele chegar discretamente a qualquer lugar.

Então seus olhos passaram por mim.

Pela mesa.

E pararam.

Bella.

Só então me lembrei.

Eles não se conheciam.

Ou, pelo menos, não deveriam.

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Virei o rosto para ela.

E meu sorriso desapareceu.

Bella estava imóvel.

Completamente imóvel.

O garfo ainda entre os dedos.

Os olhos presos em James.

Não era curiosidade.

Não era timidez.

Eu conhecia aquele rosto.

— Bella?

Ela não respondeu.

James também olhava para ela.

Por apenas um segundo.

Talvez menos.

Então sorriu.

O sorriso educado de alguém diante de uma desconhecida.

— Acho que tem alguém aqui que eu ainda não conheço.

Bella continuou sem dizer nada.

E alguma coisa dentro de mim ficou alerta.

Porque, naquele instante, ela não parecia estar olhando para um estranho.

Parecia estar olhando para um fantasma.