Meu Lugar Seguro

11 Capítulo 11


Notas iniciais
Boa leitura. Estou de folga. então postei mais um capítulo hoje. Estão gostando da história?

POV EDWARD

Era de manhã.

Eu ainda conseguia ouvir a voz dela.

Era isso que mais me incomodava.

Não o silêncio depois da conversa.

Não a raiva.

Não sequer a sensação de impotência que parecia crescer dentro de mim.

Era a lembrança da voz de Bella enquanto ela tentava me explicar algo que jamais deveria ter precisado viver.

Ela não estava apenas contando uma história.

Ela estava me entregando uma parte dela que provavelmente passou muito tempo escondendo.

Um pedaço do terror que viveu em apenas dois malditos meses.

E eu odiava pensar em quantas vezes ela precisou sorrir enquanto carregava aquele peso sozinha.

Eu estava sentado no escritório quando ouvi passos no corredor.

Não precisei olhar para saber que era Carlisle. Emmet e Jasper também estavam chagando na mansão.

Meu pai sempre teve essa habilidade de perceber quando algo estava errado.

— Edward.

Levantei os olhos.

Ele entrou calmamente, mas seu olhar dizia que já sabia que eu não estava bem.

— Você não dormiu.

Não era uma pergunta.

Suspirei.

— Não consegui.

Carlisle se aproximou e sentou na poltrona à minha frente.

Durante alguns segundos, nenhum de nós falou.

Ele sabia esperar.

Sempre soube.

— Bella contou mais alguma coisa? Vocês estavam aqui no escritório ontem até tarde.

A pergunta fez minha mandíbula travar.

Assenti.

— Contou.

Eu ainda sentia o peso daquela conversa.

— Ela me contou tudo sobre o tal Nathan. Nathan Oliver.

O nome sozinho já era suficiente para despertar minha raiva.

Nathan Oliver.

Um homem que conseguiu transformar alguém como Bella em uma pessoa que se assustava com uma simples voz.

Contei ao meu pai parte do que ela havia dividido comigo.

Sem detalhes desnecessários.

Não havia necessidade de repetir o sofrimento dela para provar o quanto aquilo tinha sido grave.

Apenas deixei claro o suficiente para que ele entendesse.

Quando terminei, Carlisle permaneceu em silêncio.

Eu sabia o que ele estava pensando.

Porque era exatamente o que eu pensava.

Como alguém consegue fazer isso com outra pessoa?

— Edward...

Ele falou meu nome com cuidado.

— Esse cara é um monstro. Essa menina sofreu demais em tão pouco tempo.

Olhei para ele.

— Sim.

Ele me olhou .

— Mas você não precisa enfrentar tudo sem ajuda. Sei que quer ajudá-la mais ainda.

Antes que eu pudesse responder, ouvi outras vozes vindo da sala.

Emmett e Jasper.

Eu não queria esconder aquilo deles.

Eu confiava no meu irmão e cunhado.

Eles precisavam entender a gravidade da situação.

Bella entenderia que eu contaria, mas jamais iria expor detalhes.

Quando entraram no escritório e perceberam o clima, souberam que havia algo errado.

— O que aconteceu? — Emmett perguntou.

Respirei fundo.

— É sobre a Isabella.

Os dois ficaram atentos.

E então eu contei.

Vi a expressão de Emmett mudar aos poucos.

Vi Jasper ficar completamente sério.

Eles ouviram tudo em silêncio.

Quando terminei, Emmett passou a mão pelo rosto.

— Esse desgraçado precisa pagar. Eu queria eu mesmo acabar com ele.

Eu não respondi.

Porque concordava.

Completamente.

Mas eu precisava ser mais inteligente do que minha raiva.

Precisava encontrar uma maneira de destruir Nathan usando a única coisa que ele não poderia controlar.

A justiça.

Nathan Oliver não era apenas um nome.

Era uma presença.

Uma sombra que ainda conseguia alcançar Bella mesmo estando longe.

E isso era o que mais me incomodava.

Ele não estava na casa.

Não estava perto dela.

Não podia mais machucá-la.

Mas ainda assim conseguia fazer com que ela sentisse medo.

Eu não aceitava aquilo.

Não depois de tudo que ela já tinha passado.

Ela não está apenas tentando esquecer o que aconteceu

Ela está tentando reaprender que está segura.

Foi quando percebi que ainda existia algo que eles não sabiam.

Algo que eu precisava contar.

— Tem outra coisa.

Os três olharam para mim.

— No dia em que ela me contou tudo... aconteceu algo.

Minha voz saiu baixa.

— O que aconteceu, Edward ?

A voz de Carlisle me tirou dos meus pensamentos.

Olhei para ele.

Meu pai me observava com aquela calma que sempre parecia enxergar muito mais do que eu dizia.

Eu fiquei em silêncio por alguns segundos.

A lembrança voltou imediatamente.

Bella entrando na sala.

O momento exato em que ouviu aquela voz.

O modo como seu corpo inteiro reagiu antes mesmo que sua mente pudesse entender o que estava acontecendo.

Eu nunca esqueceria aquela expressão.

Não era apenas medo.

Era pânico.

Como se, por alguns segundos, ela tivesse sido transportada novamente para aquele período horrível da vida dela.

— Eu estava falando ao telefone.

Jasper e Emmett ficaram atentos.

— Quem estava na ligação? — perguntou Jasper.

Respirei fundo.

— James.

O nome fez os três olharem para mim.

— Ela ouviu a voz dele.

Continuei.

— E imediatamente achou que era Nathan, o agressor.

O silêncio que veio depois foi pesado.

— Mas não era — Emmett disse.

Balancei a cabeça.

— Não.

Eu ainda conseguia lembrar da confusão no rosto dela quando percebeu que estava segura.

— Ela entrou em pânico antes mesmo de conseguir pensar racionalmente.

Carlisle ficou pensativo.

— Edward...

Ele falou com cuidado.

— Isso pode ser uma resposta ao trauma.

Olhei para ele.

— Como assim?

— Quando alguém passa por uma situação extremamente assustadora, o cérebro começa a procurar sinais de perigo em todos os lugares.

Ele fez uma pausa.

— Uma voz parecida, uma frase, um som... qualquer coisa pode despertar a sensação de que a ameaça voltou.

Baixei os olhos por um instante.

Fazia sentido.

Mas não tornava aquilo menos doloroso.

Porque significava que Bella ainda estava vivendo com o Nathan dentro da própria mente.

— Ela ficou apavorada.

Minha voz saiu quase como um sussurro.

— Ela realmente achou que ele estava ali.

Emmett passou a mão pelo rosto.

— Esse cara destruiu a sensação de segurança dela.

Assenti.

Era exatamente isso.

E eu odiava.

Porque segurança era algo que todos deveriam ter.

Principalmente alguém como Bella.

Jasper permaneceu alguns segundos em silêncio antes de falar:

— James vai voltar em breve.

Eu já sabia onde aquela conversa estava indo.

— Ele entrou em contato comigo depois daquele dia que conversamos em vídeo chamada.

Continuei olhando para ele.

— E com certeza vai querer ajudar.

Emmett assentiu.

— Ele é advogado. Um ótimo advogado e talvez consiga convencer Bella a denunciar o Nathan.

Meu maxilar travou.

Não porque eu duvidasse da capacidade de James.

Eu sabia que ele era competente, apesar de nunca confiar nele como a minha família confia.

Mas havia algo dentro de mim que rejeitava aquela ideia imediatamente.

— Não.

Os três olharam para mim.

— Não?

Jasper repetiu.

Neguei com a cabeça.

— Eu não quero envolver James.

Carlisle me observou atentamente.

— Por quê?

Eu sabia que eles não entenderiam de imediato.

Então expliquei.

— Porque ela acabou de conseguir confiar em alguém.

Minha voz ficou mais firme.

— Ela passou meses sendo controlada. Tendo decisões tomadas por outra pessoa. Tendo sua própria voz diminuída. Eu não vou fazer a mesma coisa com ela.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

— Ela não sabe quem James é. Ela não conhece a relação dele com a nossa família. Não sabe que ele é alguém próximo. Não sabe nada.

E, de repente, ele apareceria sabendo detalhes da pior fase da vida dela.

Eu não queria que ela sentisse que perdeu novamente o controle da própria história.

Carlisle suspirou.

— Edward, você está sendo um pouco injusto com o James.

Olhei para ele.

— Talvez.

Eu sabia que meu pai não estava tentando defender James.

Ele apenas estava tentando me lembrar que eu estava deixando minha preocupação falar mais alto.

Jasper concordou.

— James faria tudo para ajudar. Ele é como nós.

Emmett também concordou.

— Ele não é uma ameaça.

Eu respirei fundo.

— Eu sei.

Mas isso não mudava minha decisão.

— Vou procurar J. Jenks. Ele só vai saber do necessário nisso, que é procurar Nathan Oliver.

Jasper levantou as sobrancelhas.

— Você já decidiu? Ele cobra uma fortuna.

— Estou disposto a pagar o que for preciso.

Ele assentiu.

— Edward...

Carlisle tentou argumentar.

Mas eu continuei.

— Jenks sabe investigar. Ele sabe encontrar pessoas. Sabe trabalhar sem chamar atenção. Eu preciso de alguém que encontre Nathan. Alguém que consiga construir um caso forte contra ele. Não apenas alguém tentando convencer Bella a falar.

Eu queria Nathan preso.

Não apenas exposto.

Preso.

Pelo tempo que a lei permitisse.

Pelo que ele fez.

Pelo que tentou fazer.

Pelo medo que colocou nela.

Meu pai assentiu concordando.

— E quanto aos marginais que iriam fazer aquela monstruosidade com ela junto dele?

Minha mandíbula travou na mesma hora.

— Encontrando o Nathan. Esses aí vai ser fácil. Todos vão pagar. Ainda que não chegaram a concluir nada com ela, mas um por um vai pagar.

Carlisle pareceu satisfeito com o que respondi.

Emmett cruzou os braços.

— Você realmente não quer envolver James?

Balancei a cabeça.

— Não.

Olhei para os três.

— Neste momento, minha única preocupação é a Isabella.

As palavras saíram mais intensas do que eu esperava.

Mas eram verdadeiras.

— Eu não estou pensando em ser simpático com James e nem o agradar só porque é um excelente advogado.

Não estou pensando em agradar ninguém.

Nem em fazer o que seria mais conveniente para a família.

Minha prioridade é ela.

Carlisle ficou em silêncio.

Eu sabia que ele entendia.

Mesmo que não concordasse completamente.

— Ela precisa recuperar a própria vida.

Continuei.

— E eu vou ajudá-la a fazer isso.

Porque quando Bella olhou para mim e contou tudo...

Ela não estava apenas contando o passado.

Ela estava me pedindo, mesmo sem dizer em voz alta, para provar que ainda existiam pessoas em quem ela podia confiar.

E eu não pretendia decepcioná-la.


Já a tarde.

Eu gostaria de dizer que, depois daquela conversa, minha mente conseguiu descansar.

Não conseguiu.

Mesmo quando tentei me concentrar em outras coisas, Nathan continuava aparecendo nos meus pensamentos.

Não como uma ameaça.

Como uma promessa.

Eu ainda precisava encontrá-lo.

Precisava ter certeza de que ele nunca mais chegaria perto de Bella.

Mas havia outra coisa que também ocupava minha mente.

Bella.

E isso era algo que eu não sabia como lidar.

Desde que ela tinha chegado à mansão, minha rotina havia mudado completamente.

Antes dela, minha vida era silenciosa.

Organizada.

Previsível.

Eu sabia exatamente o que esperar de cada dia.

Então Bella apareceu.

E, de alguma forma, a casa dos meus pais parecia diferente.

Não porque ela fazia barulho.

Muito pelo contrário.

Bella era uma das pessoas mais cuidadosas que eu conhecia.

Ela andava pela casa como se tivesse medo de ocupar espaço demais.

Como se ainda precisasse pedir permissão para existir.

E isso me incomodava.

Porque ela nunca deveria ter aprendido a viver assim.

Eu estava no escritório quando meu celular tocou.

Alice.

Atendi já esperando algum plano que eu provavelmente não conseguiria recusar.

— Edward!

A animação dela praticamente atravessou o telefone.

— Não.

Ela riu.

— Você nem sabe o que eu ia pedir.

— Conheço você o suficiente.

Ouvi sua risada.

— Quero fazer uma noite de filmes lá em casa.

Suspirei.

— Alice...

— Edward.

O tom dela mudou imediatamente para aquele que eu sabia que significava que ela não aceitaria um não.

— Bella precisa de uma noite normal.

Essa frase me fez ficar em silêncio.

Porque ela estava certa.

Bella precisava lembrar que sua vida não era apenas medo.

Não era apenas lembranças ruins.

Ela precisava de momentos simples.

De risadas.

De pessoas ao redor dela que não esperavam nada em troca.

— Tudo bem.

Ouvi a comemoração dela.

— Eu sabia!

— Alice.

— Sim?

— Sem exageros.

Ela riu.

Eu sabia que aquela frase não significava absolutamente nada.


Quando cheguei à casa dela naquela noite, tentei agir normalmente.

Tentei.

Mas tudo mudou no momento em que Bella apareceu.

Eu estava conversando com Emmett quando ouvi passos.

Levantei os olhos.

E, por alguns segundos, esqueci completamente o que estava dizendo.

Bella estava parada no topo da escada.

Ela usava um vestido preto simples, mas elegante.

A meia-calça destacava suas pernas de uma maneira que eu definitivamente não deveria notar.

E eu notei.

Esse foi o problema.

Não era apenas a roupa.

Era ela.

Ela é muito linda.

Perfeita.

A maneira como seus cabelos caíam pelos ombros.

A expressão mais tranquila no rosto.

O pequeno sorriso tímido enquanto descia os degraus.

Ela parecia diferente.

Não porque tinha mudado.

Mas porque, pela primeira vez em algum tempo, parecia estar tentando voltar a ser apenas Bella.

Não uma sobrevivente.

Não alguém tentando fugir do passado.

Apenas Bella.

E aquilo me atingiu mais do que deveria.

— Edward.

A voz de Emmett me trouxe de volta.

Olhei para ele.

Ele estava segurando um sorriso.

— O quê?

Ele se aproximou um pouco, falando baixo o suficiente para apenas eu ouvir.

— Você está babando.

Meu olhar foi imediatamente para ele.

— Não estou.

O sorriso dele aumentou.

— Está sim.

Revirei os olhos.

— Eu não olho para Bella dessa forma.

Emmett arqueou uma sobrancelha.

— Claro que não.

Ignorei a provocação.

Porque era verdade.

Ou pelo menos era o que eu precisava acreditar.

Bella era alguém que eu precisava proteger.

Alguém que confiava em mim.

Não havia espaço para qualquer outro pensamento.

Mesmo quando meu cérebro parecia discordar.


Alice, como sempre, transformou uma simples noite de filmes em um evento.

Havia comida espalhada pela sala inteira.

Cobertores.

Almofadas.

E, em poucos minutos, ela decidiu que assistir filmes não era suficiente.

— Vamos jogar.

Todos olharam para ela.

— Alice...

Ela ignorou minha reclamação.

— É um jogo simples. Perguntas, desafios e Nada demais.

Eu já sabia que aquela frase significava exatamente o contrário.

Sentamos todos na sala.

Bella ficou perto de Alice.

Eu tentei não perceber isso.

Falhei.

Porque eu percebia tudo nela.

Cada expressão.

Cada sorriso.

Cada vez que ela mordia o lábio enquanto pensava em uma resposta.

O que era irritante.

Muito irritante.

— Minha vez — Alice anunciou.

Ela olhou para mim e depois para Bella.

O sorriso dela era suspeito.

— Edward e Bella.

Eu estreitei os olhos.

— Alice.

Ela ignorou.

— Uma pergunta para vocês dois.

Bella cruzou os braços.

— Isso parece perigoso.

Pela primeira vez naquela noite, sorri de verdade.

— Concordamos em alguma coisa.

Ela olhou para mim.

— Não se acostume.

A resposta veio rápida.

E aquilo me fez sorrir ainda mais.

Era estranho.

Eu estava acostumado com pessoas tentando me agradar.

Bella fazia exatamente o contrário.

Ela me provocava.

Me desafiava.

E, de alguma forma, eu gostava disso.

Durante o jogo, nossas provocações continuaram.

Nada sério.

Apenas pequenas disputas.

Pequenos comentários.

Até que Emmett mencionou:

— A reforma da sua casa já deve estar quase acabando, não?

Assenti.

— Sim.

Alice olhou para Bella.

— Então Edward vai voltar para lá logo.

Bella apenas assentiu.

— Finalmente vai ter paz novamente.

Olhei para ela.

— Paz?

Ela sorriu.

— Sim. Sem alguém reclamando da sua cara fechada todos os dias.

Cruzei os braços.

— Você vai sentir falta.

Ela riu.

— De você?

Fingiu pensar.

— Acho que vou sobreviver.

Balancei a cabeça.

— Interessante.

— O quê?

— Você fala como se eu fosse difícil de aguentar.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Você é.

Todos riram.

Eu deveria ter ficado irritado.

Mas não fiquei.

Porque aquela era Bella.

A mesma mulher que tinha chegado à nossa casa quebrada pelo passado.

E agora estava ali.

Rindo.

Provocando.

Tentando recuperar pedaços dela mesma.

E, naquele momento, percebi algo que me assustou.

Eu não queria apenas protegê-la.

Eu queria vê-la feliz.

E essa descoberta era muito mais perigosa do que qualquer ameaça chamada Nathan Oliver.

Porque esse verme não perde por esperar.


Cinco dias haviam passado desde a noite na casa de Alice.

Cinco dias desde que eu tinha visto Bella sorrir daquela maneira.

E, contra minha vontade, aquela lembrança continuava aparecendo nos momentos mais inesperados.

Eu não deveria pensar nisso.

Não deveria prestar atenção nesses detalhes.

Mas eu prestava.

Era impossível não prestar.

Eu percebia quando ela parecia mais tranquila.

Quando conseguia passar algumas horas sem pensar no passado.

Quando ria sem se lembrar de que um dia alguém tinha tentado tirar dela esse direito.

E talvez fosse exatamente por isso que eu tinha voltado as aulas de luta com ela.

Não porque eu acreditasse que Bella precisava aprender a lutar.

Mas porque eu queria que ela sentisse que podia se defender.

Que seu corpo pertencia a ela.

Que ninguém mais teria controle sobre ela novamente.

A academia estava quase vazia naquela noite. Eu tinha uma sala reservada e mantia assim sempre que a levava para treinar.

O som dos golpes ecoava pelo espaço enquanto eu observava Bella repetir os movimentos que eu havia ensinado.

Ela ainda estava aprendendo.

Mas era determinada.

Esse era um dos aspectos dela que mais me impressionava.

Bella podia ter medo.

Podia duvidar.

Mas continuava tentando.

— De novo — pedi.

Ela soltou um suspiro.

— Edward...

Olhei para ela.

— O quê?

Ela colocou as mãos na cintura.

— Eu preciso de um intervalo.

Quase sorri.

Quase.

— Você está cansada?

Ela lançou um olhar para mim.

— Não.

Uma pausa.

— Talvez.

Dessa vez eu sorri.

— Cinco minutos.

Ela assentiu satisfeita e caminhou até o banco próximo.

Eu peguei meu celular.

Havia uma ligação que eu precisava fazer.

Uma atualização sobre algumas informações que eu tinha pedido.

Afastei-me alguns metros antes de ligar.

Não demorou muito.

Quando terminei, voltei para onde Bella estava.

E parei.

Mark estava conversando com ela.

Nada de errado.

Nada fora do normal.

Mark era um dos donos da academia.

Um excelente lutador.

Um bom professor.

Mas ainda assim...

Algo dentro de mim não gostou daquela cena.

Ele estava mostrando uma posição diferente para ela.

Corrigindo um movimento.

E Bella estava prestando atenção.

Eu sabia que aquilo era completamente normal.

Racionalmente, sabia.

Mas a parte irracional da minha mente não parecia interessada em ouvir.

— Algum problema? — perguntei.

Minha voz saiu mais fria do que eu pretendia.

Bella olhou para mim.

— Nenhum.

Mark apenas sorriu.

— Estava mostrando uma alternativa para ela.

Assenti.

— Ela já tem um professor.

A frase saiu antes que eu pudesse pensar.

Mark olhou para mim por um segundo.

Depois apenas levantou as mãos.

— Tudo bem.

Bella me observou.

Eu sabia que ela tinha percebido.

Ela percebia mais do que eu gostaria.


No caminho para casa, o silêncio dentro do carro era diferente.

Normalmente Bella tentava conversar.

Fazia perguntas.

Provocava.

Naquela noite, ela estava quieta.

Eu sabia o motivo.

Suspirei.

— Você está estranha.

Ela virou o rosto para mim.

— Eu?

— Sim.

Ela olhou pela janela.

— Você que está quieto.

Continuei dirigindo.

— Estou normal.

Ela soltou uma pequena risada.

— Você sempre diz isso quando não está normal.

Ignorei o comentário.

Mas alguns segundos depois, perguntei:

— Você gostou da aula com Mark?

Ela virou lentamente o rosto para mim.

— Com Mark?

Assenti.

— Sim.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.

Eu conhecia aquele sorriso.

Era o sorriso de quem tinha acabado de perceber alguma coisa.

— Você está perguntando se eu prefiro ele ensinando?

— Estou perguntando se você gostou.

— Gostei.

Fiquei em silêncio.

Ela observou minha expressão.

E então aconteceu.

Ela sorriu mais.

— Edward...

Não gostei daquele tom.

— O quê?

— Você ficou incomodado.

— Não fiquei.

Ela virou o corpo um pouco mais na minha direção.

— Ficou sim.

Neguei.

— Não fiquei.

— Ficou.

Continuei olhando para a estrada.

— Você está imaginando coisas.

Ela riu baixo.

— Você estava preocupado que o Mark me ensinasse?

— Não.

A resposta saiu rápido demais.

Ela percebeu.

Claro que percebeu.

Bella tinha uma habilidade irritante de perceber exatamente aquilo que eu tentava esconder.

— Você sabe que isso parece exatamente uma resposta de alguém que ficou enciumado de perder a aluna.

Olhei para ela por um segundo.

E foi um erro.

Porque naquele instante ela estava sorrindo.

E então ela mordeu levemente o lábio.

Um gesto simples.

Inocente.

Mas meu cérebro pareceu esquecer disso.

Meu olhar ficou preso por um segundo a mais do que deveria.

E imediatamente me repreendi.

Não.

Não podia.

Bella confiava em mim.

Ela precisava de segurança.

Não de alguém pensando em várias maneiras de fode-la.

Voltei os olhos para a estrada.

— Você está errada.

Minha voz saiu mais baixa.

Ela apenas sorriu.

— Claro, Edward.

O jeito como ela disse meu nome deixou claro que ela não acreditava nem um pouco.

Quando chegamos à mansão, saí do carro e abri a porta para ela.

Ela me olhou antes de entrar.

— Boa noite.

Eu poderia ter dito qualquer coisa.

Poderia ter feito uma piada.

Poderia ter respondido uma das provocações dela.

Mas tudo que consegui dizer foi:

— Boa noite, Isabella.

Ela entrou.

E eu fiquei parado por alguns segundos observando a porta se fechar.


Mais tarde, no meu quarto, eu ainda pensava na mesma coisa.

A reforma da minha casa estava quase terminando.

Em breve eu voltaria para lá.

E Bella...

Bella provavelmente iria ter aulas na minha academia um ou dois dias na semana. Eu tinha lhe dito isso.

A ideia tinha parecido simples quando pensei nela pela primeira vez.

Minha casa era mais segura do que a academia.

Eu poderia continuar ensinando defesa pessoal.

Ela teria espaço.

Privacidade.

Mas agora...

Agora eu não tinha tanta certeza.

Porque ficar sozinho com Bella na minha casa significava algo que eu tentava ignorar.

Significava proximidade.

Muito mais proximidade.

E eu não sabia se confiar apenas na minha força de vontade era uma boa ideia.

Passei a mão pelo rosto.

Aquilo era absurdo.

Bella precisava de proteção.

E eu estava preocupado comigo mesmo.

Com meus próprios pensamentos impuros.

Com a forma como ela conseguia me tirar do controle sem sequer tentar.

Eu definitivamente preciso de sexo.

É isso.

Já tem quase três meses que a Bella está aqui em Nova York.

E já te quase três meses que eu não transo com ninguém.

Fechei os olhos.

Uma coisa era clara.

Eu precisava tomar cuidado.

Porque Nathan Oliver era uma ameaça que eu conseguia enfrentar.

Mas Isabella Swan...

Ou Bella Swan estava se tornando uma ameaça completamente diferente.

Uma que eu não sabia como combater.


Segunda-feira chegou, mas minha mente ainda estava presa no mesmo lugar.

Bella.

Era impossível não pensar nela.

Desde que ela tinha me contado tudo, eu carregava uma sensação constante de urgência.

Eu precisava encontrar Nathan.

Precisava descobrir quem ele era.

Precisava garantir que ele nunca mais tivesse a oportunidade de machucar ninguém.

Mas havia um problema.

Eu não tinha quase nada.

Um nome.

Nathan Oliver.

E uma história que, apesar de ser suficiente para mim, ainda precisava se transformar em provas.

Foi exatamente por isso que eu procurei J. Jenks.

Se existia alguém capaz de encontrar uma pessoa que não queria ser encontrada, era ele.

Eu estava no meu escritório quando ele chegou.

Assim que entrou, percebi pela expressão dele que as informações não tinham sido simples de conseguir.

— Sr. Cullen.

Cumprimentamo-nos rapidamente.

— Jenks.

Ele colocou uma pasta fina sobre minha mesa.

Muito fina.

Eu imediatamente percebi.

Não era o que eu esperava.

— Isso é tudo?

Ele olhou para a pasta.

Depois para mim.

— Por enquanto.

A resposta não me agradou.

Sentei-me.

— O que conseguiu?

Jenks abriu a pasta.

— Muito pouco.

Minha mandíbula travou.

— Explique.

Ele passou algumas páginas.

— Nathan Oliver não aparece em registros comuns de forma significativa.

Franzi a testa.

— Como assim?

— Como assim que, pelo menos com esse nome, ele praticamente não existe.

O silêncio tomou conta da sala.

Não gostei daquela resposta.

Não porque fosse culpa de Jenks.

Mas porque confirmava algo que eu já começava a suspeitar.

Nathan tinha cuidado para não deixar rastros.

— Você encontrou alguma foto?

Perguntei.

Jenks balançou a cabeça.

— Não.

A resposta me incomodou mais do que eu esperava.

Eu tinha imaginado que, naquele momento, eu pelo menos teria um rosto.

Uma pessoa.

Algo concreto.

Mas não tinha.

Eu só tinha um nome.

Um nome que talvez nem fosse verdadeiro.

— Ele pode estar usando outro nome?

Jenks me encarou.

— É uma possibilidade, mas ainda não é certeza.

Passei a mão pelo queixo.

Claro.

Seria exatamente o tipo de coisa que alguém assim faria.

Criar uma identidade.

Apagar rastros.

Fazer parecer que nunca existiu.

— A vítima tem alguma informação além do nome?

Ele perguntou.

Pensei nela.

No quanto ela se torturou para me contar.

No quanto ainda parecia difícil falar sobre aquele período.

— Poucas coisas.

Expliquei o que sabia.

O relacionamento.

O período em que estiveram juntos.

A cidade.

Alguns lugares.

Mas nada que fosse suficiente.

Jenks anotou algumas informações.

— Isso ajuda.

— Ajuda?

Minha voz saiu mais dura do que pretendia.

Ele não se alterou.

— Sim, porque agora sabemos que não devemos procurar apenas Nathan Oliver. Devemos procurar conexões. Pessoas próximas, locais, movimentações e qualquer coisa que indique quem ele realmente é.

Eu me recostei na cadeira.

"Quem ele realmente é."

A frase ficou na minha cabeça.

Porque era exatamente o problema.

Eu não sabia.

Bella sabia o suficiente para ter medo dele.

Mas eu não sabia nem como ele era.

Não sabia seu rosto.

Sua aparência.

Sua localização.

Nada.

E isso me deixava furioso.

— Eu preciso encontrá-lo.

Jenks fechou a pasta.

— Eu sei.

Ele me observou por alguns segundos.

— Mas precisamos fazer isso corretamente.

Assenti.

Ele tinha razão.

Minha raiva não podia atrapalhar.

Eu precisava de provas.

Precisava de algo que colocasse Nathan Oliver atrás das grades.

Não apenas de uma suspeita.

— Continue investigando.

Levantei-me.

— Procure qualquer ligação. Qualquer pessoa que possa saber quem ele é.

Jenks assentiu.

— Vou fazer isso.

Quando ele saiu do escritório, fiquei olhando para a pasta sobre minha mesa.

Era pequena.

Pouca informação.

Quase nada.

Mas era o começo.

Peguei a primeira folha novamente.

Nathan Oliver.

Um nome.

Só isso.

E ainda assim era o nome do homem que tinha destruído a paz de Bella.


Os dias seguintes foram uma mistura de espera e impaciência.

Duas coisas que eu sempre odiei.

Esperar.

E não ter respostas.

Eu estava acostumado a resolver problemas.

Era algo que fazia parte de mim.

Quando havia um obstáculo, eu encontrava uma maneira de contorná-lo.

Quando havia uma dúvida, eu procurava uma resposta.

Mas Nathan Oliver era diferente.

Ele era uma ausência.

Um nome sem rosto.

Uma pessoa que parecia existir apenas nas lembranças dolorosas de Bella.

E isso me incomodava mais do que eu queria admitir.

Porque eu não conseguia lutar contra algo que eu não conseguia encontrar.

J. Jenks entrou em contato comigo alguns dias depois.

Eu estava no escritório quando recebi sua ligação.

Atendi imediatamente.

— Jenks.

— Sr. Cullen.

A voz dele estava calma, mas eu percebi que ele tinha algo para dizer.

— Encontrou alguma coisa?

Houve uma pequena pausa.

— Algumas coisas.

Minha atenção ficou completamente presa à ligação.

— Mas nada do que você espera.

Fechei os olhos por um instante.

Eu já sabia que não seria simples.

— Explique.

— Continuei investigando o nome Nathan Oliver.

Fiquei em silêncio.

— E?

— Ainda não encontrei uma confirmação sólida de que essa pessoa exista oficialmente com esse nome.

Meu corpo ficou tenso.

— Então ele pode não existir?

— Não exatamente.

Jenks respondeu.

— Pode existir. Mas também pode ser uma identidade criada ou modificada.

Aquilo confirmou uma suspeita que já começava a surgir.

Nathan tinha escondido seus rastros.

— Você encontrou algum documento?

— Pouco.

Ele continuou.

— Nada que me dê um rosto.

Essa frase me atingiu.

Um rosto.

Era tudo que eu queria.

Eu queria saber quem era o homem que fazia Bella acordar assustada.

Quem era o homem que ainda conseguia destruir a paz dela mesmo estando longe.

Mas eu não tinha nada.

Nenhuma fotografia.

Nenhum endereço.

Nenhuma informação concreta.

Apenas um nome.

— E como vamos encontrar alguém assim?

Minha voz saiu mais baixa.

Jenks respondeu:

— Procurando pelo que ele deixou para trás.

Fiquei em silêncio.

— Pessoas raramente conseguem apagar tudo. Sempre existem rastros, lugares, pessoas, erros.

Assenti lentamente.

Era a única esperança que tínhamos.

— Continue.

— Vou precisar de mais informações sobre o período em que a vítima esteve com ele.

Meu primeiro pensamento foi de preocupação.

Não com a investigação.

Com ela.

Eu sabia o quanto falar sobre aquilo era difícil.

— Vou conversar com ela.

Jenks ficou em silêncio por alguns segundos.

— Certifique-se de que ela queira falar.

A resposta me agradou.

Porque era exatamente o que eu pretendia fazer.

Bella já tinha tido sua escolha tirada dela muitas vezes.

Eu não seria mais uma pessoa fazendo isso.

— Eu sei.

Desliguei pouco depois.

Mas a sensação de frustração permaneceu.


Quando cheguei à mansão naquela noite, encontrei Bella na cozinha.

Ela estava preparando algo simples.

Uma cena completamente normal.

E talvez fosse exatamente por isso que eu gostei de vê-la.

Normalidade.

Era algo que ela merecia.

Ela percebeu minha presença.

— Você chegou cedo.

Olhei para o relógio.

— Acho que sim.

Ela sorriu levemente.

— Isso é raro.

Eu quase respondi que havia coisas mais importantes do que trabalho.

Mas parei.

Porque eu não sabia quando isso tinha começado.

Quando eu tinha começado a considerar voltar para casa algo importante.

Antes, minha casa, mesmo que seja a dos meus pais no momento era apenas um lugar.

Agora...

Agora havia alguém esperando por mim.

E eu não sabia o que fazer com essa informação.

— Como foi seu dia? — perguntei.

Ela pareceu surpresa novamente.

Eu estava começando a perceber que pequenas perguntas significavam muito para ela.

Como se ela não estivesse acostumada a alguém simplesmente querer saber.

— Foi tranquilo.

Ela respondeu.

— Alice mandou mensagem.

Sorri discretamente.

— Imagino.

Bella riu.

— Ela quer planejar outra noite.

— Claro que quer.

O sorriso dela aumentou.

E eu percebi que aquele som ainda me causava uma reação inesperada.

Eu queria ouvir mais.

Muito mais.

Afastei esse pensamento imediatamente.

Eu estava ali por um motivo.

Bella precisava de segurança.

Precisava de alguém que lembrasse a ela que estava protegida.

Era só isso.


Mais tarde, no meu quarto, fiquei olhando pela janela.

A cidade continuava igual.

Pessoas andando.

Carros passando.

Vidas acontecendo.

Enquanto eu procurava um homem que talvez nem existisse oficialmente.

Peguei o celular e abri novamente as anotações de Jenks.

Nathan Oliver.

Ainda sem rosto.

Ainda sem localização.

Ainda sem respostas.

Mas eu tinha certeza de uma coisa.

Eu encontraria.

Porque eu tinha feito uma promessa.

E eu nunca quebrava uma promessa.