Meu Lugar Seguro

10 Capítulo 10


Notas iniciais
⚠️ Aviso de Gatilho Este é um capítulo longo e aborda temas sensíveis, incluindo relacionamento abusivo, manipulação psicológica, violência doméstica, tentativa de violência sexual e trauma emocional. As cenas são tratadas com foco nos sentimentos da personagem e nas consequências do que ela viveu, sem descrições gráficas. Leia com cuidado. Seria na sexta o capítulo, mas consegui adiantar. Bjs.

POV BELLA

O cheiro de café recém passado invadia a cozinha quando desci as escadas naquela manhã.

Por alguns segundos, fiquei apenas observando a movimentação da casa.

Esme organizava algumas frutas sobre a mesa, Carlisle lia algo em seu tablet e Edward estava encostado na bancada, terminando sua segunda xícara de café.

Era estranho como aquela rotina, que não era minha, começava a parecer confortável.

Pela primeira vez em muito tempo eu acordava sem aquele peso esmagador no peito, sem a sensação de que precisava olhar para trás a cada esquina.

Ainda havia medo.

Muito medo.

Mas ali... eu conseguia respirar.

— Bom dia. — minha voz saiu baixa.

Os três levantaram os olhos.

— Bom dia, querida. — Esme sorriu daquele jeito acolhedor que fazia meu coração apertar.

Edward também sorriu.

— Dormiu bem?

Assenti.

— Melhor do que imaginava.

Esme colocou um prato à minha frente.

— Então sente e coma alguma coisa.

Obedeci.

Enquanto passava geleia na torrada, Edward voltou a olhar para mim.

— Alguma resposta das empresas?

Sorri de leve.

— Algumas.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Já?

— Algumas confirmaram que receberam o currículo. Outras disseram que meu perfil interessa, mas ainda estão analisando os candidatos.

— Então...

— Ainda nenhuma entrevista.

Ele fez uma expressão tranquila.

— Isso já é um ótimo começo.

Concordei.

Era verdade.

Há poucos dias eu sequer imaginava conseguir montar um currículo decente ou pensar em arrumar um emprego.

Se Edward não tivesse me ajudado...

Provavelmente ainda estaria apagando e reescrevendo cada linha.

— Vai dar certo — ele disse.

Olhei para ele.

— Espero que sim.

Carlisle levantou-se da mesa.

— Vai dar. Você é muito competente.

Sorri, agradecida.

Assim que Carlisle saiu, Edward voltou a falar.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Já pensou em trabalhar na empresa da minha família?

Parei de mastigar.

Era uma pergunta sincera.

Sem pressão.

Sem interesse escondido.

Mesmo assim...

Balancei a cabeça devagar.

— Acho melhor não.

Ele pareceu curioso.

— Posso perguntar por quê?

Respirei fundo.

— Porque eu preciso reconstruir minha vida sozinha.

Ele continuou ouvindo.

— Vocês já fizeram muito por mim. Me deram um lugar para morar, segurança... amizade...

Minha voz ficou um pouco menor.

— Se eu também trabalhar na empresa Cullen... vou sentir que dependo completamente de vocês.

Edward ficou alguns segundos em silêncio.

Então sorriu.

Não parecia ofendido.

Muito pelo contrário.

— Tudo bem.

Olhei para ele.

— Não quero misturar as coisas.

— Entendo.

Ele apoiou os braços sobre a bancada.

— E gosto da sua resposta.

Franzi a testa.

— Gosta?

— Significa que você quer conquistar as coisas por mérito próprio.

Sorri, um pouco sem jeito.

— Acho que sim.

— Então vou torcer pelas outras empresas.

Ri baixinho.

— Obrigada.


Passei boa parte da manhã procurando novas vagas.

Algumas exigiam experiência que eu não possuía.

Outras pediam disponibilidade para viagens constantes.

Havia também aquelas que simplesmente não combinavam comigo.

Mesmo assim enviei mais alguns currículos.

Quanto mais tentasse...

Maior seria minha chance.

No início da tarde resolvi descer para tomar água.

Foi quando Esme comentou casualmente:

— Edward chegou mais cedo hoje. Está trabalhando no escritório do Carlisle.

Sorri.

— Obrigada.

Subi novamente.

Na verdade...

Nem sabia exatamente por que estava indo até lá.

Talvez apenas agradecer.

Ou perguntar alguma coisa sobre uma das empresas.

Ou...

Talvez só conversar.

Respirei fundo antes de bater na porta.

Toc.

Toc.

— Pode entrar.

Abri a porta lentamente.

Antes mesmo de conseguir vê-lo, ouvi uma voz masculina vindo do computador.

— Só liguei porque achei que poderia ajudar.

Meu corpo inteiro congelou.

Meu coração simplesmente parou.

Aquela voz...

Não.

Não podia ser.

Meu estômago embrulhou.

Minha visão ficou turva.

Os sons ao redor desapareceram.

A única coisa que eu conseguia ouvir era aquela voz.

Aquela maldita voz.

Dei um passo para trás.

Meu peito começou a subir e descer rápido demais.

— Isabella?

A voz de Edward parecia distante.

Eu não conseguia responder.

As minhas mãos começaram a tremer.

Muito.

Edward desligou rapidamente a chamada.

Ouvi apenas um:

— Depois conversamos.

Em seguida, seus passos se aproximaram.

— Isabella?

Ele parou diante de mim.

Seu rosto mudou completamente quando percebeu meu estado.

— Ei...

Sua voz ficou baixa.

— Olha para mim.

Não consegui.

Meu corpo inteiro tremia.

Edward segurou meus ombros com extrema delicadeza.

— Respira comigo.

Fechei os olhos.

Meu peito doía.

— Bella...

Sua voz permanecia calma.

— Você está segura. Ninguém vai machucar você aqui.

Respirei outra vez.

E outra.

As lágrimas começaram a descer antes mesmo que eu percebesse.

Edward não me apressou.

Esperou.

Em silêncio.

Até minha respiração desacelerar.

Só então consegui olhar para ele.

— Desculpa...

— Não peça desculpas.

Passei a mão pelo rosto.

Ainda me sentia trêmula.

— Quem...

Minha voz falhou.

Engoli em seco.

— Quem estava falando?

Edward respondeu imediatamente.

— Meu primo.

Meu coração voltou a acelerar.

— James.

Ele continuou.

— Ele tentou me ligar desde cedo. Ignorei todas as chamadas porque estava ocupado.

Deu um pequeno suspiro.

— Agora atendi porque achei que pudesse ser algo importante.

Observei seu rosto.

Ele parecia genuinamente confuso.

— Era só isso.

Baixei os olhos.

Edward esperou mais alguns segundos.

— Isabella...

Assenti devagar.

— Aquela voz...

Minha garganta apertou.

— Parecia a dele.

Edward franziu a testa.

— De quem?

As palavras quase não saíram.

— Nathan.

O silêncio tomou conta do escritório.

Edward ficou completamente imóvel.

— Nathan...

Ele repetiu lentamente.

— Nathan... é o homem que fez aquilo com você?

Fechei os olhos.

Minha cabeça fez um pequeno movimento afirmativo.

— Sim.

Minha respiração voltou a falhar.

Edward imediatamente percebeu.

— Ei...

Ele aproximou uma cadeira.

— Senta um pouco.

Obedeci.

Ele puxou outra cadeira e sentou de frente para mim.

Sem invadir meu espaço.

Sem tocar em mim dessa vez.

Apenas permaneceu ali.

— Isabella...

Sua voz era firme, mas extremamente gentil.

— Quero que me escute.

Levantei os olhos.

— Aquele homem ao telefone era meu primo James. Não Nathan.

Assenti lentamente.

Edward continuou.

— Eu jamais manteria contato com alguém que tivesse feito mal a você. Jamais. Se eu soubesse quem ele é nem sequer atenderia uma ligação.

Meu peito começou a aliviar aos poucos.

Respirei fundo.

Fazia sentido.

Era apenas...

Minha mente.

Meu medo.

A voz.

As lembranças.

— Desculpa...

— Você não precisa se desculpar.

Ele sorriu de maneira reconfortante.

— Depois do que passou.É natural que algumas coisas despertem lembranças.

Passei as mãos nas pernas para esconder o tremor.

— Ainda tenho muito medo.

— Eu sei.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Então Edward falou novamente.

— Isabella...Você já pensou em denunciar Nathan? Eu sei que já te perguntei isso, mas eu queria saber mais.

Olhei para o chão.

— Muitas vezes.

— E por que não fez?

Minha resposta saiu quase num sussurro.

— Porque eu tinha medo.

Ele assentiu.

Sem julgamento.

— Entendo.

Depois acrescentou:

— Mas ele não pode continuar livre.

As palavras ficaram ecoando na minha cabeça.

Nathan livre.

Nathan encontrando outra mulher.

Nathan...

Destruindo outra vida.

Fechei os olhos por um instante.

Edward permaneceu paciente.

— Você não precisa decidir isso hoje, mas talvez um dia.

Concordei com um leve movimento.

Ele apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Posso te fazer outra pergunta?

— Pode.

— Você confia em mim como disse aquele dia ?

Encarei aqueles olhos verdes.

Não precisei pensar.

— Confio.

Ele sorriu de forma discreta.

— Então...Só se você quiser. Você pode me contar o que aconteceu. Não porque eu queira saber por curiosidade, mas porque talvez dividir esse peso com alguém possa tornar tudo um pouco menos difícil.

Senti um nó enorme na garganta.

Durante aqueles meses...

Eu tinha carregado tudo sozinha.

Alice sabia apenas uma pequena parte.

O restante...

Estava preso dentro de mim.

Olhei novamente para Edward.

Ele esperava.

Sem insistir.

Sem pressionar.

Respirei fundo.

Pela primeira vez...

Achei que talvez estivesse pronta.

Baixei os olhos para minhas mãos.

Elas ainda tremiam.

— Eu conheci Nathan Oliver numa cafeteria... em Oklahoma.

Por alguns segundos, apenas observei minhas próprias mãos.

Ainda tremiam.

Não tanto quanto antes.

Mas o suficiente para denunciar o quanto aquelas lembranças ainda estavam vivas.

Edward permaneceu em silêncio.

Nem uma palavra.

Nem um gesto que me fizesse sentir pressionada.

Apenas esperava.

Respirei fundo.

— Eu tinha me mudado da casa da minha mãe tinha pouco tempo.

Minha voz saiu baixa.

— Era um recomeço. Eu tinha conseguido um emprego, alugado um apartamento pequeno, era simples, mas era meu.

Um sorriso triste surgiu em meus lábios.

— Eu gostava daquele apartamento. Era apertado. A cozinha era minúscula. A sala mal cabia um sofá. Mas eu gostava de chegar do trabalho, fazer meu café e me sentir em casa.

Edward me observava atentamente.

— Foi numa cafeteria perto do meu trabalho que conheci Nathan.

Parei por um instante.

Meu peito apertou.

— No começo achei ele insistente.

Edward arqueou discretamente as sobrancelhas.

— Ele apareceu algumas vezes naquele mesmo horário. Sempre puxava assunto.

Sorri sem humor.

— Eu até comentava com as meninas do trabalho que tinha um homem bonito tentando chamar minha atenção.

Engoli em seco.

— Ele era muito educado. Muito gentil. Sabia exatamente o que dizer. Parecia interessado em tudo que eu falava. Lembrava dos detalhes. Perguntava sobre meu dia. Sobre meus sonhos. Sobre minha família.

— Ele fazia você se sentir importante? — Edward perguntou com cuidado.

Assenti.

— Sim, Muito. Na época achei que aquilo fosse carinho. Hoje entendo que ele só estava aprendendo tudo sobre mim.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

As palavras seguintes eram mais difíceis.

— Depois de alguns encontros, comecei a gostar dele. Era impossível negar.

— Ele era bonito, elegante, parecia seguro de si. Eu me sentia especial quando estava com ele.

Edward não fez qualquer expressão de julgamento.

Apenas ouviu.

— Na segunda semana em que começamos a sair, ele me levou ao apartamento dele.

Meu olhar ficou perdido.

— Era enorme. Muito diferente de qualquer lugar onde eu já tivesse entrado em Oklahoma. Móveis sofisticados. Vista da cidade. Tudo parecia saído de uma revista.

Sorri de maneira amarga.

— Lembro que fiquei até com vergonha de contar como era meu apartamento.

Edward franziu levemente a testa.

Continuei.

— Mas ele dizia que isso não importava. Que gostava de mim. Que eu podia ficar lá sempre que quisesse.

Respirei devagar.

— Aos poucos comecei a passar mais tempo no apartamento dele do que no meu. Eu saía do trabalho e ia direto para lá. Às vezes dormia. Outras vezes voltava para casa apenas na manhã seguinte. Naquele momento aquilo parecia completamente normal. Hoje vejo que foi tudo muito rápido.

Edward continuava atento.

— Um mês depois, ele disse que não queria mais viajar tanto. Que pretendia resolver tudo em Oklahoma para ficar de vez na cidade.

Sorri de leve ao lembrar.

— Naquela época eu fiquei feliz. Muito feliz. Achei que ele estava planejando um futuro comigo.

Olhei para minhas mãos.

— Então ele me pediu em namoro.

Edward permaneceu imóvel.

— Disse que me amava. Que queria construir uma vida ao meu lado.

Minha garganta apertou.

— Eu aceitei. Como não aceitaria? Até aquele momento ele nunca tinha levantado a voz para mim.Nunca tinha sido agressivo. Nunca tinha demonstrado aquele lado que eu conheceria depois.

Respirei lentamente.

— Alguns dias depois ele disse que queria conhecer minha família.

Edward assentiu, incentivando-me a continuar.

— Levei ele até a casa da minha mãe. Lembro dela ter ficado encantada. Nathan era educado, Gentil e Educado até demais. Conversava olhando nos olhos. Elogiava tudo. Fazia minha mãe sorrir. Meu padrasto também gostou dele.

Passei a língua pelos lábios ressecados.

— Depois ele disse que também queria conhecer meus amigos. As meninas do trabalho. Ângela e Jessica.

Edward sorriu discretamente ao ouvir os nomes.

— Elas gostaram dele. Todo mundo gostava. Era impossível não gostar. Porque era exatamente isso que ele queria mostrar. Um homem perfeito.

Fechei os olhos por um instante.

— Depois disso, ele viajou uma semana. Disse que era trabalho. Que resolveria tudo para voltar definitivamente. Quando retornou, pediu que eu fosse para o apartamento dele. Como sempre fazia. No começo tudo parecia igual. Mas foi ali que as coisas começaram a mudar.

Minha respiração ficou mais pesada.

Edward permaneceu completamente atento.

— A primeira coisa que ele criticou foi uma roupa minha.

Olhei para Edward.

— Eu estava usando um vestido. Ele disse que era curto demais. Que outros homens estavam olhando para mim. Na hora achei que fosse ciúme.

Sorri sem alegria.

— Algumas amigas até diziam que era normal. Que homem apaixonado tinha ciúmes.

Balancei a cabeça lentamente.

— Então comecei a mudar algumas roupas. Sem perceber. Porque queria evitar discussões.

Meu peito apertou.

— Depois vieram os colegas do trabalho. Se eu comentava que tinha almoçado com o pessoal. Ele perguntava quantos homens estavam na mesa. Se algum deles olhava para mim. Se algum já tinha dado em cima de mim.

Edward cerrou discretamente os punhos.

Continuei.

— Até meu chefe virou problema. Nathan dizia que homem nenhum elogia uma funcionária sem interesse. Que meu chefe devia estar esperando uma oportunidade.

Respirei fundo.

— Eu dizia que ele estava exagerando, mas acabava tentando tranquilizá-lo Sempre. Porque eu não queria brigar.

Fiz uma pausa.

— Então começaram as críticas às minhas amigas. Ângela e Jessica. Segundo Nathan, as duas tinham inveja da minha vida. Inveja do meu namoro. Diziam coisas para nos separar.

Olhei para o chão.

— Eu nunca acreditei nisso, mas aos poucos ele fazia comentários quase todos os dias. Até que comecei a evitar contar quando saía com elas.

Edward soltou um suspiro discreto.

Eu continuei.

— Depois ele viajou novamente. Duas semanas. Disse que resolveria tudo para ficar de vez em Oklahoma. Quando voltou não me ligou. Não pediu que eu fosse ao apartamento dele. Achei estranho. Mas imaginei que estivesse cansado da viagem.

Respirei profundamente.

— Naquela sexta-feira, saí do trabalho junto com Ângela, Jessica e um colega nosso. Estávamos conversando no caminho, Rindo. Como qualquer outro dia. Meu apartamento ficava perto. Então eles foram comigo. Quando abri a porta, meu coração disparou.

Edward franziu a testa.

— Nathan estava sentado no sofá da minha sala. Fiquei completamente surpresa. Eu nunca tinha dado uma chave para ele. Nunca. Ainda hoje não sei como entrou.

Fechei os olhos.

— Ele levantou imediatamente. Sorriu, mas havia alguma coisa diferente. Alguma coisa no olhar dele que me deixou desconfortável.

Engoli em seco.

— Ele olhou para os meus amigos e disse que queria conversar comigo sozinho. Meu colega respondeu que todos iriam embora assim que tivesse certeza de que eu estava bem. Nathan insistiu. Meu colega recusou novamente. A tensão aumentou muito rápido.

Apertei os dedos um contra o outro.

— Os dois começaram a discutir. A voz de Nathan ficou completamente diferente da que eu conhecia. Mais dura. Mais agressiva.

Edward permanecia imóvel.

— Meu colega percebeu que alguma coisa estava errada. Ele disse que não me deixaria sozinha. Nathan perdeu o controle.

Fechei os olhos.

— Eles começaram a brigar.

Minha voz falhou.

— Foi muito rápido. Ângela e Jessica conseguiram separar os dois. Depois convenceram meu colega a ir embora comigo, mas Nathan insistia que precisava conversar. No fim eles saíram preocupados. Pediram que eu ligasse se precisasse de qualquer coisa.

As lágrimas começaram a surgir outra vez.

— Assim que a porta fechou tudo mudou. O sorriso dele desapareceu. Seu olhar era de alguém que eu nunca tinha visto antes.

Limpei uma lágrima que escorria pelo meu rosto.

— Ele começou a dizer que eu tinha provocado aquela situação. Que eu o tinha feito passar vergonha. Que eu dava liberdade demais para outros homens.

Balancei a cabeça.

— Eu tentei explicar. Disse que meu colega só estava preocupado , mas Nathan não queria ouvir.

Minha voz saiu quase num sussurro.

— Ele começou a me chamar de nomes horríveis. Disse que eu me comportava como uma vadia. Que nenhum homem aceitaria aquilo.

Meu peito apertou.

— Eu comecei a chorar. Disse que ele estava sendo injusto. Que não tinha feito nada.

Respirei fundo antes de continuar.

— Foi naquele momento...Que ele me agrediu pela primeira vez. Me deu um soco no olho e bateu no meu rosto.

O escritório mergulhou em silêncio.

Edward fechou os olhos por um instante.

Sua mandíbula ficou completamente rígida.

Continuei com dificuldade.

— Eu caí no chão. Lembro mais do susto do que da dor. Porque até aquele segundo eu jamais imaginei que ele fosse capaz daquilo.

As lágrimas escorriam sem que eu percebesse.

— Depois ele me abraçou. Disse que tinha perdido o controle. Que só tinha feito aquilo porque me amava. Que eu tinha provocado a situação.

Fechei os olhos.

— E eu...Acreditei que talvez a culpa fosse minha.

Vi Edward abaixar a cabeça lentamente.

Quando voltou a olhar para mim, seus olhos estavam tomados por uma indignação silenciosa.

Mas ele não me interrompeu.

Não ainda.

Porque sabia...

Que aquilo era apenas o começo.

Por alguns segundos, nenhum de nós falou.

Eu encarava minhas mãos.

Edward mantinha os olhos fixos em mim, mas havia algo diferente em sua expressão agora.

A tristeza continuava ali.

Só que havia outra coisa.

Raiva.

Não uma raiva descontrolada.

Era uma indignação profunda, silenciosa, quase dolorosa.

Respirei devagar.

— No dia seguinte eu fui trabalhar.

Minha voz saiu fraca.

— Quando me olhei no espelho antes de sair de casa , havia um hematoma ao redor do meu olho.

Baixei a cabeça.

— Tentei esconder com maquiagem.

Sorri sem humor.

— Não adiantou muito.

Edward apertou a mandíbula.

— Assim que cheguei na empresa... Ângela percebeu. Depois Jessica. As duas ficaram desesperadas. Meu colega também. O mesmo que tinha discutido com Nathan. Ele olhou para mim e perguntou se tinha sido ele. Eu não consegui mentir.

Fechei os olhos por um instante.

— Eles ficaram revoltados. Disseram que eu precisava ir imediatamente à delegacia. Que aquilo não podia ficar assim.

Engoli em seco.

— Mas eu estava com medo. Muito medo.

Edward respirou fundo.

Não disse que eu estava errada.

Não perguntou por que eu não tinha denunciado.

Apenas esperou.

— Nathan passou mais uma semana viajando. Nesse período, eu comecei a pensar em terminar tudo, mas sempre lembrava da maneira como ele chorou depois da agressão. Das desculpas. Das promessas. Das mensagens dizendo que jamais faria aquilo novamente.

Olhei para Edward.

— Hoje eu sei que aquilo fazia parte da manipulação. Na época eu queria acreditar. Porque era menos doloroso acreditar que ele tinha cometido um erro do que aceitar que eu estava vivendo um relacionamento abusivo.

Edward fez um pequeno movimento afirmativo com a cabeça.

Como se compreendesse exatamente o que eu dizia.

Continuei.

— Quando ele voltou, nós nos encontramos novamente. Eu estava voltando da cafeteria. Usava um vestido simples. Nada diferente do que sempre usei.

Sorri amargamente.

— Ele olhou para mim e perguntou por que eu tinha saído daquele jeito. Disse que aquele vestido chamava atenção demasie respondi que era apenas uma roupa. Que eu já tinha usado outras parecidas.

Respirei fundo.

— A discussão aumentou. E...Ele me bateu outra vez.

Minha voz quase desapareceu no final da frase.

O silêncio voltou a ocupar o escritório.

Edward fechou os olhos por um instante.

Vi seus dedos se fecharem lentamente sobre o braço da cadeira.

Ele respirou fundo antes de falar.

— Bella...

Levantei os olhos.

Ele parecia escolher cada palavra com muito cuidado.

— Preciso te fazer uma pergunta. Se você não quiser responder. Tudo bem.

Assenti.

Ele hesitou alguns segundos.

— Em algum momento depois dessas brigas, ele obrigou você a dormir com ele?

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Meu peito voltou a apertar.

Olhei para o chão.

Demorei alguns segundos para conseguir responder.

— Não.

Minha voz saiu baixa.

— Não, porque sempre que ele começava uma discussão eu me trancava no quarto. Esperava ele ir embora. Só saía quando tinha certeza de que ele já não estava mais lá. Mas ele queria sim me obrigar, só que eu era mais rápida.

Edward fechou os olhos lentamente.

Parecia aliviado.

Mas o alívio durou pouco.

Porque ele sabia que a história ainda não havia terminado.

Respirei profundamente.

— Depois disso, minhas amigas começaram a insistir para que eu terminasse. Todos diziam a mesma coisa. Que aquilo iria piorar. Que eu precisava ir embora. Na época eu ainda tinha esperança de que ele simplesmente me deixasse em paz.

Olhei pela janela do escritório.

O céu estava completamente azul.

Tão diferente da tempestade que existia dentro de mim.

— Um dia ele me ligou e disse que tinha acabado de voltar de outra viagem. Falou que precisava conversar comigo. Pediu que eu fosse até o apartamento dele.

Fechei os olhos.

— Eu fui decidida a terminar tudo. Ângela e Jessica tinham conversado comigo durante dias. Meu colega também. Todos diziam que eu precisava colocar um ponto final. E.Foi exatamente isso que eu pensei que faria.

Edward permaneceu completamente imóvel.

Continuei.

— Quando cheguei, o apartamento estava diferente. Havia flores. Velas apagadas sobre a mesa. Tudo muito organizado. Parecia um jantar romântico.

Sorri de maneira triste.

— Por alguns segundos .Eu achei que ele realmente estivesse arrependido.

Respirei lentamente.

— Nathan veio até mim segurando um buquê de rosas. Depois se ajoelhou. Pediu desculpas. Disse que nunca mais perderia o controle. Que estava tentando mudar. Que queria construir uma família comigo.

Minha garganta apertou.

— Eu ouvi tudo. Até o fim. Quando ele terminou, peguei as flores. Agradeci. E disse que o perdoava.

Edward me olhava sem piscar.

— Mas também disse que não queria mais continuar aquele relacionamento.

Minha voz ficou embargada.

— Eu falei que aqueles dois meses tinham me destruído. Que eu já não me reconhecia mais. Que vivia com medo.

As lágrimas voltaram.

— Achei que ele iria aceitar. Ou pelo menos discutir comigo, mas...Foi então que ouvi risadas.

Meu coração disparou.

Edward endireitou a postura.

Respirei fundo antes de continuar.

— Quatro homens apareceram. Eles estavam em outro cômodo do apartamento. Eu nem sabia que havia mais alguém ali.

Meu corpo inteiro voltou a tremer só de lembrar.

— Eles olhavam para mim...Como se eu fosse um pedaço de carne. Faziam comentários nojentos do que iriam fazer comigo. Riam entre si.

Meu estômago embrulhou.

— Naquele momento...Eu entendi que alguma coisa estava muito errada. Olhei para Nathan. Perguntei o que estava acontecendo. Ele Apenas sorriu.

As lágrimas começaram a cair sem controle.

— Foi quando percebi que eu precisava sair dali.

Minha respiração ficou irregular.

Edward continuava absolutamente em silêncio.

— Tentei ir em direção à porta, mas Nathan segurou meu braço. Disse que eu estava exagerando. Que ninguém iria me machucar. Que eles só queriam se divertir.

Minha voz falhou completamente na última expressão.

Fechei os olhos.

As lembranças vinham em flashes.

Fragmentadas.

Dolorosas.

— Eu entrei em pânico. Tentei me soltar, corri e acabei caindo.

Respirei fundo, buscando controlar o tremor.

— Enquanto eu tentava me levantar. Eles se aproximaram. Eu chorava. Pedia para me deixarem ir embora. Um deles olhou para mim por alguns segundos. Depois disse que aquilo estava errado. Que não participaria daquilo. Os outros começaram a discutir com ele. Nathan também. A discussão aumentou. As vozes ficaram cada vez mais altas.

Abri lentamente os olhos.

— Foi naquele momento que consegui me levantar e correr.

Edward prendia a respiração.

— Saí do apartamento. Corri em direção ao elevador. Achei...Achei que tinha conseguido.

Minha voz quase desapareceu.

— Mas Nathan veio atrás de mim. Antes que eu alcançasse o elevador ele me puxou de volta.

Fechei os olhos.

— Eu só lembro de tentar me proteger, ele me jogou no chão e começou me chutar nas costelas. Pedi para ele parar. Depois tudo ficou confuso.

As lágrimas escorriam sem parar.

— Alguns minutos depois...Os outros homens apareceram. Um deles mandou Nathan parar. Eles discutiram novamente. Quando Nathan começou tirar a calça para me forçar, mas o mesmo homem que desistiu de cometer a violência o empurrou. Foi uma confusão enorme, de repente os outros recuaram também. Eu estava destruída de tanta dor das agressões do Nathan.

Respirei com dificuldade.

— Um deles pegou meu endereço. Eu sem força consegui falar e já esperava o pior então passei sem nem pensar se ele ia ou não me ajudar. Chamou um carro por aplicativo. E disse para o motorista me levar para casa.

Olhei para Edward.

— Eu não conhecia nenhum deles. Nunca mais vi nenhum deles. Nunca descobri seus nomes. Só sei que naquele momento a discussão entre eles foi o que me permitiu sair dali com vida e não ser violentada por todos eles.

O escritório mergulhou em um silêncio absoluto.

Edward estava completamente imóvel.

Seus olhos estavam marejados.

Mas havia algo muito mais forte neles.

Uma revolta que eu jamais tinha visto.

Mesmo assim...

Ele não disse uma única palavra.

Esperou.

Porque sabia...

Que ainda faltava mais alguma parte.

As lágrimas já não paravam.

Eu nem tentava mais escondê-las.

Era como se, depois de tantos meses guardando tudo, cada lembrança encontrasse finalmente uma saída.

Edward permanecia sentado à minha frente.

Os olhos fixos em mim.

Sem interromper.

Sem me pressionar.

Apenas ouvindo.

Respirei fundo algumas vezes antes de conseguir continuar.

— Quando cheguei em casa...

Minha voz saiu quase inaudível.

— Eu não conseguia pensar. Lembro de fechar a porta do apartamento e escorregar até o chão. Fiquei ali por muito tempo. Abraçada às minhas pernas. Sem conseguir parar de chorar.

Fechei os olhos.

— Naquela noite eu não dormi. Sempre que fechava os olhos, lembrava daquele apartamento. Da sensação de medo. Da certeza de que, se eu não tivesse conseguido sair dali, minha vida teria tomado um rumo ainda mais terrível.

Minha garganta voltou a fechar.

— Eu passei dias sem conseguir comer direito. Sem conseguir trabalhar normalmente. Até que saí da empresa. Eu me assustava com qualquer barulho. Ver qualquer grupo de homens juntos fazia meu coração disparar.

Olhei para Edward.

— Eu deixei de me reconhecer.

Ele abaixou a cabeça por um instante.

As mãos dele estavam cerradas sobre as próprias pernas.

Continuei.

— Ângela e Jessica foram me ver assim que perceberam que eu não apareci para trabalhar, mas elas só souberam o mínimo. Para elas foi só aquela primeira agressão que me destruiu. Elas insistiram para que eu fosse à delegacia. Meu chefe também. Todos diziam a mesma coisa. Que Nathan precisava responder pelo que tinha feito.

Respirei lentamente.

— Mas eu...

Balancei a cabeça.

— Eu tinha medo. Muito medo. Medo de ele descobrir. Medo de me encontrar. Medo de ninguém acreditar em mim.

Edward fechou os olhos por um breve instante.

Quando voltou a me olhar, sua expressão era de uma tristeza profunda.

— Depois eu resolvi ligar para minha mãe.

Minha voz falhou.

Essa parte...

Ainda doía.

Talvez tanto quanto todas as outras.

— Eu precisava dela. Pela primeira vez em muito tempo eu só queria ouvir minha mãe dizer que ficaria tudo bem. Que ela iria me buscar. Que eu não estava sozinha.

As lágrimas escorreram novamente.

— Ela atendeu. Expliquei, do jeito que consegui. Disse que Nathan tinha me machucado. Que eu estava desesperada. Que precisava dela.

Minha respiração ficou pesada.

— Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois disse que estava terminando de arrumar as malas.

Edward franziu o cenho.

Continuei.

— Perguntei do que ela estava falando. Ela respondeu que viajaria para fora do país naquela tarde. Como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo naquele momento.

Engoli em seco.

— Eu comecei a chorar no telefone. Pedi que ela não fosse. Disse que precisava dela.

Minha voz saiu quase sem força.

— Ela respondeu que eu estava exagerando. Que Nathan era um homem rico. Bem-sucedido e bonito. Que eu devia pensar melhor antes de acabar com um relacionamento daqueles.

Edward fechou lentamente os olhos.

Sua mandíbula voltou a ficar rígida.

— Ela disse que, se eu não tivesse contrariado Nathan, nada daquilo teria acontecido.

O silêncio que tomou conta do escritório foi devastador.

Nem eu conseguia acreditar que aquelas palavras tinham realmente sido ditas.

Mas tinham.

E continuavam ecoando dentro de mim todos os dias.

Passei a mão pelo rosto.

— Depois da ligação eu percebi que estava completamente sozinha.

Respirei fundo.

— Ainda tentei ligar para o meu pai. Várias vezes. Ele morava no Arizona com a nova esposa. Achei que talvez ele me atendesse. Talvez dissesse que eu podia ir para lá.

Sorri sem qualquer alegria.

— Ele nunca atendeu. Nem retornou minhas ligações. Nem uma única vez.

Edward abaixou a cabeça.

Vi seus dedos apertarem com força o braço da cadeira.

Continuei.

— Eu não sabia mais o que fazer. Então liguei pra Alice.

Um sorriso pequeno apareceu entre minhas lágrimas.

— Ela atendeu na mesma hora. Eu sei que ela sempre me atenderia. Perguntou por que eu estava chorando. Eu, contei apenas o básico. Disse que um relacionamento tinha terminado muito mal. Que eu precisava ir embora de Oklahoma. Não consegui contar tudo. Não naquele momento.

Minha voz vacilou.

— Mesmo sem saber de toda a história, ela não fez perguntas. Só disse: "Volta para Nova York."

As lágrimas escorreram outra vez.

— Ela disse que daria um jeito. Que eu não ficaria sozinha. Que me ajudaria em tudo.

Respirei profundamente.

— Foi por causa dela...Que eu consegui sair de Oklahoma.

Olhei para Edward.

— Se Alice não tivesse atendido aquela ligação .Eu nem sei onde estaria hoje.

Edward permaneceu alguns segundos completamente imóvel.

Depois passou as duas mãos pelo rosto.

Respirou fundo.

Muito fundo.

Quando voltou a me olhar...

Havia lágrimas discretas em seus olhos.

Mas a tristeza havia sido tomada por outra coisa.

Uma indignação profunda.

— Bella...

A voz dele saiu baixa.

Rouca.

— Eu sinto muito.

Balancei a cabeça.

— Não precisa...

— Preciso, sim.

Ele interrompeu pela primeira vez desde que comecei a contar.

— Eu sinto muito por ninguém ter protegido você quando mais precisava.

As palavras dele fizeram meu peito apertar.

Edward continuou.

— Sua mãe deveria ter corrido até você. Seu pai deveria ter atendido o telefone. Alguém deveria ter feito alguma coisa.

A voz dele endureceu.

— Você nunca deveria ter passado por isso sozinha.

As lágrimas voltaram a cair.

Não porque aquelas palavras me machucavam.

Mas porque...

Era a primeira vez que alguém dizia exatamente o que eu sempre quis ouvir.

Edward respirou profundamente.

Vi seus punhos se fecharem.

Não de maneira impulsiva.

Mas com uma determinação que eu nunca tinha visto.

— Bella...

Ele esperou que eu levantasse os olhos.

— Eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que Nathan Oliver responda pelo que fez.

Sua voz era firme.

Segura.

— Pela lei. Da maneira certa, mas ele vai responder. Eu prometo.

Meu coração apertou.

— Edward...

— Não.

Ele balançou a cabeça.

— Um homem que destrói vidas não pode continuar acreditando que ficará impune.

Os olhos verdes dele encontraram os meus.

— E existe outra promessa que eu preciso fazer.

Minha respiração desacelerou.

— Enquanto você estiver aqui. Você nunca mais vai enfrentar esse medo sozinha. Nunca mais.

O escritório permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez desde que comecei aquela conversa...

Eu não sentia apenas o peso das lembranças.

Sentia também algo que havia perdido havia muito tempo.

Segurança.

Não porque o passado tivesse deixado de existir.

Mas porque, pela primeira vez...

Alguém acreditava em cada palavra que eu havia contado.

E estava disposto a lutar ao meu lado.

E sem pedir permissão eu pulei em seus braços e o abracei.

Chorei tanto

Como uma criança pequena

Mas eu senti um alivio enorme de ter compartilhado isso com ele.

— Bella...

— sim.

Seus olhos estavam com um brilho diferente. Uma raiva controlada que estava ali.

­— Não quero ficar fazendo muitas perguntas depois. Acho que hoje foi o suficiente e você teve que contar isso. Mas preciso saber de duas coisas.

Assenti.

— Ele se chama apenas Nathan Oliver? Tem mais alguma informação?

— Só sei que ele é um empresário rico demais, pelo que ele dizia e se chamava apenas Nathan Oliver.

Edward assentiu.

— A outra pergunta é se você reconheceria por fotos o rosto dos outros quatro miseráveis?

— Sim. Infelizmente ainda lembro de tudo que queria esquecer.

Edward assentiu.

— Tudo bem! No momento certo teremos talvez essa conversa. Agora vai ficar tudo bem.