Meu Guardião

1 Capítulo único


Notas iniciais
Acredito em anjos da guarda. Acho que atualmente, nenhuma religião os apoia. O segundo ato não é totalmente original, eu li em um livro e escutei de outra pessoa essa mesma história, mas de tanto recontá-la, já a sinto como sendo minha também.

Ato um: O médico

O médico estava saboreando um prato de carne cortada em picadinho, misturada com creme de leite, cogumelos e temperada com condimentos fortes. O sabor era muito bom, mas de modo algum ele chamaria aquilo de strogonoff. Após o almoço saboroso ele foi fazer a sesta. Afrouxou o cinto da calça e desabotoou a camisa. Com sorte dormiria por meia hora, talvez uma hora. Após 15 minutos em que ele ainda não havia encontrado o sono, alguém bateu na porta de seu quarto.

– O que é? — Perguntou mal-humorado, pois qualquer que fosse o problema, não justificava interromperem sua sesta.

– Doutor, o senhor poderia visitar a minha avó? Ela está muito doente em casa. — Um homem magro e baixo, vestido com uma roupa gasta e modesta, segurava um chapéu de palha na mão, enquanto olhava para o médico com os olhos aflitos.

– Chame o SOS que eles irão ver sua avó. Agora por favor, deixe-me descansar um pouco. — Falou aborrecido e bateu a porta na cara do homem.

O médico dormiu por uma hora. Acordou e olhou no relógio. Já estava na hora do trabalho. Levantou-se e seguiu para seu emprego em um Centro de Saúde. Trabalhou por duas horas, então como não havia mais doentes para atender, ele pegou uma revista velha da sala de espera. Folheou-a procurando algo interessante para ler. Alguém bateu na porta do consultório. Ao abrir a porta deu de cara com o mesmo sujeito franzino que foi abordá-lo no seu dormitório.

– O senhor de novo? Ainda não chamou o SOS? — Perguntou injuriado com a insistência do homem.

– Chamei sim senhor. Mas eles me disseram que a ambulância está com o pneu furado e que não podem socorrer minha avó. O senhor poderia ir vê-la doutor? Deus lhe pagará em dobro, eu lhe garanto. — O homem humilde suplicava.

O médico procurou algo para dizer a este homem irritante, mas estava sem argumentos naquela hora. Decidiu ir ver a pobre velhinha de uma vez, pelo menos assim se livraria daquele homem pequenino e seu olhar sequioso. Foram de bicicletas, pois o médico não tinha carro. Após pedalarem por 4 km chegaram até a casa da velhinha. Ela estava em seu leito, em um quarto escuro, com algumas velas acesas, como se antevendo o seu velório. Alguns parentes estavam no quarto e um tanto de vizinhos e curiosos estavam na sala e do lado de fora da casa, como se aquele acontecimento fosse uma novidade, a qual não poderia perder.

O médico procurou algo que pudesse chamar de banco e conversou com a velha senhora e seus parentes. A seguir pediu que se retirassem do quarto, pois ele iria examinar a vovozinha. Após o exame, tirou um papel de receita de sua mochila e escreveu muito. Chamou a família e entregou-lhes a receita de remédios.

– O que fazemos com isso Doutor?

– Comprem os remédios.

– Não temos dinheiro para comprar.

– Ok! Então vão ao hospital público ou ao Centro de Saúde, que eles dão remédios de graça. Agora já vou indo. Com licença. — Disse isso e passou pela família e curiosos.

Voltou para seu dormitório e resolveu assistir TV. Após a novela se lembrou da velhinha que visitara. Ela com certeza iria morrer. E o que ele tinha que ver com aquilo? Nada. A morte fazia parte da vida. As pessoas já começavam a morrer no instante em que nasciam. Lembrou-se do baixinho e seu olhar suplicante. Aquele homem sem dúvida choraria muito pela morte da avó. De nada teria adiantado ser humilde e brando, pois a terra fora feita para pessoas endinheiradas e poderosas. Pessoas que não precisavam dizer "por favor", "deus lhe pagará em dobro", "muito obrigado pelo que tu me fizeste", etc. Pessoas que não dependiam de pneus furados, remédios gratuitos ou da caridade alheia. Pessoas que não precisavam que um médico tivesse pena delas. Ainda bem que o doutor não precisava da ajuda dos outros. Sua mãe vivia muito bem na capital, e não estava em um leito de morte, sendo velada em vida, numa choupana, esperando pelos remédios que nunca chegariam. E se ela fosse a mãe do doutor, ela iria morrer à míngua?

O médico deu um pulo do sofá. Desligou a TV e procurou sua mochila. Saiu o mais rápido que pôde. Dirigiu-se ao hospital público. Invadiu o Setor de Pronto Socorro e saiu catando remédios, seringas, agulhas, etc. As enfermeiras pararam o seu serviço para olhá-lo. Elas já haviam visto muitos médicos agirem dessa forma. Não precisavam perguntar nada. Apenas lamentavam que após algum tempo eles deixassem de agir assim.

– Enfermeira-Chefa desculpe-me, mas eu preciso desses remédios para alguém que está morrendo. — O médico explicou-se.

– Tudo bem Doutor, não se preocupe. — Ela intimamente o abençoou.

Ele então saiu desabaladamente e pedalou 4 km até chegar à casinha humilde da velhinha. Ao abrir a porta o homenzinho humilde ficou surpreso. Ao ver o médico aplicando injeções e frascos de soro em sua avozinha, abriu um grande sorriso e sentiu as lágrimas caindo pela face. Iniciou então uma prece silenciosa para que os remédios surtissem efeito.

Após aplicar as medicações, o médico sentou-se no banco improvisado e ficou ao lado da avozinha observando-a por algumas horas. Já passava da meia-noite, quando ele achou que ela estava melhor. Despediu-se da família e foi embora com a sensação de dever cumprido. Bem perto dali, dois anjos vestindo túnicas brancas e tendo às suas costas, resplandecentes asas brancas, observavam tudo pacificamente.

– Não pensei que fosse conseguir John. O médico é muito egoísta, como todo humano em posição de superioridade.

– Ele apenas não havia sentido a dor do próximo. Quando eu o lembrei que poderia ser sua própria mãe ali, ele rapidamente se prontificou.

– Infelizmente com o passar do tempo, nem a lembrança da própria mãe os fazem atender a um chamado.

– Mas aí eles o farão por força do hábito. Vamos agora auxiliar o nosso protegido. Esta será uma longa noite para ele.

Dizendo isso, os dois entraram na choupana e ficaram ao lado do homenzinho humilde que acariciava os cabelos brancos de sua avozinha.

Ato dois: O menino

O menino correu como o vento. Subiu rapidamente o morro de terra batida com vegetação rasteira. Como já passava de meio-dia, o chão estava escaldante e nem mesmo a grossa crosta da sola dos seus pés, o protegeu do calor que emanava do chão. Foi então que ele correu mais rápido ainda. Chegou à pequena vilazinha onde havia algumas tavernas e procurou pela taverna de seu Zé Pilha.

– Seu Zé! Ó de casa! Venha atender aqui Seu Zé!

Um homem aparentando uns 40 anos, calvo, com as roupas gastas e mal ajambradas, saiu do interior da casa e foi para a sala da frente, que funcionava como taverna.

– O que tá havendo, Didi? Por que todo esse alvoroço?

– Seu Zé, mamãe me pediu pra vir aqui, dizer ao senhor para me fiar 1 kg de farinha, 1 kg de sal, 1 kg de açúcar e remédio para diarréia.

– Didi, diga para sua mãe, que eu não vendo mais fiado. Ela terá que me pagar o que deve, antes que eu lhe fie mais alguma coisa.

Didi ficou observando o homem careca com um olhar carente e perplexo. Ele não esperava ouvir não. Ele não poderia chegar a casa e dizer à sua mãe que não havia conseguido nada.

Seu Zé Pilha teve que atender outro freguês e virou as costas para Didi. Quando finalmente o freguês foi embora, ele percebeu que Didi continuava lá com o olhar perdido, como se não soubesse mais o caminho de volta. Teve pena daquele garoto virado e sua mãe abandonada e andrajosa. Resolveu fazer mais esse favor. Pegou o que o garoto pedira e colocou tudo em um saco plástico. Anotou tudo na página da mãe de Didi. Ela já lhe devia muito.

– Toma. Leva pra sua mãe, mas diga a ela que é a última vez que eu lhe vendo fiado. O remédio pra diarréia tá aí. Diga pra ela tomar dois comprimidos de uma vez que é batata. Vai logo menino.

– Muito obrigado Seu Zé, Deus lhe abençoe. — Didi repetiu o que já ouvira sua mãe dizer incontáveis vezes, sempre que alguém era bondoso com eles. Então saiu correndo.

O caminho de volta foi mais ameno, mesmo assim demorado. Como moravam no sertão nordestino, os campos eram vazios e ermos. O sol tinia na pele e o vento fazia a fina blusa enrolar-se no seu corpo. Após uma hora correndo ininterruptamente, chegou a casa. Estava cansado e procurou a bilha de água. Tomou um gole na caneca de plástico. Guardou as compras e foi ao quarto da mãe.

– Como está mamãe?

Sua mãe estava com os olhos encovados, os lábios secos e as rugas em volta dos olhos e na testa estavam bem pronunciadas. Ela ainda tinha o emplastro de argila colocado sobre seu abdome, com o objetivo de cessar-lhe as cólicas. Ela olhou para o filho e se esforçou para sorrir.

– Estou bem meu filho. Trouxe o que eu lhe pedi?

– Trouxe. O seu Zé Pilha disse que essa é a última vez que ele lhe vende fiado. Eu trouxe o remédio pra diarréia também. Seu Zé disse que é só tomar dois comprimidos que é batata.

– Então meu filho, vá pegar uma caneca de água pra mim, pra eu tomar logo esse remédio.

O menino saiu e voltou trazendo a caneca com água da bilha e o envelope com dois comprimidos. Tirou os comprimidos do envelope e colocou na mão da mãe. A seguir ajudou-a a beber a água. Então resolveu ir fazer a janta, pois logo anoiteceria e eles não podiam gastar a única vela que restara na casa. Só podiam usá-la em emergências.

Assim ele fez. Preparou caldo de tablete de carne com farinha. Ficou bem parecido com uma sopa. Levou um pouco para sua mãe. Ela aceitou três colheres e recusou o resto, pois tinha medo de vomitar.

Mais tarde, Didi dormia no chão sobre uma manta, ao lado da cama da mãe. Ele acordou quando ela o chamou, pedindo ajuda. Ele levantou-se e foi vê-la. À luz do luar sua mãe parecia mais pálida, com as duas mãos sobre o abdome.

– O que foi mamãe?

– Didi, minha barriga dói. Parece que ela vai explodir. — Sua mãe tirou as mãos de cima da barriga. Apesar do emplastro de argila, Didi percebeu que a barriga da mãe estava maior, como se ela houvesse jantado um leitãozinho, em vez de três colheres de sopa. Aquilo deveria doer muito.

– Mãinha, o que eu posso fazer? Você quer que eu vá até o seu Zé Pilha e lhe peça mais remédio?

– Não meu filho, já é muito tarde. E o remédio de seu Zé não me ajudou. Faz o seguinte filho, aí no quintal tem umas folhas roxas, pegue umas cinco folhas e faça um chá pra mim. Isso deve ajudar.

O menino saiu de casa na mesma hora. Perambulou pelo quintal e quando ele via algum matinho, agachava-se para examiná-lo. Naquela hora da noite todas as folhas eram cinza, não saberia dizer se alguma delas era mais ou menos roxa do que as outras. Na dúvida ele pegou cinco folhas de três plantas diferentes. Uma delas deveria ser a folha certa. Foi para a cozinha, deixou a janela e a porta aberta para a luz do luar iluminar o ambiente escuro, lavou as folhas e colocou-as numa panela velha e amassada. Fez o chá e assoprou para esfriá-lo. Então o levou para sua mãe.

Sua mãe já estava chorando de dor. Sua barriga estava tão inchada que já havia partido toda a argila do emplastro. Ela tomou o chá de folhas do mato e sossegou um pouco. Ela tinha muita confiança no seu filho. Tinha certeza que as folhas roxas iriam acalmar aquelas dores. Assim ela dormiu e Didi também. Do lado de fora da casa, dois anjos com vestes alvas admiravam a lua e a paisagem do sertão.

– A mãe de Didi vai ficar curada. As três plantas que eu lhe disse para pegar são potentes amebicidas. Nem mesmo o remédio que ela tomou antes vai prejudicá-la mais do que já fez.

– Didi vai contar à mãe que pegou as folhas erradas John, ela não vai entender por que ficou curada.

– Ela vai achar que foi um milagre, o que não deixa de ser verdade.

– Milagre maior foi ter convencido Seu Zé Pilha a continuar a vender fiado.

– Ele é um bom homem, mesmo se não tivéssemos intervindo ele teria agido com bondade para com essa família. Você viu? Até aquele remédio popular ele colocou na sacola, mesmo eu lhe avisando que ele não iria ajudar.

– Você acompanhará Didi ainda por muito tempo?

– Sim.

Ato três: A mulher

Soraia estava deprimida. Seu namorado a traía. Sua vizinha ameaçou processá-la, caso não pagasse a conta do lanterneiro que concertou o amassado do carro dela. Seu chefe a humilhara no trabalho. Ele repetiu várias vezes: "posso demiti-la na hora que quiser". Ela já trancara a faculdade porque não conseguira conciliar os estudos e o trabalho, e agora poderia ficar desempregada a qualquer instante. O Pedro, seu namorado nunca fora digno de confiança. Na verdade ele gostava de atirar na cara dela, sempre que tinha oportunidade, que ela não era tão bonita quanto às outras, que ele tinha vergonha que os amigos o vissem com ela, que ele não queria perder sua liberdade, portanto não queria comprometer-se ainda mais com ela.

– Aqui está o pagamento moça. — O homem a tirara do seu devaneio ao empurrar muitos maços de dinheiro em frente dela.

– Tudo bem, eu vou conferir o dinheiro. Cem, duzentos, trezentos,... — Soraia tentou concentrar-se no seu serviço de caixa de banco. Ela não podia errar na conferência do dinheiro, do contrário teria que pagar do próprio bolso.

– Ainda vai demorar moça? Você já recontou o dinheiro umas três vezes. — O homem parecia irritado.

– Aqui está o seu troco senhor. — Finalmente Soraia conseguiu concluir a conferência do dinheiro. O cliente se afastou e veio o próximo da fila. Uma velhinha baixinha com um cartão da previdência.

– Quero sacar tudo minha filha.

– Pois não senhora. — Soraia passou o cartão da velhinha em sua máquina.

Soraia comprara seu carro de segunda mão em uma concessionária. Havia levado seu cunhado para ser seu fiador. O carro era antigo e não tinha as últimas novidades tecnológicas, mas servia ao que se esperava de um carro, ele andava. Ela havia pedido para alguns amigos a ensinarem a dirigir. Todos lhe deram macetes e conselhos. Quando se julgou razoável entrou para uma auto-escola apenas para prestar o exame de direção. Ela infelizmente não conseguiu sua tão sonhada carteira de habilitação. Ainda não podia sair por aí sem medo, dirigindo seu calhambeque. Infelizmente a vizinha metera-se na sua frente e ela acabou batendo o carro. Seu carro ficou imprestável e o da vizinha sofreu apenas alguns amassados e arranhões. Por conta da falta de carteira, Soraia assumiu a culpa e prontificou-se a pagar o prejuízo. Ela não esperava que a vizinha fosse uma exploradora.

– Meu dinheiro moça? Faz um tempão que eu estou aqui esperando e nada.

– Desculpe-me senhora. Aqui está.

A velha baixinha foi embora e veio o próximo da fila. Uma mulher loura, com os cabelos fartos e soltos, corpulenta e alta, de cara inchada e olhos rasgados.

– Eu vim pagar essa conta que já venceu. Você vai ter que calcular a multa e os juros.

– Pois não senhora. — Soraia passou o código de barras na máquina de leitura a laser.

Seu chefe era um homem muito mal. Gostava de humilhar os outros. Várias vezes fizera Soraia chorar. Ela suspeitava que ele fosse um sádico. Só isso justificava o comportamento dele. Quantas vezes, ele lhe chamara a atenção em público por besteira? Quantas vezes ela acabara chorando e correndo para o toalete envergonhada? E ele a ameaçava agora com demissão. Se ela não precisasse desesperadamente desse emprego, ela certamente aceitaria de bom grado ser demitida, mas ela tinha tantas contas para pagar. Era injusto ser perseguida dessa forma no trabalho.

– E aí moça? Quanto é que eu tenho que pagar? — A mulher leoa rugiu.

– Já vou calcular senhora.

– Faz um tempão que você está fazendo estes cálculos e nada. O que é? Não sabe fazer contas? Como conseguiu esse emprego, hein minha filha?

Soraia não conseguiu evitar que as lágrimas caíssem abundantes pelo seu rosto. Largou tudo e se retirou do seu setor. Todos que estavam esperando a vez na fila ficaram reclamando. A mulher leoa passou a falar em um tom bem alto, pedindo a presença do gerente do banco. Soraia foi ao toalete. Sentou-se no vaso e chorou amargamente.

Desejou fugir de tudo aquilo, não agüentava mais o emprego, o namorado, a exploração de que era vítima, as pessoas que era obrigada a atender com cordialidade e educação, mas que a tratavam com desrespeito e grosseria. Não suportava mais o planeta terra e as pessoas de um modo geral. Desejou não pertencer mais à raça humana.

Então ela sentiu a cabeça quente, seus cabelos arrepiarem-se e seus olhos se abrirem, como se eles estivessem até aquele momento turvados. Sentiu o sangue correr em suas veias e o coração bater forte. Sentiu-se viva e feliz. Resolveu voltar ao trabalho. Lavou o rosto e o enxugou. Ao mirar-se no espelho do banheiro, mal reconheceu a si mesma, considerou-se bonita. Saiu do banheiro bem disposta e confiante. No salão da agência bancária, dois anjos com asas luminosas, permaneciam a postos, observando o movimento.

– Você acha que ela não vai precisar de mais ajuda John?

– Acho que neste momento, nós fizemos o que pudemos para ajudá-la. Ela iria acabar sendo demitida ou calculando errado o dinheiro, e dessa forma prejudicando a muitos.

– Você lhe repassou energia?

– Sim, um pouco da velha energia que move o mundo, e que se chama amor.

Fim

Notas finais
O personagem John Goodmorning é antigo, criação minha, e eu o associo freqüentemente à figura de um anjo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!