Meu Eu Em Você.- Snamione
1 A troca.
Notas iniciais
Grandes rivalidades merecem grandes histórias.
Desde que o mundo é mundo, Sonserinos e Grifinórios são inimigos. É a ordem natural das coisas, como cães e gatos ou Montéquios e Capulletos. O leão e a serpente fazem essa dança com movimentos precisos, cada um puxa a corda pro seu lado, mas com o contrato mudo de nunca arrebentá-la, uma vez que no fundo, bem no fundo, um precisa do outro. Yng e Yang, você poderia dizer.
Ainda que a guerra tivesse acabado e o mundo bruxo gozasse de plena paz, em Hogwarts a querela entre serpentes e leões estava pior do que jamais fora.
Os diretores de ambas as casas eram, na opinião da diretora Minerva, os grandes responsáveis por isso.
De um lado, a brilhante Hermione Granger, a melhor aluna pra quem um dia já lecionara, corajosa como toda boa grifinória, e de uma integridade moral inabalável.
Do outro lado, o taciturno Severus Snape, o mais amargo dos professores, orgulhoso como todo bom Sonserina e também uma grande herói de guerra.
O porquê de ambos não conseguirem conviver com civilidade estava além de sua compreensão.
— Pelo menos hoje é sábado e não vou ter que ver os dois — a distinta senhora sorriu por cima de sua xicara de chá. Estava ali conversando com o quadro de Albus, a pintura que fazia as vezes de psicólogo para ela.
—Eu não teria tanta certeza — o velhote disse —, estive nas molduras do saguão principal e tive a impressão de que os dois estavam brigando.
—Mas acha que eles virão até mim? —perguntou, desanimada com a ideia.
Antes que Albus respondesse, a porta se abriu. Hermione entrou primeiro, num rompante de fúria, quase espumando pela boca, e Snape á seguiu, deslizando em passos macios, como a boa serpente que era.
—Diretora Minerva! — começou Hermione — Eu não posso mais lidar com esse homem! Ele ultrapassou todos os limites.
—O que foi dessa vez? — Minerva perguntou, largando a xícara sobre a mesa e empunhando a varinha. Só por precaução. Da última vez que invadiram seu escritório ela acabou estuporada por engano.
—Oh, chá com biscoitos! — Snape disse como se nada estivesse acontecendo, sentando-se confortavelmente e servindo-se — Como vai Albus? Ainda perambulando pelo quadro das bailarinas?
—Ele é impossível! — Hermione bufou.
—Vamos Srta. Granger — a diretora incentivou, olhando para Severus com absoluto desprezo. —Conte-me o que aconteceu.
—Ele expulsou a grifinória do campo de quadribol! A senhora sabe que o campeonato se aproxima, não sabe? Ele quer nos prejudicar evitando que as crianças treinem!
—Severus...
—É verdade — ele disse com a boca cheia. — Mas eu tive que fazer alguma coisa! Ela reservou o campo para toda a semana. Toda! Meus alunos vão participar do mesmo campeonato; eles também tem o direito de treinar! Hora essa!
—Isso é verdade Hermione?
—Bom, sim. Mas...
—Vocês dois nunca vão aprender, não é? Somos uma escola, um corpo docente! Temos que nos ajudar, nos unir.... O que vocês acham que estão passando para os alunos com essa atitude?
Seu sermão habitual foi interrompido por gritos insistentes e apavorados de ‘socorro’. Como o som vinha de fora do escritório, ela correu para a janela e o que viu a fez perder o folego.
Todo o time da Grifinória voava desesperadamente de um lado para outro, riscando o céu em alta velocidade, alguns estavam até pendurados em suas vassouras pelas mãos.
—Severus! Como você pode fazer isso?!
—Eles se recusavam a sair do campo, ilustríssima diretora — o homem respondeu com uma calmaria desdenhosa. —Tive que enfeitiçar as vassouras, que outra escolha eu tinha?!
~~ M.E.E.V. ~~
Depois de conseguir salvar todos os alunos de suas vassouras amaldiçoadas, Minerva McGonnagal tomou uma difícil decisão.
—O que você escreve com tanta determinação? —Perguntou Albus de sua pintura.
—As Demissões de Snape e Granger. Estou farta dessa guerra boba entre eles!
—Pare com isso — pediu Dumbledore.
—Você é só uma pintura, não vai me impedir de demitir seu pupilo! Estou determinada à isso, Albus.
—Não estou falando só por Severus, mas também pela sua protegida. Você sabe que os dois são excelentes professores!
—Eram! Desde que começaram com essa birra a nota dos alunos despencou em suas matérias. Sem mencionar as detenções que eu tenho que assinar toda semana! — ela apontou uma pilha de folhas mal equilibradas no canto da mesa.
—Dê uma chance à eles Minerva — o homem no quadro sugeriu, naquele tom pacífico que tinha em vida. — Você só tem que fazer com que eles se coloquem um no lugar do outro. Faça-os ver tudo sob uma nova perspectiva.
—Por favor, Albus! — ela desdenhou. — Nem que eu os trocasse de corpo eles iriam deixar de lado essa rixa!
Mas enquanto as palavras rolavam de sua boca, uma ideia nasceu em sua mente. Sim, trocar os dois de corpos podia funcionar! Eles finalmente teriam que ver como era estar do outro lado da guerra.
Como dizia o ditado trouxa: Tempos desesperados pedem medidas desesperadas.
~~ M.E.E.V. ~~
Passava da meia noite quando Severus e Hermione foram chamados ao escritório da diretora. Quando encontraram-se no corredor que levava à gárgula e perceberam que iriam ao mesmo lugar, ambos apertaram o passo. Um queria chegar primeiro que o outro e, quando se deram conta, estavam correndo como crianças.
Snape alcançou a gárgula primeiro, deu-lhe a senha, subiu no primeiro degrau e fez irromper fogo da ponta de sua varinha, o que impediu que Hermione o seguisse imediatamente.
Ela só conseguiu subir a escada depois de apagar o pequeno incêndio, chegando assim segundos depois do mestre de poções.
—Por que demorou tanto, Granger? — ele perguntou cínico.
—Isso não era uma corrida — ela disse fingindo superioridade. —Onde está Minerva?
— Ela chamou você também?
—Sim— ela torceu os lábios. —Bom, pra chamar nós dois ao mesmo tempo ela só pode estar querendo uma coisa: Dar sermão.
—Culpa sua. Veio correndo hoje fazer fofoca...
Eles pretendiam sentar nas cadeiras em frente a escrivania da diretora, mas antes que a alcançassem, seus pés ficaram presos ao chão.
Em meio as suas exclamações indignadas, acabaram percebendo que estavam presos no centro de um círculo desenhado com sangue. Em volta desse círculo, runas antigas foram habilmente colocadas.
—Pelos sete infernos, o que está acontecendo aqui? — Snape murmurou.
Em resposta, viu o círculo e as runas se desgrudarem do chão. O ar tornou-se gélido, as runas sussurravam fantasmagoricamente e alguns objetos comeram a flutuar sozinhos.
O círculo de runas banhou o ambiente com luz vermelha, sua magia irradiando do chão ao teto, preenchendo tudo com som e cor.
Os símbolos, que subiram até a cintura dos bruxos, agora se fechavam em torno deles, obrigando-os a se unirem. Hermione gritou de dor ao sentir a magia transpassa-la, já Snape xingou todos os Deuses que conhecia. Não demorou muito para que tudo acabasse numa explosão vermelha. As runas desapareceram e dois corpos caíram no chão.
—Mas que merda é essa? — Snape disse, surpreendendo-se ao ouvir a voz de Hermione escapar dos próprios lábios.
—Olha a boca suja Snape! — Hermione sentou-se, colocando a mão na cabeça, onde havia batido no chão.
Ao olhar para Snape, a grifana quase desmaiou em choque, pois a sua frente não estava o professor de poções. Mas sim ela mesma. Quer dizer, seu corpo.
Snape sabia muito bem que estava parecendo um peixe fora d’agua. A boca aberta e os olhos arregalados, balbuciando qualquer coisa ininteligível.
— O que você fez comigo? — Hermione perguntou, na beira da loucura. As mãos tateando loucamente o rosto macilento que não lhe pertencia.
— Acha que eu fiz isso? — o homem conseguiu articular, enquanto se levantava. Um espelho. Ele só precisava de um espelho. Circulou pelo escritório até que conseguiu ver ser reflexo na empoeirada cristaleira que guardava alguns frasquinhos curiosos.
Olhos amendoados e cabelos de cor de chocolate cintilaram para ele, que não pode evitar o enjoo que lhe atingiu.
Uma perplexa Hermione também se ergueu do chão. Tateou a veste obscura a esperança de encontrar sua varinha, mas não havia nada lá.
—Aquele bastardo!— Ela murmurou baixinho antes de correr a curta distancia que a separava de Sape e se jogar sobre as costas dele.
Ele que estava olhando bobamente para o reflexo que impossivelmente lhe pertencia, sucumbiu ao peso do corpo em suas costas e caiu no chão como um saco de batatas.
— Me devolva meu corpo, seu sonserina de uma figa! — Hermione exigiu enquanto agarrava os cachos encaracolados com as mãos.
—Sua histérica! — ele gritou em resposta — Sai de cima de mim, bruxa!
—Eu vou é arrancar você dai seu...
Mas a frase ficou presa em sua garganta quanto ela se sentiu ser puxada por finas cordas cintilantes.
— Por Morgana, Hermione, ele não fez nada! — McGonagall disse, e só então Hermione percebeu que as cordas provinham da varinha dela. — Eu fiz!
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