Meu Eu Dual
6 Um Velho Conhecido
Notas iniciais
*Rússia, 1998 | Sede da Red Room, KGB*
Johanna Beckett POV
Eu sempre soube que esse dia chegaria, mas eu torcia para que ele demorasse o máximo possível. Kate ficaria sozinha, sem a minha proteção, sem ter como se salvar.
Jim me ligou essa manhã com a desculpa de ter algo importante para me contar... eu sabia que tinha coisa suja nisso, mas o que eu poderia fazer? Obedecê-lo, como sempre. Não que eu fosse uma dessas mulheres submissas que abaixam a cabeça para todas as barbaridades que seus maridos fazem, mas não era só a minha integridade física que estaria em jogo caso eu desobedecesse a meu marido, minha filha também seria punida e isso eu não admitiria de forma alguma. Então, eu o obedecia.
E como eu estava arrependida de tê-lo feito hoje. Ele nos arrastou para o porão daquele depósito de horrores e pretendia me matar em frente à minha filha.
O encarei e vi um sorriso diabólico se formar nos lábios dele, então Jim disse aos seus capangas: "Agora".
E, como sempre ouvi dizerem que acontecia, eu vi o filme da minha vida se passar diante de meus olhos...
— ano de 1983, casamento—
O dia havia amanhecido nublado naquele final de setembro. Ao menos para mim. Lá fora um lindo sol brilhava, mas eu só via um tempo nublado... desde que meu pai anunciou, ainda no início deste ano, que havia me vendido – sim, vendido— para aquele ser nojento, que dentro de poucas horas seria meu marido, eu só conseguia enxergar os dias em um tom inteiramente acinzentado.
Minha mãe penteava meus cabelos e me dava conselhos de como me portar ante Jim Beckett, o grande líder de uma das maiores organizações de serviços secretos. Ela sabia do que estava falando, ela também fora vendida ao meu pai e tem passado os piores anos de sua vida desde quando disse aquele "sim".
O "sim" que logo mais eu diria, mesmo que tivesse lutado por todos os esses meses contra isso. Em vão.
Não havia mais escapatória, eu teria que aceitar o meu destino e me tornar a esposa daquele homem. Mas não descansarei um dia sequer até conseguir fugir e reconquistar a minha liberdade, até ter de volta a minha vida.
— ano de 1987, gravidez—
Vinte e três anos. Eu tinha apenas 23 anos e, desde os meus dezenove, estava trancafiada a um matrimônio que só me destruía. A cada dia de minha vida eu me sentia mais e mais destroçada por dentro, a cada dia eu sentia que morria um pouco mais.
Porém algo mudou, a vida me deu um sopro de esperança. Jim Beckett chegou anunciando naquele final de tarde, semanas atrás, que viajaríamos para os Estados Unidos. Ele tinha alguma reunião de negócios – que, obviamente, não se deu ao trabalho de me contar os detalhes – e as esposas dos "sócios" estariam presentes. Logo, eu deveria estar presente e fingindo amar aquele homem que só me causava repulsa.
Eu fui. E nunca na vida agradeci tanto por estar em um lugar.
Assim que bati meus olhos no novo sócio de meu marido, meu coração acordou. Ele voltou a bater. Na verdade, ele quase saiu de meu peito de tão acelerado que batia. O sócio era alto, de pele morena e tinha feições lindas. Havia também um sorriso todo cheio de si brincando em seus lábios, o que despertou algo já há tanto tempo adormecido dentro de mim.
Vulcan Simmons.
Esse fora o nome que meu marido me disse ao me apresentar a seu novo sócio. Ele me olhou de maneira significativa e eu soube, ali mesmo, que eu havia despertado nele o mesmo interesse que ele despertara em mim.
— É um enorme prazer conhecê-la, senhora Beckett. – ele disse em um tom formal e se curvou minimamente para plantar um beijo em minha mão.
— O prazer é todo meu. – eu respondi, sorrindo.
Jim foi chamado por algum outro homem, que eu não me dei ao trabalho de olhar, e me deixou a sós com o senhor Simmons.
Foi apenas uma noite. A melhor noite de toda a minha vida, devo dizer. E só bastou ela para que esse pequeno ser fosse gerado aqui dentro de mim.
Desde o dia que eu me envolvi com Vulcan, nós permanecemos mantendo contato. Por meio de cartas. Em uma delas, ele disse que pretende me resgatar, e eu acredito nele.
— ano de 1998—
Ouvi o clique das várias armas apontadas para mim, ao serem engatilhadas, saindo em uníssono e meu coração falhou uma batida. Era isso, meu fim havia chegado.
Nunca foi segredo para mim que esse dia chegaria. Eu sabia que Jim Beckett há muito planejara me tirar de vez de seu caminho para, enfim, exercer seu poder em Kate de forma eficaz e se vingar de mim por ter me apaixonado por outro.
Sim, ele descobriu. Ele achou as cartas, leu todas elas, descobriu sobre Katie, e me obrigou a terminar com Vulcan. Mas esse não é o momento para me lamentar por isso.
Senti meus olhos arderem e, então, ficarem umedecidos. Eu não chorava por medo do meu destino. Não. O meu medo, o meu choro era pelo destino da minha preciosa Kate. O meu anjinho que agora ficaria nas mãos desse ser cruel e inescrupuloso que tem como pai.
Eu sequer pude te contar a verdade sobre quem é seu pai... espero que me perdoe, Katie. Pedi em pensamento, rogando para que, de alguma forma, ela entenda e me perdoe.
Meu olhar focou os olhos verdes e ensopados de lágrimas de minha doce menina, e um desespero fora do comum tomou conta de mim. Eu não podia deixar que ela assistisse àquilo. Mas como impedirei que ela veja a própria mãe sendo assassinada se estou impossibilitada de me mover?
Então, fiz a única coisa que me era possível naquele momento. E eu sabia que Kate me entenderia.
— Pique-esconde, Katie. – eu sussurrei com a voz embargada.
Isso foi tudo o que eu disse antes de ver minha pequena fechar os olhos e uma escuridão ensurdecedora tomar conta de mim.
POV off
*Nova Iorque, 2017*
Após a rodada – ou várias – de sorvete com calda e chantilly, Alexis subiu para seu quarto e se afogou nos livros, deixando um Castle bastante pensativo na sala.
A cada vez que ele achava estar começando a se acertar com Kate, ela reagia de maneira totalmente contrária ao esperado e fugia dele. Talvez fosse esse o desenrolar da relação dos dois, Kate fugindo e voltando no dia seguinte com explicações vagas.
— Relação? – ele se questionou em voz alta, soltando uma risada irônica para o próprio pensamento. – Nós sequer iniciamos qualquer tipo relação...
Três batidas ritmadas à porta interromperam seu monólogo e logo ele soube de quem se tratava. Incrível como já em tão pouco tempo ele reconhecia aquelas batidas. Kate voltou, como prometera mais cedo.
Ele se apressou em atender e não pode conter um enorme sorriso ao ver aquele rosto que povoava seus pensamentos por todas as vinte e quatro horas do dia. Ela estava linda, mas isso era algo que ele nem precisava falar. Ela era sempre linda.
— Entre. – Castle disse de forma polida, deixando seu sorriso típico brincar em seus lábios.
Kate soltou um leve suspiro ao fixar seu olhar nos lábios encurvados do escritor e balançou a cabeça, reprovando sua própria atitude. Você está aqui com um propósito e não pode se desviar dele, Kate. Sua consciência a alertou e ela adentrou o loft, deixando escapar um murmúrio de lamentação quase inaudível.
— Fico feliz que tenha voltado, Kate – Castle disse, fechando a porta atrás de si e a seguindo para a sala – Cheguei a pensar que não te veria mais e… – ele ia continuar seu falatório, mas interrompeu-se quando a mulher se virou de frente para ele com uma expressão nada boa em sua face.
— Está tudo bem? – ele perguntou hesitante.
— Sim.
— E por que os seus olhos estão dizendo outra coisa?
— E o que meus olhos estariam dizendo, Rick? – ela questionou com seu habitual tom debochado, sentando-se no sofá e cruzando as pernas.
Castle respirou fundo, sentando-se de frente para Beckett, mas mantendo uma distância segura. Não queria afastá-la novamente.
— Eles dizem que algo de errado está acontecendo.
— É, você está certo. Tem algo errado acontecendo mesmo. – a russa afirmou com firmeza em sua voz, mantendo seu olhar frio e fixo no rosto de Rick – E esse "algo" é a gente... Nós dois juntos é errado.
— Kate – a voz do escritor saiu quase em súplica –, isso não é errado. Por que você quer fugir de algo que está óbvio que deseja?
— Eu... eu não desejo nada disso, senhor Castle.
Beckett falou quase em um sussurro, nem ela mesma acreditava na própria frase. Estava mais do que claro seu desejo por aquele homem e pela possibilidade de vida que ela poderia ter ao lado dele.
Mas não devia.
Depois que Richard Castle descobrisse o que ela havia feito com seu pai, ele a odiaria e a expulsaria de sua vida sem o menor remorso. Então, era melhor sair do caminho dele agora e manter seu coração seguro do que começar a viver algo com o escritor e se ferir novamente quando a verdade viesse à tona.
Ela não podia se enganar, mais cedo ou mais tarde ele descobriria a verdade. Rick já se mostrara perspicaz o bastante para ela duvidar de sua capacidade de descobrir sobre aquele assassinato.
E ele já estava bem perto da verdade...
— Nem você acredita nisso que acabou de dizer, Kate. – ele falou firme, interrompendo os pensamentos dela.
— Castle...
— Apenas esqueça tudo isso que está rondando em sua mente, Kate. Ignore qualquer medo que você possa ter de viver isso e se entregue.
— Eu não posso!
— Dê um bom motivo. Um. E eu paro de insistir.
— Você é impossível! – ela exclamou, jogando os braços para o alto e se levantando do sofá.
O escritor permaneceu sentado, apenas a observando andar de um lado para o outro à frente dele.
— Você acha que a minha vida é um piquenique? — Kate disse após alguns segundos em silêncio – Você não sabe o que passei, Rick. Você não tem ideia de tudo o que eu passei.
— Então me conta...
Castle pediu, novamente, quase em súplica. Levantou-se do sofá e se aproximou dela, esticando o braço para tocá-la.
— Não! Fica longe de mim. Você tem que entender: você precisa ficar longe de mim.
— Kate, eu...
— É para o seu próprio bem, senhor Castle.
— Por que continua me tratando como "senhor"? Por que continua me afastando de você? Eu já deixei claro que não quero nada disso. Eu quero você comigo, Kate.
— Exatamente por isso. Nós não podemos, nós não devemos ter qualquer tipo de aproximação, senhor Castle.
A insistência dela em afastá-lo acabou por irritá-lo de vez. Se era isso que ela queria, então seria isso que ele daria a ela. Um fim definitivo para aquela história que sequer teve a chance de começar.
— Ok. – Rick falou com dureza em sua voz – Pode ir embora, Kate. Mas, dessa vez, eu não aceitarei você de volta. Se você sair por aquela porta, você não volta mais.
Beckett o encarou, seu coração falhando uma batida ao ouvi-lo dizer aquelas palavras de forma tão decidida.
Afinal, era isso o que você queria, não?! Por que está hesitando agora?, sua consciência resolveu voltar, de seja lá onde estava, para atormentá-la com suas observações não solicitadas sempre tão cheias de razão.
— Adeus, senhor Castle. – a frase saiu cheia de lamúria, contrariando totalmente sua intenção de aparentar indiferença. O que não passou despercebido pelo escritor.
Porém ele estava decidido, não iria mais implorar para que ela ficasse. Agora ela teria que fazê-lo por vontade própria.
A russa se dirigiu à porta a passos lentos e, antes de sair, voltou a olhar para seu doce escritor, desejando, bem lá no fundo, que ele a agarrasse como sempre fazia e a obrigasse a não afastá-lo novamente. Mas, dessa vez, ele não o fez.
Dessa vez, Richard Castle a deixou ir de forma definitiva.
Ou quase isso...
*1ª semana*
Alexis tentara de tudo o que lhe foi possível para tirar o desânimo do pai. Esforçara-se para fazê-lo, ao menos, se levantar da cama. Até Martha havia deixado seus compromissos de lado e juntou-se à neta nessa "missão", sem sucesso.
O escritor permanecia na mesma. Inconformado com a decisão de Kate.
*2ª semana*
Beckett, aproveitando-se da ausência de Vulcan na cidade, retardou ainda mais o andamento da missão que lhe fora passada para tentar encontrar uma forma de livrar Rick Castle da morte.
Sem sucesso.
*3ª semana*
Castle decidiu ir ao 12th para tentar, novamente, encontrar alguma pista sobre Kate Beckett com a ajuda de Ryan e Esposito. Sem sucesso.
Como da primeira vez, as informações sobre a russa eram vagas demais para que eles conseguissem encontrar um rastro que fosse de sua existência.
*4ª semana*
Quatro semanas se passaram desde aquela conversa. Quatro semanas sem qualquer contato entre ambos. Quatro semanas em que Beckett apenas observava de longe a casa do escritor, sem nunca ter coragem para "cruzar a linha"; apenas rezando para um Deus, que ela nem sabia se existia de fato, para que o escritor tivesse a chance de viver.
Quatro semanas de pura saudade.
*5ª semana*
Uma decisão fora tomada, ainda que pelo impulso...
Após ver o amigo se afundando em um mar de incertezas e ressentimento por um mês inteiro, Javier resolveu que era hora de tirar o escritor daquela fossa.
Aproveitando-se de seu dia de folga, o detetive foi ao loft decidido a arrancar Castle de lá, mesmo que precisasse usar a força física para isso. Tocou a campainha duas vezes e esperou poucos segundos até ser atendido por uma ruiva um tanto descabelada.
— Detetive Esposito. – ela exclamou, ajeitando os cabelos e dando espaço para o latino passar – Entre, fique à vontade.
— Boa tarde, Lex. Já falei para deixar as formalidades de lado. – Espo disse com seu habitual tom descontraído, e tornou a bagunçar os cabelos da adolescente ao passar por ela – Onde está seu pai?
— Enfurnado dentro do escritório atrás de um amontoado de papéis, resmungando de algo que não sei exatamente o que é, mas imagino que seja sobre a tal Kate.
— Ainda nessa?
— Sempre nessa. Ele já está ficando obsessivo... diga-me que veio até aqui arrastá-lo para fora de casa.
— Seu desejo será realizado, minha cara abóbora.
Esposito brincou, arrancando uma leve gargalhada da garota. Desde a investigação sobre a morte de Jackson Hunt, tanto Kevin quanto Javier se tornaram realmente próximos da família Castle. Ambos mantinham uma relação amistosa com Martha e Alexis, e as ruivas os adoravam.
— Bem, você já conhece o caminho. Se precisarem de mim, estarei em meu quarto estudando. É só chamar.
— Ok.
A menina subiu as escadas correndo e deixou Javi seguir até o escritório de Castle.
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Do lado de fora do loft, como já acontecia há um mês, Kate estacionou seu carro num local estratégico, pronta para gastar algum tempo de seu dia observando a residência do escritor.
Havia notado que Martha saía de casa todo dia pela manhã, por volta das nove horas, e apenas regressava no final da tarde. E que Alexis saía logo em seguida, voltava para almoçar e depois tornava a sair.
Em algumas das visitas escondidas, ela resolvera seguir as ruivas. Queria se certificar de que não corriam risco de morte devido ao fato de ainda não ter concluído a tarefa de acabar com a vida de Castle. Então, descobriu que Martha sempre ia para sua escola de teatro e que Alexis ia para a biblioteca na parte da manhã e para a escola de Martha na parte da tarde.
Ambas sempre em segurança. O que era um alívio para a russa.
"Elas já devem estar fora de casa uma hora dessas...", Kate disse em um sussurro, checando a hora marcada em seu relógio de pulso.
Um mês mantendo-se longe do escritor era quase uma tortura, e desse assunto ela entendia muito bem. A saudade que sentia de conversar com ele era grande demais. Sentia falta daquela sensação que só ele fora capaz de lhe causar, sentia falta de sentir-se normal ao lado de Rick Castle, sentia falta de sentir-se amada, sentia falta de perder algumas horas apenas jogando conversa fora. Até das brigas ela sentia falta.
— Como duas pessoas que mal se conhecem podem brigar tanto? – questionou com um sorriso brincando em sua face. Um sentimento de nostalgia apoderando-se de si.
E foi nesse clima de recordações e saudades que ela tomou uma decisão. Iria atrás de Rick, mesmo que ele a expulsasse de sua vida. Precisava vê-lo de perto novamente.
Saiu de seu carro, certificando-se de que o havia trancado e se dirigiu à recepção do enorme e luxuoso prédio.
E, lá dentro, alheio à visita que logo mais receberia, estava um Richard Castle totalmente relutante em deixar seu lar para sair com o amigo.
— Castle, nós já procuramos em todos os locais possíveis qualquer mínima informação sobre essa tal de Kate. – Javier afirmou, já quase desistindo de convencê-lo a sair – Não vai ser trancafiando-se em casa que você conseguirá alguma resposta.
— Tudo bem. Só me dê alguns minutos para tomar um banho e me arrumar.
— Sério?
— Sim. – o escritor confirmou contrariado, mas dando-se por vencido – Eu já volto. Finja que a casa é sua e...
Porém, Espo já havia se atirado na enorme poltrona que havia no local e jogado as pernas para o alto, com um copo de uísque em mãos.
— Não que eu precise dizer isso. – Castle completou em um sussurro, mantendo um sorriso no rosto e virando as costas para entrar no quarto.
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Imaginando que o escritor proibira sua entrada no prédio, Kate aproveitou-se da distração do porteiro e entrou às escondidas no local, dirigindo-se o mais rapidamente possível para o andar do escritor.
Parou em frente à porta e sentiu o coração quase saindo de seu peito de tão rápido que palpitava.
"Controle-se, Kate. Você até parece uma adolescente apaixonada pelo primeiro namorado do colegial", sua consciência a advertiu e ela deixou escapar uma baixa e curta risada pelo pensamento. Respirou fundo e deu três batidas à porta, torcendo para que o escritor estivesse em casa, e sozinho.
— Ok, Lex. – Kate escutou uma desconhecida voz masculina do lado de dentro do loft antes de ver a porta sendo aberta por homem de pele morena.
— Olá, eu estou procurando por Richard Castle? – a afirmação saiu mais como uma pergunta.
Será que se enganara de apartamento?!
— Ele está um pouco ocupado no momento, mas, se quiser esperar, logo ele aparece.
Esposito informou, analisando o rosto da mulher à sua frente. Tinha uma forte impressão de que já a conhecia, mas não conseguia se lembrar de onde.
— Talvez seja melhor eu voltar em outra hora.
— Tudo bem. Quer deixar seu nome para que eu o informe de que veio procurá-lo?
— Katherine. – ela disse simplesmente, deixando seu sotaque russo bem evidente na pronúncia de seu nome, e foi o que bastou para o detetive se lembrar de onde a conhecia.
Já havia se passado vários anos, mas aqueles olhos esverdeados e aquele sotaque russo tão forte na pronúncia de seu nome permaneciam os mesmos...
Espo se viu voltando no tempo, para a época em que era um adolescente de quinze anos, com algumas espinhas na face, acompanhando seu pai – diretor da CIA, à época – em uma "reunião de negócios" com Jim Beckett. O diretor Esposito tinha planos para fazer de seu primogênito o seu sucessor na direção da CIA, portanto, sempre o obrigava a acompanhá-lo nessas viagens, ainda que não permitisse que ele participasse efetivamente das reuniões. Era importante apresentá-lo a todos para começar a introduzi-lo naquele mundo.
Javier se lembrou de como havia gostado de ouvir aquela pequena garotinha de treze anos pronunciar seu nome com tanta firmeza, como se tivesse um enorme orgulho de tê-lo recebido.
Eles conversaram durante todo o tempo em que seus pais ficaram metidos dentro daquele enorme escritório tratando de negócios políticos. O latino ficara impressionado em saber que aquela doce menina era filha do líder da RR. Sim, ele sabia muito bem quais eram os negócios daquela célula, mas não podia ir contra seu pai. Havia aceitado seu destino de fazer parte daquele mundo cheio de violência e negócios sujos.
Até a CIA tinha o seu lado negro, e isso nunca fora segredo para ninguém...
— Katherine Beckett. – Espo falou, imitando o sotaque russo da moça e fazendo-a ficar alarmada. Como diabos aquele homem sabia seu sobrenome?! – Pela surpresa estampada em seu rosto, eu posso deduzir que não se lembra de mim.
Kate permanecia estática, como se seus pés tivessem sido colados naquele piso.
"Não se lembra de mim? Eu deveria me lembrar desse homem?!", ela se questionou mentalmente, ainda tentando sair do transe ao ouvir seu sobrenome sendo pronunciado por aquele estranho.
— Nós nos conhecemos no seu país de origem. – ele informou, percebendo que a mulher não diria mais nada – Você tinha treze anos na época. Eu fui com meu pai, o Diretor Esposito, até o antigo esconderijo da RR para uma reunião com o seu pai...
— Esposito. – Kate disse pensativa, recordara-se do nome e do garoto americano perdido nos corredores da célula – É, eu lembro sim.
Ele sorriu para ela ao notar a expressão de espantando sendo substituída pela compreensão, e cruzou os braços analisando-a.
— Então você é a misteriosa Kate... – a referência ao apelido fez a mulher se lembrar de onde se encontrava.
Por um momento, Beckett havia se esquecido de que estava parada em frente à entrada do loft de Castle.
— Eu preciso ir. – a morena disse de supetão e virou as costas para fugir dali, mas foi impedida pelo detetive.
Só naquele momento ele foi dar-se conta do que estava acontecendo ali. Ela era filha do líder de uma finada organização russa. Ao menos era isso o que todos acreditavam, mas, se Kate estava em território estadunidense, a RR poderia ainda existir.
O pensamento o deixou em alerta e ele forçou o aperto no braço da mulher, fazendo-a adentrar o local. Estava na presença de uma possível integrante de uma perigosíssima agência secreta, não poderia deixá-la escapar.
— O que está fazendo nos Estados Unidos?
— Eu moro aqui. – ela respondeu com firmeza, soltando-se.
— Não, não é tão simples assim. Eu lembro muito bem, você estava em treinamento quando nos conhecemos, iria se tornar a nova líder da Red Room. Eu acompanhei sua trajetória de longe até... meu pai falecer.
Espo falava firme, porém aos sussurros. Queria arrancar toda a verdade dela, mas não poderia correr o risco de Rick, ou até mesmo Alexis, ouvir aquela conversa. Muita coisa estaria em jogo se algum dos dois tomasse conhecimento daquele mundo de horrores.
— Eu fugi. – ela disse após soltar um longo suspiro, sabia que com Javier não poderia usar meias verdades, ele fizera parte do mesmo mundo que ela.
— Então a célula ainda existe, a KGB ainda existe... – ele disse mais para si mesmo do que para Kate.
— Muito me impressiona o futuro diretor da CIA ter acreditado que tudo aquilo foi desfeito.
— Eu não me tornarei diretor da CIA como meu pai queria e, pelo que posso ver, você também desobedeceu aos desejos de seu pai.
— Jim Beckett não é meu pai! – ela soltou a frase quase em um rosnado.
Odiava quando se referiam a ela como filha daquele homem. Ela não podia negar os laços sanguíneos, mas jamais aceitaria que se referissem a ele como seu pai. Jim fora tudo, menos um pai.
— Eu preciso ir, se Rick me ver aqui... ele corre perigo. Eu nem devia ter voltado aqui.
— Perigo? Você quer dizer que a RR tem assuntos a tratar com o Castle?
— Não, não a RR. Eu já não tenho qualquer ligação com a RR, Esposito. – Kate declarou, torcendo para que o latino acreditasse nela e parasse de tocar naquele assunto dentro da casa de Castle.
— Eu trabalho na NYPD. Castle tem ido até lá para tentar encontrar você.
Espo informou, atraindo ainda mais a atenção da moça.
— Ele conseguiu?
— Ainda não, mas está perto.
Kate lhe lançou um olhar desconfiado e cruzou os braços, esperando que ele passasse mais informações sobre as pesquisas do escritor. E Espo entendeu.
"Castle tem certa fissura por teorias da conspiração. Ele sabe que você é russa... não é algo difícil de adivinhar, já que seu sotaque é bem marcante. E ele sabe que você trabalha para alguma organização secreta, não vai demorar até ligar os pontos. O escritor é esperto", Javi concluiu.
— Onde ele está?
—No banho. Vai demorar a sair ainda.
Kate puxou o ar, passando uma mão pelos cabelos e mordiscando o lábio – clássico sinal de nervosismo –, andando de um lado para o outro.
— Você precisa fazê-lo parar.
— Não é tão fácil assim convencer Castle de que ele deve desistir de descobrir algo. Ele nunca para.
— Esposito, você não está entendendo a gravidade da situação.
— Então explique, e eu posso tentar parar o Castle. – o detetive foi firme em sua sentença, fazendo Kate ver que somente conseguiria proteger o escritor se abrisse o jogo.
— Tudo bem. – ela concordou resignada – Mas apenas direi a você se eu tiver a garantia de que continuarei livre.
— O que... – mas Kate o interrompeu.
— Eu preciso proteger Rick Castle, e preciso finalizar minha tarefa.
— Ok.
Ele disse simplesmente e a mulher lhe lançou um olhar de desconfiança, tentando decidir se seria realmente seguro contar toda a verdade para alguém ligado diretamente à polícia dos EUA.
"Que alternativa você tem, Kate? Ou você conta toda a verdade ou ele conta tudo o que já sabe ao Castle", ela pensava consigo mesma analisando a situação.
Vendo que ela se mostrava hesitante, o detetive voltou a falar. Precisava desse voto de confiança de Kate. Seu amigo estava em perigo e ele não poderia lutar contra isso se não soubesse do que se tratava.
— Eu conheço seu passado, Beckett. – ele disse atraindo a atenção da morena – Eu sei que você cresceu na Red Room e sei exatamente quais eram, ou são ainda, os negócios dessa facção. Não é como se eu fosse me impressionar com o que quer que você me conte.
— Você está certo.
— Independente do que seja, e devo lembrá-la de que já tenho uma ideia da vida que você vem levando, eu não a entregarei. – ele afirmou, vendo-a soltar um suspiro de alívio – Desde que me convença de que está trabalhando para o lado certo.
Kate o encarou por alguns segundos, analisando a proposta antes de voltar a falar.
— Não acho que esse seja o local mais adequado para termos esse tipo de conversa.
— Não tenho confiança o bastante para te deixar sair daqui sem que me dê as respostas de que preciso.
Espo disse com firmeza, cruzando os braços acima do estômago.
— Ok. – ela concordou e voltou seu olhar para a direção do quarto de Castle – Tem certeza de que Rick irá demorar?
— Vou verificar. Não saia daqui.
— Não irei. – ela afirmou e se jogou no sofá, indignada por estar recebendo ordens de uma pessoa que mal a conhecia.
O detetive caminhou até a porta do escritório e gritou alto o suficiente para que Castle ouvisse de dentro do banheiro: – Escritor, você morreu embaixo desse chuveiro? Precisa que eu ligue para 911?
— Não me amole! Você queria que eu saísse de casa, então espere o meu tempo. Mais trinta minutos e poderemos ir. – Rick respondeu, ainda com o chuveiro ligado, e o detetive riu da leve revolta do amigo, voltando para o cômodo em que Kate o esperava como havia afirmado que faria.
— Ele...
— Eu ouvi, mais trinta minutos. – ela respondeu com a voz mais leve.
Sentia seu coração aquecido por ter escutado a voz de seu escritor depois de tantas semanas, ainda que ele não soubesse de sua presença ali.
— Bem, comece.
— Ok. – Kate se endireitou no sofá, vendo o detetive se sentar de frente para ela. Pronto para escutá-la atentamente.
Então, deu início a seu relato.
"Eu fugi da RR há onze anos, em 2006. Eu já pretendia fugir de lá com um antigo namorado, mas ele foi assassinado antes de conseguirmos escapar. Um... amigo... me ajudou a escapar. Você deve tê-lo conhecido, Michael Royce, ele é uma espécie de mentor de Jim Beckett. Foi meu treinador na célula", resolveu contar desde o início, para não correr o risco de ser mal interpretada.
Precisava que Javier Esposito confiasse nela, ou todo seu plano iria por água abaixo.
— Você deve lembrar que, no dia em que nos conhecemos, eu contei que nunca quis fazer parte da RR. – Espo afirmou positivamente com a cabeça – Então, esse desejo nunca mudou. Eu cresci lá e fui treinada para ser parte daquilo tudo, mas sempre tentei fugir. Sempre odiei Jim Beckett e toda a célula. Eu pretendo acabar com todos eles.
— E como fará isso?
— Michael Royce, além de meu antigo treinador, é também meu informante dentro da RR. Ele é a única pessoa em que eu confio lá. Royce me informa cada passo dado pelos integrantes da célula, principalmente por Jim. – Kate explicou – Eu não posso simplesmente invadir o lugar e esperar que consiga acabar com todos eles... tudo precisa ser cuidadosamente planejado.
— Entendo. Mas o que Castle tem a ver com toda essa história?
— Quando eu fugi da RR, eu não sabia para onde ir, mas com certeza não poderia ficar na Rússia. Ou Jim me encontraria. – ela ignorou a pergunta e continuou seu relato – Então, eu vim atrás de um antigo conhecido de mamãe. Prometi fidelidade e ele me deu segurança para que ninguém da RR tivesse conhecimento de meu paradeiro.
"O que faço aqui não é lícito, como você deve estar imaginando. Ainda que eu odeie tudo o que a KGB representa, essa é a minha natureza. Eu sou uma assassina treinada. Meus primeiros anos nesse local que me... acolheu, digamos assim... foram de adaptação. Dediquei-me a conquistar a confiança de todos ali, principalmente de meu chefe, e ganhei meu espaço. Somente há três anos eu consegui fazer contato com Michael Royce e retomar meu plano de extinguir a RR".
— Está me dizendo que esse novo "trabalho" é de matadora de aluguel?!
— Não exatamente, mas sim. Funciona da mesma maneira. Eles me informam quem devo eliminar e eu faço.
— "Eles"? – Espo frisou a referência de maneira sugestiva, e Kate entendeu seu propósito.
— Não! Pode esquecer. Já estou contando coisas demais a você, e só faço isso porque você fazia parte desse mesmo mundo e pode oferecer proteção a Castle. Mas não entrarei nesse tipo de detalhe.
— Tudo bem. Conclua a história: onde Castle se encaixa nisso tudo?
— Ele se tornou perigoso para meu chefe, então me mandaram tirá-lo do caminho. Mas... – ela abaixou a cabeça, mexendo os dedos nervosamente.
— Você não quer fazer isso e vem buscando uma forma de livrá-lo. Acertei?
— Exatamente.
— Castle precisa saber disso. – ele falou firme e Kate levantou a cabeça rapidamente, encarando-o com temor.
Ele só poderia ter perdido o juízo! Rick Castle não poderia saber de nada disso, ou acabaria descobrindo a verdade sobre seu pai e a odiaria. Se é que já não a odiava.
— Ele não pode saber.
— Tem algo mais que não está me contando, não é? Algo grave... como, por exemplo, por que um simples escritor de mistérios policiais se tornaria perigoso para seu chefe?!
Kate endureceu ainda mais a expressão em sua face. Não queria contar nada sobre Vulcan Simmons, ainda mais a alguém de dentro da polícia.
— Tudo bem, não diga. Mas esse assunto ainda não está terminado. – Espo declarou firmemente – Eu não vou deter você, mas te vigiarei de perto.
— Imagino que isso queira dizer: sem assassinatos.
— Exatamente.
Ela bufou e revirou os olhos. "Como se eu tivesse alguma escolha", o pensamento debochado lhe passou pela cabeça ao mesmo tempo em que ambos ouviram Castle sair do banheiro e se mover pelo quarto.
Esposito se levantou, atraindo a atenção da moça, e se dirigiu até a porta do loft.
— Vou deixá-los a sós. Imagino que vocês tenham muito que conversar. – foi apenas o que ele disse antes de sair porta afora, deixando Beckett ainda sentada no sofá.
— Estou pronto, Javi. – Castle disse de dentro de seu quarto e a morena ouviu seus passos se aproximando do local onde se encontrava.
Após um mês inteiro, finalmente ela ficaria frente a frente com seu escritor.
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