Meu Doce Príncipe
1 Capítulo Único
Nunca pensei que você me faria transpirar
Nunca pensei que eu te faria o mesmo
Nunca pensei que sentiria tanto desejo
Nunca pensei que sentiria tanta vergonha
Chovia do lado de fora do apartamento de Nancy Stewart, mas ela não se importava. Protegida pelas quatro paredes que a cercavam, ela estava sentada no sofá velho e puído, assistindo a televisão, esperando o seu programa favorito acabar. Seria a última vez que ela o assistiria. Quando desligou a televisão se perguntou se sentiria falta disso. Ela nunca saberia a continuação. Nunca conheceria o final.
Pelo menos não aquele.
Depois de decidir que aquilo não importava, ela levantou e andou pelo apartamento, arrastando os pés descalços pelo carpete. O atrito queimava a sola de seus pés, mas ela gostava da sensação. A dor a fazia se sentir viva.
Por enquanto.
Em cima da bancada da cozinha ela colecionava garrafas de vinho caro, vinhos que ela guardava para uma ocasião especial. Estavam todos fechados. Mas aquele era um dia especial pra ela. Que outra ocasião seria mais apropriada? Ela pegou o saca-rolha da gaveta, não antes de admirar uma imensa e brilhante faca afiada, e abriu uma das garrafas, a que lhe parecia mais cara. Serviu o líquido escuro em uma taça de cristal e o balançou. Será que o sangue que ela sentia lhe esquentando as veias parecia com vinho?
A resposta viria mais tarde.
Eu o dragão podemos espantar toda a dor para longe
Então antes que meu dia termine, lembre-se:
Meu doce príncipe, você é o único
Ainda com a taça em mãos, bebericando do seu conteúdo para se acalmar, Nancy foi até a janela. A chuva torrencial escorria pelo vidro como lágrimas descendo pelo rosto de uma criança. As luzes distantes não eram nada além de pontos luminosos embaçados e fora de foco. Com dificuldade ela levantou a janela. A chuva a acertava no rosto e novamente a sensação fez com que ela se sentisse mais viva do que nunca. Agora ela conseguia enxergar a cidade. Nova Iorque, ela tinha a seduzido e depois a decepcionado. Todas aquelas luzes a atraíram como o lampião atrai a mariposa. Só que nesse caso tinha sido uma armadilha. Talvez aquela cidade tivesse causado, embora não literalmente, a sua morte. Ela se sentia mais um dos corpos vazios que vagavam sem rumo pelas avenidas e becos de Nova Iorque, depois de terem suas almas sugadas pela cidade.
Mas a grande cidade não tinha sido a única a lhe dar esperanças apenas para arrancá-la de suas mãos depois. Brian tinha feito a mesma coisa, porém sem intenção, ela sabia disso. Ele chegara como um escritor, um ilustrador, um pintor dos quadros mais belos na vida de Nancy. Seu sorriso, sua beleza, seus olhos haviam despertado nela um conto de fadas. Ele fez com que ela acreditasse nas histórias que ouvira durante a infância. E mais ainda, fez com que ela pensasse que ele era o príncipe dela, vindo a resgatar da mais alta torre. Mas as histórias que sua mãe lhe contava antes de dormir não mencionavam o príncipe encantado dizendo à princesa que ele tinha que ir embora, que não podia mais viver assim.
Nunca pensei que tivesse de me retirar
Nunca pensei que teria que me abster
Nunca pensei que isso fosse dar errado
Feche a buraco na minha veia.
Lá embaixo os táxis continuavam percorrendo as ruas, pessoas corriam para se proteger da chuva, visitas entravam e saiam do prédio, como sempre fizeram e continuariam a fazer. Nenhuma das pessoas ali fazia idéia do que ela estava prestes a fazer. E será que se soubessem interromperiam suas rotinas para tentar impedi-la? Talvez eles nem se importassem. Foi então que um pensamento a assombrou. Depois que acontecesse... a vida continuaria. O sol não iria deixar de nascer, nem a chuva de cair. A chuva era a única que chorava por ela, e continuaria chorando depois que ela se fosse.
Quando terminou a taça de vinho, Nancy não se importou em enchê-la de novo. O álcool descendo em sua garganta e lentamente chegando a sua corrente sanguínea não dizia nada a ela. O leve torpor que o vinho levava a sua mente não se comparava ao que já estava lá presente. Sua paixão era outra. E ela lhe aguardava em seu quarto.
Eu e o meu valioso amigo podemos manter longe toda a dor
Então antes que meu dia termine, lembre-se:
Meu doce príncipe, você é o único
Em uma pequena nécessaire debaixo da cama estavam escondidas a seringa e uma pequena quantidade de heroína. Não era muito, mas era o suficiente. O ritual de diluir a droga em uma colher, que tanto a fascinava, pareceu rápido demais. Antes que ela percebesse, e quase que automaticamente, a agulha perfurava a sua pele, lentamente liberando o líquido ainda quente em sua veia antecubital. Com o coração acelerado, não demorou muito até que o sangue chegasse até o seu cérebro, levando junto toda a mágica que a droga escondia.
Não era a toa que aquele opióide fora batizado de heroína. Nancy deitou na cama, deixando-se levar pelas ondas de prazer que pareciam inundar seu corpo. Por alguns minutos ela quis viver para sempre, ela até pensou ser imortal. A dor havia ido para longe. Mas logo toda essa sensação de bem-estar esvaiu de seu corpo pelo suor frio que molhava sua camisa, pois ela sabia que essa cena não estava completa. As ondas de prazer deram lugar ao mar de lembranças, e Nancy estava entorpecida demais para não ser afogada por elas.
Era Brian quem estava faltando, mas ela podia vê-lo no filme que se passava em suas pálpebras.
Nunca pensei que poderia chegar tão alto
Nunca pensei que você iria foder com a minha cabeça
Nunca pensei que tudo poderia acabar
Nunca pensei que você iria quebrar as correntes.
Quantas vezes essa cena não havia se repetido: Brian chegando cansado depois de um dia de trabalho. Um trabalho que não era uma vocação. Ela sabia o quanto ele se sentia frustrado por não poder seguir seu sonho. Assim como ela, ele tinha largado toda uma vida para trás, atraído pelas promessas de Nova Iorque. A única diferença é que Brian tinha talento para alguma coisa, ela não. Então ela se oferecia para esquentar um pouco do pó persa. Ele se sentava na cama dela e quando ela voltava, ele já estava com próprio cinto apertado no antebraço. Para Nancy não havia prova de amor maior do que ele deixar que ela injetasse aquela droga tão pesada em seus braços. Ela esperava e observava enquanto a cabeça de Brian pesava para trás e ele acabava caindo de costas no colchão. Só então ela se dava ao direito de se injetar também. E como um casal apaixonado, ela deitava ao seu lado, sem que nenhum dissesse nada. Eles só respiravam profundamente, quase em sincronia.
E então, um belo dia, Brian disse que não tinha mais condições de continuar com isso. Ele foi embora sem nem se importar em tirar suas roupas do armário. Elas ainda estavam lá, penduradas no cabide, pois mesmo depois de três meses, Nancy ainda tinha esperanças que ele voltasse.
Mas ele não iria voltar.
Essa conclusão fez com que Nancy se levantasse abruptamente da cama, ignorando o fato de que suas pernas ainda estavam bambas. Ela abriu as portas do armário com força, quase as arrancando e foi tirando, uma a uma, as blusas de Brian do cabide. Ela as atirou no chão, e quando a última peça estava estirada no carpete, ela chorou. Pela primeira vez na noite, ela deixou que tudo que não cabia mais em seu peito transbordasse pelos seus olhos.
Deixando que seus joelhos cedessem, e ainda soluçando, ela pegou uma das blusas de Brian e a levou ao rosto. O aroma tomou conta do seu olfato, o perfume dele ainda estava presente na gola depois de todo esse tempo. Ela tinha perdido a capacidade de amar a si mesma ou qualquer outra pessoa, mas ainda o amava como se ele nunca tivesse ido embora. Como se ele fosse tocar a campainha a qualquer momento e aqueles três meses não tivessem nunca acontecido.
Mas assim que o efeito principal da droga pareceu se dissipar quase por completo, e não passava de uma série de efeitos secundários, ela se lembrou do que tinha se decido a fazer. Não podia mais evitar o inevitável. Era a hora.
Eu e você, meu amor, costumávamos mandar toda a dor para longe.
Então antes que meu dia termine, lembre-se:
Meu doce príncipe, você é o único.
O ruído do carpete enquanto caminhava a passos lentos até a cozinha soava como a marcha fúnebre aos ouvidos de Nancy. Os talheres sacudindo na gaveta pareciam os sinos de uma igreja, badalando ao meio dia. Ela viu seus olhos no reflexo da faca, eles estavam vermelhos e inchados por todo o choro. Ela se sentou no chão e chorou novamente, não tinha mais forças pra reprimir as lágrimas. Mal tinha forças para segurar a faca pesada e extremamente afiada.
Mas faria um esforço, pois seria a última coisa que ela teria em mãos.
Ela foi até o banheiro e se posicionou em frente ao espelho, se apoiando na pia. Ela não parecia tão diferente por fora, como conseguia não se reconhecer por dentro? Se arrependendo de não ter ligado para os seus pais, para dizer que os amava mais uma vez, ela levou a faca até o pulso esquerdo. Só conseguiu um pequeno corte antes de afastar a faca por reflexo. Ela quase não sentia dor, mas não importava o quanto sua mente quisesse, o resto do corpo ainda recusava a se machucar. Largando a faca dentro da pia, ela abriu o espelho, que era a porta para um armário cheio de medicamentos e maquiagens. Nancy pegou alguns analgésicos, cinco ou seis, talvez até mesmo dez. Naquele momento morrer de overdose não era uma de suas maiores preocupações. E antes que colocasse o frasco do remédio de volta, o batom vermelho que ela não usava há tanto tempo caiu na pia, bem ao lado da faca. Ela ia o colocar no lugar e fechar o armário quando se lembrou da última vez que o usara.
Foi no dia em que conheceu Brian, ela tinha certeza disso.
Se aquilo era um sinal ou não, foi o suficiente para trazer a tona o intenso sentimento que ela sentia por ele. Como ela podia estar o deixando assim? Os comprimidos começaram a fazer efeito, Nancy tinha dificuldade de se manter de pé. Mas não era assim que ela queria deixar esse mundo. Se sua vida não tinha saído como planejado, pela menos sobre a sua morte ela queria ter algum controle.
Ele não queria que Brian achasse que tudo aquilo era culpa dele. Na verdade ele era o único motivo que ela teria para viver. Ela viveria por ele se ele pedisse. Deixaria a faca na pia e se afastaria se ele a levasse de volta para casa. Sua verdadeira casa, longe de Nova Iorque, longe do apartamento assombrado pelas memórias, longe daquela cama impregnada com o vício. Com o armário já fechado e o espelho em sua frente, ela pegou o batom e escreveu a única coisa que ela pensava em dizer para Brian.
Ela já estava se sentindo tão tonta que mal conseguia ver o corte vertical que acabara de fazer em seu pulso. O sangue era mais quente do que ela esperava, e escorria pelas suas mãos. Ela sorriu antes de cair no chão, pensando na ironia que era a expressão “sujar aos mãos de sangue”. Ela se sentia cada vez mais fraca, deitada no chão do banheiro, olhando fixamente para a lâmpada amarelada que pendia do teto. O seu brilho lentamente ia apagando, e assim tudo em volta parecia escurecer também.
A falta de oxigênio em seu cérebro a fazia alucinar. Ela ouvia claramente a sua campainha tocando. Ou era isso que ela pensava. O sangue não parecia vinho, como ela constatou. Era mais espesso, mais escuro, e havia uma beleza no sangue que era incomparável. Era como algo belo um pouco antes da morte... Ou talvez aquela fosse a beleza da morte. As batidas na porta estavam cada vez mais altas, mas também mais distantes. Talvez fosse Nancy que estivesse se afastando, pois ela se sentia longe de tudo aquilo. Como se já não houvesse realidade no que ela via.
E um pouco antes que tudo escurecesse de vez, ela ouviu as últimas palavras que seus ouvidos teriam o prazer de registrar.
- Nancy, abra a porta!
E dessa vez ela tinha certeza de que aquilo era real. Ela não teria imaginado a voz de Brian tão claramente assim. Mas embora tenha tentando, não conseguiu forças para levantar e ir até ele. O desespero inundou seu âmago. A imagem que ficaria guardada para sempre em seus olhos já sem brilho seria a mensagem escrita no espelho.
“Meu doce príncipe, você é o único.”
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