Meu Diário Secreto

2 Capítulo 2: E-mails são arcaicos


—Por que parece que você levou um soco em cada olho? — Sarah perguntou, enquanto andávamos em direção a sala de aula.

—Eu meio que passei a madrugada trocando e-mails com o garoto do projeto do diário. — respondi, disfarçando o sorriso.

—Mentira, garota. — ela disse, surpresa — O papo foi tão bom assim?

—Ah, foi normal. — Menti. Não havia sido um papo normal, na verdade foi o melhor papo que eu havia tido em anos. Mas dizer isso a Sarah faria com que ela insinuasse coisas, e eu não precisava de mais insinuações. — Mas ele não desabafou coisa alguma ainda.

—E sobre o que vocês falaram que te tomou tantas horas de sono?

—Sei lá, coisas. — respondi — Os gostos dele, os meus gostos. Coisas da vida. Ele é bem legal, inclusive, não consigo imaginar o JC no meio desses riquinhos esnobes. Esse negócio de manter a identidade secreta já tá me dando nos nervos — confessei.

—Mas essa é a graça! — Sarah disse — Se meu diário soubesse quem eu sou, depois de tudo o que já mandei ontem, acho que eu cavaria um buraco pra enterrar minha cabeça.

Um garoto ruivo do time de futebol nos interrompeu entregando um panfleto.

—E aí meninas, tudo bem? Nesse fim de semana daremos uma festa de boas-vindas aos calouros, e geral ta convidado. Apareçam lá pra se divertir um pouquinho.

Mal abrimos a boca pra responder e o garoto já estava abordando outras pessoas para divulgar a festa. Sarah analisou o papel e disse:

—É na casa do Peter Davidson! — ela demonstrou a empolgação esperada ao saber que entraria pela primeira vez na casa do seu crush. Que por sinal também era o crush de 99% das garotas do Watertown. — Nós precisamos ir!

—Nós? — perguntei. A última coisa que eu precisava para o meu fim de semana era ver um bando de filhinhos de papai se embebedando e dando em cima das calouras.

—Nós! — ela exclamou — Poxa, amiga, é na casa do Peter. Quais são as chances de uma mera mortal como eu entrar na casa desse deus grego de novo? Por favor, vai! Por mim!

Ela fez sua expressão à la gato de botas — biquinho e olhos suplicantes — para me convencer. Essa desgraçada sabia que isso sempre funcionava comigo, porque eu não gostava de decepcionar a minha única amiga.

—Tá, tudo bem. — respondi — Mas você fica me devendo uma!

Sua expressão mudou para um sorriso de felicidade.

—Combinado!

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Assunto: Festa do Peter Davidson

Ei, olá! Você ouviu falar na festa desse fim de semana?

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Assunto: Alguém não ouviu falar?

Seria impossível fugir dos panfletos do ruivinho hoje aheuahehah

Você vai?

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Assunto: Contra a minha vontade

Não sou muito de festas, sabe. Mas minha amiga tem um crush pelo Davidson, então preciso fazer minha função de BFF e acompanhar a garota

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Assunto: Pobre CS

A sua amiga sabe que 99% das meninas da festa tem um crush pelo Davidson, né?

Acho que também vou.

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Assunto: Pobre CS M E S M O

Sim, ela sabe. Mas amor platônico tem dessas coisas.

Confesso que vai ser muito esquisito saber que estaremos no mesmo recinto e eu não fazer ideia de quem você é.

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Assunto: Também tenho uma confissão

Hoje na escola não parei de te procurar. Mas percebi o quanto estava sendo idiota, porque como caralhos eu conseguiria saber quem é a misteriosa CS.

Chloe Stinson?

Carrie Smith?

Cass Stewart?

Isso tá me torturando!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Assunto: São muitos pontos de exclamação

HAHAHAAHAHAHAHAHA sinto muito, nenhum está certo.

Mas se serve de consolo, JC também é um tanto quanto comum. Quem é você? Jesus Cristo?

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Assunto: FUI DESCOBERTO

Não acredito que desvendou minha identidade. Vou ter que te mandar pro inferno ;)

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Assunto: Eu vou descer cantando Lady Gaga

Muito engraçado

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Assunto: Estou me cansando de e-mails

Não acha muito arcaico enviar e-mails? O que acha de tentarmos conversar por outro meio? Sem que comprometa o sigilo, claro

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Assunto: Acho uma ótima ideia

Que gracinha você usando palavras como "arcaico". A professora de redação ficaria orgulhosa.

Só que eu também estou cansada de outra coisa: você não começou a falar das tretas da sua vida. Pare de fugir do assunto e solta o desabafo!

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Assunto: Hum

É que é tudo tão...tão...sei lá, sabe?!

É cansativo tentar explicar.

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Assunto: Eu tô aqui pra isso

Promete que se sairmos do e-mail pra conversar por outro lugar, você faz um esforço e começa a falar?

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Assunto: Fechado!

Pode me mandar seu número que envio SMS ;)

—Vocês saíram do e-mail? É sério isso? — Sarah cochichou para não chamar a atenção da professora, que explicava algo sobre física, fórmulas e coisas que eu abominava.

—Por SMS a conversa flui melhor! E ainda mantemos todo o sigilo. — expliquei, deixando o tom de voz baixo também.

—Aham, eu tô vendo onde isso vai parar. — ela disse, com uma expressão maliciosa.

Revirei os olhos ao mesmo tempo em que meu celular tremeu. Tirei ele do bolso discretamente e olhei o SMS que acabara de chegar.

JC: Foi engraçado você me chamar de Jesus Cristo ontem, porque o lugar que eu vivo é tudo menos o céu. A minha casa é um inferno, e eu detesto cada segundo que eu passo nela. Gosto de ficar na escola por isso. Você pediu um desabafo, tá aí um desabafo.

P.s.: desculpa mandar tão de repente. Tô entediado na aula.

CS: Me explica um pouco mais sobre isso. Se você se sentir à vontade, claro. Não tem problema mandar mensagem agora, minha aula tb tá um saco.

JC: O meu pai torna tudo horrível. A minha mãe também deve se sentir péssima morando lá, e se minha irmãzinha fosse mais velha também sentiria. É como se tudo o que fizéssemos fosse pisar em ovos, porque nunca dá pra saber o que ele vai fazer. Ele sempre acaba fazendo minha mãe de saco de pancadas e eu o odeio por isso.

CS: Eu não sei bem o que dizer, mas quero que continue falando. Acho que é bom compartilhar essas coisas com alguém.

JC: Eu já tentei fazer ele parar, sabe? Mas minha mãe conversou comigo pedindo pra que eu não tentasse mais. Ele tá acabando com ela e eu não sei o que fazer, CS. Me sinto frustrado com isso todos os segundos de todos os dias.

CS: Ei, eu sei que pode parecer muito ruim agora, e que eu ainda não tenho noção de toda a situação, mas acredite em mim quando digo que vai ficar tudo bem. Você não vai se sentir assim pra sempre.

JC: Eu acredito em você.

A semana passou em um ritmo tão rápido que mal a percebi. JC e eu havíamos mantido diálogo todos os dias, durante consideráveis horas. Uma vez que ele havia desabafado, os assuntos se multiplicaram e conversávamos tanto sobre coisas banais, quanto sobre tudo o que o incomodava.

Eu sei bem que não sou a melhor pessoa do mundo para dar conselhos, mas tenho consciência de ser uma ótima ouvinte. No final das contas, percebi que JC precisava mais ser "ouvido" do que receber conselhos que resolvessem a sua vida. Em algum momento ele chegou a dizer que já havia tentado conversar sobre as questões familiares com alguns amigos, mas que acabava desistindo por motivos que desconhecia. Admito que me senti especial ao saber que ele estava confiando a mim os seus segredos.

Sobre os demais grupos de escritores e diários, os rumores eram de que algumas pessoas já haviam desistido da experiência, algumas simplesmente por preguiça, outras por receio em conversar com um desconhecido, e houve até um caso de um escritor que descobriu que seu amigo era o diário da pior maneira: falando mal do indivíduo pra ele mesmo.

Em contrapartida, também havia pessoas realmente satisfeitas com a experiência. Sarah era uma delas. Ela estava super empolgada com a garota a quem escrevia. Passava tanto tempo falando sobre ela que eu já estava passando a shippar* fortemente as duas.
O dia da famigerada festa de boas vindas havia chegado e eu estava em meio a bagunça do meu quarto tentando decidir qual roupa seria mais apropriada para a ocasião. Meu celular começou a tocar ao som de Bohemian Rhapsody e exibiu a foto sorridente de Sarah no visor.

—Tô no viva voz. — atendi enquanto colocava um vestido.

—Eu não tenho roupas! — Sarah respondeu e pela sonoridade percebi que também estava no viva voz. — Estou a um passo de ir a essa festa da mesma forma que vim ao mundo.

—Pelo menos assim você chamaria a atenção do Peter. — respondi rindo, imaginando a cena. — E com certeza de todos os outros garotos da festa. E de algumas meninas também.

—Pensando assim agora me parece uma boa ideia. — ela brincou. — Eu preciso estar um arraso, pode ser minha única chance antes de todos irmos embora para a faculdade.

—Você fala como se ainda não tivesse um ano pela frente. — revirei os olhos. — Te encontro lá às nove?

—Fechado. — ela respondeu e desligou.

Ouvi alguns barulhos vindos do andar de baixo e imaginei que fosse minha mãe chegando em casa.

—Mãe? — gritei.

Nenhuma resposta.

Resolvi descer até lá e verificar, mas me arrependi no segundo em que pisei na sala de estar, cuja iluminação vinha apenas do abajur no canto. Eu já sabia o que poderia encontrar baseado nas experiências passadas de minha mãe chegando bêbada em casa, mas fui surpreendida pela companhia que ela tinha dessa vez. Um homem de meia idade que cheirava a álcool e cigarros estava já sem camisa em cima de uma mãe que aparentava tão bêbada quanto, provavelmente inundando nosso sofá com aromas nada agradáveis.

—O que caralhos ta acontecendo aqui? — interrompi, visivelmente irritada.

O homem levantou a cabeça e me encarou com uma expressão maliciosa, em seguida se direcionou a minha mãe e perguntou:

—Trouxe uma companhia pra nossa brincadeira?

Antes que eu pudesse mandar ele ir para o inferno, a mulher o empurrou e já jogou sua camisa em cima dele.

—Você tá ficando maluco? Essa é a minha filha! — gritou.

Pelo menos a bebida não havia tirado toda sua sanidade. Ainda.

—Dê o fora da minha casa! — ela ainda gritava, histérica. — Agora!

Ele saiu ainda despido e bateu a porta, não sem antes fazer questão de dizer:

—Bêbada vagabunda.

Encarei minha mãe, respirando fundo e tentando controlar a fúria que tomava conta do meu ser. Imaginei que ela fosse se desculpar, dizer que não tinha a intenção, que aquele homem era um escroto e não devia ter levado alguém para nossa casa. Mas ela tinha a habilidade de sempre me surpreender.

—Você não tinha uma festa pra ir hoje? — perguntou, indignada.

—Eu tenho. Mais tarde. — respondi, ríspida.

—Então não devia ter aparecido aqui e acabado com a diversão. — ela falou, com uma expressão que me irritou profundamente.

—Me desculpa se eu não posso transitar dentro da minha própria casa sem ver você prestes a fazer coisas com um estranho no meio da sala de estar! — gritei, perdendo o controle da minha raiva. — Eu já tô cansada de você encher a cara e chegar em casa fazendo merda.

—Pare de ser uma estraga prazer. — ela respondeu, se desequilibrando e apoiando-se ao sofá para não cair.

—Olha pra você, mãe! Você tá caindo de bêbada e acha mesmo que está na posição de me dar sermão?

—Eu sou sua mãe, você trate de me respeitar. — ela já estava deitada, com uma das mãos sobre a cabeça. — Essa conversa tá me dando sono.

—É a conversa sim, não o álcool, imagina.

Eu mal havia terminado de falar e ela já estava roncando. Subi as escadas tentando conter as lágrimas que insistiam em escorrer pelo meu rosto. Não tinha mentido quando disse que estava cansada dela. Já completava dois anos que meu pai nos deixara e ela se entregou para as bebidas, passando a amar mais o prazer do álcool do que a própria filha.

Já tinha tentado de tudo para fazer com que ela parasse, mas foram inúmeras tentativas falhas que não funcionavam por mais de uma semana de sobriedade. Realmente não sabia mais o que fazer e já estava começando a me conformar que tinha perdido minha mãe para o alcoolismo.

Sentei em minha cama e chorei por alguns minutos, mas a raiva ainda estava a flor da pele. Não suportava mais ficar dentro da mesma casa que aquela bêbada, então decidi que manter o plano de ir à festa seria algo que tiraria meu foco de toda aquela bagunça familiar. Coloquei a primeira roupa que vi pela frente e saí, sem fazer a mínima questão de pensar em como Peter Davidson ou qualquer outro garoto pudesse olhar pra mim.

Notas finais
*Shippar: significa apoiar um romance entre duas pessoas e torcer para que elas fiquem juntas.