Meu Destino
6 O chalé 6 --parte 1
Abri os olhos bem devagar. Respirei fundo. Tudo ainda estava escuro no meu novo chalé, e eu ainda nem tive tempo de explorá-lo. Tirei, silenciosamente a coberta e desci do meu beliche.
Fui em direção ao outro cômodo, que na verdade não chegava bem a ser outro cômodo, não havia parede divisória, mas com certeza era bem separado das camas. Era uma biblioteca, tinha visto rapidamente enquanto me levaram para o quarto. Eu havia chegado depois do toque de recolher, pois assim que Quíron descobriu que eu era filha de Atena, mandou que todos fossem dormir.
Quíron tinha levado Annabeth e eu até a casa grande.
FLASHBACK ON:
Quíron me olhou preocupada. Mandou-me sentar num sofá. E pediu que Annabeth ficasse aqui comigo e ele entrou em uma porta que eu não fazia ideia pra onde iria.
Tentei puxar assunto com Annabeth, mas, aparentemente, ela ficava presa em uma dimensão alternativa enquanto pensava. Então eu também tentei pensar em alguma coisa.
Deuses gregos existem. Tudo bem. E eles têm filhos com mortais e eu sou um deles. Essa parte não me deixou muito satisfeita. E as espadas que deveriam me atingir não conseguem me machucar. Só eu que não vi muito problema nisso?
Tá certo que, pelo visto, isso não deveria ocorrer. Mas se eu tiver que escolher em ser atingida ou não, não serei a idiota que vai preferir ser ferida.
Quíron apareceu de repente, só que dessa vez estava na forma humana, em uma cadeira de rodas.
–-Não encontrei nada. –parecia distante, pensativo, como Annabeth–Como eu pensava.
–-Ela só pode ser mortal! Mas não! E Atena a reclamou! –Annabeth se levantou irritada, aparentemente não estava acostumada a não saber de alguma coisa –Argh! Isso é Ilógico!
–-Calma, criança. –disse Quíron, compreensivamente –Nossa amiga é que deveria estar mais frustrada. –ele olhou pra mim.
Eu estava frustrada é claro, mas depois de tudo que aconteceu hoje, não ser ferida por espadas foi a melhor coisa. Então eu dei os ombros.
–-Por hora, --continuou Quíron –Não temos nada o que fazer, então, Annabeth, leve-a ao chalé 6.
–-Mas o que eu devo fazer? –falei, tentando não soar muito reclamona –Nem sei porque isso acontece!
–-Nem eu, criança. –Quíron colocou a mão no ombro, num gesto consolador. –Você é filha da deusa da sabedoria. Se quisermos saber algo teremos que falar diretamente com sua progenitora, e sendo ela quem é, sempre tem um plano dentro de um plano. Haverá uma justificativa.
Eu olhei em seus olhos. Ele realmente esperava que eu me consolasse com isso? Que eu ficaria esperando Atena me dar uma resposta? Se os deuses forem realmente desleixados com seus filhos como eles me fizeram sentir... Juntarei teias de aranha antes de descobrir o que eu tenho de diferente.
Não me leve a mal. É claro que estou feliz por não ter sido fatiada que nem pão de forma ou espetada, mas se é algo tão estranho assim –isso foi o nível máximo de estranhice do meu dia –eu gostaria de saber o porquê disso ocorrer. Eu mereço alguma resposta, né? Afinal não sou eu que fico tendo filhos com um monte de gente por aí e abandonando eles, apenas para depois jogá-los num acampamento de verão...
FLASHBACK OFF
Depois disso tudo, Annabeth e eu chegamos ao meu novo lar: o chalé 6. Todos os meus novos irmãos estavam dormindo, ou seja, ela não poderia me mostrar o chalé. Então me levou até um amotinado de beliche no fundo, como se não tivessem importância, e me mostrou onde seria minha cama, bem em cima da dela.
Nós duas estávamos cansadas, foram muitas informações para processar, então não fizemos cerimônia, tomamos uma ducha rápida e nos deitamos.
E agora aqui estou eu.
Andando à surdina, procurando algo para deixar a minha mente entretida para não pensar nos problemas. Mal enxergando nessa escuridão, peguei um livro qualquer de uma prateleira.
E então, do nada, eu ouvi um barulho, não alto o suficiente para acordar os outros. Assustei-me um pouco, pensando que tinha derrubado algo, mas eu não havia derrubado nada. Virei-me, tentando enxergar algo, tudo o que eu pude ver foi uma silhueta.
–-Ops. –disse a silhueta, numa voz que reconheci ser a de Colin –Foi mal, devia ter sido mais cuidadoso. –isso me fez sorrir, e ele chegou mais perto.
–-O que você está fazendo aqui? –perguntei, já sem sorrir –Não estou aqui há muito tempo, mas já sei que você não poderia estar aqui e agora. –falei cochichando.
–-Eu só queria saber como você estava com isso tudo, você sabe. –ele respondeu no mesmo tom.
–-Eu estou bem. –falei, mesmo sabendo que não era verdade.
–-Não está não. –ele disse, pude perceber que ele balançava a cabeça, mas a escuridão não permitiu que eu observasse sua expressão. –Olha, eu sei que tudo é estranho, mas a maioria de nós também passamos por algo assim.
Eu já ia dizer que nenhum deles não podia ser atingido pelo bronze celestial, mas achei que seria muita grosseria minha, já que ele estava sendo tão gentil. Então eu apenas afirmei, sem muita certeza, com a cabeça.
–-Olha, eu não –Colin começou a dizer, quando foi interrompido por uma voz:
–-O que está acontecendo aqui? –era de um garoto, aparentemente acabava de entrar nessa parte do chalé e devia estar procurando um interruptor.
–-Agora não. –sussurrei para Colin. –Acho melhor você ir. Agora.
–-Ok. –ele disse, e eu percebi que sorria –Então nos veremos amanhã, espertinha.
Ainda bem que ele teve o bom senso de sair logo, pois menos de cinco segundos a luz foi acesa, mostrando um garoto loiro de olhos cinzentos e cansados, que mais tarde descobrir que se chamava Malcom, ele me encarou.
–-O que você está fazendo aqui? –ele estreitou os olhos –Não deveria estar deitada?
–-Hã –falei –Não estava com sono, então eu vim dar uma olhada...
–-Eu pensei que tinha ouvido vozes. –ele falou, como se não acreditasse em mim, mas que não quisesse me chamar de mentirosa.
–-Vozes? –fingir-me surpresa. –Não ouvi nenhuma.
Malcom parecia que ia dizer mais alguma coisa, porém ouvimos alguns dos nossos irmãos gemendo e falando algo sobre apagar logo essas luzes ou..., bem, eles tinham muita criatividade no que escolheriam...
Eu coloquei o livro que pegara de volta na prateleira e sorri para Malcom.
–-Acho melhor você apagar a luz. –disse –Vamos? –falei, indo e apontando em direção ao meu beliche.
Malcom apagou a luz. Eu me enrolei no meu lençol e desejei desesperadamente dormir e descobrir que tudo não passara de um terrível pesadelo e que acordaria em casa, com meus pais, meus pais de verdade, nenhuma deusa, apenas seres humanos.
E como tantas vezes antes, meu desejo não foi atendido.
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