Meu Demônio de Estimação
1 Parte 1
Notas iniciais
Eu realmente não acredito que estou fazendo isso. Não é como se eu acreditasse que algo assim seja real, que funcione, mas não custa nada tentar. Sou um jovem de dezesseis anos sem nada para fazer aguardando o fim das férias escolares. Nada de muito bom vem disso. Pensando dessa forma, desci para o porão de casa, removi as tralhas do caminho deixando um espaço aberto. Usando giz desenhei um círculo de conjuração no chão, exatamente como dizia no livro. Esse livro eu encontrei por um acaso na biblioteca municipal na sessão de ocultismo. Nele há algumas coisas bem estranhas e macabras, entre elas alguns rituais.
Decidi tentar um deles, um dos mais simples que tinha. Segundo o que estava escrito ele me permitiria invocar uma criatura sobrenatural para fazer um acordo magico, eu ofereceria algo para a criatura e em troca ela faria algo que eu pedisse. A oferta tem que ser algo que lhe é querido, que possui valor sentimental ou seja essencial para você. Quanto mais complicado fosse o pedido, maior teria de ser a oferta.
Como estava naquela apenas para um teste eu decidi pedir algo muito simples, como a remoção de uma espinha enorme e dolorida que está no meu nariz, nunca tive problemas com acne, mas essa espinha realmente era algo de proporções sobrenaturais. Em troca pelo favor decidi usar como oferta meu cachecol preferido, de uma das minhas sagas de livro favorita, Harry Potter. Um cachecol com faixas cinzas e azuis, ou seja, da Corvinal, minha casa.
Após desenhar o círculo, coloquei umas velas vermelhas nas posições indicadas. Foi realmente complicado achar as velas vermelhas, então eu comprei brancas e pintei de vermelho, espero que funcione mesmo assim. Também havia algumas ervas que precisava queimar, as consegui em uma lojinha de especiarias. As coloquei em uma tigela, então acendi as velas, queimei as ervas, deixei o cachecol no centro e apaguei a luz.
Comecei a ler algum tipo de encantamento do livro e senti que parecia que algo estava faltando. No livro dizia que era apenas aquilo, mas eu decidi dar um toque mais pessoal. Abri o Youtube no celular e digitei "música clássica", o primeiro resultado foi uma playlist com mais de 50 vídeos de diferentes músicas, selecionei a primeira da lista, era uma música chamada Lacrimosa, do Mozart. A melodia era perfeita para mim, voltei a ler o encantamento do livro seguindo o ritmo da música.
Quando terminei nada aconteceu. Seria o mais quieto silencio se não fosse pela música, que chegou ao fim, então houve silencio. Fechei o livro e o aplicativo do celular.
— Porque a música parou? – Alguém perguntou.
A surpresa me causou um baita susto. Me virei para ver do que se tratava e me deparei com uma jovem alta terminando de descer a escada que dá para o porão. Era a Luana, minha amiga.
— Idiota, você me assustou. – Falei.
— Não foi essa a intenção... – Ela reparou nos elementos do ritual. – Você realmente está tentando fazer os rituais daquele livro?
— Eu fiz. – Respondi.
— E?
— Nada. – Dei uma ultima olhada para o círculo, as velas. O cheiro das ervas ainda estava forte. – Acho que pintar as velas não era um substituto ideal.
— Ou, hipoteticamente falando... talvez, apenas talvez... tudo isso não passe de uma merda bem grande e você só perdeu tempo e dinheiro. – Luana respondeu.
— Pelo menos estou ocupando minha mente com coisas nada saudáveis. – Falei. – E você? Tem feito o que? Estudado química durante as férias? Amiga, assim você não pode me criticar.
— Estou fazendo o que todo jovem responsável faria sabendo que em breve prestará vestibular e precisa de boas notas. – Ela disse.
— Acontece que você não é uma jovem responsável.
— Mas eu poderia ser.
— Aham... – Caminhei até o círculo de giz, peguei a tigela com as ervas e as joguei num saco de lixo. – Agora me ajuda a arrumar isso aqui.
Recolhemos tudo e apaguei o círculo de giz. Depois subimos e passamos algum tempo vendo filmes na Netflix e comendo pipoca. Quando a Luana foi embora já passava das onze da noite. Vi mais alguns episódios de Supernatural. Sean e Dean faziam conduzir um ritual ser algo tão fácil. Quando senti sono vesti meu pijama e me joguei na cama para dormir. Peguei no sono quase que instantaneamente.
Acordei no dia seguinte com uma preguiça terrível, mas me forcei a levantar, já era quase meio dia e meu café da manhã seria o almoço. Fui no banheiro descarregar a bexiga e parei para lavar o rosto. Me encarei no espelho. Meu cabelo estava realmente bagunçado, um emaranhado de fios castanhos. Meu rosto estava meio inchado e mal conseguia deixar meus olhos abertos para notar o tom esverdeado que eles tinham. Só então reparei meu nariz e senti a falta de uma companheira indesejada, a espinha monstro, Doroteia. Dei um nome a ela já que era tão imponente, achei que merecia.
Naquele momento eu pensei: Será?. Não poderia ser. Quero dizer, nada ocorreu como eu esperava, não fiz contato com nenhuma criatura sobrenatural, nem fechei um acordo ou coisa do tipo. Provavelmente, Doroteia se acalmou e desinflou sua ira. O dia havia começado bem.
Voltei para o quarto ainda meio zumbi. Comecei a tirar o pijama e a procurar onde havia jogado minhas roupas. Localizei minha camisa na cabeceira da cama, minha calça sobre a cadeira giratória do computador. Caminhei pesadamente até a cadeira, peguei a calça e me voltei em direção a cama para pegar a camisa e ela estava logo na minha frente.
— Obrigado. – Peguei a camisa.
— De nada.
Comecei a vestir a camisa com alguma dificuldade para encontrar o buraco da gola até que parei subitamente porque a ficha caiu.
— Precisa de ajuda?
Travei. Então terminei de vestir a camisa lentamente e pude ver claramente o que estava logo a minha frente.
— Olá. – Ele disse.
Havia um cara estranho no meu quarto. Parecia ter uns dezoito anos. Usava uma camisa preta do Nirvana — um rosto em amarelo desenhado com os olhos em forma de x e boca com a língua para fora — jeans rasgada e descalço. Tinha o cabelo descolorido com as pontas pintadas de laranja. Apesar do visual incomum o que mais chamou a minha atenção foi o fato de sua íris ter uma coloração muito pouco comum, era como as de um coelho albino, um vermelho meio leitoso. E então a cereja do bolo. Ele usava o meu cachecol no pescoço.
— Oi. – Falei. – Quem é você?
— Pode me chamar de Erick. – Ele disse e estendeu a mão.
— Caio. – Falei e apertei a mão dele.
— Então, o que vamos fazer hoje? – Ele perguntou.
— O que? – Ainda estava tentando processar as coisas, mas era complicado quando meu cérebro ainda não tinha acordado completamente. – Como assim?
— Você me invocou não? – Ele perguntou. – Não se lembra? Ritual no porão, velas vagabundas pintadas, que devo dizer considerei um insulto, mas a música clássica, isso foi uma boa jogada, foi o que chamou a minha atenção para atender o seu chamado.
— Espera ai... Você está me dizendo que é a “criatura sobrenatural” que eu invoquei?
— Exatamente. Sou um demônio. – Ele respondeu.
— O que isso quer dizer?
— O ritual que você usou é um ritual comum de acordo, porém como você não fez nada muito completo... e como acredito que você não tenha conhecimento magico algum, acabou que você abriu uma passagem para o primeiro que a encontrasse, o que nesse caso foi eu, graças à música.
— Então você fez a espinha desaparecer e pegou o cachecol que eu ofereci como troca.
— Isso.
— E agora você já vai voltar para de onde veio.
— Infelizmente não posso. – Ele disse e completou. – Você meio que fez mais que um ritual de acordo, acidentalmente fez um de elo espiritual. O que, devo dizer, não esperava que fosse acontecer até perceber que estava atado a você.
— Eu fiz o que? – Foi mais uma pergunta retorica. Eu havia entendido o que ele disse. Mas sabia que aquilo não seria nada bom. – Então quer dizer que eu vou ter que ficar andando por ai com um demônio ao meu lado?
— Exatamente. – Ele disse. – Sou obrigado a estar com você o tempo todo e servir como conselheiro, confidente e coisas do tipo.
— Eu... – Não sabia o que pensar ou dizer. – Preciso dar uma volta...
Eu me virei e fui em direção a porta do quarto.
— Talvez você queira vestir mais alguma coisa antes de sair. – Ele apontou para minhas pernas e só então percebi que ainda estava só de cueca.
— Meu Deus! – Me apressei em vestir minha calça. Coloquei os sapatos e sai.
Quando estava para sair minha mãe apareceu.
— Onde você pensa que vai?
— Vou dar um pulo na rua e já volto.
— Nem pensar. – Ela me puxou pela gola da camisa e me levou até a mesa de jantar. – Você não vai sair sem comer nada.
— Não estou com fome, mãe. – Falei.
Ela não respondeu, apenas trouxe um prato de comida, pôs na minha frente e voltou para a cozinha.
— Porque está mentindo para esta doce senhora? – Meu demônio pessoal simplesmente apareceu sentado ao meu lado. Quase engasguei com a comida.
— Droga... – Tossi. E em seguida sussurrei. – O que você está fazendo aqui? Dá o fora.
Antes que pudesse revolver as coisas minha mãe voltou da cozinha e se deparou com um estranho sentado à mesa.
— Caio, quem é esse seu amigo? – Ela perguntou.
— Olá senhora, eu sou o demo... – Ele começou a falar, mas o interrompi.
— Democles. – Falei apressadamente. – Ele é um colega do curso de inglês. Veio para me dar uma ajuda para o teste da semana que vem.
Precisei jogar com a cabeça. Iria dizer colega de sala da escola, mas como ainda estamos de férias, tive de usar o curso de inglês, em que o período de férias é diferente do da minha escola e por isso ainda estava em período letivo.
— Mas meu nome não... – O demônio Erick tentou protestar.
— É tão fácil de lembrar, ele prefere ser chamado de Demo. – Cortei. – Agora nós temos que ir, vamos para a biblioteca estudar porque lá é mais tranquilo. Até mais tarde, mãe.
Eu me levantei e arrastei Erick comigo em direção à saída.
— Mas você não terminou de comer. – Minha mãe gritou.
— Estou sem fome! – Gritei de volta e sai porta à fora.
Aquilo era demais para mim. Como eu iria explicar para minha mãe que meu colega do curso de inglês iria passar a morar com a gente eternamente?
— Onde vamos? – Erick perguntou.
— Não sei. – Falei.
— Hum... – Ele parou pensativo por um tempo.
— Casa da Luana. – Dissemos ao mesmo tempo.
— Como você?
— Li sua mente.
— Você pode fazer isso?
— Se me concentrar um pouco, posso sim. – Ele respondeu.
— Ok. – Aquilo já era demais. – Se vamos mesmo ficar nessa de passar a eternidade juntos, vamos definir algumas regras de convivência.
— Certo.
— Então lá vai a primeira regra: Nada de ficar lendo a minha mente. – Falei.
— Anotado. – Ele disse – Quais são as outras?
— Agora não sei... – Disse. – Quando eu for pensando vou falando.
A casa da Luana ficava a poucos quarteirões da minha. Em questão de minutos chegamos lá. Toquei a campainha e logo ela atendeu. Cabelo tingido de ruivo, olhos castanhos e algumas sardas nas bochechas. A boa e velha Luana.
— Credo! – Ela disse assim que me viu. — Você está um lixo.
Só então lembrei que sai da forma que acordei.
— Digamos que meu dia não começou como um dos melhores. – Falei.
— E quem é esse seu amigo colorido?
— Olá, sou o Erick. – Ele estendeu a mão e Luana apertou.
— Ahhh... agora você se apresenta assim. – Protestei.
— O que? – Ele se fez de desentendido.
— Luana, precisamos conversar. – Falei. – De preferência em um lugar mais reservado.
— Entrem. – Ela disse.
Subimos para o quarto dela. Sempre me sentia confuso quando ia para lá. Ela decidiu que seu quarto teria de representar seus dois lados, o da boa menina que geralmente todo mundo conhece o a menina meio estranha que poucos conheciam, sendo eu um desses poucos. Então metade do quarto era pintado de rosa claro e a outra de preto. Do lado rosa ficavam coisas mais femininas que ela tinha, do lado preto tudo que ela não considerava “apropriado”.
— O que desejam tratar com minha pessoa? – Ela perguntou.
Sentamos na cama. Erick ficou de pé observando o quarto.
— Lembra que ontem eu tentei fazer um ritual do livro e ele não deu muito certo? – Falei. – Então, ele meio que deu certo. – Apontei para Erick.
— Achei que era um ritual para invocar uma criatura sobrenatural, não um roqueiro, meio mendigo potterhead. – Ela falou.
— Tô falando sério, Luana. – Falei. – Aquele é o meu cachecol que usei como oferenda em troca da remoção da minha espinha. – Apontei para o meu rosto.
— Caralho. – Ela se aproximou para ver melhor a ausência da espinha. – RIP Doroteia.
— Tadinha né, acho que até vou sentir falta dela. – Falei. – Mas não muda de assunto! Eu agora estou preso a ele.
— Acho que é mais o contrário. – Erick disse entretido com uma luminária que ficava mudando de cor, do lado rosa do quarto.
Expliquei toda situação em relação ao erro no ritual e que agora estava ligado ao Erick indefinidamente.
— Caaara... – Ela falou após ouvir tudo. – Então você é tipo... um demônio mesmo?
— Sim. – Erick disse.
— Eu imaginava que você seria mais... como posso dizer... demoníaco? – Ela falou.
— Posso assumir a forma que quiser. – Ele respondeu. – Mas preferi assumir uma forma menos chocante.
— E o que mais você pode fazer?
— Quase tudo. – Ele disse e estalou os dedos.
Então apareceu sobre a cama uma bandeja com duas taças de sorvete.
— Uau... – Luana falou e pegou uma das taças. – Adorei. Você tem que dividir ele comigo, Caio.
— Eu acho que você está sendo otimista demais com toda essa situação. – Falei.
— Ou talvez, você esteja sendo pessimista demais. – Ela rebateu. – Pensa bem, quantas pessoas tem essa oportunidade na vida? Ter um demônio particular que, ainda por cima, é gato e traz sorvete com um estalo de dedos. Querido, se você não quiser, eu quero.
Respirei fundo. Não sabia o que pensar. Não estava preparado para algo do tipo.
— Olha só. – Luana falou. – Dê um tempo para descobrir no que tudo isso vai dar. Enquanto isso vou te ajudar a achar uma forma de resolvermos essa situação. Talvez o livro possa ajudar. Mais tarde eu passo na sua casa para a gente ver o que acha. Mas, agora, preciso ir para a academia. Estou em um projeto para ganhar físico fitness, então, se os senhores me dão licença.
Depois que a Luana nos pôs para fora continuei caminhando pela rua tentando decidi o que tipo de abordagem usaria para lidar com aquela situação. Logo percebi que por onde passávamos as pessoas olhavam de forma estranha. Me apressei em retornar para casa e me tranquei no quarto.
— Você pode meio que ficar invisível? – Perguntei ao Erick. – Mas não para mim, para todo mundo, menos eu?
— Posso. – Ele respondeu.
— Então vamos tentar isso.
— Não.
— Porque não?
— Porque eu prefiro ficar não invisível.
— Então que tal mudar o visual só um pouquinho?
— Isso eu posso fazer. – Ele respondeu. – Gosto de repaginar meu visual. O que você sugere?
— Que tal alguma coisa mais formal? – Falei
Ele estalou os dedos e sua imagem tremeluziu, então estava usando um terno com gravata roxa.
— Não tão formal. – Falei. – Que tal algo mais leve, desproposital.
Ele voltou a tremeluzir e apareceu usando uma regata branca com estampa de coqueiros, bermuda tactel com estampa de praia e sandálias.
— Desproposital demais... – Pensei por um tempo. – Tenta algo menos, quanto menos melhor.
Ele tremeluziu e apareceu usando uma cueca dourada cintilante e uma gravata borboleta do mesmo tecido, apenas isso.
— Eita! Definitivamente, não. – Falei. – Já sei!
Fui até minha mesinha de cabeceira, peguei nela uma revista feminina que a Luana tinha trazido para fazermos um teste sobre o par ideal e mostrei as roupas de um modelo da revista. Ele usava uma camisa branca lisa, a gola era ligada a uma abotoadura na frente, com dois botões. Calça jeans de lavagem clara e sapatos casuais.
— Entendi. – Erick disse e tremeluziu mais uma vez, reaparecendo usando exatamente as mesmas roupas. – E agora?
— Perfeito. – Falei.
No início foi meio complicado. Falei para minha mãe que os pais do Erick, ou melhor, Democles, havia viajado e passariam duas semanas fora e perguntei se ele poderia ficar com a gente até eles voltarem, assim poderíamos estudar melhor para o teste. Ela aceitou sem pestanejar, porque o Erick vivia elogiando e amaciando o ego dela, ela adorava ser paparicada.
A primeira semana passou rápido. Todo dia a Luana vinha e passávamos algum tempo pesquisando uma forma de resolver a situação. Quando cansávamos de pesquisar e estudar tirávamos um tempo para descansar e fazer o de sempre. Escolhíamos filmes na Netflix, fazíamos pipoca ou pedíamos para o Erick fazer aparecer alguma outra coisa, como da vez que pedimos burritos. O problema é que logo chegou o fim de semana e na segunda já era a volta às aulas.
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