Notas iniciais
E quase uma semana depois do último capítulo, cá estou eu novamente! Pelo título desse, vocês já podem imaginar o que vem por aí, não é mesmo rssssss. Vou deixar vocês lerem e surtarem logo, nos vemos no final. Boa leitura!

— Considere o valor do vestido como uma soma dos valores de todos os presentes que eu poderia ter lhe dado durante esse tempo, mas que eu nunca dei.

— E por que raios você me daria presentes? — insisti. — Eu sou só a sua secretária.

Dito isso, Jeonghan apenas fechou o seu semblante e se inclinou na minha direção, antes de mais nada checando à nossa volta como se para ter certeza de que ninguém estava nos observando. Aproximou-se do meu ouvido, automaticamente abaixando o tom de voz.

— Você tem certeza disso, Min Min?

Eu tinha o costume de estar fisicamente próxima de Yoon Jeonghan e, sinceramente, não via nada demais em certas ações diárias provindas de ambas as partes nos nossos últimos três anos de convivência. Digo, vez ou outra era eu quem ajeitava a sua gravata ou emplastava de fixador de penteados o seu topete mais alto típico para reuniões mais formais, por exemplo, então ficarmos próximos daquele jeito não era algo tão anormal — exceto pelo fato de que nós nunca tínhamos realmente ficado próximos daquele jeito. Eu podia sentir a respiração quente de Jeonghan fazendo alguns fios do meu cabelo balançarem suavemente próximos à minha orelha e, sendo sincera, aquilo por si só já tinha causado um baita de um arrepio na minha nuca.

Como ele poderia estar causando aquele tipo de efeito sobre mim? Quero dizer, esse é Yoon Jeonghan, o meu chefe. Eu não deveria estar tendo esse tipo de pensamento envolvendo a proximidade da sua figura e o seu refrescante hálito de menta. Acima de tudo, eu não deveria, de jeito nenhum, deixar o meu coração acelerar daquele jeito conforme a minha mente infame esperava algum tipo de repetição da cena daquela manhã.

Sim, a cena do beijo, para quem ainda possa estar se perguntando e querendo me fazer ficar duas vezes mais vermelha do que eu já estava.

— Min Min? — ele perguntou enquanto me fitava de lado, já que a sua bochecha por muito pouco não estava colada à minha. — Você está bem?

Céus, era óbvio que não! A pergunta sussurrada fez o meu corpo enrijecer ainda mais, como se eu estivesse prestes a fugir a toda velocidade de alguma situação de perigo. E aquele não deixava de ser um cenário perigoso, contudo, as minhas pernas simplesmente não obedeciam aos meus comandos para retornarem à vida e se afastarem do Yoon o mais depressa possível.

Se é que eu estava realmente dando aqueles comandos.

— Sr. Yoon, o seu pedido... — nós ouvimos uma voz feminina retornar ao provador, mas já era tarde demais para que pudéssemos fazer alguma coisa em relação àquela cena que nos encontrávamos. — Ah, me desculpe, eu não queria interromper.

Ao ouvir aquilo, eu finalmente consegui recobrar a minha consciência e literalmente pulei para trás, me afastando o máximo que consegui de Jeonghan. O meu rosto queimava e deveria estar vermelho como se realmente tivesse encostado em uma labareda de fogo, ao passo que eu mal sabia onde enfiar a minha cara envergonhada. Evitei fitar a vendedora que acabara de nos atender e que, pelo o pouco que eu tinha conseguido ver, também parecia procurar algum buraco para se esconder.

— Você dizia algo sobre o meu pedido? — Jeonghan perguntou normalmente, voltando para a sua postura normal como se nada tivesse acabado de acontecer. — Os vestidos, certo?

Infernos, como ele poderia parecer tão calmo e controlado enquanto eu parecia um pimentão frito?

A resposta era um tanto óbvia, na verdade: eu era a única louca ali sentindo todas aquelas coisas inapropriadas. Estava na cara que Jeonghan levava as suas ações na brincadeira, como se quisesse apenas testar a minha paciência, e eu definitivamente não deveria ter me deixado afetar por aquilo.

Uma completa idiota, era como eu me sentia.

— Sim. As duas peças já estão embaladas no caixa aguardando o senhor. — a vendedora respondeu, por fim. — E quanto ao vestido que a Sra. Yoon está vestindo, ela pode apenas deixá-lo no provador que eu irei recolhê-lo depois.

— O que?! — eu indaguei desnecessariamente alto, assustando tanto a vendedora quanto o Jeonghan ao meu lado. Em seguida, tentei me recompor ao máximo e sorri sem jeito. — Nós não somos um casal.

A atendente me encarou, parecendo chocada com a informação. Pelo canto do olho, eu vi o Yoon abaixar a cabeça e, por um momento, a sua figura cheia de confiança e truques maliciosos veio a desaparecer.

— Nossa, me desculpe pelo meu erro. É que parecia tanto que... — interrompeu-se, endireitando a postura. — Desculpe, eu não deveria ter sido tão indiscreta.

Dito isso, a mulher apenas se curvou e rapidamente voltou a desaparecer sem sequer me dar a chance de tranquilizá-la, afinal, aquele tipo de erro poderia acontecer a qualquer um e não era tão grave assim.

Não era, certo?

Percebendo que eu e Jeonghan estávamos sozinhos novamente, eu instintivamente pigarreei, talvez como um modo um tanto estúpido de defesa. Porém, o Yoon voltou a erguer a cabeça, agora mais sério.

— Você pode me esperar do lado de fora da loja? — perguntou sem me fitar diretamente, apenas olhando reto. — Estou indo até o caixa.

Eu balancei a cabeça positivamente de um modo um tanto nervoso e, segundos depois, Jeonghan já estava me deixando para trás sem dizer mais nada. Ele parecia... irritado? Na verdade, ele parecia mais incomodado com algo, talvez até um pouco frustrado. Será que ele não tinha gostado de ter sido interrompido pela atendente? Bem, não era como se ele pudesse estar planejando fazer nada demais bem ali, no meio de uma loja pública.

Ele não estava, com certeza.

Respirei fundo e balancei a cabeça com vigor na tentativa de afastar aqueles pensamentos sem nexo. Eu precisava me recompor e com urgência, caso contrário, Jeonghan acabaria me deixando louca de vez. Por isso, eu retornei para o provador e consequentemente para as minhas roupas normais, deixando o belíssimo vestido pendurado no cabide. Eu devo confessar que, encarando a peça enquanto estávamos a sós, eu fiquei realmente feliz por estar levando uma daquela para mim também. Digo, só de imaginar o sorriso da minha mãe ao recuperar o seu precioso vestido eu já poderia sorrir junto, mas o meu tímido sorriso naquele momento se dava ao fato de que eu teria um daquele também. De um jeito ou de outro, discutir com Jeonghan e negar o presente acabaria não adiantando de nada, até porque, ele àquela altura do campeonato já deveria estar pagando pelo mesmo no caixa da loja, então talvez eu devesse apenas relaxar daquela vez. Eu merecia uma recompensa por todo o meu trabalho árduo, certo?

— Certo. — concordei comigo mesma em voz alta, satisfeita.

Assim, eu pude me dirigir até a saída da loja sem maiores pesos na consciência e lá encontrei Jeonghan esperando por mim. Ele estendeu duas sacolas pretas de tamanho médio na minha direção assim que me viu e, com um sorriso sinceramente agradecido estampado em meu rosto, eu as aceitei.

— Obrigada. — eu disse. — Talvez pareça pouco para você, mas esse presente significa bastante para mim.

— Não é pouco para mim. — o Yoon emendou quase que imediatamente. — Digo, o vestido em si pode realmente não ter me custado muito, mas o fato de você ter aceitado é bem significante.

Durante alguns momentos, Jeonghan apenas me fitou e eu fiz o mesmo, ambos em silêncio apenas observando as reações e expressões um do outro. Eu sinceramente não sabia como reagir ao que ele tinha acabado de me dizer, contudo, também não tive tempo para fazê-lo. Diante do meu breve silêncio, o Yoon apenas balançou a cabeça parecendo, novamente, frustrado com algo.

— Desculpe, eu não queria... — pausou, coçando a nuca. Bufou, aparentemente desistindo do que estava prestes a falar. — Nós deveríamos voltar para a empresa agora, ainda faltam algumas horas para o fim do expediente.

Após dizer aquilo, o Yoon me direcionou um rápido sorriso sem jeito e simplesmente me deu as costas, começando a caminhar em direção ao elevador mais próximo. Gestos um tanto acanhados como o que ele tinha acabado de fazer e todo aquele silêncio simplesmente eram incompatíveis com a sua personalidade, o que automaticamente me causou estranheza. Seus trejeitos inabaláveis e confiantes estavam sempre presentes no seu sorriso travesso e um tanto desafiador, mas não naquele momento em específico. Não era a primeira vez que aquilo acontecia e, pelo o que eu me recordava, voltava a acontecer por minha causa novamente. Será que eu estava o chateando com alguma coisa? Irritando-o, talvez?

Vendo-o se afastar aos poucos, sozinho e relativamente cabisbaixo, eu senti o meu coração se contorcer dentro do meu peito. E aquilo não se tratava somente do meu rotineiro medo de perder o meu emprego, pelo menos não mais... Eu só não gostava de vê-lo daquele jeito e ponto final — na verdade, esse era um caso mais para reticências. Ainda incomodada, eu me obriguei a me apressar para conseguir alcançá-lo antes que Jeonghan sumisse dentro de algum elevador, o que quase aconteceu se eu não tivesse apressado o passo.

Já no andar do estacionamento subterrâneo, o Yoon abriu passagem para que eu saísse primeiro do elevador e assim eu o fiz. Eu caminhava alguns passos na frente dele e balançava as sacolas pretas de propósito, pensativa, quando o diretor finalmente se manifestou.

— Desculpe. — disse de repente, o que me fez parar de caminhar.

Virei-me para trás, o encontrando me encarando com olhos lamentosos.

— Você tem dito muito isso ultimamente. Não faz muito o seu estilo, sendo sincera. — eu respondi, tentando amenizar o clima. — Por que está se desculpando agora?

— Eu assustei você agora há pouco, na porta do provador. — afirmou. — Eu já tenho o costume de fazer esse tipo de brincadeira com você, mas dessa vez eu senti algo extremamente diferente e sei que você percebeu, por isso ficou imóvel daquele jeito. Desculpe por aquilo, prometo que não farei de novo.

Franzi o cenho, confusa. Jeonghan realmente poderia ter sentido alguma coisa naquela hora?

Ou mesmo que eu, talvez.

— Como assim você sentiu algo diferente dessa vez? — criei coragem e o questionei.

— Não é a primeira vez que isso acontece. — confessou um tanto tímido. — Na verdade, vem acontecendo com mais frequência do que eu consigo acompanhar nas últimas semanas... É estranho porque, de repente, o meu coração começou a simplesmente disparar quando eu chego muito perto de você. E não é por causa do beijo hoje de manhã, porque já tinha acontecido antes. É só... não sei, mas não deixa de ser uma sensação muito boa também.

Eu o encarei, séria. Jeonghan coçava a nuca e olhava desajeitadamente de um lado para o outro conforme tentava se explicar, o que eu teria achado engraçado se não fosse a presente situação. Inconscientemente, eu dei um par de passos para a frente, me aproximando dele.

— Então você quer dizer que... — iniciei, porém deixando a frase em aberto pendendo no ar para incentivá-lo a terminá-la com as suas próprias palavras.

— Que eu enlouqueci de vez, não é? — completou, nervoso. — Digo, como posso estar tendo esses sentimentos pela minha secretária? Não que você não seja bonita e uma mulher maravilhosa, mas é que esse tipo de coisa não está...

Por fim, Jeonghan acabou não conseguindo terminar a sua fala já tão complicada porque eu mesma o interrompi. Meus curtos passos na sua direção foram diminuindo também a distância entre nós dois cada vez mais, até que estávamos tão perto um do outro quanto agora há pouco no provador. Ele ainda não parecia ter percebido, contudo, os meus olhos estavam focados somente nos seus lábios tão macios e convidativos e as minhas pernas não obedeciam aos meus comandos para que parassem logo de andar. A ideia de ter o Yoon, um diretor de negócios tão confiante, sempre cheio de si e que tinha tudo ao alcance da suas mãos, balbuciando palavras confusas por conta de sentimentos ainda mais confusos em relação a mim, a sua simples secretária, simplesmente cegou todos os meus sentidos e raciocínios mais lógicos. Continuei indo na direção de Jeonghan sem pressa e, por fim, eu o calei.

Beijando-o, no caso.

Sim, eu beijei Yoon Jeonghan por livre, espontânea e delirante vontade. Nada demais, na verdade, apenas um encostar de lábios que acabou pegando a ambos de surpresa — ele bem mais do que eu, obviamente. Eu confesso que, por mais louca e completamente fora do meu juízo perfeito que eu estivesse me sentindo naquele momento, a sensação de ter os seus lábios juntos do meu novamente era uma mistura um tanto agradável de euforia e conforto e, por isso, eu apenas me permiti senti-la durante alguns segundos deslumbrados.

Até que eu finalmente recuperei a minha consciência, se é que eu ainda tinha uma. Afastei-me de Jeonghan às pressas, encarando o mesmo com os olhos mais arregalados impossível.

— Meu Deus, me desculpa! — exclamei enquanto sentia meu rosto ferver de vergonha. — Eu não devia ter feito isso, não sei o que diabos me deu.

Contudo, o Jeonghan que eu encontrei após aquele selinho completamente inapropriado e sem explicação não foi exatamente aquele que eu imaginava. O Yoon me encarava com olhos intensos e fixos apenas em mim, como se tudo ao nosso redor tivesse simplesmente desaparecido. Eu mal conseguia fitá-lo de volta devido à vergonha, porém, ainda fui capaz de notar a sua repentina aproximação sem que nenhuma palavra fosse dita pela sua parte. E, então, ele simplesmente me beijou de novo.

Sim, beijo mesmo, para os que possam estar interessados. Talvez o meu selinho anterior tenha assinado por mim algum tipo de autorização, pois Jeonghan simplesmente teve, logo de cara, livre acesso à minha boca sem nenhum problema. Mesmo de olhos fechados, eu podia sentir que ele estava se controlando ao máximo para ser o mais calmo e gentil possível, mas algumas doses de um certo desespero ainda conseguiam escapar das suas garras. Quando eu retribuí o contato, o Yoon escorregou ambas as mãos para um pouco acima da minha cintura, terminando com a pouca distância que ainda restava entre nós e me fazendo soltar as sacolas dos vestidos pelo chão sem maiores preocupações com a integridade das mesmas.

Aquilo era loucura. Na verdade, loucura seria um apelido carinhoso, pois aquilo estava mais para uma perfeita de uma insanidade — mas eu não estava a cometendo sozinha, por um outro lado. Foi Jeonghan quem tomou a iniciativa daquela vez, transformando o meu tímido selinho em um beijo mais profundo e um tanto ansioso sem nitidamente se importar com mais nada que não fôssemos nós dois naquele momento. E nós permanecemos naquilo por um bom tempo, até que o ar finalmente começasse a faltar para ambos; para mim primeiro, no caso. Nós finalmente nos separamos, apesar de Jeonghan não ter de fato separado as suas mãos de mim, e encaramos um ao outro com a mesma frase nitidamente estampada em nossas testas: o que diabos estávamos fazendo?

— Eu... — o Yoon iniciou, ofegante, mas logo acabou sendo interrompido novamente.

E não, eu não o beijei de volta. Dessa vez, o toque do meu celular nos pegou de surpresa e eu dei um pulo assustado para trás, me afastando de vez de Jeonghan que ficou paralisado em seu lugar sem entender nada. Eu não estava em perfeitas condições de atender ao celular naquele momento, contudo, poderia ser algo importante relacionado ao trabalho ou à agenda do Yoon, então eu simplesmente atendi à chamada com uma rapidez desnecessária, o suficiente para nem checar o nome ou número que piscava no visor do aparelho.

— Alô? — atendi e só então percebi que também ofegava.

Do outro lado da linha, a primeira coisa que ouvi foi um soluço um tanto nervoso, o que eu automaticamente já estranhei.

— Filha! — exclamou uma voz feminina já mais do que conhecida por mim, parecendo aliviada. — Céus, ainda bem que você atendeu!

— Mãe? — indaguei pega completamente de surpresa, por um momento sendo obrigada a afastar o celular do meu rosto apenas confirmar o nome da minha mãe acesso no visor. E realmente era ela, por mais estranho e repentino que aquilo fosse. — O que foi? Aconteceu alguma coisa?

Na verdade, a minha mãe tinha o costume de dar uma de sensitiva por aí, vez ou outra crente de que poderia adivinhar ou prever certas coisas, além de simplesmente alegar senti-las no âmago do seu ser. Não era um traço de personalidade tão convencional para uma mulher nascida e crescida no interior como ela, porém, assustadoramente, ela até que acertava alguns chutes vez ou outra, o que me deixou levemente desesperada por um momento.

E se ela soubesse, de algum jeito, que eu tinha acabado de me agarrar com o meu chefe em pleno estacionamento público?

Tudo bem que a coisa não tinha sido tão vulgar como eu descrevia — eu acho, no caso — mas e se ela realmente tivesse sentido aquilo? Parecia absurdo e realmente era, de fato, mas a mente de um culpado costuma trabalhar com as possibilidades mais bizarras de alguém descobrir os seus crimes. E se ela tivesse sentido, de algum modo, e por isso tinha me ligado? Céus, o meu medo de perder o emprego estava prestes a virar o de perder a vida, isso sim.

— Aconteceu, querida! — ela exclamou em resposta, parecendo realmente nervosa. — É o seu pai, ele acabou de se acidentar aqui na fazenda.

— O que?! — foi a minha vez de exclamar transbordando preocupação. — O meu pai se machucou? Mãe, se acalma e me explica direito o que aconteceu.

— Eu não consigo fazer isso por telefone. Céus, estou tão nervosa! — rebateu. — Você precisa vir para cá agora, Minyoung.

E não deu outra. Se a minha família estava com problemas, eu iria até o inferno para ajudá-la.

***

— Mãe, como a senhora teve a coragem de fazer uma coisa dessas? — eu a questionei no ápice da minha revolta e levando as mãos até a minha cintura para deixar aquilo bem nítido.

Afinal de contas, minha mãe tinha simplesmente mentido na cara dura para mim e eu não poderia deixar algo tão descarado passar em branco. Bem, ela não tinha mentido exatamente, mas eu logo percebi que tinha sido enganada quando coloquei os pés na fazenda.

Pois bem, inclusive, eu já estava em casa — na minha casa de verdade, minha saudosa fazenda onde tinha nascido e crescido. Na verdade, a palavra já não era a mais adequada para a ocasião, já que chegar até ali tinha me custado uma viagem de mais de seis agoniantes horas de carro. Já era tarde da noite quando eu abri a porta da frente e, às pressas para saber o que de fato tinha acontecido com o meu pai e qual era o seu real estado de saúde, a primeira cena com a qual me deparei foi o médico da família tranquilamente aproveitando o seu chá com biscoitos no sofá da nossa sala. Sim, chá com biscoitos. Eu conhecia o Dr. Kwon desde nascida e, como ele tinha sido a primeira pessoa que eu tinha encontrado na casa e eu sequer havia reparado na sua tranquilidade ainda, corri até ele para perguntar sobre o acidente do meu pai.

— Como assim acidente? — ele perguntou, confuso. — O que aconteceu foi que o seu pai deu um mau jeito na coluna levantando uma caixa de milho. Eu vim para examiná-lo e nós nem precisamos ir a um hospital, no fim das contas. Uma pomada e alguns dias de descanso são o suficiente. — explicou e tomou um gole despreocupado do seu chá. — Quem lhe disse esse exagero todo?

De repente, eu comecei a sentir a revolta me consumindo dos pés à cabeça. Coincidentemente, a pessoa que tinha me contado aquela história dramática tão desesperadamente era justamente a pessoa mais exagerada que eu já tinha conhecido em toda a minha vida.

— Shin Sowon! — eu exclamei e logo a figura apressada da minha mãe surgiu vinda da direção da cozinha.

— Meu Deus, morreu alguém e eu não... — ela veio resmungando da cozinha enquanto secava as mãos no seu avental, mas parou imediatamente quando me viu e abriu um largo sorriso. — Minha filha, você veio!

— Mãe, como a senhora teve a coragem de fazer uma coisa dessas? — eu a questionei logo de primeira, irada.

Minha mãe vinha na minha direção já com os braços abertos, mas parou no meio do caminho com os mesmos estendidos no ar quando percebeu a minha revolta. Em seguida, direcionou um olhar acusador na direção do grisalho Dr. Kwon, que ainda não tinha sequer se dado ao trabalho de levantar a barriga protuberante e cansada do sofá.

— Você já foi dar com a língua nos dentes, não é, fofoqueiro? — ela praticamente o interrogou com a sua pouquíssima altura e as mãos na cintura.

— Eu não fiz nada, oras. — o médico se defendeu e deu de ombros, comendo mais um biscoito.

Minha mãe bufou e voltou a me fitar, assumindo um olhar repentinamente mais doce e dissimulado. Ela vestia uma calça de malha azul e uma blusa de manga comprida preta quando caminhou calmamente na minha direção com um sorriso nos lábios.

— Min Min-ah, eu juro que posso explicar. Mas, primeiro... — pausou e se aproximou de mim, repentinamente abaixando o tom de voz. — Você não quer me contar quem é aquele bonitão escondido ali?

Dito isso, minha mãe direcionou o olhar mal intencionado para algum ponto da sala de estar atrás de mim e eu automaticamente a acompanhei. Virando-me para trás, eu me deparei com a figura encolhida de Yoon Jeonghan no canto do cômodo, mal passando da porta da frente. Ele estava todo arrumado e muito bem apessoado com o seu terno de grife, mas era cômico o modo como estava nitidamente se sentindo intimidado naquele momento, ainda mais com o olhar da minha mãe pousado diretamente sobre si.

De volta ao estacionamento do shopping, ele presenciou o meu nervosismo após a chamada da minha mãe e fez questão de me trazer pessoalmente para casa, pois insistiu que não me deixaria sozinha em um momento como aquele. Um tanto fora de órbita, eu acabei aceitando a sua ideia.

Contudo, vendo o olhar da minha mãe naquele momento, eu estava começando a achar que aquela tinha sido uma péssima ideia.

Céus, essa será uma longa noite...

Notas finais
E então, o que acharam? Dois beijos em um único capítulo, meu Deus eu sou um anjo de autora mesmo né (vamos ignorar o fato de que eu devo ter causado alguns ataques do coração com o "acidente" do pai da Minyoung, claro)? E a mãe da Minyoung kkkkkkkkkkkk. Qual será a explicação dessa senhorinha travessa para essa confusão toda? Enfim, nos vemos em breve ♥