Meu Breu
2 Capítulo II - Ira
As palavras do escuro passaram a visita-la com mais frequência do que as batidas de porta e rápidos clarões do mundo lá fora e Cierra não sabia mais o que pensar.
"Você brilha, sabia? Mesmo perdida no escuro seus olhos carregados de lágrimas se tornam luz."
A garota ergueu o olhar que antes estava voltado para o gélido chão sob seus pés para encarar a escuridão trepidante em sua frente e mesmo que, ao encarar seu medo de frente, inúmeros arrepios passassem a percorrer seu corpo e incontáveis lágrimas tornassem a acariciar sua face ela não abaixaria a cabeça.
"Eu gosto da sua luz, minha criança. Vou gostar ainda mais de apagá-la."
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Ira. Era a ira que passou a rondar infinitamente seus pensamentos... Se odiava por todo seu medo, desprezava todo e cada homem que lhe jogou naquela situação sem qualquer explicação e abominava o maldito escuro e seus murmúrios igualmente ominosos. Cierra estava cansada de tentar manter sua cabeça no lugar e exausta em insistir na maldita paciência que ela não mais tinha; não sabia se ela tinha começado a pensar assim ou se o escuro sussurrou tal sugestão, mas era verdade, sentir raiva era bem mais fácil.
"Eu nunca tive companhia, minha criança." Começou o breu enquanto a garota analisava os cortes e ferimentos diversos em suas mãos por socar as paredes de sua cela. "Muitos vivem no escuro, poucos vivem com o escuro."
A garota não aguentava mais.
"Eu te odeio mais que tudo." Disse encarando o nada com pura fúria graças a risada distante do breu.
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"Eu pensei em um maravilhoso presente para você; me diga o que mais odeia e me dê a honra de destruí-lo." Cierra sentiu um toque em sua ombro enquanto ouvia a frase num tom brincalhão. "O farei mesmo que o que mais odeie seja eu, mas não acredito que seja."
A menina odiava o fato dele estar certo.
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Cierra acordou com claridade em seu rosto cegando-a brevemente e vozes altas do lado de fora de sua cela – os homens de uniforme falavam dela como se ela não estivesse atrás deles naquele maldito cárcere.
"Essa foi a garota que...?"
"Claro que não foi ela, mas quando ela apareceu recebemos duas coisas: dinheiro e uma ordem. A execução vai ser hoje ao pôr do sol, prepare-se."
Um suspiro fundo foi todo o som que a garota fez, sua mente infantil começou a encaixar as peças do quebra-cabeças obscuro que virou sua vida e lágrimas de ódio escorreram por sua face até que os homens se foram juntos da luz. O escuro segurou sua mão gentilmente enquanto lhe sussurrava aconchegos e ela não o impediu.
"Se você passa muito tempo encarando o escuro, o escuro encara de volta. Se você o teme, ele te teme." Era isso, o breu tinha decidido. "Se você o aceita, ele te aceita."
O escuro finalmente se importava com alguém e ele se recusaria a ver sangue naquele dia – ao menos, se recusaria a ver o sangue dela.
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