Meu Anjo
2 Incomunicável
Notas iniciais
Espero que gostem do capitulo
Tudo era branco lá em cima. Branco na direita, branco na esquerda. Eram brancas as roupas dos anjos. Mas Bill era diferente de todos eles. Embora vestisse uma camisa da mesma cor que os demais, vestia uma calça jeans toda rasgada e sem nada nos pés. Suas asas eram pretas, totalmente o oposto dos outros. Ele era o diferente.
Bill costuma ir ao céu visitar seu irmão Tom, que estava com uma de suas asas quebradas devido a um acidente. Mas naquele dia, pretendia falar com outra pessoa, com Ele.
Foi até um lugar mais isolado no céu, onde não teria nenhum anjo para interromper. Precisava confessar e sabia que Deus o viria assim que começasse a se abrir.
Sentiu-se desconfortável com o ambiente, afinal, tinha um “nada” de um lado, um “nada” do outro. Como se estivesse dentro de um cubo de paredes brancas completamente sozinho e sentindo-se pressionado com algo.
–Senhor – começou a dizer – escute-me. Preciso de Ti. Sois infinitamente bom e Vos amo de todo o meu coração, pesa-me de Vos ter ofendido, e, com o auxílio da Vossa divina graça, proponho firmemente emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender; peço e espero o perdão das minhas culpas pela Vossa Infinita misericórdia.
–Bill, para que tanto perdão?
Um ser repentinamente apareceu na frente do anjo negro. Transmitia sinais de paz, felicidade e ao mesmo tempo preocupação. Era sereno e com uma beleza incomparável.
–Deus, perdoe-me.
–Mas pelo que, meu filho?
–Senhor, eu não sei o que está havendo comigo. Eu... eu estou me sentindo estranho. Sei que o Senhor sabe o destino de todos, inclusive o meu, mas por favor, me explique por que estou me sentindo tão... – Bill parou. Estava procurando um argumento que descrevesse seus sentimentos.
–Tão?
–Tão solitário e carente – não eram as palavras que estava procurando, mas Deus havia entendido.
–Será que isso tem a ver com a Elisa?
–Como sabe?
–Eu sou Deus. Mas ainda não entendo por que veio se confessar. Você é um dos meus anjos mais dóceis e amáveis.
–Sinto coisas não permitidas. Às vezes, penso coisas indecentes, e sinto vontade de fazer coisas que não deveria nem passar pela minha cabeça.
–Bill, escute bem. Nenhum amor é proibido.
–Eu a amo, Senhor. Como nunca amei antes. E não posso ficar com ela. Não posso beijá-la, tampouco abraçá-la. Queria que ao menos ela soubesse de minha existência.
O anjo abaixou o olhar envergonhado por expor seus sentimentos na frente Dele. Talvez a opinião do Senhor fosse diferente da sua. E ai? O que faria? Cogitando o fato de nunca poder tê-la para si, começou a tremer e a ficar nervoso e confuso.
–Deus...
–Diga meu filho.
–O que eu devo fazer?
****
Mais uma vez, como já descrevia a rotina, no canto do quarto estava Bill na situação de sempre. Considerava-se um anjo depressivo, embora os anjos fossem conhecidos por sua alegria e pureza. Bill era o contrário. Como sempre, estava rezando e derramando suas lágrimas pelo chão.
–Não consigo ficar sem ela. Não dá. Não consigo.
Esperava que depois de sua conversa com Deus, tudo iria ficar melhor. E ficou, em parte. Seus pensamentos estavam mais organizados. Agora mais do que nunca tinha certeza que estava apaixonadíssimo por algo fora de alcance. O que fez Bill chorar novamente foram as últimas palavras Dele, pois nem Ele sabia ao certo o que o anjo poderia fazer, indo embora apenas dizendo “Só você mesmo que pode descobrir como viver esse amor. Siga seu coração”. Bill não tinha a mínima ideia de como viver com isso e sabia que um dia tudo ia piorar. Afinal, não podia desconsiderar o fato de que um dia Elisa irá se apaixonar, e jamais será por ele.
Se seguisse seu coração como havia lhe aconselhado, a beijaria na próxima vez que a veria. A abraçaria tão apertado que seria impossível uma sensação melhor que aquela. Seu coração o guiava para um caminho que Bill não devia percorrer. Era um caminho proibido. Não podia estar gostando dela, não podia. Sabia desde sempre que não pode ter algo com ela, mas era inevitável o anjo não parar de pensar na formosura daquela garota que considerou como perfeita.
Tentando se sentir um pouco melhor, levantou-se de seu canto rotineiro e deitou-se na cama de Elisa, que como no dia anterior, estava tomando banho. Seu cheiro estava fixado no travesseiro, o que fazia Bill pirar e ter um tipo de sonho acordado, imaginando o que diria a ela se estivesse deitada com ele. Poderiam conversar sobre tantas coisas... Mas não tinha como. Não havia nenhuma maneira que conhecia de se comunicar com Elisa.
Abraçou forte o travesseiro e lá ficou por alguns minutos até adormecer, como sempre com Elisa invadindo seus sonhos impróprios e com uma lágrima escorrendo em sua face pálida.
Fale com o autor