Voltei a me sentar e fitei o quadro, Francesca abriu-o ao meio revelando uma louça eletrônica.

Da sua bolsa ela tirou um mine-notebook e conectou dois cabos ligando a louça até a entrada USB.

–Bom, hoje começaremos com o tema básico para qualquer fundamento. Vamos estudar a Grécia. –Alguns alunos no fundo da sala bufaram de raiva.

–Ah, Francesca. Grécia é assunto de terceira serie. –Um garoto de cabelos lisos e olhos castanhos, bem parecido com o Justin Bieber, se pronunciou no fundo da sala.

–Se é de terceira serie então você vai tirar um 100% na minha prova semana que vem, não é? –Ela sorriu para toda a sala em quanto alguns gritavam:

–Prova!?

–Pois bem, abram seus cadernos e acompanhem-me pelos notebooks. –Ela pegou um controle remoto que estava sob a mesa, apertou um botão.

Para o meu espanto, as janelas escureceram por completo deixando a sala completamente negra. Não consegui contar o susto e quase cai da cadeira.

Todos riram do meu grito e da minha reação, é, agora eu seria caçoada pelo resto do ano letivo.

–Calma Battler, sua primeira aula com Francesca e já esta assim? –Foi o tal de Justin Bieber 2 de novo.

–Vamos gente, peguem os notebooks. –Francesca sacou um piloto preto e outro azul da bolsa, eram aqueles de escrever em tela digital.

Droga, eu não trouxera nenhum aparelho digital, meu pai não me deixava comprar nem mesmo um celular. Ele falou que era perigoso e que hipótese alguma deveria usar aparelhos conectados a internet ou a redes de satélites.

–Professora... Eu não tenho notebook... –Falei meio sem jeito com medo deles rirem de mim de novo.

–Hum... Então junte-se a Iryena. –Ela deslizou lentamente até a frente da louça.

Tão graciosa, parecia uma bailarina e realmente todos prestavam atenção em cada movimento que ela fazia, cada sorriso, cada passo que ela dava parecia hipnotizar todos na sala. Mesmo no escuro o cabelo dela parecia reluzir em pequenas fibras de ouro.

Puxei minha cadeira para o lado de Iryena, seu cabelo no escuro parecia reluzir como pequenas estrelas brilhando num céu escuro sem lua alguma.

Sua pele pálida e prateada era tão suave ao brilho da louça. Com um leve movimento, ela puxou o cabelo para trás da orelha direita e sorriu para mim, parecia convidativa, aqueles dentes tão brancos quanto a neve mais pura...

Tão doce e sombria que me fazia entrar em um traze pesado. Arrastei minha carteira para o seu lado. Ela colocou o notebook preto entre nossas carteiras.

–Frann, qual a pasta? –Iryena perguntou a Francesca.

–Entrem na rede da escola e procurem no disco C Francesca. –Francesca parecia concentrada na tela do seu mine-notebook. –Depois sigam para a 9º ano. –Ela fez uma pausa melodramática e por fim completou. –Entrem na pasta Grécia antiga e sigam para a primeira página.

Em quanto Iryena abria o 9º ano, pude observar que havia uma pasta com o nome de cada aluno ao decorrer da tela.

–O que é isso? –Sussurrei para Iryena.

–São nossos boletins, trabalhos, pontos extra, agenda de comportamento e etc. –Ela suspirou e abriu a página Grécia Antiga. –Se quer sobreviver aqui precisa de um notebook ou um tablet para tudo.

–Meu pai não me deixa comprar... –E também não temos dinheiro para comprar...- Eu não me dou bem com essas coisas tecnológicas. –Mentira, é porque eu não tenho dinheiro mesmo.

–Então tá... –Iryena inclinou a cabeça abrindo a primeira página.

–Quais são os doze deuses Olimpianos? –Francesca olhou para a sala esperando alguém se pronunciar. –Ah gente, essa é a mais fácil. –Ela olhou para mim fixadamente. –Nada a dizer, Phoebe?

Eu sabia que se respondesse essa pergunta fácil seria caçoada e me chamariam de cdf.

–Nã-não sei... –Abaixei o olhar para a tela do notebook.

–Pense um pouco mais. –Ela cruzou os braços e se apoiou na parede rindo.

Eu precisava responder, seria possível que ninguém soubesse aquela coisa tão obvia?

Iryena também fixara os olhos em mim, ela esperava que eu respondesse assim como Francesca.

–C-certo... Poseidon, Hera, Afrodite, Dionisio, Artemis, Apolo, Hefesto, Hermes, Deméter, Zeus, Atena e Ares. –Abaixei a cabeça em quanto os outros riam e falavam que estava tudo errado.

–Correto. –Francesca mexeu no cabelo .

Agora as caçoadas de tudo errado haviam se calado.

–Qual a deusa que cedeu seu trono para que outro tomasse seu lugar? –Agora Francesca estava séria.

–Héstia, a deusa dos laços familiares e da lareira... –Respondi.

–Correto de novo.

–Nerd!

–CDF!

–Quais os dois heróis gregos mais famosos?

–Perseu e Hercules. –Um garoto negro que estava usando um casaco de lã cinzenta respondeu atrás de mim.

–Ótimo, Will. –Ela se mantinha séria e fria. –Quem roubou o tesouro de Atena?

–A guerra na Acrópole de Atenas foi causada pelos romanos, eles conquistaram o território e desonraram os gregos roubando seu tesouro, o Partenon, a estatua de Atena de marfim e ouro. Não se sabe como eles transportaram a estatua para Roma, ou o que fizeram com ela. Mas a causa do ódio mortal entre a Grécia e Roma vem deste roubo e desonra.

–Você sabe sobre o assunto até demais. –Francesca esta séria e parecia meditar a respeito de tudo o que eu falei. –Esta correto.

–Ah! Fala sério, outra CDF para estragar nossas vidas. –Alguém do fundo gritou.

–Joga titica nela! –Uma menina lá na ultima fileira rumou uma bola de papel na minha direção, porém, acertou a janela e caiu na mesa do garoto gordo duas cadeiras a minha frente.

–Se começar a rumar bola de papel em mim eu vou peidar! –O gordo gritou de volta rumando a bola de papel para a menina que sem querer o acertara.

–Basta! –Francesca subiu a voz em dois-quartos.

A voz dela ecoou pela sala e ficou repetindo-se na minha mente.

–Que prossigamos. –Francesca apontou para a tela batendo a ponta do piloto em uma palavra em grego, por algum motivo eu conseguia entender o que significava.

Ποσειδῶν, aquilo era Poseidon, o deus grego dos mares.

Por um momento vi algo brilhar, parecia um isqueiro se acendendo. Logo tudo ficou branco e um barulho ensurdeceu meus ouvidos. O brilho foi tão intenso que me cegou.

Bum!

Uma explosão, meu corpo foi arremessado no ar e tudo ardeu em chamas.