Meu Acampamento de Verão

62 Capítulo 62- Sangue Fae


Therion fitou-me com uma enorme expressão de dúvida, por fim encerrou a conversa anterior com um simples:

–Sim, sou filho de Hades. –um sorriso brincalhão formou-se em seu rosto, por fim relaxou os ombros e trocou o peso para a outra perna. –Algo contra filhos de Hades?

–N-não.. Conheço um, Nico, não sou próxima dele, mas já tive contato.. –fitei meus pés em busca de alguma ideia sarcástica para falar e desprender-me da conversa.

–Estamos sem tempo -falou Chris pondo os óculos novamente contra o rosto, cobrindo os olhos mais uma vez, senti que já não me enxergava, sua cegueira devia ter voltado. –lembrem-se, vocês nunca estiveram aqui. –um sorriso fantasmagórico e sombrio contornou o rosto da mulher a minha frente. –Continuam correndo para dentro da floresta, tentando alcançar a casa fria de Katie.

Suspirou em ânimo e levantou-se, os móveis a sua frente afastaram-se para dar passagem a ela, foi como se toda a mobilha daquela casa possuísse vida, incluindo os objetos, pareciam pressentir que a cega estava de passagem por onde tomavam lugar.

Inclinou-se na minha frente e tateou o sofá em busca da minha mão, que agora suava frio, assim como a mim, sentia-me desconfortável estando tão perto dela...

–As fadas não mais dançam. –seu sorriso desapareceu. –Os Devotos de Indra as caçam, seu sangue é precioso, não mais demonstrarão hospitalidade. –inclinou-se ainda mais na minha direção, recuei no sofá ficando completamente encolhida, o seu rosto a centímetros do meu, podia sentir a sua respiração quente roçar a minha pele suada. –Busque proteção nas asas do teu anjo da guarda, ainda nesta noite de tantas horas a mais, você será surpreendida por um visitante inesperado. –o sorriso fantasmagórico formou-se mais uma vez em seu rosto, seu cabelo caiu na frente dos olhos e tocou a minha testa. –Eu vejo cada passo teu. Quem seria o tolo a dizer que você é apenas mais uma filha de Afrodite?

Um estalo soou atrás da semideusa. De repente senti o sofá a qual eu segurava os panos tremendo de medo da aproximação, tornou-se um vácuo, pendi para trás, caindo num vazio medonho.

Aterrissei de bunda no chão, caindo em folhas mortas, o ar denso e frio salpicava minha pele. Levantei e fitei o portal escuro e gosmento a minha frente, exatamente na forma de um sofá, nem Katie havia se salvado, caiu junto a mim e fez a mesma cara de espanto.

Therion emergiu da sombra enevoada de um alto pinheiro velho.

–Hora de brincar. –ele sorriu malevolamente, pondo a língua para fora e lambendo os lábios descaradamente. –Fadas... que sabor tem? –gargalhou sádico com os olhos arregalados divertindo-se.

Ele estava completamente diferente de antes, não parecia mais o garoto de antes, calmo em uma praia, ele divertia-se com as próprias gargalhadas, prostrou-se atrás de mim e Katie, a neblina ficou mais densa e percebi a forma de uma serpente de fumaça vagueando e flutuando por entre as árvores, a música voltara a soar, mas em um ritmo diferente.. parecia uma música de funeral.

Sua pele brilhou tremeluzindo e escureceu assumindo um tom azulado, um azul escuro como uma uva roxa, quase no tom negro de tão escura que ficou.

–Ele é filho de Hades.. nunca vi Nico fazer isso.. –comentei recuando passos largos para longe dele.

–Não é só o pai que importa. A mãe dele é Lilith.. –Katie fez o mesmo, recuando, sendo repelida pelo instando assassino no ar. –O primeiro demônio a ser criado.. –um sorriso torto e nervoso tomou conta de seu rosto, caminhamos mais para longe, lentamente.

–Vou fazer uma visita a essas fadas, os anjos podem mata-las fácil, mas tem uma trégua com esses animais do mato. –Therion empinou o nariz e suspirou irritado. –Caipiras. –pestanejou. –Encontrarei vocês mais tarde, depois continuamos a nossa conversa. –olhou para mim por cima do ombro com uma expressão gentil e doce, mas a pele ainda continuava roxa quase tão negra quanto essa noite nublada.

–Boa sorte. –tentei falar mas apenas meus lábios se moveram, a voz ficou retida na garganta dando lugar ao estranho medo, minha alma parecia querer se desgarrar do corpo e fugir para o mais longe possível dele.

Eu e Katie demos meia volta correndo em direção do casarão, não podia ver nada, mas ouvia o barulho das raízes das arvores e arbustos se moverem para nos dar passagem a nós duas.

Corri como se não houvesse amanhã, mas aparentemente estávamos mais longe do que antes, ouvi um barulho parecido com o de tecido sendo rasgado, na mesma hora uma ondulação alguns metros surgiu a nossa frente, o ar foi cortado e uma fenda negra arroxeada brotou, expandiu-se e alargou pairando no ar.

Tanto eu como Katie sabíamos exatamente oque era, um portal de Therion. Saltamos sem hesitar, tão rapidamente já estávamos em frente ao casarão de Karen, a temperatura estava fria e cortante, camadas finas de gelo e neblina gélida cobriam completamente o chão. Iryena estava irritava.. e pelo visto fazia questão de mostrar isso...

As árvores se abriram nos dando passagem, o pinheiro deixou cair agulhas de madeira da sua casca em cima de nós, o contato com a pele deixou arranhões longos e uma coceira irritante, enquanto corria me dividia em coçar e tirar as agulhas de mim com raiva.

Ariane, Tess, Gabe e Steven estavam na clareira, as asas abertas como se formassem uma gigantesca muralha colossal de luz branca e dourada.

–Phi, Katie! – gritou Gabe eufórica e animada. –Pelo Trono, aonde vocês estavam?

Ela correu de encontro a nós abrindo espaço no local onde estava anteriormente. Cam surgiu correndo da porta da casa e tomou o lugar de Gabe, ficando imóvel exatamente na mesma posição, podia ver dali a tenção de todos.

As asas de Cam ergueram-se num borrão dourado e brilharam em uma enfadonha luz ouro mesclados.

Gabe envolveu-nos com as asas prateadas, espessas e meio rosadas, tão volumosas e pomposas, pareciam ser pura pluma.

Minha dor de cabeça momentânea sumiu, senti cada ferimento desaparecer, não só a pele, mas também minhas roupas de uma hora para outra a lama que empesteava-a desapareceu, limpou-se dos pés a cabeça, lembrava-me da vez em que fui reclamada filha de Afrodite no acampamento.. parecia ter sido a anos atrás, mas não fazia nem um ano direito.

Ela deu um giro nos trazendo em uma ventania e nos arremessou no ar. Katie gritou loucamente, um grito estridente de desespero, eu nem isso consegui, fiquei imóvel com o coração disparando descargas de adrenalina incontavelmente. A voz se trancou em minha garganta e nada saia.

Aterrissei nos braços de Cam, o anjo olhou-me entretido e rindo. Katie fora pega por Tess, as asas da anja sibilavam em correntes frequentes de energia.

Nos colocaram no chão, na mesma hora meu estômago começou a revirar.

Um estalar no cérebro fez meu corpo fraquejar e cada musculo do meu corpo gritou em dor, meus seios incharam doloridos, meu ventre pareceu crescer e arder enquanto a criança prosseguia o crescimento.

–Oque... –urrei de dor com a coluna inflamando na carne, de uma hora para outra tudo parou, a dor desapareceu instantaneamente. Percebi que meus cabelos haviam crescido, pois agora eram uma longa cortina negra que roçava o chão delicadamente enquanto eu estava agachada.

–Therion. -explicou Katie.

Elevei meu olhar e percebi que ela também aparentava estar com o cabelo mais comprido do que antes, mesmo ela mantendo-o preso num rabo de cavalo, agora ele pendia até o meio das suas costas.

–Quem é Therion? – Ariane permaneceu imóvel, mas com os olhos em mim, as asas e o corpo tensos, todos não se moviam, nem mesmo uma única pena, as asas abertas e retenidas para cima.

–Lembra do filho mais novo de Lilith? –Katie soltou o rabo de cavalo entretida e me ajudou a levantar, Gabe se aproximava tomando novamente o lugar em que antes ocupava. -Parece que ele pregou uma peça na gente.

Minha barriga estalava ainda, sentia contrações, aparentava estar agora com cinco meses de gravidez.

–Aquele portal.. ele nos fez acelerar nosso envelhecimento? –caminhava para dentro enquanto Cam seguia logo atrás de nós.

–Não estou entendendo nada. –ponderou Cam coçando a cabeça, parecia exausto.

Quando entrei pela porta da cozinha vi meu pai dormindo na bancada de mármore, estava recostado na cadeira e a cabeça em cima da bancada.

Iryena lavava os pratos, mas toda vez que abria a torneira a água congelava com o seu toque. Pigarreou um xingamento em russo e largou o prato dentro da pia quebrando-o, meu pai acordou com o barulho levando um susto.

Ao me ver se levantou sonolento e me abraçou apertado, Iryena estava com raiva, encarava a mim e a Katie. Quando percebeu a mudança física em nós, na mesma hora sua careta mudou.

–O que aconteceu? –perguntou a filha de Quione, o pesar do seu olhar frio fazia o teto nevar, finos flocos de neve pairavam no ar, quando tocavam em algo desapareciam num instante.

–Vou falar exatamente oque acontecer, mas depois, deixe todos entrarem. –caminhei pesadamente até chegar a sala.

Os irmãos Stoll jogavam um baralho de cartas chamado: UNO

Do lado de fora percebi que os anjos haviam se espalhado, um em cada extremidade envolta da casa, todos em sincronia assumindo aquela posição, as asas estendidas para cima.

–Nach Unten! –gritaram em uníssono, ouvi apenas um barulho altíssimo parecendo um urro.

A escuridão da noite sumiu ligeiramente dando lugar para os raios de sol cavalgarem com voracidade e brutalidade atingindo o chão envolta da casa.

A noite se transformou em dia e rapidamente voltou a escuridão, um paredão amarelado e calmo pairava do chão até seis metros a cima da casa. Uma barreira, literalmente.

Comecei a ouvir sussurros no fundo da minha cabeça, a única pessoa ao meu lado era Arieane, que havia adentrado a casa, assim como os outros.

Estávamos todos sentados em um círculo na sala, alguns em pé, recostados nas paredes, havia muita gente ali.

Comecei a ouvir sussurros dentro da minha cabeça, vozes que não eram minhas, algo estava errado, doía, os ecos pareciam estuprar os músculos nervosos do meu cérebro.

–“Sumiu do nada, como isso pôde acontecer? Katie maldita, se não fosse por ela não estaríamos nessa situação”. –a voz de Ariane estava em tom claro de raiva.

Fitei-a com uma certa raiva por ter falado isso.

–Ela não fez nada. –quase gritei encarando a anja.

–O quê? – a loira morena tingida fitou-me com uma cara de dúvida como se estivesse olhando para um esquizofrênico.

–Não foi culpa de Katie, ela.. ela só estava curiosa e queria me mostrar as fadas.. –uma veia quase estourou na minha testa, estava com muita dor de cabeça.

–Eu não sei do que você esta falando. –Ariane fez cara de desentendida.

Meu pai estava atrás de mim, em pé do lado contrários ao sofá, sentia as suas mãos pesando em meu ombro.

–“Não, não pedi por isso, queria apenas uma vida normal, por quê? Por quê? Se não fosse por aquela mulher... hoje eu não estaria nesta loucura, por favor, preciso sair daqui”.

Elevei a cabeça para cima fitando o queixo do meu pai, a barba ainda por fazer.

–Pai... –meus olhos tremeram esquentando, pisquei com força enquanto lacrimejava. –Desculpa, se eu não existisse você não estaria aqui.. –engoli o choro respirando mais lentamente para parar de chorar.

–Você... –meu pai olhou com espanto se distanciando lentamente. –Não, Phoebe..

Gabbe se intrometeu salvando o meu pai de dar uma longa explicação ou salvar-me das lágrimas.

–Ela não bebeu licor dos deuses, ela bebeu sangue de fada.. –seus olhos se arregalaram enquanto Cam se apressava para quebrar o silêncio.

–O sangue não pode influenciar a Phi, ela já é adolescente. –argumentou Cam.

–O bebê que ela carrega não é adolescente. –retrucou Francesca cruzando as pernas e me examinando pelo canto do olho. –Estas benditas fadas acabam de dar um “toque especial” na nossa rotina. –sua cara ficou séria, simplesmente sem expressão enquanto Steven brincava com uma mecha de cabelo solto de Francesca.

–As fadas nos pregaram peças. –um soluço pesado formou-se na garganta do anjo caído.

–O que isso quer dizer? –levantei-me com raiva, algo realmente estava errado, senti minhas unhas crescerem rapidamente, assim como meu cabelo, as unhas também haviam envelhecido e ficado maiores.

–Lucinda, o bebê, você tomou sangue de fada, sua filha não só é um anjo, mas provavelmente algo... que nunca existiu antes, não podemos explicar algo que não sabemos.. –falou Ariane se levantando. –É perda de tempo continuar com essa conversa, agora me contem, por onde vocês andaram?

–Fizemos uma visita a velhos amigos. –ela sorriu e tocou minha barriga brincando com os dedos pela superfície da minha roupa.

–Você sabia, não é? –fitei Katie que parecia entretida e com uma cara inocente.

–Adivinhou e eu nem precisou ler minha mente. –ela sorriu amigável enquanto não só a mim, mas todos na sala a fuzilavam com o olhar, com exceção dos irmãos Stoll que pareciam chocados.

–Katie.. –Trevor não conseguiu completar a frase, apenas abaixou a cabeça.

–Foi necessário, as fadas ajudam umas as outras, e um dia, precisarão ajudar, isso não foi feito para preocupações presentes, e sim para futuras. –Katie se espreguiçou e seguiu até as escadas. –Eu nunca faria algo ruim a ninguém, isso é apenas uma precaução. –ela sorriu e seguiu escadaria a cima indo até o nosso quarto compartilhado.

Todos estavam sem reação. Apenas seguiram os passos dela até sumir pelo corredor do segundo andar.

Queria fechar os olhos e dormir, ainda podia sentir minhas veias enrijecerem e cada grama de glóbulo dourado do sangue de fada nadando pelo meu corpo, assim como no do meu bebê, ao qual ainda corria o risco de nem nascer se eu não batalhasse pelo nosso futuro.

–Phoebe tem sangue Fae, assim como a filha, essa modificação.. –Tess estava nervosa enquanto falava. –Dyanna jamais permitirá isso.

–Não é hora de falar nela. –sussurrou Steven.

Enquanto começava-se uma discussão, senti algo estranho na mão.

Rapidamente senti uma queimação na palma, foi então que me lembrei, onde estava a maçã? Eu a segurava a pouco tempo.

No lugar onde estava anteriormente, estava em seu lugar uma marca de um círculo pontiagudo com asas curvadas e uma escritura que eu não entendia, parecia uma tatuagem na palma da mão.

Minha barriga começou a doer e eu apaguei, desmaiando no sofá de tanto cansaço.

Notas finais
:)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.