Meu Acampamento de Verão

58 Capítulo 58: Fadas?


–Oque!? –gritou se levantando.

–Não foi planejado.. eu só não queria mais guardar isso.. –tentei argumentar, mas vê-lo na minha frente com uma mistura de raiva e dor era estranha, nunca vira ele me lançando esse olhar antes.

Jordan fechou os olhos, pude fitar sua face de raiva, tudo o que fez foi espirar e inspirar ar dos seus pulmões. Era como se ele estivesse limpando um prato sujo, deixando todo o resto de comida seguir ralo á baixo enquanto a porcelana secava.

Quando voltou a abrir os olhos apenas mantinha um olhar firme e melancólico, conteve-se a fazer uma única pergunta entre milhares as quais ele poderia ter feito:

–Quem é o pai? –Jordan olhou fundo nos meus olhos e continha-se, trocou o peso do corpo para a outra perna.

Hermes. –pigarreei abaixando a cabeça, percebia a presença de Iryena se retirando do local, assim como o frio que a arrodeava.

Gabe assumia a pia, lavando toda a bagunça que Iryena havia feito. Mesmo com a pouca conversa no ambiente, o clima estava bem tenso.

–Eu sabia sobre sua mãe, sobre os deuses do Olimpo, sobre tudo. Ela me contou absolutamente tudo, mas oque nunca me disse é que deuses podiam engravidar seus sobrinhos, netos ou sei lá qual grau de parentesco sanguíneo você tenha com ele. –meu pai abaixou a voz quando percebeu que estava falando alto demais. –Só.. me diga, quando isso aconteceu? –abaixou o rosto fitando minha barriga por cima dos lençóis.

–Faz quatro meses e meio, minha barriga esta crescendo. –afundei o rosto nas mãos cobrindo meus olhos para não ver a decepção do meu pai.

–Quando tive você eu também era muito novo, praticamente tinha a sua idade, criar uma criança sozinho é difícil demais.. –meu velho engoliu em seco enquanto pegava um pedaço de melancia ainda com pesar no rosto, mas já mais calmo. –Seu avô nunca me ajudou, tive que me virar no mundo, sozinho, só quero dizer que..

Gabe cortou o grau de raciocínio do meu pai colocando um pires cheio com bolinhas de queijo.

–E-eu.. sempre estarei aqui. –Jordan pegou minhas mãos e as abaixou, segurando as duas firmemente, acariciou minha barriga tentando sorrir, talvez admirado com a ideia de que iria ser avô. –Não vou lhe deixar, nunca, jamais pensaria nisso.

Uma lágrima desceu pelo seu rosto, ele a capturou com a língua quando chegou ao canto da sua boca.

O dia passou rápido depois da conversa, meu pai ainda estava relutante, falava o tempo todo que queria encontrar esse tal de Hermes.

Já ao cair da noite, Ariane e Tess foram aproveitar o tempo para siar num especial jantar. Infelizmente, quando voltaram tiveram uma forte dor de barriga. Depois das duas usarem o banheiro ninguém mais conseguiu entrar nesse cômodo do segundo andar.

A noite foi clama, Iryena havia se ausentado junto a Cam, Gabbe.

Um churrasco foi feito nos fundos da casa, o quintal aberto, arejado, as portas de vidro laterais levavam direto a cozinha e a churrasqueira de tijolos do lado de fora.

A floresta arrodeava completamente aquele lugar inteiro, apenas a frente ficava visível, com uma bela vista para o enorme lago, alguns patos e cisnes dormiam em seus ninhos as margens do lago.

A fumaça da carne era exalada no ar a medida que o fogo a cozinhava, lentamente. Roland era o nosso chefe esta noite.

Ariane e Tess ficaram se paparicando e sussurrando sentadas num banco de madeira de costas para a escura floresta atrás delas.

Katie cuidava de um jarro com uma muda única, uma flor de papoula brotava alegremente, parecia se mover para perto da filha de Deméter enquanto a garota a regava.

–Bem, esta tudo lindo, só falta uma música. –argumentou Jordan pegando um aparelho de som e pondo no parapeito da janela.

Katie repousou o jarro com a papoula em seu devido lugar entre as mudas e correu até meu pai baixando seu braço para impedir que ele colocasse o cd.

–Não precisamos de música eletrônica, ouça. –ela jogou o seu cabelo ondulado e longo para trás do ombro exibindo seu ouvido.

Roland exibiu um sorriso torto parando de mexer na brasa da churrasqueira.

–A natureza tem sua música, se livre disso e escute-a com atenção. –o olhar de expectativa surgiu no rosto da semideusa.

Levantei do gramado verde e me juntei a Katie, concentrando-me em aguçar os sentidos.

Fiquei esperando por longos segundos até poder ouvir um simples ruído, um ruído melodioso e agudo, um piado de uma coruja.

Meu olhar seguiu o dela e vi seus esbugalhados olhos brilhando nas sombras de um galho alto no pinheiro a cima das duas anjas.

–Compreenda cada nota. –ela levantou uma mão repousando-a no ar, balançando os dedos graciosamente como se estivesse tocando um piano invisível.

Segui os movimentos dos seus dedos enquanto uma brisa fria e pesada fazia as janelas baterem ruidosamente.

Foi então que comecei a ouvir, uma melodia. Não eram piados, nem uivos, nem mesmo o balançar das árvores, eram instrumentos, uma voz doce e poderosa, um soar leve de uma flauta tocando entre as escuras árvores.

Uma neblina de frio serpenteava pelo chão, pareciam serpentes brancas e intangíveis brincando com a nossa mente.

Ariane e Tess se levantaram as pressas saindo de perto da floresta. A anja morena tinha uma cara de surpresa, encarou Katie por um segundo e falou:

–Por que não falou que tem fadas nessa floresta? –pigarreou Ariane.

Tess engoliu em seco e parou do meu lado como se fosse um grande escudo, imóvel ficou a observar o local, uma verdadeira sentinela.

–Vocês já deveriam ter percebido isso. –Katie serrou os olhos e caminhou a passos largos em direção à floresta nevoada e fria. –São pacificas até certo ponto, mas garanto que nunca serão as primeiras a lançar a primeira afronta.

–Claro, não precisam, só vão vampirizar a energia dos mais fracos daqui. –Ariane apontou meu pai com o canto dos olhos.

–Mas.. fadas não são boazinhas? –falei baixo com a voz rouca por causa do frio que arranhava minha garganta.

–Não, ninfas são boas, mas muito fofoqueiras, fadas.. elas são como irmãs más, vampiras de emoções, parasitas da alma. –Tess explicou-me sem nem mexer um musculo, continuava imóvel olhando o nada no vão da floresta parada ao meu lado.

–Aflore sua mente, Ariane. Tenho dezesseis anos e sei como lidar com fadas. –um meio-sorriso se formou no rosto da filha de Deméter. –Você é um anjo, de ti não podem parasitar, e além disso, vocês duas estão aqui, não vão nos incomodar, mas tenho de lhe mostrar isso.

Abaixo dos pés de Katie surgia grama verde, percebi isso agora. Dente-de-leão brotavam ligeiramente na grama perfeitamente pura.

Era incrível ver a vida brotar ao seu redor, ficava imaginando como era ser um filho de Deméter.

A garota se virou e entrou na floresta sem mais nem menos. Sumindo pelas brumas e neblinas pesadas. Ouvia-se apenas o som de seus passos contra a terra e as folhas húmidas e semicongeladas.

–Katie! –gritei correndo para alcança-la.

Tess tentou segurar meu braço, mas eu não era mais uma garotinha, tive treinamento em combate. Me esquivei ligeiramente com uma pirueta graciosa para o lado direito saindo completamente do seu alcance. Corri para a escuridão, meu pai gritava para mim, mandando-me voltar.

Olhei para trás e lá estava Ariane igual a uma louca tentando me alcançar. Entramos no meio da neblina e tudo que via era a silhueta luminosa da casa por entre toda aqueles borrões de galhos.

Notas finais
Não rolou ação ainda, mas estamos perto, e também perto do final da fic, inicio do finalzinho já gente.