Metáforas
1 Aquilo que dá no coração...
Notas iniciais
Como dá pra ver pelo título, a ideia me veio depois de ouvir a música "Aquilo que dá no coração", do Lenine, em que ele descreve como é estar apaixonado sem em nenhum momento usar a palavra amor.
=D
— Não estou nervoso, não estou nervoso, não estou nervoso... — James ia repetindo na frente do espelho do dormitório masculino enquanto respirava fundo, sentindo que iria desmaiar.
— Ei, Prongs, por que você vestiu as calças do lado errado? — perguntou Wormtail entrando pela porta com alguns quitutes trazidos das cozinhas do castelo.
Moony riu alto e Padfoot continuou isolado num canto, virando furiosamente as páginas do Livro Padrão de Feitiços 2ª série cada vez mais nervoso, agitado.
Ele não recepcionara nada bem aquela ideia de James estar interessado por Severus Snape.
Prongs conseguia entendê-lo, de certa forma, já que aquilo tudo, apesar de idoso em seu coração, era muito confuso, complicado de se decifrar até mesmo para ele próprio.
Ele fuzilou os colegas com o olhar e desvirou a calça, ajeitando-a no espelho sob as pernas novamente do lado correto.
— Vocês são péssimos — ele disse, pigarreando em frente ao seu reflexo e conferindo a imagem uma última vez com um semblante crítico.
Enchendo o peito de ar e suspirando, ele reteve as pálpebras, e definiu:
— Estou pronto. — E se virou para sair marchando porta afora na direção da comunal.
Mas antes que pudesse, Sirius Black levantou-se de um salto, com um grito animado que espantou a todos e um semblante vitorioso estampado em sua face. Já empunhava a sua varinha.
O livro continuava firme em suas mãos, aberto em uma página surrada que ele lera.
— Aha! Silens Corde! — disse com autoridade, em alto e bom som, enfeitiçando o desprevenido comparsa.
Não houve lampejo, nem nada do gênero, mas as energias do quarto foram mudadas e todos puderam sentir a força do feitiço cortando o ar em translucidez.
Remus moldou um perfeito “o” com a boca e Wormtail se esquivou, guinchando como um rato.
James não se sentiu exatamente diferente, de primeira.
Ele apenas deu um salto com o susto, e virou-se depressa, abismado com a traição do colega.
—Ei! O que fez comigo, Padfoot? — disse alto, aborrecido.
Sirius o encarava, alegre, travesso, com um sorriso lhe cortando o horizonte das maçãs do rosto e estendendo-se de orelha a orelha, muito satisfeito.
— Você se humilhando para o Ranhoso? — disse com uma careta de desaprovação particularmente dramática. — Não se eu puder impedir, Prongs! Estou te fazendo um favor, você vai me agradecer por isso no futuro.
James o encarava perplexo.
— Não, eu não vou! — E puxou a varinha, furioso. — Retire agora o que quer que você tenha feito comigo, Padfoot, não estou brincando.
Wormtail guinchou de novo, encolhendo-se nas bordas da cama, e Lupin levantou-se de um salto, colocando-se entre os dois e erguendo as mãos pacificamente.
— Meninos, acalmem-se! Alto lá! — pediu ele. — Vocês não irão se atacar — impôs confiantemente. — Padfoot, por favor, desfaça o que fez com James.
— Não tem como... — disse sorridente. — O feitiço não tem contra-praga, ele acaba sozinho em vinte e quatro horas.
— Vinte e quatro horas? — repetiu James, lívido. — E o que foi que você fez comigo?
— Ah, isso eu não conto... — cantarolou Black alegremente, rodopiando pelo quarto como uma criança ao receber um doce inesperado.
James se aproximou em passos rígidos e largos, bufando como um touro, mas Remus entrou na sua frente para impedir que ele chegasse até o colega.
— James, esqueça isso, vá! — pediu ele, começando a estar nervoso. — Logo, logo, Snape não estará mais sozinho, e você perderá a sua chance de conversar com ele em particular. Então se apresse! O que quer que Padfoot tenha feito, você terá que descobrir.
James ainda segurava a varinha com firmeza, inchado de raiva.
Correu os olhos amendoados de Lupin para Padfoot, pesando o que havia sido dito, e por fim concluiu, bufando:
— Ótimo, estou indo! — Ele estreitou os olhos para Sirius e sussurrou ameaçador: — Mas você me paga, Padfoot.
Sirius estremeceu.
Havia-se sido o tempo em que eles trocavam pegadinhas um com o outro.
Se voltariam a fazer aquilo, ele sabia que havia ficado enferrujado com o tempo, mas certamente James não.
Engoliu a seco.
Dali, James partiu em disparada, apanhando no trajeto o mapa do maroto para localizar Severus.
Não estavam muito longe.
Um pouco para a esquerda, uma curva à direita, mais uns passos para frente e...
— Ai! Seu ogro! — grasnou Snape, sem ver quem vinha, derrubando todos os seus livros no chão do corredor e caindo junto.
James, mais alto e de estrutura mais firme que a do garoto franzino, cambaleou com o choque, mas não caiu, manteve-se de pé, levemente atordoado por uma fração de segundo.
Guardou o mapa no bolso depressa, e correu para ajudar o Slytherin.
— Snape! — Ele disse, erguendo alguns de seus livros do chão enquanto o outro se levantava, e devolveu-lhe gentilmente seus pertences. — Preciso conversar com você.
— Nem me venha! — disse Severus com azedume, apanhando os seus materiais e se preparando para evadir dali antes que Potter tivesse a chance de aprontar alguma de suas pegadinhas infames.
— Ei, espere! — pediu James esbaforido, correndo para o lado com seu porte físico avantajado para bloquear a passagem de Severus, e o Slytherin quase caiu novamente.
— Saia da minha frente, Potter! — ralhou, estressado, querendo sair logo daqueles corredores. — O que é que você quer, hein?
— Eu só quero conversar, juro! — Ele disse, tendo uma ideia.
Enfiou a mão dentro do sobretudo preto de uniforme e retirou a varinha do bolso interno, colocando-a aos pés de Snape e recuando.
Ele franziu o cenho, com o nariz ainda torcido para o Gryffindor, mas pareceu mais convencido.
Ainda empilhando os livros, se abaixou, desconfiado, e tomou com certo desequilíbrio o objeto do chão.
— Estou escutando... — ele disse um pouco mais interessado.
Que é que estava levando James Potter, afinal, a agir daquela maneira?
Já faziam quase dois anos que eles não se encrencavam e ele acreditava que depois do término do namoro de Potter com Evans, aquela velha rincha infantil seria finalmente esquecida e deixada para trás.
James respirou fundo, retendo as pálpebras, e começou:
— Olha, há algum tempo eu venho sentido coisas estranhas... — tentou, cauteloso.
— Então procure a Madame Pomfrey! — Snape já começara a lhe cortar, na defensiva.
— Não, Snape, por Merlin! — Ele girou os olhos, impaciente, e engoliu em seco. — Não é desse tipo de coisa que estou falando...
— Então o que é?! — grasnou Snape, impaciente. — Diga logo que tenho aula em quinze minutos!
James hesitou, sentindo seu estômago revirar, e respirou fundo de novo, tentando recomeçar:
— Severus, desde a primeira vez em que te vi no vagão... — disse, apreensivo. — Senti algo estranho em meu estômago. Como borboletas, entende?
— Sei sim, é asco! — disse Snape amuado. — E a recíproca é verdadeira!
Caramba!
Snape era burro?, James pensou. Estava se fazendo?
Não gostaria de ter que falar, não queria usar o termo...
Mas precisaria.
Então ele falou, estufando o peito:
— Severus, acho que eu te... — Tentou dizer, mas não saía. Arregalou os olhos.
— Eu também te odeio, Potter! — interferiu ele alterado, apertando os olhos. — Agora pegue sua varinha e suma, ande! Preciso ir...
— NÃO! — Interveio James, se sentindo desafiado. Ali, aquilo se tornara pessoal. Ele se faria entender, de um jeito ou de outro. Tentou de novo: — Severus, acho que eu posso estar...
“...Apaixonado por você”.
Na sua mente, as palavras existiam, se conectavam, formavam uma frase.
Verbalizá-la, entretanto, era difícil. Impossível.
— Severus, eu acho que... — “gosto de você”. Não saiu, também.
Argh! O que vinha a ser aquilo, em nome de Gryffindor?
Severus aborreceu-se, e preparou-se para sair andando agitado, mas novamente o brutamontes o impedira, com uma gota de suor escorrendo no canto de seu rosto pálido, tenso.
— Potter! — guinchou Severus. — Saia da minha frente ou juro pelas joias de Morgana que irei cometer a covardia de lhe azarar desarmado! Estou te avisando!
— Severus, você não entende?! — desesperou-se ele. — Meu dia fica melhor quando eu te vejo!
— Só porque você me espanca sempre que cruzamos pelos corredores e depois todos te aplaudem, seu mentecapto!
— Não é isso! — disse desconcertado. — Teu sorriso me faz sorrir.
— Bem, então se é assim... — Snape pensou um pouco. — Nunca mais você vai sorrir de novo.
E fechou a cara, tentando avançar mais uns passos novamente. James tornou a impedi-lo, sentindo seu tempo escassear, sentindo-se impotente... Sem saber o que fazer.
Que foi que Padfoot lhe fizera?!
Mas não estava disposto a desistir.
Ele se declararia, se faria entender.
Era tarefa pessoal.
— Severus, não consigo parar de pensar em ti! — apelou, embora não fosse totalmente mentira.
— E que tenho eu a ver com isso? — ele disse friamente. — Vá para um hipnólogo!
— És o bezoar de minha poção do morto vivo! — insistiu James.
— Poção do Morto Vivo não requer bezoar, seu tolo — corrigiu o Slytherin, ácido. — O bezoar é um antídoto para os venenos, e não um ingrediente para um deles!
— Eu sei, Snape! — irritou-se James. — É justamente isso que quero dizer, não vê? Você é a cura para minha dor de cabeça e...
— Eu sou a causa da sua dor de cabeça — ele tornou a corrigi-lo.
— Sim, exatamente! — guinchou o apanhador. — Mas não percebes que é o problema que quero ter? Que quero te ter por perto?
— Por perto como? — disse Snape com a sobrancelha arquejada, desconfiado.
— Perto, Severus! De mim! — explicou ele em desespero, gesticulando freneticamente com as mãos. — Não percebes que te quero bem? E que preciso da tua atenção? Antes, não era claro, mas agora eu consigo ver...
— Ver o que? — disse Severus, impacientando-se de novo. — Diga logo, Potter, céus!
James achou que ia surtar. Já estava quase desistindo daquilo e voltando a azarar Snape de novo, e não era no bom sentido.
Grasnou, irritado, arrancando alguns tufos do cabelo rebelde, e atirou os livros de Severus para longe, fazendo-o moldar um perfeito “o” com a boca e recuar assustado.
Não tinha jeito, precisava fazer aquilo.
Sua varinha rolou longe, também, com o impacto.
Ele extinguiu a pouca distância que o separava de Severus e uniu seus lábios aos do moçoilo apaixonadamente, retendo as pálpebras e agarrando em suas costas a medida que sobrepunha a própria estrutura atlética sobre a do garoto franzino.
Snape pendeu para trás, segurado por James, e seu corpo pressionou o dele na região torácica carinhosamente.
Severus tocou as costas de James, apoiando-se e correspondeu ao beijo, de olhos fechados.
Perdurou o ósculo por alguns segundos, até que o ar se começasse a escassear.
James olhou para Snape, arfante, mas inseguro, e só então pareceu notar, para seu choque:
— Ei! Você não parece surpreso! — Acusou, voltando à postura ereta e ajudando Snape a se reequilibrar.
— É porque não estou. Havia entendido já na primeira metáfora! — revelou Snape maliciosamente, um quase-sorriso brincando no canto de seus lábios finos. — Só queria ver você insistir mais um pouquinho, foi a primeira parte para você me compensar por tudo que me fez passar.
James engoliu a seco, temeroso:
— E q-qual é a segunda? — perguntou, hesitante.
— Bem... — Snape pensou, abaixando-se para pegar os livros. Entregou a James sua varinha. — Podemos ir até as cozinhas pegar um pouco de sorvete de limão com os elfos e sair para dar um passeio, que me diz? Parece-me um bom jeito de dar início a uma amizade com a promessa de que possa ser algo mais.
Os olhos de James brilharam esperançosos e ele suspirou, aliviado.
— Ufa! — disse, temendo que o Slytherin exigisse desculpas públicas, mas aquilo sequer passara por sua cabeça. — Vamos lá! — Ele disse, sorrindo confiante novamente, e apanhou os livros das mãos de Severus ao guardar a varinha de volta no interior do manto grifino.
Snape deu-lhe um raro sorriso e entrelaçou o próprio braço com o do outro menino quando começaram a marchar na direção oposta em que ele estava indo.
Conversaram timidamente sobre assuntos banais, como se nunca tivessem sido inimigos, e dali saíram andando, rumo a cozinha que lhes prometia um gelado de limão.
O plano de Padfoot fracassara...
Afinal, nem mesmo o mais poderoso dos encantamentos pode calar o coração de um grifinório.
F I M
Notas finais
Mereço tomates? kkkkkkkkkkkkkkkkkk
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