Metamorfose Ambulante
1 Capítulo Único – Metamorfose Humana.
Notas iniciais
Metamorfose Ambulante
Tudo começou quando eu tinha doze anos.
Meu médico me mandou contar tudo por escrito. Não estou com a menor paciência para revelações intimas a esta altura de vida e, ainda por cima, domingo à noite. Mas meu médico disse que escrever vai me ajudar porque ele acha que eu preciso de ajuda.
Ele diz que todos os escritores são malucos, e que só não estão trancafiados em um hospício porque a sociedade ainda valoriza os livros, pois dá um bom dinheiro a quem disfarça bem a maluquice.
Ele disse isso, eu fiquei olhando-o, tentando entender por que o meu caso era motivo de comentários sobre literatura. Eu nem me importo com os escritores, quero que eles se explodam! Não é minha culpa se eles gostam de lavar o rabo em público.
Mas parece que meu médico não pensa assim.
Quando eu penso, eu penso exatamente assim: Eu não gosto de lavar o rabo em público e vou ter que lava-lo porque tudo começou quando eu tinha doze anos.
Um dia eu acordei gorda e peluda. Pelos debaixo do braço, nas pernas, no rosto.
Pelos. Pelos por toda parte.
E minha pele estava inchada. Camadas de gorduras se acumulando por baixo dos pelos, sem que eu tivesse feito qualquer coisa para provocar isso. Modificaram meu corpo sem a minha autorização.
Os médicos disseram que era normal.
Ouvi uma conversa de hormônios, tireóidea, glândulas disso, glândulas daquilo e todos aqueles polissílabos que hoje qualquer ignorante diplomado ou não aprendeu a repetir na televisão sem entender xongas. Porque gente burra é mercadoria que não falta.
E daí eu tinha doze anos, acordei peluda e gorda, peguei uma gilete e cortei tudo. Pelos e pele. Eu me furei como se fura um balão de aniversário, para ver se desinchava. Não desinchou e eu fui parar no hospital, na emergência para ser mais exata. Fiquei duas semanas lá, até passar o risco de infecções.
Voltei magra.
Precisava ver. Meus pais até passaram a reparar em mim. Não bem em mim, mas na minha tentativa de suicídio, o que me pareceu o novo nome que eles me deram para mim.
Nome: Tentativa de Suicídio.
Sexo: Feminino.
Cor da pele: Branca.
Idade: 12 anos.
Não tive do que reclamar. A rua inteira, o colégio, o pessoal da praia, todos passaram a me ver com novos olhos. Eu me conferia um novo poder. Eu agora tinha o poder sobre o meu corpo. Podia modificá-lo quando bem entendesse. Quando o mundo se acostumava com minha aparência, eu simplesmente mudava tudo.
Fazia dietas sucessivas de engodar e emagrecimento. Cabelo curto, cabelo grande. Loura, morena, grisalha, ruiva, verde, roxa. Alta ou baixa. Banho tomado, suja. Roupa nova e limpa, rasgada e fedorenta. Isso para falar o mínimo. Não estou aqui para dar detalhes a desconhecidos.
Hoje em dia ninguém se mete mais. Médicos, especialistas, amigos ou parentes. Eles sabem que isso é coisa minha. Que sou feliz assim. E sempre forneço um espetáculo à parte. Devem se divertir à minha custa, os pobres de espírito. Falam pelas minhas costas, que eu sei. Eles pensam que eu vivo de costas. Que se danem! Já foi determinado, é minha lei: ninguém se meta com o prazer que tiro de minhas experiências com o copo.
Quem não se interessa que se dane também!
A quem se interessa posso dizer que já fiquei três semanas sem dormir, três meses sem comer, quatro meses sem me mexer sentada numa cadeira de frente pra parede, dezessete minutos debaixo d’água, trinta e nove horas dentro de uma sauna na temperatura máxima, quatro dias sem roupas dentro de um freezer de açougue, provei tudo o que é droga e remédio. Posso dizer isso tudo e muito mais, mas não quero me exibir.
Eu morri? Não, eu não morri.
Se quisesse contar vantagem teria aceitado a proposta do meu primo idiota e isso trabalhar num circo fazendo dupla com a gorila da mãe dele. Não fui. Será que meu médico vai gostar desse relato? Acho que não. Médicos já ouviram falar de tantas coisas, são todos pervertidos. Se ele soubesse da surpresa que estou preparando para ele, não ia desfilar com aquela carinha bonita que estou querendo para mim.
Afinal, eu sou uma metamorfose ambulante. Posso fazer o que eu quiser com a minha aparência.
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