Metamorfose
7 Capítulo 7 – Saudações e Despedidas.
Notas iniciais
Dessa vez não reclamem, só demorei três meses pra atualizar u_u /apedrejada da última vez levei quase um ano GUYAGHUHJ.ASJGKD/corre
Enfim, alguém ainda lê isso aqui? o_o
Eu não sei, mas gostaria que vocês acompanhassem, porque apesar da tia aqui ser relapsa e só escrever quando há os tais 'rompantes' de imaginação, gostaria que vocês continuassem comigo até o fim, porque eu planejei muito ainda pra essa história ♥
E eu fico fazendo essa confusão de ships, tsc.
Capítulo passado nossa Naddy teve que resolver as coisas com a Amu enquanto tentava não admitir a atração constante que sentia pro Tadase... Me parece que elas se resolveram, lá do jeito delas, mas agora restava outro obstáculo: Kukai.
Como nossa protagonista resolverá as pontas soltas para finalmente ser livre para ficar com Tadase? Será que ela realmente desistiria de tudo para continuar seu romance (ou começá-lo, veja bem) com o príncipe?
Acompanhem logo abaixo ^^ ~
Ótimo.
Então, eu realmente havia feito aquilo. Eu deveria me esconder num buraco devido à vergonha que sentia naquele momento... Não sei se foi pelo quis fazer, ou pelo que fiz... Mas eu realmente, realmente, realmente!! Queria ter para onde fugir naquele momento.
Tadase era um tomate maduro a minha frente — nossos rostos perigosamente próximos um do outro. Era a deixa perfeita para mim, eu poderia beijá-lo — e eu faria.... se já não o houvesse feito.
Sim, eu havia beijado Tadase Hotori.
Há dois meses e alguns dias eu havia descoberto que o que sentia por ele e classificava em minha “antiga vida” como aversão nada mais era que o oposto. Eu estava perdidamente atraída por ele.
Em seu aniversário eu finalmente dei o braço a torcer e aceitei sair com ele. Não que fosse um encontro ou algo do tipo, eu só... Eu não sei, era o aniversário do cara, o que me era suposto fazer!? E aí, do nada, em um ímpeto de coragem ele havia se declarado para mim; E quase havíamos nos beijado.
No entanto, desta vez, havia acontecido — e, para minha eterna mortificação, para todos os efeitos, eu o havia beijado.
Dizer que eu estava morrendo afogada em culpa, choque e embaraço seria o eufemismo do ano.
Ele continuava ali, me encarando, sem dizer uma palavra — seu olhar transmitia tanto choque quantos os meus, provavelmente, mas havia uma outra coisa sob eles, como o rosto de uma bela dama escondido atrás de um véu de casamento.
OhmeuDeus que eu só estivesse imaginando coisas, mas, para mim nos 15 anos que vivi como um garoto — literalmente falando — aquilo se parecia demais com...... Desejo.
Não que eu houvesse imaginado Tadase como um ser insensível, mas ver o protótipo de príncipe com paixão e desejo transbordando como lava pelos olhos escarlates realmente não ajudava minha atual situação.
Por todos os Deuses existentes, eu queria morrer.
— Ho... Hotori-kun — comecei, incerta. Ele continuava me encarando com cobiça nos grandes olhos que uma vez julguei inocentes. Vi sua garganta fazer um pequeno movimento e percebi que estava engolindo em seco.— Por mais que eu gost... QUER DIZER, você é pesado...
— Sim, Fujisaki-san... — Ele parecia completamente hipnotizado!!
Garotos...
— Alôo, você entende japonês?! Entende o que eu digo? Você está me machucando.
— Sim, e isso parece muito...
— DÁ PRA SAIR DE CIMA DE MIM??? – Explodi.
—Fu-Fujisaki-san!! Me-Me perdoe, eu....! — Finalmente ele parecia ter voltado à sanidade.
Vi meu príncipe se sentar ao eu lado na grama úmida enquanto eu me recompunha.
Ele nada disse, só me encarava de soslaio, rosto tomado de vermelho, achando que eu não perceberia.
Bom, eu havia percebido.
—Certo. Deixe-me só eu explicar para você o que acabou de acontecer aqui. Eu... Eu não...
—Nag... NADESHIKOOO!!!
Que maravilha! Timing perfeito.
Era Amu— Bom, eu achei que você havia desistido do projeto empata — não pude esconder o sarcasmo.
Minha melhor amiga corou— N-na verdade já resolvemos isso. O problema não sou eu...
Ela estava sem ar, parecia realmente ter se esforçado para chegar até ali.
Tentei não parecer muito aborrecida com sua intromissão — não que eu quisesse ficar sozinha com Tadase realmente, eu só gostaria de esclarecer as coisas antes que ele tirasse conclusões precipitadas e...
— É a Yaya.
Todos os meus pensamentos rumaram de imediato para minha amiga barulhenta, em alerta. Yaya nunca fora alvo de problemas — não realmente sérios, pelo menos — então o tom e a urgência de Amu-chan de fato me preocupara.
— O que houve? — Não percebi que eu e o Hotori havíamos falado juntos até que ele me encarasse e corasse, muito provável aquela expressão deveria estar refletida em meu rosto.
Amu-chan pareceu ignorar nosso pequeno momento porque apenas disse:
— Venham comigo.
* * *
Eu nunca havia visto a Yaya-chan chorar daquele jeito.
Quero dizer, ela realmente era problemática e birrenta — infantil é a palavra; mas ela parecia bastante devastada.Tentei imaginar os mais diversos motivos que a faria chorar daquele jeito sincero e arrebatador — sentia como se ela houvesse amadurecido uns bons três anos em meio ao escândalo — mas nada realmente me vinha à mente.
— O que houve? — Perguntamos eu e Tadase em uníssono mais uma vez apesar de, desta vez, não haver tempo para embaraços.
—O... O Kuukai, ele... Ele... buáaaaaaaaaaaaaaaa!!!
A situação dela parecia séria a julgar pelo tanto de lágrimas e catarro que fluíam de seu rosto sem qualquer controle.
Ugh, bizarro.
—Certo, nós não conseguiremos nada com ela desse jeito. Então eu falarei com a outra pessoa envolvida. — Conclui, resoluta.
— Vou com você — Tadase parecia tão determinado quanto eu.
Mas por que, apesar do tom firme de sua voz, senti como se ele parecesse... Com medo?
— Eu sinto muito em lhe dizer isso, Hotori-kun, mas eu devo confrontá-lo sozinha.
O olhar de incerteza e dor havia voltado ao seu belo rosto.
Não seria possível, seria...? Tadase Hotori ainda se sentia inseguro sobre o que havia acontecido comigo e Kukai há, não sei, meses atrás?
— Achei que havia lhe explicado o que aconteceu naquele dia — não pude evitar dizer.
Amu nos encarava corada, como se houvesse intrometido uma briga de casal, sem a provável ideia do que estávamos falando.
—Sim, mas...
—Ho-to-ri-kun, saiba que isto que tanto teme não há porque acontecer. Eu não deixei isso bem claro há alguns momentos atrás?
Eu não entendia de onde vinha meu inesperado destemor em mencionar um beijo de tão curta duração que nem ao menos fora intencional. Mas esperava que ele entendesse.
Seu rosto foi tomado por vermelho outra vez à lembrança do nosso contato e seus lábios se partiram num pequeno “o” que quase me fizera perder a compostura.
Suprimi o desejo de corar como uma garotinha — bem, que eu era — devido à minha imaginação saliente.
No entanto, eu acredito com todas as minhas forças que deveria ser proibido por lei alguém ser tão absurda e completamente adorável daquele jeito.
Num piscar ele havia se transformado, ganhado confiança eu acredito, em si — em nós.
Senti sua mão delicada sobre meu ombro e suprimi novamente os pensamentos indecorosos — no entanto não pude evitar o arrepio que passou por todo o meu corpo juntamente com o calor que se espalhava a partir de onde ele me tocava — ele me olhava firme, decidido.
— Prometa-me que tomará cuidado.
Essas suas variações de completamente molestável para completamente seguro de seu poder de sedução acabavam comigo por completo.
Corei.
— Eu prometo.
* **
— Ku... Sohma-kun!!! — Acenei, enquanto corria ao seu alcance.
Kukai estava exatamente onde eu achei que ele pudesse — na quadra anexa, aos fundos do colégio, onde sempre jogávamos basquete. Estava distraído quicando sem parar uma bola aleatória sem dar realmente seu sangue sobre isso, parecera chateado com alguma coisa.
No momento em que me ouviu chamar seu nome, se virara. Ele corara assim que me vira, senti meu peito comprimir.
Eu provavelmente soubera desde o momento em que encarei a face chorosa de Yaya o que havia acontecido — mas não deveria me firmar em suposições, deveria confirmar — esclarecer — toda aquela confusão.
E não deveria me sentir orgulhosa por desconfiar, nem que fosse por um breve momento, que era por minha causa.
Não me levem a mal, Kukai fora meu melhor amigo desde que eu entrara em Seiyo — e isso somava bastante tempo — mas nos últimos dois meses as coisas... mudaram... entre nós.
Eu não sabia como me sentia sobre isso, no geral. Kukai era inegavelmente bonito com seus cabelos castanhos e olhos verdes e verdadeiros, mas eu...Bem, tinha toda aquela confusão com o Tadase, de quem eu não conseguia abrir mão.
Então aqui eu estava, frente a frente com o cara que um dia fora meu melhor amigo... Que seria um bom material para namorado, mas que apesar da crescente atração que praticamente explodia entre nós eu não poderia... Não poderia fazer isso com o Hotori...... Ou com a Yaya.
— Opa, e aí Nag... Nadeshiko!! Faz tempo que não conversamos, não é mesmo? Eu tenho a impressão que as coisas ficaram meio confusas lá na quadra principal, e bom...
— As coisas estão de fato confusas, Kukai, mas não é só pelo que aconteceu na última aula. As coisas entre nós andam confusas desde que me tornei uma garota. — Ponto. Simples e direta. Sei que não estava dando meu melhor para ser uma dama o interrompendo a cada duas frases e o chamando por seu nome sem nenhuma cerimônia, mas precisava resolver isso.
Precisava resolver isso o mais rápido possível.Antes que meu corpo teimoso de garota resolvesse tomar mais atitudes inapropriadas por si próprio, antes que eu fizesse um outro ‘algo’ que machucaria não só a mim e a meu melhor amigo, mas também à minha amiga Yaya.
E ao Tadase.
—Bem... É — ele parecera se render, sorrindo de jeito apologético enquanto coçava as costas do pescoço.
Ele sempre fazia isso quando estava potencialmente nervoso.Ou com medo.Eu não poderia me sentir menos corajosa — de fato, eu sabia no que aquela conversa culminaria — eu daria ‘um fora’ nele. E não me sentia nem um pouco orgulhosa disso.Mas o que mais eu poderia fazer? Eu certamente não vivi minha vida toda de garoto andando pelo caminho correto para debandar assim que ‘trocasse’ de sexo — eu não seria uma garota que brincaria com os sentimentos dos outros — por mais que eu me identificasse com Kukai e gostasse dele mais do que deveria, eu meio que dei um passo a frente com Tadase hoje — e eu não pretendia voltar mais atrás.
Apenas seguir em frente.
— De fato, o que eu quero dizer é... Bom, primeiro deixe-me lhe perguntar... O que você disse à Yaya para deixar a pobre garota daquele jeito? – Arqueei uma sobrancelha.
Kukai reprimiu a vontade de gargalhar.
Eu pensei que minha queda por ele poderia ter diminuído um pouco neste momento por me parecer um tanto insensível.
Seríamos nós, garotas, sempre tão dramáticas?
— Você sabe como a Yaya é... — eu o fiz maneirar as palavras com apenas um olhar — Quero dizer, não foi exatamente o que eu ‘disse’. Está mais para o que eu ‘não disse’ ou ainda, ‘não disse da maneira que ela gostaria’.
Não pude esconder minha surpresa, uma das mãos indo direto aos lábios em choque:— Ela... Ela se declarou!?
Kukai anuiu.
Certo, meu instinto feminino — ou o que fosse, realmente — meio que me alertara sobre esse possível alterar de eventos. No entanto, eu não esperara que a Yaya — nossa Yaya — pudesse ser tão direta e até madura!!
Digo, decerto ela fomentara algumas fofocas e nunca negou quando perguntavam se eles possuíam alguma coisa, mas chegar ao ponto de se declarar...
Bem, nem eu tinha essa coragem.
Por um breve momento, eu admirei Yaya Yuiki e sua personalidade impulsiva que a fazia não ter medo de nada.
— Eu jamais esperei... Quero dizer, eu nunca... Eu desconfiava, mas... — minha capacidade de formular uma réplica coerente havia descido ralo abaixo — Mas espere! O que você disse? Ou, neste caso, “não disse”?? – enfatizei as aspas no ar para mostrar minha irritação.
Interessante perceber como o instinto feminino trabalhava a favor das garotas e contra elas, e tudo ao mesmo tempo, e tudo por um mesmo motivo:
Garotos.
Sério, nós não tínhamos coisas mais importantes a nos preocupar? Como esportes, programas bobos de TV que gostávamos por alguma razão, passatempos, estudos... Eu não sei!!
Me parece que desde que eu me tornei uma garota minha vida é cercada somente por coisas sobre garotos. E não é dizer que eu estou plenamente satisfeita com isso.
Suspirei — mais pelos meus pensamentos que pela circunstância atual.
— Ei, não suspire toda dramática desse jeito!! – Kukai parecia preocupado — Eu apenas disse a verdade, sem tentar ser muito duro com ela.
—Tenho medo dessas ‘verdades’. Nós garotos somos tipicamente ogros com algumas coisas. — Arqueei minha sobrancelha, por algum motivo estranho eu me referira como garoto outra vez.
— Não foi nada tão terrível como vocês garotas – a ênfase dele na palavra ‘garotas’ me deixou incomunmente irritada — fazem parecer. Eu só disse que gostava muito dela também, mas...
— Mas...? — Eu estava me segurando para não lhe dar um soco bem no meio da cara e quebrar seu nariz aquilino perfeito. Seria essa minha primeira guerra dos sexos??
— Mas que eu gostava de outra pessoa. – Ele corou.
Opa. Qualquer que fosse a raiva que eu estivera tentando controlar, desaparecera por completo. Ele não queria dizer...
— E essa pessoa é...?
Sim, eu tinha quase certeza que era eu. De fato, droga, eu possuía absoluta certeza!! E não é dizer que eu estava flertando, ou me sentia carente. Eu amava Tadase. Ele me amava de volta. Então porque com Kukai as coisas pareciam sempre tão... Perturbadoras?
Eu só queria confirmar e dar um fim naquilo tudo. Eu não estava flertando, não estava traindo e meu coração não estava acelerado porque eu me sentia absurdamente satisfeita com aquilo. Porque eu também gostava de Kukai. Isso não seria possível, isso não seria correto. Não seria apropriado. Para ninguém.
Então porque sentia a temperatura de meu corpo subir mais e mais até alcançar picos desprezíveis de ebulição?
Ele não me respondeu. Ao invés disso me puxou pelo braço tão rápido — eu nem havia percebido que estávamos tão perto — e tão imperioso que quando compreendi estava envolta em seus braços. E seu coração ribombava no peito tão louco quanto o meu.
—Kukai...!! — tentei gritar, mas minha voz não passou de um sussurro.
—Nadeshiko... Você realmente tem de ser tão cruel? Por que perguntar coisas... Que você já sabe? Por que insistir em me machucar dessa forma?
Espera, eu o estava machucando?
Eu pensei que me afastando dele eu estava fazendo o certo. Que não lhe alimentando esperanças e me tornando distante ele perceberia que eu não queria nada além de ser sua amiga. Em minha ignorância, eu pensei que essa era a melhor coisa a se fazer.
Contudo o resultado havia sido exatamente o oposto.
E se meu coração tamborilando como se quisesse sair e alçar voo para terras distantes onde eu poderia ser apenas eu mesma, sem passado, sem pretextos, levando meu melhor amigo comigo fosse um sinal então o que eu sentia por Kukai deveria ser mais forte do que eu previra.
E muito, muito mais perigoso.
As lágrimas que se seguiram, no entanto, foram totalmente indesejadas.
Malditas mudanças hormonais femininas!!, Praguejei em pensamento.
Kukai ainda me apertava como se eu fosse algo precioso, indispensável. Eu me sentia afogar em lágrimas e amargura enquanto seu abraço se tornava cada mais protetor, possessivo...... Acalentador.
— Você se lembra que estamos perto da graduação, não lembra? Que, em breve, no final do semestre, eu estarei me transferindo, certo? Eu aposto que você se esqueceu — Eu o senti sussurrando contra minha orelha, um misto de ternura e tristeza infinitas.
Ele apostara certo, eu sequer me lembrava.
Em meio à minha desordem de sexos e gêneros e amores eu não havia me recordado de algo tão importante quanto isto — Kukai estaria nos deixando — me deixando.
Eu finalmente entendera o porquê da atitude inesperada de Yaya, ela sabia que o estava perdendo, cada vez mais rápido, conforme os dias passavam.
E eu sequer notara isso. Envolta em meu mundinho (im)perfeito e seus problemas que agora pareciam tão ridículos e irrelevantes eu não percebera que, uma a uma, as pessoas que eu amava estavam se afastando de mim.Tomando seus próprios caminhos.
Relutante, pus as mãos sobre o peito forte e me separei de seu aperto, sentindo ainda os braços fortes contornar minha cintura. Eu o encarei e tudo que pude pensar dizer naquele instante fora:
— Beije-me.
O olhar ferido que Kukai me demonstrara quando eu tentei afastá-lo agora brilhava com nova vivacidade.
— Nadeshiko...
— Mas este será um beijo de despedida. — Disse simplesmente. Ele anuiu, sério.
Fechei meus olhos e a próxima coisa que senti fora seus lábios sobre os meus, levemente.
Nosso primeiro beijo fora uma confusão de dentes e lábios e roçares tão breves e embaraços. Este beijo representava dor, paixão, desejo — laços de uma amizade que nem toda a confusão do mundo lá fora poderia quebrar — senti seus lábios pressionando os meus com mais força e abri os meus de leve, permitindo sua passagem — era a primeira vez que eu beijava daquele jeito e tinha resolvido que queria que isso acontecesse. Queria que Kukai fosse o primeiro.
Porque ele me conhecia melhor do que eu mesma, porque ele sempre me apoiara, sempre possuíra olhos para mim mesmo quando eu ainda não sabia o que isso significava. Sabia que eu sempre o teria, de maneira ou de outra, próximo ao meu coração.
Começamos num movimento lento de exploração, reparação. Quando dei por mim já não batíamos mais os dentes um no outro, nossas línguas se enrolavam uma na outra e nossos lábios pareciam querer se devorar num louco frenesi — beijar deveria ser um instinto natural, eu pensei, um instinto puramente natural e primitivo que unia duas pessoas quando palavras não mais o faziam.
Quando palavras não mais se faziam necessárias.
Passei meus braços sobre seu pescoço, trazendo-o mais para perto. Nossos corpos colavam um no outro como se houvessem sido moldados juntos, como num encaixe perfeito — eu presumia que havia achado a peça do meu quebra-cabeça, a peça que faltava, a peça que me libertava de toda dor e dúvidas que eu havia sentido até então. Um de seus braços subira por minha coluna fazendo-me suspirar ao sentir o arrepio — sua mão veio aconchegar-se em meu pescoço, brincando com os fios soltos do meu rabo de cavalo e depois firme, como se quisesse me possuir por completo.
Senti o aperto em minha cintura afrouxar quando percebi que havia acabado.
Tudo havia acabado entre nós — o que quer que houvesse acontecido —naqueles últimos dois meses. Eu me sentia tão livre que poderia voar.
— Adeus, Sohma-kun — disse, ainda no processo de abrir os olhos, entre um suspiro em busca de ar e outro, num sussurro carinhoso que até então desconhecia ser capaz de produzir.
— Vou sentir a sua falta — Ele colocou uma mecha de meu cabelo lilás atrás das orelhas, sorrindo tristemente.
— Eu sei.
No entanto, não havia mais como voltar atrás.
* * *
— Fujisaki-san, estes são os papéis para a entrada do novo valete — Tadase me passou a papelada enquanto eu bebericava meu chá no agradável fim de tarde que poderia ser visto entre as árvores do Jardim Real. Focar em meu trabalho no conselho estudantil sempre parecia melhorar meu humor de alguma forma.
— Hm, ele parece promissor — comentei com sinceridade. Seu nome era Kairi Sanjo. Os óculos redondos sob os olhos verde-escuros e o corte de cabelo quase tradicional que vestiam as mechas muito negras dava a ele uma aparência CDF.
— Como você está se sentindo? — Tadase disse sem pensar, logo depois pondo uma das pequeninas mãos sobre a boca.
Corei. Havia contado a ele o que acontecera entre mim e Kukai e não me sentia culpada por isso — ele fora muito compreensivo e até um pouco apoiador com relação aos meus sentimentos confusos — logo após eu havia falado com Yaya e pedido para que ela conversasse com ele direito, com mais calma. O resultado daquela conversa eu realmente ainda não sabia.
— Bem, acredito eu. Feliz por ter eliminado tudo isso do meu sistema.
Senti a pequenina mão sobre a minha e o encarei.
O vermelho em seu rosto deveria refletir o meu próprio — com Kukai as coisas eram explosivas, mas com Tadase tudo seguia seu próprio ritmo — tudo era extremamente doce e absurdamente constrangedor.
— Que bom — suas palavras e seu sorriso diziam que havia mais ali do que ele queria dizer.
Bom, suspirei internamente, era chegada a hora de minha próxima batalha:
— Hotori-kun — coloquei minha outra mão em cima da sua — Há algo que eu preciso lhe contar.
— Há mais para ser contado do que as chocantes revelações desta tarde? Ele pôs a mão livre sobre o coração, um olhar divertido sobre o escarlate de seus orbes.
Ver Tadase Hotori brincando daquele jeito tornava a situação toda ainda mais absurda para mim.
Óbvio, eu também gostaria de negar que aquele lado dele me fazia sentir arrepios totalmente involuntários assombrarem meu corpo.
Quantos lados de Tadase Hotori eu ainda teria de conhecer?
— Hotori-kun eu... Bem, eu gosto de você.
—Mas...?
O olhar que transbordava compreensão em seu rosto como num oceano me fazia querer mergulhar sem proteções ou reservas. Fazia-me querer coisas que eu não poderia ter no momento — abandonar meus medos e mergulhar naquela alma de infinita bondade. Abraçá-lo e protegê-lo do mundo lá fora, e nunca mais desgrudar os lábios suaves e incertos dos meus.No entanto, ambos sabíamos que ainda não era chegada a hora. Não ainda.
— Mas eu não me sinto pronta... Para encarar toda esse 'evento' de namoro, e tem a Amu-chan e também...
—Está tudo bem — seu sorriso foi a última coisa que meus olhos capturaram antes dos pequeninos braços que antes eu achei não ser possível me envolverem de tão pequenos e frágeis — Eu esperarei o tanto que for preciso, Fujisaki-san.
— Você faria isso por uma desajustada como eu? — Não pude afastar o sarcasmo —e a tristeza— de minha voz.
— Contanto que você me ame de volta. Ele me encarou.
Eu anuí e naquele momento eu me senti tão feliz que não percebera a sombra que nos observava de longe, com os olhos tomados por lágrimas.
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