Metamorfose
5 Capítulo 5 – Coração desenfreado.
Notas iniciais
Nunca fui boa com títulos.
Enfim, capítulo cinco! Saiu mais rápido do que eu imaginava - agradeçam a minha imaginação troll (ou não). Esse ficou bem grandinho até.... Nadeshiko anda tirando todas as minhas forças GDFUKASDFHISDFH.
Bem, o outro capítulo foi mais amuhiko, esse é mais tadashiko, e o próximo... No próximo vocês descobrem xB
Ainda não sei com quem ela termina, anyway.
Disse que não ia colocar charas, mas advinha quem aparece no sonho da nossa donzela? huehuehueheu.
Tá, parei com os spoilers, leiam e se deliciem (-wtf). Espero que gostem, porque eu particularmente adorei escrever esse ♥
Capítulo 5 – Coração desenfreado
Eu tive um sonho...
Nesse sonho, eu era uma garota indefesa, polida e estava sendo insultada de uma maneira que nunca antes fora por um garoto menor, mais novo, loiro e que, acima de tudo, estava delirante sobre pertencer à realeza. E advinha; eu parecia estar, gradativamente, me apaixonando por ele.
Lembro-me de ter desmaiado – em meu sonho! E todo o cenário mudara: Eu agora era um garoto, como antes, e estava defronte minha melhor amiga Hinamori Amu. Seus grandes olhos dourados encaravam-me tristonha, sonho e realidade se mesclavam – havia me perguntado se eu ainda gostava dela. Também consigo recordar como aquele pequeno momento inseguro havia feito meu coração bater mais forte. E então tudo era escuridão de novo.
Agora eu estava numa sala de aulas, presa. Parecia haver anoitecido, mas a “sala” possuía uma pequenina porta rente ao chão –– nem mesmo uma criança caberia naquela entrada misteriosa.
No momento em que meus olhos fixados à misteriosa e minúscula porta piscaram, dois pequenos seres de corpo miúdo, grandes olhos e cabeças me encaravam: Eles pareciam ter saído de um desenho animado.
Essas ‘pessoinhas’ eram uma menina e um menino. Vieram flutuando desde a porta até minha direção, ficando à altura de meus olhos. Eles deveriam medir menos de 15 centímetros.
A menina usava um pequeno e detalhado quimono cor de rosa, com pequenas pétalas de flor de cerejeira desenhadas nos contornos. Tinha o cabelo arroxeado-claro preso num delicado rabo-de-cavalo com um ramo das mesmas flores róseas.
O garoto tinha grandes e divertidos olhos – seu cabelo era também arroxeado, mas num tom um tanto puxado para o azul. Vestia uma minúscula touca também roxa, uma blusinha branca e calças azuis. Naturalmente ambos usavam sapatos, mas seus pés eram tão miúdos que me foi impossível enxergar devido à falta de claridade e tudo o mais.
Além do estranho e assustador fato de eles me soarem muito familiares.
A miniatura em forma de garoto me sorriu – era um sorriso amigável, e um tanto ‘descolado’ para alguém tão diminuto. Ele falou:
-Hey Nagi! A melhor coisa para um garoto é seguir seu próprio ritmo.
No momento seguinte a pequenina garota pronunciara, não antes de uma leve reverência:
-E uma dama sempre deve saber o momento certo para quebras as regras.
Suas mensagens pareciam querer dizer a mesma coisa. Que eu deveria seguir, acima de tudo, o meu coração. Mas como seguir um coração que nem ao certo sabe o que deseja?
-Lembre-se, você é uma pessoa única, muito querida e especial, independente do seu passado ou das suas escolhas. Você é você –– e nós sempre estaremos aqui pra te apoiar, não importa como.
A última frase, disseram em coro. Acenei positivamente em resposta. Tentei esquecer o fato de eles eram pequeninos demais para se levar a sério – no fim das contas era o meu sonho, então devia estar tudo bem.
Os pequenos se despediram com um sorriso e evaporaram. Do nada, um grande espelho que parecia não ter começo surgira em minha frente, do mesmo modo insano e silencioso como a menina e o menino haviam feito. Meu “eu menina” estava refletido neste grande espelho, de uma forma tão nítida que dei um passo instintivo para trás, de susto. Acabei batendo de leve numa das carteiras com minhas costas.
Percebi de imediato que estava vestido em meu antigo uniforme de valete – eu era Nagihiko outra vez, e Nadeshiko se mostrava diante de mim em seus trajes escolares de rainha, delicada e feminina.
Eu gostaria de saber se era aquilo mesmo que eu queria, se algum dia eu chegaria a ser uma mulher perfeita, como qualquer outra – um pensamento tolo; nenhum ser humano atinge a perfeição.
Prendi o fôlego quando o “reflexo” abrira os olhos, me encarando, séria. Caí sentado na carteira onde havia acidentalmente atingido meu corpo momentos atrás. Do misterioso espelho surgira Tadase do lado esquerdo de meu eu feminino, e, de seu lado direito, surgira Amu.
Os três me encaravam – Nadeshiko agora parecia feroz, violenta. Em seus – meus – olhos castanhos brilhavam uma coloração de vermelho perigosa. Mas ela sorria.
Mad Queen.
Tadase me encarava como uma garotinha perdidamente apaixonada – muito embora ele fosse um garoto. Anatomicamente falando. Não que eu houvesse comprovado – não que eu quisesse comprovar.
Apesar de aquilo ser apenas um sonho e eu parecer estar em minha antiga forma, senti como se fosse corar. O outro garoto parecia implorar-me com os grandes olhos castanho-avermelhados – naturais; não ameaçadores como os de meu eu feminino – que o amasse, que o desejasse, que sentisse sua falta...
Em seguida o espelho mostrara uma cena que me deixara particularmente perturbado – ou perturbada, depende do ponto de vista: Eu e Tadase estávamos nos beijando!! E não apenas beijando, estávamos num patamar um tanto mais... avançado. E eu estava com aquela maldita calcinha rosa de ursinho! – Não me lembro de ter sonhado nada antes do tipo – não com o Tadase. Era meu eu Nadeshiko que o abraçava, bagunçava seus cabelos e o provocava como se possuísse a situação sob controle, mas mesmo sendo Nadeshiko e não Nagihiko a cena não deixava de ser chocante.
Desviei o olhar antes que me arrependesse e percebi, ao encarar meus joelhos, que era a diminuta saia vermelha que estava lá agora – toquei meus cabelos rapidamente – eles estavam presos no costumeiro rabo-de-cavalo que eu os colocava para ir à escola nos últimos meses. Minhas, erm, “imagens” com o príncipe fajuto estavam se tornando lentas, embaçadas. Por um momento tudo ficou escuro e então outras imagens se fizeram aparecer.
Eu estava de volta ao meu quarto, mas ele parecia um tanto desorganizado e masculino. Meu quarto, antigamente. Dessa vez era meu eu, Nagihiko, e minha melhor amiga Amu. Não vou dizer que as cenas que se seguiam – um tanto similares às minhas com Hotori – eram-me estranhas dessa vez; eu já havia sonhado com isso.
Sim, diversas vezes eu e minha melhor amiga nos beijávamos, e nos agarrávamos loucamente – eu a encostava na parede com minha língua se misturando à sua dentro de nossas bocas e ela, em resposta, me enlaçava a cintura com suas pernas esguias. Eu não podia contar quantas vezes havia sonhado com isso, e, por conseguinte, quantas vezes acordara me sentido o pior dos homens.
Depois de algum tempo essa imagem também evaporara, deixando a sala sem fim e sem saídas – exceto pela diminuta porta – num escuro completo. Eu sabia que só de pensar certas coisas magoaria minha melhor amiga, sabia que ela se ferira duplamente agora que eu me transformara em garota, mas era tarde demais para voltar atrás. E assim que esse pensamento me atingiu a cadeira em que eu estava sentada desaparecera – bem como as janelas, e as grossas cortinas escarlate que varriam o chão. Eu caíra sentada no duro piso, completamente atordoada. Estava tudo escuro e frio.
Desesperada, olhei para cima, para onde o céu – o fim de todo aquele sofrimento – deveria estar e dei de cara com um grande par de olhos verde-escuros no longínquo teto. Kukai.
No entanto, só seus olhos estavam visíveis; eles soavam preocupados, até um pouco tristes. Lembrei-me de quando nos beijamos, quando ele me beijou. Parecia ter sido há tanto, tanto tempo.... E eu o havia magoado. Eu sabia que precisava esclarecer aquela história – que eu também havia sido levada pelo momento – que eu devia levar mais à sério minha vida a partir de agora. Se Nagihiko era um cara ajuizado, Nadeshiko teria de ser duas vezes mais.
Levantei-me. Tal devaneio já me roubara um tempo precioso, eu não poderia ser apenas uma espectadora de minha própria vida, eu deveria viver. Seguir meu ritmo. Quebrar as regras – quando necessário. Nunca esquecer quem eu sou, honrar minhas decisões.
E não voltar atrás.
Limpei instintivamente a poeira de minhas saias e caminhei à frente, no escuro – não sabia o que me aguardava pela frente, não entendia de muitas coisas. Porém não deixaria nada mais me impedir.
E então eu acordei.
* * *
-Oh, por favor, Hotori-kun, não me faça mais passar um susto desses – reclamei, polida. Um sorriso culpado e arrependido foi tudo que obtive em resposta.
Estávamos na frente do hospital agora, o sol se pondo. Aparentemente Yaya e Kukai – que vieram nos visitar mais cedo – tinham “outras coisas” para fazer e partiram tão logo acordamos. Eu não pude conversar com meu amigo, malmente havia-os implorado para que não preocupassem Amu com meu desmaio repentino – Umeda-sensei já havia me examinado e reafirmado que estava tudo bem, que minha ‘cena’ fora nada mais, nada menos do que “chilique de mulherzinha”, com um sorriso sarcástico. Reprimi minha vontade nada feminil de dar-lhe um soco.
Tadase também estava razoável – o motivo pelo qual meu Sensei tomava conta dele eu descobrira afinal; o príncipe tinha algumas restrições alimentares e baixa tolerância a açúcar – coisas doces em excesso o fazia ficar como se estivesse bêbado.
E, ‘bêbado’ o reizinho de merda sentia-se como o dono do mundo.
Opa, palavrão inesperado.
De qualquer forma, um pouco de soro e descanso o havia feito voltar ao normal – ou tão normal quanto um garoto como TadaseHotori possa ser.
Ele encarava o chão, triste. Eu não podia imaginar se sua tristeza era comigo ou consigo mesmo – afinal eu o havia chamado de baixinho entre outras coisas.
-Escuta – coloquei uma parte de meu cabelo arroxeado que fugia do rabo-de-cavalo recém amarrado atrás de minha orelha no momento em que nossos olhares se encontraram –– ele parecia muito pálido.
-O que houve, Fujisaki-san?
-Olha – suspirei – Não acho que tenha sido culpa sua – mentira, ele deveria ter me avisado, eu teria trocado o pedido dele por um chá gelado ou algo parecido – Então você pode tirar esse olhar triste do rosto? Por... mim? – Sorri o mais docemente que pude.
Eu estava flertando com ele!? Não acredito...
Seu sorriso em resposta – como era de praxe – me desarmara por completo; Embora eu ainda sentisse um resquício de ressentimento vibrando em cada fibra de seu ser. Mediante as circunstâncias, decidi tomar uma decisão bastante impulsiva:
-Bem, ainda temos algum tempo antes de escurecer completamente. Poderíamos... Não sei, caminhar por aí.
O sorriso que ele me entregava era praticamente a chave para o seu coração – isso se eu não soubesse que já a tinha, modéstia a parte.
Porque uma garota sente quando tem alguém apaixonado por ela, garotos não são muito sutis em camuflagem de sentimentos.
Vai por mim, tenho experiência dos dois lados, sei do que estou falando.
Andamos sem rumo aos redores do hospital e começamos a conversar por um longo, longo tempo – perdi a conta de quantas vezes o reizinho me implorou perdão – eu estava tão sem-graça que só sorria em resposta.
A verdade é que ainda estava um pouco chateada com ele, mas não por causa dessa confusão com os refrigerantes, ou com sua insistência em me levar para sair a todo tempo. O que me irritava era saber que, lá no fundo, ele despertava alguma coisa em mim; não há nada mais certo do que seu inconsciente –– isso era o que estava me irritando.
Conclusão: Era e não era culpa dele, na verdade, eu tinha sérias dúvidas se algum dia conseguiria não culpá-lo por algum erro meu. Eu teria que começar a trabalhar nisso.
Detesto admitir, mas estava me divertindo. Estávamos conversando e caminhando tão distraidamente que encontramos nosso destino nos portões da escola – já era quase noite, há essa altura; alguns alunos saiam de seus clubes apenas àquela hora, classes avançadas arrumavam o material para chegarem em casa tão rápido quanto possível.
Lembrei-me que só saímos mais cedo hoje por causa do aniversário de Tadase – Como direi... Ser membro do conselho tem suas pequenas vantagens – além do fato de toda escola pensar que éramos namorados e tínhamos um encontro marcado, ou coisa parecida.
Um tanto irônico perceber que voltamos para escola quando todos os outros alunos queriam livrar-se dela.
Caminhamos mais um pouco, eu tentava de todas as maneiras refrear minhas mãos de sequer pensar em se aproximar das mãos dele – até pequenos beliscões foram aplicados para que as danadinhas de vontade própria fossem controladas. Chegamos às portas do Jardim Real.
Sentamos nas escadas – a saleta já estava toda trancada – e permanecemos, lado a lado, num silêncio imensurável observando a lua que surgia lá no alto. Estranhamente, o ar gelado e o sossego me deixavam bastante... Confortável.
-Fu-Fujisaki-san...
-Hn, sim, Hotori-kun? – respondi, distraída, observando o luar.
-E-e-e-e—eu... gosto muito de você.
-Hotori-k...
É, eu sabia, mas ouvir de forma aberta e inesperada é sempre erm... Espantoso.
Principalmente quando você não sabe como responder.
Não me entendam mal, não é que eu o odiasse ou algo do tipo. É só que... Dois meses e pouco ainda não era suficiente para eu me habituar a essa vida de menina.
É certo que ele me provocava as famosas “borboletas no estômago”, e meu coração sempre parecia descontrolado ao encarar aquele rosto infantil e os enormes olhos rubis... Mas ainda havia a Amu-chan nessa história... E o Kukai... Sem falar que eu não tinha certeza se o queria como... bom... meu namorado.
Só de pensar nessa palavra senti minha garganta se fechar.
-Hotori-kun, olha, eu...
-Não precisa me responder agora – Ele sorriu, parecendo adulto pela primeira vez –– o que me fez achá-lo inegavelmente bonito – Só queria que você... Soubesse.
-Bem, agora eu já sei – sorri, nervosa, procurando algum lugar para esconder meu rosto.
-N-na na verdade...
-Sim...?
-Eu gostei de você, desde o primeiro momento. Sempre. Mas você parecia tão distante, apesar de sempre ser educada, bondosa e...
-Epa, espera um pouco aí – interrompi sua fala; sei que não era a coisa mais educada a se fazer, mas... Eu tinha ouvido direito!? – Quer dizer... Que você... Sempre foi apaixonado por mim. Mesmo há dois meses atrás, quando eu era...
-S-sim – Ele admitiu, suas bochechas redondas mais vermelhas que as orbes escarlate – N-na verdade...
-Tadase Hotori... Você é gay!? – Perguntei, bastante espantada. Quero dizer, não que eu tivesse preconceitos ou algo assim, e não que eu quisesse deixá-lo ainda mais embaraçado com toda a situação; é que o espanto foi tanto que saiu sem querer.
Percebi, como diria Amu-chan, a “burrada” que havia feito de imediato, tentei me desculpar, abri a boca num gesto quase desesperado – ele meneou a cabeça em negativa lentamente, um sorriso sereno no rosto – o rubor parecia se desvanecer aos poucos.
Senti-me o pior dos seres, sei que foi uma coisa impulsiva, uma curiosidade mórbida. Mas em minha situação, o que você faria?
-Deixe-me terminar. Na verdade, sempre senti uma admiração muito grande por você. Umeda-sensei sempre me falava do quanto você era divertido, ‘descolado’, despreocupado com as coisas... O quão livre se parecia. E eu admirava isso em você, Fujisaki-san, porque nunca tive a oportunidade de ser... Bem, como você é.
Meu queixo rolaria escada abaixo, se isso fosse possível: Enquanto eu invejava o Hotori por ter o amor de minha melhor amiga, ele me invejava por eu ser.... eu mesmo!?!
Esse é o tipo de coisa que não se ouve todo dia.
-No entanto, tentei me aproximar de você de todas as formas e você sempre me evitava... Tive a impressão que me odiava, mas não conseguia ver o porquê.
Você não entenderia.
-Hotori-kun, eu era um homem. – Respondi, simplesmente, fingindo um cinismo que não sentia.
De fato, era uma história muito longa para o pobre garoto assimilar e, se algum dia ele descobrisse minhas verdadeiras intenções naquela época, se ele sequer imaginasse as linhas da verdade, provavelmente me desprezaria.
E, por motivos que não queria desvendar, ter a aprovação de Tadase Hotori era tão importante quanto a de minha melhor amiga agora.
Talvez mais.
-Bem, sim – Ele sorriu, desconcertado – Mas agora... As coisas mudaram... Não mudaram, Fujisaki-san?
Seu olhar parecia me penetrar a alma; se não estivesse sentada, temia cair em seus braços.
Senti suas mãos pequenas – e agora frias, pelo vento da noite escura – se comprimirem às minhas, timidamente.
Meu coração deu umas duas batidas mais rápidas, engoli em seco. Dei graças aos Céus estar escuro o suficiente para ele não perceber meu rubor.
Tadase Hotori poderia ser um terrível Don Juan quando queria, Oh. Deus.
-Em que sentido? – Senti minha voz falhar, mas não me daria por vencida facilmente.
-Bem, n-nós poderíamos... Ser...
-Ser...?
-Amigos.
Não sabia dizer se o suspiro que escapara de meus lábios naquele momento era alívio ou decepção. Mas ele soubera.
-O-Ou talvez...
Meus olhos encararam os seus por um segundo. O vento soprava forte. Não me importava em pegar um resfriado, sequer me passou pela cabeça o tamanho da bronca que levaria de minha adorável mãe por me demorar tanto. O mundo, o meu mundo, parecia girar em torno daqueles grandes olhos escarlates. Nada mais parecia fazer sentido.
Não me recordei de meus pensamentos confusos, minutos atrás. Não me parecia relevante divagar sobre o que eu era, o que eu fora. Senti como se uma força maior empurrasse meu rosto em direção ao dele – nossos olhos se fechavam lentamente, nossos lábios cada vez mais próximos... Eu provavelmente daria meu segundo beijo em Tadase Hotori e não parecia insatisfeita com isso. De fato...
-Crianças! Aí estão vocês!! – Como se uma mágica houvesse sido rompida, afastei-me de Tadase no mesmo segundo. Virei-me para ver quem havia felizmente – ou infelizmente – nos interrompido. Era Amakawa Tsukasa, zelador, escritor, diretor e um outro sem-fim de coisas em nossa escola.
Ostentava um sorriso significativo de olhos fechados no rosto, uma grande chave na mão esquerda. De uma forma misteriosa e assustadora, Tsukasa sempre me lembrou muito o Hotori.
Talvez porque ambos haviam ocupado o cargo de ‘Rei’ no Conselho, cada qual em sua época.
-Procurei vocês por toda parte! Sua mãe, Nadeshiko-san, e sua avó, Hotori-kun... Elas estavam bastante preocupadas.
-Okaa-sama quer provavelmente me matar. – Disse, com um arrepio passando pelo corpo.
-Ah, não precisa exagerar, Nadeshiko-san. Disse que estavam em uma missão especial com os Guardiões! Tenho certeza...
-Tsukasa-san – Não era de meu feitio interromper professores, mas eu estava à beira do desespero – O Senhor não a conhece. Ela deve estar muito, muito furiosa.
-Hmmm, entendo. Hotori-kun, pode levar Fujisaki-san para a casa então?
Tadase parecia mais apavorado que eu com tal possibilidade.
-N-na verdade, Hotori-kun, se for muito incômodo, você... – Sorri nervosamente. Não sabia o que seria pior; enfrentar minha mãe ou andar sozinha por aí com o Hotori sofrendo sérios riscos de agarrá-lo.
-Não tem problema. Tsukasa-san, pode avisar a Obachan?
-Claro, claro. Vão em paz, crianças.
E fomos. Andamos todo o caminho deserto até o portão da escola sem dizer uma palavra. Se ele estivesse se sentindo da mesma forma que eu – e eu desconfiava que sim – todo constrangimento poderia ser explicado com apenas um vocábulo; e eu tinha medo de proferi-lo até em meus pensamentos.
Cruzamos os portões e seguimos para minha casa –– uma distância considerável. Não consigo recordar bem, mas em algum momento quebramos o gelo – figurativamente falando, a noite estava particularmente fria – e conversamos pelo que pareceu um longo tempo, trivialidades.
Respondi quando tive a chance, sorri por educação, mas não sentia minha alma realmente naquilo – algo naquela noite havia acontecido... quase acontecido. E isso me deixava bastante insegura.
Perguntava-me a todo instante como ele parecia não ligar, como, em questão de segundos, tudo parecera voltar ao normal. Mesmo tendo nós quase nos b-bei... Bem.
Interessante perceber que quando me lembrava de Kukai e do nosso pequeno “acidente” não me sentia tão sem rumo; talvez porque o considerava quase como um irmão e entendi que aquele fora apenas um momento de fraqueza.
Nossa, como isso soou estranho. Tenho que me afastar dos mangás da Amu-chan para conservação de minha própria sanidade.
Tadase continuou o que ele pensava ser um diálogo, até que um espirro me escapou e me dei conta de que estava congelando.
-Fujisaki-san, você está bem?
-Sim, bom, é só esse tempo que...
Nem terminei meu raciocínio e senti sua capa azul-escura de Guardião cair sobre meus ombros. Corei.
-S-sei que não ajuda muito, mas...
-Bom, na... Na verdade...
-Posso esquentar suas mãos também, se quiser.
Seu olhar era sério, suas bochechas enormes e fofas brilhavam – elas pareciam mais quentes que as minhas mãos, de fato. Tadase silenciosamente me pedia permissão para fazer algo que queria há muito, muito tempo.
E eu sentia cada vez mais me afundar em um grande poço, só mais uma decisão impulsiva não faria mal.
Acenei silenciosamente sem encará-lo, temendo chorar ou mudar de ideia.
Demos as mãos e continuamos a caminhar, em silêncio. Mais alguns minutos estávamos discutindo banalidades e rindo. Gostaria que fosse sempre assim, mas, ao mesmo tempo...
A imagem de meu sonho inundou-me o pensamento novamente; resisti ao forte impulso de soltar sua mão – sabia que, se o fizesse, poderia magoá-lo de um jeito irreversível.
Ah, que problemática havia me tornado...
Tentei focar-me em qualquer outra coisa enquanto prosseguíamos, até que, finalmente, chegamos à minha casa.
Sentia um misto de alívio e decepção – na verdade, eu queria muito continuar conversando coisas sem sentido com ele, rindo feito uma boba e... E, acima de tudo, não queria soltar aquelas pequeninas e delicadas mãos. De jeito nenhum.
Entretanto, tinha medo do que poderia acontecer caso eu tivesse mais daquilo. Eu estava me tornando uma egoísta.
-Então, parece que chegamos – Tadase sorriu, a mão quente que antes segurava a minha agora seguia deliciosamente incerta pelo meu rosto. Eu me sentia feliz, mas, ao mesmo tempo, apavorada.
-Sim... – Fechei meus olhos, comodamente aproveitando o momento o máximo que podia, antes que me arrependesse.
Antes que acordasse.
-Hotori-kun...
-Sim, Fujisaki-san?
-E-eu...
-Sabia que conhecia essa voz!! Andou esquecendo o caminho da própria casa, Nade... Hotori-kun?
Era a Amu.
A pequenina mão real estava sobre meu ombro agora, a outra havia segurado a mão que antes a esquerda havia abdicado.
Claramente, parecíamos dois apaixonados. Não que eu quisesse negar – ou afirmar! – isso, mas entre todas as pessoas que eu não queria que me flagrassem, minha melhor amiga estava no topo da lista...
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