Metamorfose

6 Used, Unfaithful


Notas iniciais
“I wish I was honest
Wish I was you not I
‘Cause I feel so mad
I feel so angry
Feel so careless
So lost, confused, again.”
# I Feel So – Box Car Racer

Gerard abriu os olhos naquela manhã e demorou certo tempo para lembrar-se de que Frank estava no quarto também. Ergueu a cabeça levemente para observar o garoto que dormia profundamente com a boca entreaberta, a luz proveniente da falha nas venezianas batendo bem em seu rosto. Gerard sorriu involuntariamente sem nem perceber, e deitou a cabeça novamente nos travesseiros.

Sentia-se estranho em relação à noite passada, era como se assistisse a um filme com alguém no lugar dele. Ele não agiria assim normalmente; ele não riria tanto assim, ele não era assim. Era como se estar com Frank o mudasse, e ele não sabia dizer se aquela mudança era para melhor ou para pior.

Esticou a mão para o criado mudo, tateando até encontrar o celular e verificando ser pouco mais de onze da manhã. Pensou que não queria acordar Frank, por tanto dormiria mais um pouco, mas quando foi colocar o celular de volta no lugar fez um barulho não muito baixo, ouvindo Frank bocejar logo em seguida.

- Desculpe – murmurou, a voz ainda meio rouca por ser a primeira palavra que falava no dia.

- Está ok. Que horas são? – Frank disse em meio a outro bocejo enquanto esfregava os olhos para que eles abrissem-se direito.

- Onze e quinze.

- Oh meu Deus, já é tarde – Frank exclamou, sentando-se abruptamente – eu devo estar incomodando aqui, acho que já parou de chover, não é? Vou andando até a St. Martin para encontrar minha chave e... – o garoto já levantava, calçando um pé de meia.

- Calma Frank, a St. Martin é muito longe daqui para você ir a pé. Eu vou te levar – Gerard murmurou, a voz ainda rouca e monótona, ainda deitado na cama sem nem sequer ter se mexido.

Frank se deixou cair no colchão novamente.

- Tem certeza?

Gerard bufou.

- Vamos, melhor tomarmos café logo, antes que Donna tire a mesa – e dizendo isso, jogou as cobertas para o lado e levantou-se da cama. Frank fez o mesmo.

Desceram as escadas sem fazer barulho graças às meias que abafavam o som no carpete e encontraram a casa vazia. Havia um bilhete grudado na geladeira por um imã do Bob Esponja que avisava que a mãe de Gerard havia saído para almoçar com a família. Gerard retirou o bilhete da geladeira e amassou-o, jogando no lixo em seguida.

Sentou-se no mesmo banco em que sentara na noite anterior, começando a servir-se do café que estava encima do balcão. Fez sinal para que o pequeno fizesse o mesmo.

- E Mikey, onde está?

- Mikey nunca sai do quarto – Gerard informou sem emoção na voz enquanto passava manteiga em uma torrada.

Isso foi tudo que falaram durante o café da manhã. Parecia que as horas de sono havia feito com que eles percebessem o quanto os acontecimentos da noite passada foram estranhos, e de certa forma, se sentiam esquisitos com isso. Temiam levar um corte do outro e por isso não ousavam dizer nada.

Por vezes Frank pensou em abrir a boca para dizer qualquer coisa, mas achava que o brilho nos olhos verdes de Gerard estava diferente do da noite anterior. Era como se ele tivesse acordado com cara de poucos amigos; parecia preocupado e era como se ele fosse atirar pedras em Frank por qualquer comentário.

Depois de fazer o desjejum e a higiene matinal, os dois vestiram-se e saíram para a tarde fria em direção a St. Martin. Domingo era o dia em que os familiares mais compareciam para visitar os que ali estavam. A Sra. Lee costumava preparar um almoço mais variado, e tinha até mesmo música. A frente da casa estava ocupada por muitos carros e várias pessoas estavam paradas no jardim onde o sol batia fraco, esquentando minimamente aqueles que sofriam com o frio.

- Quer que eu vá com você? – Gerard perguntou sem tirar os olhos do volante.

- Hm, se quiser – Frank respondeu, já descendo do carro. Gerard suspirou, seguindo o pequeno. Trancou o carro e correu um pouco para alcançar o outro que já estava quase no portão.

A Sra. Lee avistou-os da varanda e franziu o cenho, preocupada.

- O que há de errado? – perguntou quando Frank se aproximou mais. O menino sorriu e repuxou o piercing – o que você fez de errado, Frank? – ela perguntou sorrindo junto.

- Hm, adivinhe – a mulher deu de ombros – perdi minha chave, é claro. Tive de dormir no Gerard de ontem para hoje por causa da chuva – a mulher começou a rir gostosamente – queria ver se ela está aqui, meus pais voltam apenas na segunda.

- Quantas chaves suas já devem ter perdidas por essa casa, heim pequeno? – ela disse, se divertindo – tudo bem, entre e procure. Mas duvido que ache.

Gerard parou no meio do jardim e fechou os olhos, respirando fundo. “Oh Deus, faça com que Frank encontre a maldita chave antes que ele me deixe louco!” pediu mentalmente, e depois abriu os olhos novamente, atravessando o jardim por completo e seguindo o menino para ajudá-lo a procurar a chave.

Quando adentrou a casa Frank mexia entre as almofadas do sofá. Fizera todos ali levantarem-se para que ele pudesse procurar. Gerard parou por um momento observando a cena e depois, sem conseguir se conter, começou a rir. Frank virou-se rapidamente para o maior, as sobrancelhas unidas.

- Qual é?

- Frank, não é assim que se procura as coisas – Gerard disse, parando de rir – acredite, morando no meu quarto eu sei que temos que pensar se não, não chegaremos a lugar algum — Frank ergueu as sobrancelhas e fez um sinal para que Gerard continuasse – pois bem, você chegou aqui e fez o que em seguida?

- Hm, fui assinar a folha – pequeno respondeu com a face pensativa.

- Então procuramos primeiro no escritório – dizendo isso, virou as costas para as pessoas que olhavam irritadas, e foi em direção a porta com a inscrição “coordenação”. Frank sorriu amarelo e pediu desculpas as pessoas, seguindo Gerard em seguida.

Vasculharam a sala inteira, e depois os quartos que Frank se lembrava de ter visitado e por fim a cozinha, onde o pequeno sabia ter ajudado com o almoço. Não encontraram nada.

- Ual, acho que as suas chaves sabem aparatar, Frankie – Gerard comentou, dando-se por vencido e limpando o suor na testa causado pelo esforço de subir e descer escadas e arrastar-se pelo chão em busca da chave fugitiva de Frank.

Estava sendo bem humorado, mas não conseguia tirar de sua cabeça que sem chave Frank não entrava em casa, e sendo assim, teria de dormir em sua casa de novo. E amanhã tinha escola, isso significava chegar juntos lá. O que traria perguntas e mais perguntas. Indagou a si mesmo se não poderia pedir educadamente a Frank para que ele descesse do carro longe dos olhares alheios, mas tinha um pedaço dele que dizia que Frank ficaria chateado e, estranhamente, ele não queria ver o menor chateado. Praguejou mentalmente por alguns instantes enquanto descansava sentando em um dos bancos do refeitório ao lado do menino. A Sra. Lee adentrou o local no momento sorrindo.

- Encontraram? – Frank e Gerard ergueram os olhos e ela começou a rir – Há, eu sabia. O dia em que tivermos que nos mudar daqui, tenho certeza que conseguiremos encher uma caixa de sapatos com todas as chaves de Frank que tem nessa casa. Agora, querem comer sobremesa conosco?

- Não Sra. Lee, realmente... – Gerard começou, pensando que queria ir embora logo.

- Oh, mas eu insisto. Fiz meu famoso pavê de chocolate e...

- Oba, pavê de chocolate – Frank exclamou, recuperando a energia subitamente e voando no pescoço da Sra. Lee, para depois ajudá-la a levar as travessas para a mesa. Gerard suspirou vencido, perguntando-se o porquê de não mandar tudo ao inferno e deixar que Frank se virasse sozinho.

Permaneceu sentando naquele banco enquanto via a cozinha se encher de pessoas indo servir-se do doce. Logo avistou Stefan, que lhe cumprimentou de longe, e depois que pegou sua porção veio sentar-se ao lado do garoto. Gerard realmente não estava afim de conversar com ninguém no momento, visto o conflito interno que se encontrava, mas achou que seria mal educado demais ignorar aquele homem que fora tão simpático com ele no dia anterior.

- Olá – Stefan disse sorrindo, passando as pernas por cima do banco para sentar-se para o lado da mesa. Pousou o prato de sobremesas na mesma e deu uma colherada.

- Hey – Gerard respondeu sem entusiasmo, encostando as costas na mesa e admirando o teto do local.

- Então, o que faz aqui hoje?

- Frank perdeu as chaves de casa e eu vim ajudá-lo a procurar – Stefan riu.

- Pensei que você e Frank não se dessem muito bem – comentou antes de dar outra colherada no doce. Gerard olhou para o pratinho, o pavê tinha cara de ser bom mesmo...

- Não nos damos – Gerard respondeu, sorrindo em seguida – Hm, Stefan? – o outro, que tinha a boca cheia, apenas acenou com a cabeça – seria muito inconveniente se eu te perguntasse por que está aqui?

O homem riu, limpando a boca com as costas das mãos.

- É claro que não – virou-se de Frente para Gerard, ignorando completamente o doce que não terminara de comer – quando eu me assumi gay, minha família toda me julgou mal, e logo perdi o contato com todos. Eu vivi então com uma pessoa durante dois anos, mas ele não aceitou muito bem o fato de eu me descobrir soro-positivo, e então eu não tinha para onde ir ou como me tratar.

- Oh — foi tudo que Gerard conseguiu dizer.

Is it too late to remind you how we were?

But not our last days of silence, screaming, blur

Most of what I remember makes me sure

I should have stopped you from walking out the door

# You Could Be Happy – Snow Patrol

- Mas isso tudo já faz muito tempo. Eu era um pouco mais velho que você, tinha vinte e um anos quando fiz meu exame de HIV. Nós morávamos em um pequeno apartamento no centro da cidade, e eu peguei uma maldita gripe que não sarava nunca. Brian começou a ficar preocupado comigo. Entenda que era na época em que a AIDS começou a ficar conhecida, todos tinham medo de estar contaminados.

Um dia eu acordei realmente mal, estava quase sem voz e minha cabeça doía muito. Brian havia saído para trabalhar e eu me convenci de que devia mesmo fazer o tal teste, para começar o tratamento o mais rápido possível. Vesti uma roupa qualquer e tomei remédios antigripais e fui caminhando até um laboratório onde eu sabia que faziam o tal exame. Eu confesso que não sei como foi que consegui chegar lá, não me lembro muito bem do caminho. Mas me lembro do local e do exame como se fosse ontem.

Tinha uma pequena sala de espera com sofás brancos e algumas revistas, onde várias pessoas aguardavam ser chamadas, e um balcão circular no centro, onde uma mocinha loira atendia as pessoas. Era realmente cedo, de modo que tive de ficar na fila, as pessoas geralmente vão ao laboratório em jejum. Quando chegou minha vez com dificuldade, perguntei a moça da recepção o que tinha de fazer para fazer o exame de HIV. Ela me olhou estranho, como se tivesse nojo de mim. Seus lábios cheios se entreabriram e as sobrancelhas se ergueram, unidas. Ela me mandou aguardar. Sentei na sala de espera e folheei uma revista qualquer, com fofocas quaisquer sobre celebridades, até que a mesma moçinha mal educada chamasse meu nome.

“Stefan Olsdal?” Sua voz anasalada chamou. Levantei e fui o mais rápido que pude em sua direção. “O exame custa trezentos dólares, aceitamos dinheiro ou cheque” ela disse rapidamente “Por favor, siga aquele moço ali”. Ela apontou para um homem encostado em uma porta daquelas de hospital.

Era um longo corredor, mas não lembro muito dele. Tudo que eu pensava na hora era em como eu faria para pagar trezentos dólares naquele maldito exame. Eu e Brian não nadávamos na grana, entende? Trabalhávamos para sobreviver e apenas para isso, não podíamos sair esbanjando dinheiro, ainda mais agora que eu estava faltando ao trabalho pela doença. Mas eu sabia que daria meu jeito, a minha saúde era mais importante naquela hora e eu imaginei que Brian concordaria comigo.

O homem me fez sentar em uma maca e fez o procedimento normal de um exame de sangue. Não sei dizer se ele me olhou estranho como a garota da recepção, não me lembro disso. Só lembro-me de estar desejando que Brian estivesse ali para me dar apoio moral e segurar a minha mão, de nervoso que eu estava.

Depois de etiquetar os vidrinhos com o meu nome, o homem pediu meu telefone e disse que ligaria assim que o resultado saísse. Eu dei um cheque à mulher da recepção e desejei mais do que tudo que eu e Brian tivéssemos fundos suficientes em nossa conta para cobrir tudo isso, e voltei caminhando para casa, um tanto menos nervoso.

Quando Brian voltou do trabalho eu contei que tinha feito o exame; ele permaneceu em silencio e não opinou, agiu estranho comigo o resto do tempo. Ele respondia apenas as perguntas diretas que eu fazia, e suas sobrancelhas negras permaneciam unidas encima de seus olhos azuis quase todo o tempo, sem contar que ele me evitava. Perguntei-lhe se era por causa do dinheiro e ele me disse que não era nada.

Alguns dias depois, com Brian ainda me ignorando, eu continuava meio ruim da gripe, e alguém do laboratório finalmente ligou. Pedi para que Brian fosse apanhar o exame para mim, pois me sentia meio fraco para ir andando. Ele concordou, meio mal humorado.

Chegou em casa com o envelope lacrado nas mãos e entregou-me o papel; tirou algumas coisas que estavam jogadas por cima do sofá e sentou, curvando a cabeça e escondendo o rosto com as palmas das mãos. Eu me sentia nervoso. Eu queria abrir para saber logo se podia me sentir aliviado, mas ao mesmo tempo sabia que o resultado podia acabar com tudo em um segundo. Eu quase me contorcia de nervosismo e Brian nem sequer abria a boca; nem sequer olhava para mim. Aquilo não era do seu feitio, mas achei que ele estava nervoso também.

Finalmente, num impulso, abri o envelope. E bem, você já deve imaginar o que encontrei lá dentro. Meus olhos encheram de lágrimas e eu não consegui falar mais nada. Deitei minha cabeça para trás e deixei a mão que segurava o exame pender para fora do sofá. Pensei no que eu tinha feito para merecer algo como aquilo. Entenda que sabíamos que a AIDS era transmitida através do sexo, e eu sabia que assim eu não tinha pegado, mas não sabíamos das outras maneiras. Pelo menos não certamente, a informação que era dada a população era mínima.

Brian deve ter percebido o resultado pela minha reação. Ele levantou abruptamente e arrancou o exame das minhas mãos com violência, passando os olhos por ele rapidamente. Depois ele atirou o papel no chão e começou a gritar comigo. Disse que não esperava isso de mim, que ele sempre fora tão fiel e eu fizera isso com ele. Tentei dizer que não tinha o traído, mas ele não me ouviu. Ele me perguntava:

“Por que isso então?”

E apontava para o papel jogado no chão. Eu dizia que não sabia. Implorava para que ele acreditasse em mim, que confiasse em mim. Ele não o fez. Eu podia ver a raiva nos seus olhos azuis, eu o conhecia o suficiente para saber que ele não ia me perdoar, mesmo que nem tivesse certeza se eu havia feito algo.

Então ele foi correndo ao quarto e colocou algumas roupas na mochila, e saiu. Nunca mais o vi, ele mandou que um amigo buscasse as coisas dele que ainda estavam ali, mais tarde. Perguntei a ele como Brian estava e ele disse que estava bem. Eu não estava bem; eu precisava me tratar, não podia trabalhar naquelas condições. Então eu fiquei sabendo da existência desse tipo de instituição, e sem muita escolha, vim para cá.

Quando terminou de falar, Stefan tinha os olhos marejados. Ele visivelmente nunca superara a desconfiança do tal Brian. Gerard achava que podia sentir a dor daquele homem nele mesmo, apenas por vê-lo daquele jeito. Se lhe contassem aquela história antes, ele diria que era bem feito. Agora era diferente, ele sentia muita pena, achava abominável que alguém pudesse ter feito aquilo com o pobre homem. Ele estava doente, e afinal podia ter pegado a doença de qualquer jeito.

- Mas nunca mais o viu? – Gerard arriscou perguntar. Stefan fez que não com a cabeça – e, hm, sabe como pegou a doença agora?

Stefan riu e respondeu com a voz falhando um pouco.

- Não sei ao certo. Mas eu, Brian e uns amigos costumávamos injetar drogas na veia naquela época, e compartilhávamos as seringas. Deve ter sido assim.

Mas a realidade

Que vem depois

Não é Bem Aquela

Que Planejei

# Eu Quero Sempre Mais – Ira!

Gerard não disse mais nada, apenas por não saber o que dizer. Tinha perguntas pipocando em sua mente sobre ele mesmo e sobre Stefan, mas se segurou para não perguntar. Levantou-se abruptamente e murmurou que tinha de ir embora. Apertou a mão de Stefan e foi procurar Frank pela casa, encontrando-o na varanda com a Sra. Lee.

- Eu estou indo Frank, você vem?

Frank achou a expressão de Gerard estranha, era como se ele estivesse se segurando para não chorar. Encarou a Sra. Lee por um momento e depois fez que sim com a cabeça, seguindo Gerard em direção ao carro. Gerard não disse mais nada o dia todo praticamente. Quando chegaram em casa ele deitou na cama e colocou os fones de ouvido e abriu um livro qualquer, dizendo a Frank que se sentisse a vontade para fazer o que quisesse.

Não querendo contrariar e com medo de perguntar o que havia errado, Frank passou o tempo no computador ou jogando videogame sozinho. Estava confuso, às vezes lhe passava pela cabeça que o problema de Gerard era ele; pensou seriamente em dizer que arranjaria outro lugar para dormir, mas não o fez.

Gerard, na verdade, não estava se importando muito com Frank. Ele estava dentro do seu mundo vendo ele desmoronar e outro ser construído no lugar. Estava confuso com suas opiniões mudando tão rapidamente sem que ele sequer autorizasse; estava com medo do que viria a seguir. Ele queria pegar seu cérebro, abrir e colocar tudo no lugar de volta, mas sabia que não era possível. A bagunça estava feita e estava sendo difícil arrumar tudo de novo.

Por fim, deu-se por vencido e abriu seu maleiro, encontrando o que queria embaixo de uma pilha de pijamas velhos: uma caixa de Rivotril, que sem dúvidas lhe faria dormir. Ignorou o olhar estranho de Frank e tomou dois comprimidos de uma vez sem nem beber nada depois, jogando-se na cama em seguida. Disse ao pequeno para apagar a luz quando fosse dormir e, assim que o remédio fez efeito, ele adormeceu, embora o sol nem tivesse se posto lá fora.

-

- Gerard? Hm, Gerard? – Frank chamou após desligar o despertador que tocara algumas vezes. Gerard nem se mexera e Frank temia que fosse por causa dos remédios que ele tomara no dia anterior. Estava com receio de tocar no maior, mas não tinha escolha.

Encostou as mãos na cintura de Gerard, chacoalhando-o e chamando seu nome novamente. O outro grunhiu, mas não parecia ter acordado. Frank chacoalhou mais forte até que o maior falasse baixinho:

- O que? Porra!

- Aula – Frank respondeu, desejando que Gerard acordasse logo e ele não precisasse jogar um balde de água nele ou algo do gênero. Atendendo as preces do pequeno, Gerard abriu os olhos minimamente vendo a face preocupada do menor.

- Ok, acordei. Acenda a luz – Frank engatinhou até o interruptor, obedecendo à ordem de Gerard. Este se espreguiçou com os olhos fechados por causa da claridade. Desejou ter tomado apenas um comprimido, mas deu-se por vencido e levantou.

Sabia que teria de pedir a Frank para descer do carro antes do colégio, mas depois de conversar com Stefan sentia-se mais canalha ainda ao fazer isso. Várias vezes enquanto se arrumavam e faziam o desjejum ele respirou fundo e quase começou a falar, mas desistiu depois. Tinha certeza que Frank percebera algumas dessas vezes, e ainda se perguntava por que o pequeno não insistia no assunto, assim seria bem mais fácil falar.

Por fim estavam os dois dentro do carro, indo em direção ao colégio, e Gerard ainda não abrira a boca sobre o assunto. Frank estava confuso sobre a atitude de Gerard desde o dia anterior e continuava achando que a culpa era sua, e completamente sua. Tinha certeza de que aquelas vezes que Gerard abrira a boca sem dizer nada tinham a ver com isso, e o que ele mais queria era pedir desculpas por todo o transtorno, mas não sabia como fazer isso.

Gerard estacionou estranhamente longe do colégio, ainda que houvesse muitas vagas mais próximas. Frank perguntou-se por que, mas não verbalizou a pergunta. Desceu do carro calmamente e avistou os amigos de Gerard vindo caminhando da esquina. Gerard fechou o carro rapidamente, parecia nervoso. Caminhou mais rápido que o normal em direção a calçada.

- O que aquela bicha estava fazendo no seu carro, Way? – Frank ouviu Quinn perguntar, divertido.

- Iero no meu carro? – Gerard respondeu, ironia explícita em sua voz – que tipo de alucinógeno andou usando, heim? – e riu da própria piada.

Frank, que acabara de subir o meio fio, parou naquele exato momento, a voz de Gerard ecoando em sua cabeça. Naquele momento estava certo de que o problema era ele. Que o maior estivera estranho naquela noite em que fora legal com ele, e não no resto do tempo, em que o tratou mal. Sabia que não podia esperar outra coisa de Gerard, e mesmo assim continuava se iludindo, arranjando significados maiores para pequenos atos do outro.

Xingou a si mesmo e fechou os olhos, tentando segurar todo choro que já estava evitando a algum tempo, mas que agora parecia insistir em sair. Esperou que Gerard e seus amigos passassem, e depois foi direto para o banheiro onde esperava se recompor para assistir as aulas do dia. Prometeu a si mesmo que não se deixaria iludir mais uma vez.