A dor de cabeça veio no mesmo instante em que abri os olhos. Minha cama estava quente e minhas costas molhadas de suor. Levantei com dificuldade, e andei até o banheiro. Cada passo meu exigia um esforço próximo do necessário para levantar umas quinhentas toneladas, imagino eu. Tirei a roupa e entrei na pequena banheira enquanto ela se enchia de água. Não me dei ao trabalho de olhar no relógio, já que sabia que estava atrasada, e também não colocaria um pé para fora do quarto enquanto aquela ressaca não melhorasse.

Tentei pensar na noite passada, mas tudo o que veio à minha mente foram pequenos flashes da festa, não muito significativos. Música alta, um quarto escuro, uma loira metida a besta e minha blusa manchada de sangue. Minha blusa manchada de sangue. Minha mente se ascendeu com esse pensamento, e tentei ligá-lo a mais alguma coisa para que fizesse sentido, mas não consegui. Era como se houvesse um muro entre mim e a noite passada, e eu só conseguia espiá-la através de pequenas brechas. Era uma sensação incomoda, então tentei deixar para lá.

Sai da banheira me sentindo um pouco melhor, e fui enrolada em uma toalha de volta para meu quarto. Vesti uma calça preta rasgada e uma camiseta cinza, ainda sentada na cama, peguei minha bolsa e saí.

Fui até a cafeteria do campus, fiz meu pedido e deitei minha cabeça na mesa, sentindo a moleza deixar meu corpo lentamente. O garçom foi até minha mesa com meu café, e vi atrás dele o contorno de um cabelo curto e vermelho inconfundível.

- Alice! — disse se sentando na cadeira à minha frente com um sorriso bobo. — Sabia que você estaria aqui. Já se recuperou da noitada de ontem?

- Como você sabe sobre ontem? — perguntei um pouco confusa.

- Nós nos encontramos na festa — franzi o cenho -, não se lembra?

- Na verdade não.

- Bem, é isso. Ou por acaso você acha que foi Matheus que te levou até seu quarto? — debochou.

- Ah... — o muro na minha mente foi demolido, e a noite passada ficou completamente acessível. Eu matara Matheus e a garota loira — que não tinha me dado ao trabalho de descobrir o nome. Senti uma certa aversão à essa lembrança, mas não procurei o porquê.

- Aliás, bom trabalho — disse orgulhosa — Tenho certeza de que Victória ficará muito satisfeita com a garota, elas são raras por lá, você sabe.

Minha aversão aumentou ainda mais quando pensei em Victória. Eu havia feito isso por ela, e por um momento senti vergonha de mim mesma. Deixei que a raiva que eu sentia emergisse, e me permiti, pela primeira vez, colocar para fora um pouco do que eu realmente pensava em relação a ela.

- Quer saber, Emily, estou me lixando para o que Victória acha. Não fiz nada disso por ela. — Emily não precisava saber de tudo, e por um certo lado era verdade. Eu estava bêbada quando tomei aquela decisão, e recusaria qualquer outra ideia contrária àquela.

Ela se endireitou na cadeira.

- Você por acaso está louca? Ela é nossa mãe.

- Mãe? Você chama aquilo de mãe? — perguntei indignada — Ela é só mais uma vaca reprodutora. O Inferno está cheio de tipos como o dela.

Fez uma pequena pausa e estreitou os olhos.

- Sabe qual é o seu problema, Alice? — elevou a voz. — Você é a filha da mãe mais hipócrita que já vi na vida. Você é exatamente como ela, tem a mesma função, e veio do mesmo lugar, assim como eu e Chery. Então sugiro que você faça seu trabalho sem reclamar ou falar mal de Victória. Querendo ou não ela é sua mãe, sim, e você deve obedecê-la independentemente da sua opinião. — Me surpreendi com sua raiva, e fiquei sem palavras por um momento, mas logo sua expressão se suavizou e vi um pouco da velha Emily de volta. — Vou fingir que você ainda está sob o efeito de alguma droga, e esquecer isso, ok?

Então ela começou a falar algo sobre a nova ração que havia comprado para Lilly, mas não consegui prestar atenção. Eu ainda estava presa demais no que ela havia dito, e, principalmente, na possibilidade de ela estar certa.

Tinha vezes — como essa — em que eu me sentia partida em duas. Em um lado eu era a seguidora fiel de Lúcifer e Victória, que gostava e entendia o que fazia, ou pelo menos achava isso. E no outro tudo o que eu queria era me rebelar e me ver livre de toda essa história.

Eu sabia que ainda teria que escolher um deles, e tinha medo que a hora estivesse se aproximando.

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Minhas mãos tocaram o metal frio dos grandes portões da entrada da faculdade enquanto eu passava por eles. Andei por alguns quarteirões sem um destino específico, e senti que a cada passo o peso sobre minhas costas aumentava. Eu ainda não sabia o que me incomodava, e estava com medo de pensar sobre isso.

A claridade da manhã era ofuscante, e a brisa morna era como um convite sutil para o sono. As únicas árvores da vizinhança eram coqueiros com mais de três metros, que serviam como uma trilha até a praia mais próxima, à algumas ruas dali. Caminhei mais um pouco, tentando ignorar tudo à minha volta, até que senti meus olhos pesarem, e dei boas vindas ao sono. A medida que ele chegava, era como se eu me sentisse mais leve e tudo mais desaparecesse. Eu havia conseguido, pela primeira vez, ficar em paz sem estar prestes a matar alguém.

Foi aí que pude perceber que eram duas coisas completamente diferentes. O que eu chamava de paz de antes das caçadas era resultado do completo vazio que tomava minha mente, mas o que eu estava sentindo era muito mais que isso. Era a união de milhares de pensamentos e preocupações, que se tornavam tão grandes e insuportáveis que no final acabavam perdendo a importância

Caminhei até o meio-fio da rua, que no momento estava completamente vazia, e sentindo meu corpo cada vez mais relaxado me deitei ali mesmo. Olhei para o céu com os olhos semicerrados e assisti enquanto as nuvens se revezavam para cobrir o sol. Me ajeitei da melhor forma que pude, para que o asfalto não machucasse minhas costas. Aos poucos foi ficando difícil manter meus olhos abertos, e deixei que o sono se apoderasse de mim.

- Ei! Você está morta? — ouvi uma voz ao longe — Ah, não, você está sorrindo.

Senti um dedo cutucar meu ombro.

- Você por acaso é louca?

- Ugh, me deixe em paz. — percebi que minha voz havia soado como a de uma drogada.

- Isso será um prazer, mas assim que você sair do meio da rua. — abri os olhos, e tudo que consegui ver foi um borrão preto com o que parecia ser uma moto ao seu lado. — Está tudo bem? — O borrão estendeu sua mão para mim, e eu o ignorei.

- A rua é bem larga, acho que você consegue passar do meu lado. — tentei focalizar minha visão, mas como não consegui fechei meus olhos e encostei a cabeça no asfalto novamente.

- Sabe, educação às vezes faz bem. — deu partida na moto — Tem certeza que não precisa de ajuda?

- Sim, — murmurei sonolenta. — agora faça um favor e me deixe dormir.

Sua resposta foi uma risada abafada, seguida pelo som da moto se afastando. Junto dela se foi também o meu sono, à medida que eu pensava sobre o que acabara de acontecer. Até que por fim me levantei e procurei o caminho de volta para a faculdade. Eu ainda tinha um longo dia pela frente.

Notas finais
Acho que já deu pra perceber que a Alice é um pouco bipolar kkk
Qualquer dúvida ou sugestão é só falar.
Espero que tenham gostado e aguardo seus reviews! (: