Metamorfose
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Espero que vocês gostem e boa leitura.
A rua estava escura e deserta, exceto por um carro preto no fim do outro quarteirão. O ambiente tinha o clima perfeito pra um filme de terror, mas seria mentira dizer que isso me intimidava. Pra falar a verdade, eu me sentia em casa.
Andei com passos lentos e distraídos pela rua, enquanto brincava com o pingente preso por uma corrente prateada em meu pescoço, e observava as poucas estrelas que cobriam o céu, quase como se estivesse hipnotizada.
Muitos dizem que o efeito que se tem após uma caçada é semelhante ao de uma droga. Você sente o corpo todo relaxar e fica alegre por qualquer coisa. É como se o mundo ficasse mais agradável por alguns instantes. O único problema é que nunca durava muito.
Quando atravessei a rua e avistei o carro mais de perto ouvi uma buzina soar, e soube instantaneamente que Chery estava no volante. Provavelmente havia ganhado uma aposta com Emily. Essa era a única explicação para aquilo, já que só existia uma coisa que Emily tinha mais ciúmes do que seu Ford preto, Lily, sua gata que a acompanhava pra todo lado.
Abri a porta de trás e me joguei nos bancos de couro.
– Ei, cuidado aí! — exclamou Emily assim que bati a porta com força.
– Qual foi a aposta? – ajeitei minha saia, ainda deitada.
– O de sempre. — respondeu Chery com um falso ar de indiferença. Eu sabia muito bem como ela era competitiva. — Cinco a dois pra mim.
Me levantei em um salto com os olhos arregalados.
– Vocês estão loucas? — eu não conseguia acreditar que elas haviam sido tão descuidadas. — Vocês acham que ninguém vai estranhar o sumiço de sete adolescentes? Não, não respondam. Não precisa.
E elas não o fizeram. Chery e Emily faziam eu me sentir como uma babá de meia idade cuidando de duas crianças inconsequentes. Eu já havia me acostumado a me responsabilizar pelos seus erros e limpar sua bagunça, mas dessa vez foi demais. Sete cadáveres! Não quis nem pensar no trabalho que isso me daria.
– Sabe, isso não é grande coisa. — disse Chery despreocupada, quebrando o silêncio. — O máximo que vão pensar é que há um serial killer na área. — encarei-a pelo retrovisor com cara feia — Alice, você sabe que é verdade! Esses insetos nunca chegam muito longe em suas investigações.
Emily continuou calada. Eu soube que ela compreendia o real perigo quando vi um leve arrepio percorrer sua espinha.
– Quem me dera eles fossem o problema. Não quero nem pensar no que Victória dirá quando souber disso.
-
O carro passou pelos grandes portões de ferro da universidade. O relógio marcava meia noite, e não era possível enxergar nada à um metro de distância dos faróis, que eram a única fonte de claridade do local. Eles deviam pagar uma conta de luz bem barata por aqui.
Chery estacionou na frente do bloco B, um grande prédio branco encardido, onde ficava meu quarto, e desci sem dizer nada. Durante o curto trajeto até a faculdade a perplexidade e a preocupação haviam dado lugar a uma raiva crescente, e mal pude encará-las sem desejar fazer com elas coisas muito piores do que fiz com Lucas — o que seria inútil, já que elas se sentiriam gratas se eu as mandasse para o Inferno.
Bati a porta o mais forte que pude, deixando bem claro minha fúria, e ouvi um grito vindo de Emily, mas não me preocupei em prestar atenção no que ela havia dito. Tirei meu salto preto e andei descalça até o elevador que ficava no fim do corredor. A falta de luz continuava. Quando o elevador chegou ao terceiro andar suas portas se abriram, e escutei de longe o som que vinha do meu quarto.
Abri a porta e me deparei com uma garota loira vestindo rosa de cima a baixo, cantarolando uma música infantil e irritante enquanto pintava as unhas. De rosa também.
– Alice! — disse cantarolando meu nome. — Quanto tempo, não é? Não tenho te visto há quatro dias, o que na verdade é bem estranho, considerando que somos colegas de quarto. — Esse era o objetivo, pensei.
Como não respondi, ela continuou:
– Tem algo diferente em você. Acho que seus cabelos estão mais pretos, ou compridos, sei lá. O que foi que você fez? — me observou por alguns instantes. — Ah-meu-deus. Que blusinha maravilhosa! Ficaria perfeita com meu sapato novo. O vermelho, sabe? Comprei em uma liqui...
Coloquei meus fones de ouvido e deixei a música no ultimo volume. Fui até a sacada e fechei a porta de vidro atrás de mim, tentando abafar o máximo possível a voz irritante de Danielly, que continuava a falar. Acendi um cigarro e tentei relaxar. Eu passara os ultimo quatro dias controlando meu tempo para não encontrá-la, e funcionou, mas eu não conseguiria fazer isso para sempre. Já perdi a conta de quanto tempo passei tentando, inutilmente, convencer o diretor a me mudar de quarto. Cheguei até mesmo a dizer que mataria Danielly se insistissem naquela ideia idiota de mantê-la perto de mim, mas não me levaram muito a sério. Até hoje não entendi qual é a vantagem em poder matar as pessoas se você não consegue nem mesmo intimidá-las com isso.
Algum tempo depois joguei o cigarro fora e fui até o meu lado do quarto, que estava bem demarcado por uma pilha de roupas, livros e CDs, que cobriam cada pedaço do carpete cinza. Danielly estava dormindo, e suspirei ao poder contemplar o único momento do dia em que ela calava a boca.
Fui até o banheiro levando um pijama e me troquei. Antes de sair de lá me encostei na parede, apoiando as costas com as mãos, e encarei meu reflexo no espelho. Meus cabelos estavam realmente um pouco mais pretos, e minha pele mais pálida. Era quase difícil reconhecer o azul claro de meus olhos, que se escondiam sob várias camadas de rímel, e sombra preta, que a aquela altura havia escorrido até o inicio das minhas bochechas. Eu gostava disso, de me olhar no espelho, quero dizer, mas não pelos motivos que as pessoas pensavam.
Eu podia me olhar por horas, mas não pelo motivo que as pessoas normalmente fazem isso. Tudo o que eu precisava era de um tempo para poder observar cada detalhe meu, e de repente meu cérebro começava a funcionar. Essa era a única coisa que me deixava relaxada o suficiente para conseguir pensar um pouco.
Fiquei na mesma posição por alguns instantes e fui até a escrivaninha. Liguei o computador e me sentei. Antes mesmo que eu pudesse decidir o que faria, ouvi um apito, indicando que eu havia recebido um novo email. Assim que vi o remetente um arrepio percorreu meu corpo. Hesitei antes de abri-lo, com os músculos tensos, temendo pelo que viria, e um pouco impressionada com a rapidez de Victória para descobrir o deslize de Emily e Chery — e agora meu também. Abri o email e o li rapidamente o curto recado, prendendo a respiração.
"Vocês três, me encontrem amanhã às 14 horas no Bistrô da faculdade. Sem atrasos.
Victória."
Notas finais
Enfim, é isso, e até o próximo capítulo. (:
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