Metamorfose
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Samuel estava sentado em um banco, fumando, enquanto observava o céu. Seu peito se levantava e abaixava sob sua camiseta branca lentamente, no ritmo da sua respiração. Ele usava uma calça jeans azul folgada, e parecia mergulhado em milhares de pensamentos.
O sol estava nascendo, aquecendo aos poucos o ar gelado da noite que ia embora. Uma rajada de vento frio me fez arrepiar, e notei que eu estava vestindo apenas uma regata, short, e um all star.
Nada a minha volta era familiar. O banco onde Samuel estava ficava sobre um calçamento preto, e tinha vista para uma praia na qual eu nunca havia ido antes. Alguns poucos coqueiros preenchiam a calçada, e não eram capazes de fazer muita sombra.
Samuel jogou o cigarro na areia a sua frente, e me avistou ao virar a cabeça para a direita. Ele abriu um sorriso provocante e convidativo, e me senti ser puxada por ele. Comecei a andar em sua direção quase como se eu não conseguisse controlar meu corpo, mas lá no fundo eu queria chegar até ele.
Me sentei ao lado dele e nos olhamos por alguns instantes. Seu cabelo balançava ao vento, e seus olhos brilhavam. Foi quando notei a aura que seu corpo emanava. Era como uma energia protetora e aconchegante, que me atingiu ainda mais quando ele se aproximou de mim.
Samuel encostou sua mão no meu rosto, fazendo pequenos círculos com o polegar na minha bochecha, e se aproximou ainda mais. Chegou a boca perto do meu ouvido, me fazendo arrepiar, e sussurrou:
– Você não sabe a quanto tempo eu queria fazer isso.
E me beijou.
Fiquei em choque, e tudo o que eu pude fazer foi beijá-lo de volta. Ele parecia não ter pressa alguma, e eu também não tinha. Sua boca tinha gosto de canela, e seus lábios eram macios e finos, na medida certa para os meus.
Coloquei meus braços em volta do seu pescoço, e ele me abraçou pela cintura, me beijando com cada vez mais vontade. Senti nossos corpos se incendiarem, como se as nossas auras por mais diferentes que fossem, conseguissem completar uma a outra perfeitamente. Então ele parou de me beijar.
Foi quando olhei para frente e vi que aquele que estava me beijando não era mais Samuel.
O homem que agora segurava meu rosto era loiro, com olhos extremamente verdes e um sorriso sínico. Ele podia ter 20 ou 30 anos, era forte, e vestia um terno branco com uma rosa vermelha na lapela. Tudo nele irradiava poder, e me afastei instintivamente do seu toque. Me levantei do banco confusa.
– Quem é você? — perguntei.
– Quem sou eu? — sua voz era doce, mas retumbava em meus ouvidos, como se houvesse nela uma força que não conseguia se conter. — Existem tantos nomes que eu poderia dizer.
Se levantou, colocou as mãos nos bolsos e olhou para o mar com um sorriso suave e nostálgico. Foi nesse momento que eu soube quem ele era.
– Lúcifer.
Ele confirmou com um aceno de cabeça.
– Ou pai, se você preferir. — disse, ainda olhando o mar.
Naquele momento milhares de coisas se passaram na minha mente. Aquela foi a primeira vez que eu o vi, e não consegui imaginar o que o havia levado até mim. Mas com certeza não era uma coisa boa. Senti meu corpo paralisar com o medo, e ele pareceu perceber.
– Relaxe, Alice. — obedeci involuntariamente, e voltei a sentir o sangue correr pelas minhas veias novamente. – Eu não faria mal a minha filha predileta.
Tentei não pensar sobre o que aquilo significava.
– O que você está fazendo aqui? — perguntei cautelosamente.
Lúcifer se voltou para mim, ainda com aquela expressão de serenidade.
– Algumas experiências, mas nada que você precise saber. Pelo menos não agora.
Fez uma pausa e inspirou fundo, aproveitando o vento que nos atingia.
– Você gosta daqui, Alice? — continuou. — Eu adoro esse lugar. Todas as pessoas, todo o barulho, todos os problemas. Eu adoro cada parte daqui. Mas não costumava ser assim. — soltou uma pequena risada. — Só que essa história todos já conhecem. Mas agora... agora sim eu enxergo todas as possibilidades que esse planeta oferece. E eu realmente detestaria perdê-lo.
– Como assim? — as palavras saltaram da minha boca antes que eu conseguisse detê-las.
– Você não seria capaz de entender quantas coisas estão em jogo nesse exato momento. Mas não se preocupe, — me lançou um olhar cúmplice. — está tudo sob controle.
– Ah... que bom. — respondi, com um sorriso forçado.
– Eu gostaria muito que você compreendesse o quanto cada passo é importante. Mas alguns são mais do que outros, assim como as pessoas que os dão. — sua expressão ficou séria. — E você... você é diferente, Alice.
Tive vontade de gritar que eu não era, que estava tudo bem comigo e que ele podia ir embora, para que eu pudesse voltar a respirar, mas me manti calada.
– Tem alguma coisa em você, que... bem, eu ainda não sei ao certo. Mas não se preocupe. — voltou a sorrir, o que me deixava ainda mais com medo. — Só preciso que você continue com seu trabalho. Seria lamentável se algo desse errado.
Senti algo frio na minha nuca, que fez meu corpo todo arrepiar, e tive certeza, mais do que nunca, que a ultima coisa que eu queria era deixá-lo bravo.
– Foi bom conhecer você. — me encarou, e por um breve momento tive a impressão de que seus olhos ficaram pretos. — Lembre-se da nossa conversa, e... como é que vocês dizem mesmo? — Fez uma pausa. — Ah, sim. Até a próxima.
Um vento arrasador partiu do mar, levando tudo o que vinha pela frente, e fazendo a areia se remexer. Mas antes que ele nos atingisse o tempo parou completamente. Era como se alguém tivesse pausado o planeta, e nada mais se mexeu, além de mim e Lúcifer, que continuava olhando para o nada.
Isso durou apenas um segundo, e de repente tudo começou a sumir, como se o mundo estivesse descendo por um ralo gigante. Então a escuridão chegou, tomando conta de tudo, e me vi sozinha no meio do completo vazio, até que não fui capaz de sentir mais nada.
Fale com o autor