Metamorfose
4 Capítulo 4
Notas iniciais
A Victória é a Lana Del Rey, e esse é o capítulo das revelações kkkk
Espero que gostem, boa leitura!
Victória estava sentada em uma das mesas do Bistrô. Ela vestia um terninho, uma saia lápis preta e um salto alto, também preto. O batom vermelho e os olhos bem marcados pelo delineador contrastavam com sua pele branca, assim como seu longo cabelo castanho claro. Seu nariz fino e seus grandes olhos esverdeados davam a ela uma expressão sempre nostálgica e sofisticada. Sua presença era quase sufocante, aproximava, ao mesmo tempo em que repelia. Era possível perceber facilmente o poder que ela exercia sobre todos. Victória era como uma rainha, e era justamente perigosa porque sabia disso.
Apresento a vocês minha mãe.
Chery, Emily e eu fomos até meu quarto minutos antes para trocarmos de roupa. Encontros como esses eram extremamente raros, e desagradar Victória era algo que definitivamente não estava na nossa lista de desejos.
Emily colocou uma blusa malva combinando com uma saia cinza e uma sapatilha preta, Chery colocou um short jeans, uma blusa e uma jaqueta, e eu um vestido preto. Era incrível como Victória conseguia fazer um simples almoço se transformar em um encontro sofisticado.
E lá estávamos nós, andando em direção a ela, atraindo os mais diversos olhares. Nos sentamos e ela não tirou os olhos do pequeno cardápio que segurava.
- Victória. — chamei, com a voz mais firme que consegui fazer. Chery e Emily seguiram, cumprimentando-a com pequenos "olas".
- Olá garotas, quanto tempo. — três anos, pra ser mais exata, pensei eu — como têm andado? — perguntou, sem desviar os olhos do cardápio.
- Bem, mãe.
Me irritava a mania que Emily tinha de chamá-la de mãe. Do ponto de vista biológico, se é que posso dizer assim, ela era nossa mãe. E partindo desse mesmo ponto de vista Chery e Emily eram minhas irmãs, assim como outras centenas de garotas espalhadas pelo mundo, imagino eu. Mas é estranho pensar nela como mãe. Prefiro o termo criadora. Victória nos criou para um certo objetivo e pronto, seu papel acaba aí, exceto por raras aparições.
- Ótimo, ótimo. Quero o melhor vinho tinto que vocês tiverem aqui — disse para um garçom que apareceu ao seu lado, e parecia hipnotizado. Victória deu um sorriso encantador para ele, que pareceu estar prestes a desmaiar, e se virou para nós. — Bem, sobre o que me trouxe até aqui. Seu, hm, pai está com problemas.
Ela se referia a Lúcifer, aquele que pelo mesmo irritante ponto de vista biológico era meu pai. Me ajeitei na cadeira pensando sobre o que aquilo significava. Ele precisava de nós. O Senhor do Inferno, a Estrela da Manhã, precisava de nós. Um arrepio percorreu meu corpo com esse pensamento.
- Ele precisa de mais almas. Vocês sabem que são essenciais no funcionamento de tudo lá em baixo, e precisamos que vocês aumentem a produção — fez uma expressão de indiferença, que não me enganou.
- E imagino que você não vai nos dizer por quê. — me arrependi das palavras na mesma hora em que elas saíram da minha boca.
- Está muito enganada Alice. Quando é que você ficou tão rabugenta? — seu tom leve não escondia o perigo. Emily e Chery estavam tensas ao meu lado. — Bem, digamos que estamos com alguns problemas diplomáticos com os almofadinhas lá de cima.
- Uma guerra? — perguntou Chery, sabendo muito bem qual seria a resposta.
O garçom chegou com o vinho e o colocou na taça de Victória, parecendo nem mesmo nos notar, e ela o dispensou com um leve aceno.
- Sim, e as guerras precisam de soldados, e é aí que vocês entram. Precisamos aumentar nosso exército o mais rápido possível, e Lúcifer me pediu diretamente que viesse falar com vocês.
Essa não era a única coisa que ele fazia diretamente com Victória, pensei. Era de conhecimento de todos que um de seus passatempos preferidos era procriar com algumas das líderes das Succubus — cargo que por acaso Victória ocupava há alguns séculos.
Me lembro até hoje da primeira vez que a vi depois de ser adotada por uma família mortal. Eu tinha nove anos, e já era amiga de Emily e Chery. Estávamos em uma praça quando vimos Victória se aproximar. Ela se sentou ao nosso lado e disse, sem rodeios, que era nossa mãe. Emily foi a primeira a reagir, e se jogou nos braços daquela desconhecida. Chery foi em seguida, mas eu continuei paralisada, focada no estranho formigamento que preencheu meu peito naquele momento. Consigo me lembrar até hoje da forte impressão que ela me causara, e mesmo com nove anos eu pude perceber que ela dizia a verdade. Ela era nossa mãe — ou criadora, e isso era incontestável, sempre fora.
Victória nos contou que Succubus eram demônios que seduziam os homens tomando a forma das mulheres mais belas já vistas, e sugando sua energia vital até a morte. E nos contou também quem era nosso pai. O modo como ela pronunciava o nome de Lúcifer com respeito fez crescer em nós um leve temor, e uma aura de mistério sobre aquele ser que provavelmente nunca conheceríamos.
Enquanto ela falava suas palavras passaram a se tornar familiares, como se eu já conhecesse aquela história, e compreendi o que eu realmente era, assim como Chery e Emily. Segundo Victória, nós éramos como as Succubus, mas por sermos filhas de Lúcifer, tínhamos o poder de capturar a alma dos humanos e aprisioná-las no Inferno quando tocávamos seu coração — literalmente. Entretanto precisávamos da permissão da vítima, mas isso nunca foi um problema. E quando ela nos contou que tínhamos um trabalho, que deveríamos recolher almas para o nosso pai, senti como se eu realmente tivesse nascido para aquilo.
Por isso não discuti. Havia me convencido de que aquela era minha função, a única razão pela qual eu havia sido criada, e continuaria sendo até o último dos meus dias.
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