Metamorfose
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Se Danielly queria me ver com medo então ela definitivamente havia conseguido, porque assim que me dei conta do que ela acabara de falar, meus olhos se arregalaram e cada pelo do meu corpo ficou de pé.
Um anjo. Eu estava dividindo meu quarto com um anjo.
Aquela ideia tinha absolutamente tudo para ser completamente rejeitada.
Eu sabia, melhor do que ninguém, identificar os anjos. Bastava procurar por alguém que deixasse um rastro de luz nojento por onde passasse, e pronto, lá estava um deles. Também havia algo como um pequeno alarme de perigo que apitava dentro de cada ser do Inferno toda vez que eles se aproximavam. E eu estava me perguntando como eu havia convivido por tanto tempo com Danielly sem ao menos ter notado alguma coisa estranha nela.
Aquilo era completamente impossível.
Mas não havia mais nada que pudesse explicar o que havia acontecido com seus olhos. Nem com a fraca luz violeta que começou a emanar do seu peito, onde estava um colar de prata que ela sempre usava.
Assim que ela havia dito que era um anjo foi como se um botão tivesse sido apertado e comecei a sentir claramente a energia que transbordava dela. E meu alarme interno começou a apitar.
Tentei me recuperar da descoberta, e me sentei na cama, enquanto me concentrava em fazer minha respiração voltar ao ritmo normal.
– Por favor, diga que isso é uma brincadeira. — fechei meus olhos, contando mentalmente do um ao dez, entre uma respiração e outra.
– Não, Alice, é verdade, e você sabe disso.
– É, agora eu sei.–encarei-a perplexa. — Como diabos isso é possível?
– Esse é só mais um dos nossos truques novos. Pura estratégia de guerra. — seu tom era sério. — Estamos em toda parte, e vocês não fazem nem ideia disso.
O que ela disse fazia completo sentido. Era por isso que o número de anjos andando pela terra havia diminuído tanto, mas na verdade eles continuavam aqui. Nós é que não conseguíamos vê-los.
– Ok, uma estratégia de guerra. — pensei alto. — Isso é bem esperto. Muito esperto, pra falar a verdade. Mas posso saber por que você está me contando isso? Seria bem mais simples continuar fingindo e me esfaquear no meio da noite, não acha? Seria bem mais simples.
Não consegui evitar a leve pontada de amargura da minha voz. Eu havia confiado nela, e de uma hora pra outra ela decidira revelar que era um anjo. Nada delicado.
– Te matar? Você acha mesmo que eu faria isso? — ela parecia estar sendo sincera, mas não havia como saber ao certo. — Eu continuo a mesma.
– Não, você não é a mesma. Você é um anjo. — fiquei ainda mais perplexa. — Caramba, Danielly, tantas coisas no universo e você decide virar um anjo. Francamente!
Ela riu sem humor nenhum enquanto brincava com a ponta do ser cobertor.
– Você sabe melhor do que ninguém que não podemos escolher quem somos. E quanto àquela sua pergunta, já estava na hora de você saber. O momento está ficando cada vez mais próximo, e precisamos nos apressar.
– Momento? Que momento?
– Você descobrirá, mas depois. Eu sei que agora é difícil, mas eu preciso que você confie em mim.
– Confiar em você? E porque eu faria isso?
– Você sabe que precisa, Alice. Talvez ainda seja difícil de entender, mas eu sei que você se sente dividida, e isso é de extrema importância. — colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e me olhou. — Acho que já te disseram que você é diferente, estou certa?
– Sim... Lúcifer disse, mas eu não faço ideia do que isso significa.
– É, e se tivermos sorte, nem ele.
Me senti como o peão de um jogo de xadrez. Um peão que estava prestes a dar o xeque mate. Aquilo não era nada confortável.
– O que você quer comigo?
– Eu deveria querer algo? – perguntou cautelosamente.
– Suponho que você não se infiltrou na minha vida só para descobrir qual a minha cor de esmalte preferida. Então, sim, você deveria.
Ela pareceu pensar um pouco antes de responder.
– Por enquanto nada, eu juro. Eu só queria que você relaxasse, e confiasse um pouco em mim.
– Confiar em você? – eu estava ainda mais perplexa do que antes, e ri sem humor algum, mostrando o quanto aquela ideia era ridícula.
Danielly respirou fundo.
– Por favor, Alice. Eu juro que não quero fazer nada de mal a você. – fez uma pausa e olhou para os lados, pensativamente. – E me desculpe por ter mentido durante esse tempo todo. Eu realmente gosto de você, e uma prova disso é essa minha mudança. Eu tinha ordens de fazer com que você me odiasse, e não me quisesse por perto em momento algum, mas eu não queria continuar fingindo. Pelo menos não tanto. Eu não achava que fosse justo, e continuo não achando, mas eu não tive escolha. Essa é a minha função, e eu não posso fazer nada.
Me identifiquei instantaneamente. Eu me sentia exatamente daquela forma, e não desejava aquilo para ninguém. Era como se você passasse a vida inteira como uma marionete, que corria o risco de ser descartada a qualquer momento, caso fizesse algo errado.
– Eu não sei. – falei por fim. – Você está me pedindo para confiar em um anjo, a única criatura que eu fui ensinada a manter distância nesse mundo. Não é tão fácil.
– Eu entendo. Mas não pense que pra mim é fácil ter esse tipo de conversa com um... demônio.
Não sei por que, mas o modo como ela falou aquilo, como se fosse uma palavra proibida, me fez rir. Começou como uma risada fraca, mas foi crescendo e se tornou incontrolável, e ela começou a rir também, até que ficamos vermelhas e com falta de ar.
Eu não sabia ao certo o que era tão engraçado. Talvez não fosse nada, mas aquilo foi libertador. Consegui me livrar de toda a tensão que fazia meus ombros pesarem, e minha cabeça doer. E parece que ela também.
Quando finalmente paramos, Danielly respirou fundo, e, ainda sorrindo, olhou para mim. Naquele momento eu soube que não poderia ficar brava com ela. Ela era como um reflexo meu. Exatamente o meu oposto, mas o mesmo tempo exatamente igual a mim. Talvez, só talvez, ela pudesse ser a amiga que tanto precisava naquele momento.
Não conversamos mais, e me senti grata por isso. O cansaço tomou completamente o meu corpo, e me enfiei debaixo das cobertas, desejando mais do que nunca poder ter um sono completamente livre de sonhos.
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